A Cobra de Fogo

setembro 15, 2017

Hoje eu vou contar para vocês o maior susto que levei na minha vida. Juro! Foi um susto tão grande que até pensei que fosse morrer. Vocês não acreditam? Mas é verdade! A Joana e o Paulinho podem confirmar tudinho! É, eles também quase morreram de susto. Foi uma aventura assustadora. Vou contar:

Teve um feriado bem grande, acho que era feriado da Independência, não, acho que era da República. Eu sempre me confundo com esses dias! Mas, sei lá, foi um feriado bem grande, então, meus pais resolveram visitar os parentes lá do interior, para eu não ir sozinho, pedi para minha mãe deixar a Joana e o Paulinho ir junto com a gente. Ela deixou.

Eu não queria ficar sozinha brincando com os primos João e Antônio, eles sempre arrumavam um jeito de me levar pra mata e me dar um susto. Dessa vez, a Joana e o Paulinho podiam me ajudar. Quem sabe a gente não conseguia dar um susto neles? Que nada! Acabou todo mundo levando o maior susto!

Chegamos e eu tive que passar por toda aquela encheção de novo: Veio o tio e puxou a minha bochecha e disse: “Que menina mais linda!”, a tia veio e disse: “Como cresceu essa menina!”. Mas já nem me importei como isso. Ainda bem que dessa vez os primos estavam na sala e chamaram a gente logo para ir lá pro quintal.

O Antonio e o João levaram a gente, primeiro para dar comida para as galinhas e depois pro Chicão. Nossa! O porco ainda mais gordo. Parecia que ia explodir!

– Ô, Antonio, esse porco vai explodir!

– Vai nada, Helena!

– Aqui tem rio? Disse o Paulinho.

– Tem sim! Respondeu o João!

– Você não me falou que tinha tanto mosquito aqui, Helena! E é fedido!

– Mas sua amiga é fresquinha, hein Helena?

– É nada, Antônio! É que ela tem medo de tudo.

– Inton vai morrê aqui! Começou a rir o primo João.

Não demorou muito tava todo mundo rindo da Joana, que ficou emburrada e saiu em direção à mata.

– Não! Ela não pode ir naquela direção! Disse o primo Antônio!

– Joana! Volta aqui, Joana! Era brincadeira!

– Inda mais agora que já anoitecendo.

O Paulinho saiu correndo em direção à mata atrás da Joana. Os primos pediram para eu esperar que eles iam buscar umas coisas, se caso a gente demorasse pra voltar. Trouxeram uma mochila com água e umas lanternas. A noite caiu de repente. Tudo ficou escuro. Não tinha estrela, nem lua no céu.

Os primos foram na frente e eu fui atrás deles, já não tinha mais nenhum sinal da Joana e do Paulinho. Os primos acenderam as lanternas e a gente foi caminhando, caminhando.

– Joana! Paulinho!

Era um silêncio só, nem bicho tava fazendo barulho. Os primos se olharam e vi que eles estavam morrendo de medo. Então fiquei apavorada. Se os primos estão como medo, o quê será que tem dentro daquela mata?

A gente foi entrando, ate que os primos iluminaram um lugar. Deu pra ver a  Joana sentada em um tronco de árvore conversando com o Paulinho. Vocês acreditam que ela ainda estava chorando? É, mas a gente não devia ter rido dela. Não eu! Ela é minha melhor amiga. Então fui correndo na direção dela, sentei no tronco do lado dela e pedi desculpa. Os primos começaram a provocar a Joana e eu logo dei uma bronca.

– Chega com essa brincadeira! Já achamos a Joana agora vamos voltar.

Aí é que começou a aventura que eu nem esperava viver naquela noite. Para começar, as pilhas das lanternas dos primos, acabaram. Ficou tudo uma escuridão. Só dava para ver os olhos da gente. A Joana logo se sentiu culpada.

Mas, eu não podia deixar ela se sentindo culpada, afinal foi a gente que começou.

O Paulinho teve ideia de usar a lanterna do celular dele. Também só durou até os primos conseguirem arranjar uns galhos para fazer uma fogueira. Foi só acender a fogueira que a bateria do celular do Paulinho acabou.

– Agora com a fumaça, os pai acha a gente. Disse o primo Antônio.

Então a gente se sentou em volta da fogueira, porque já tava ficando muito frio, foi aí que, de repente, aquele tronco que a Joana e o Paulinho tavam sentado, começou a se mexer, foi ficando transparente, com uma iluminação maior que a luz da fogueira.

– Nossa senhora! É o Boitatá! Gritou o primo Antonio.

– Não olha! Não olha! Não olha senão vocês vão ficá cego! Disse o primo João.

Era uma cobra de fogo! Ela parecia que tava bem zangada. Todo mundo ficou com os olhos fechados e parados.

– Mas se ela vier atacar a gente? Disse a Joana morrendo de medo.

– Se tiver um facão aí, me dá, que pico essa cobra em mil pedaços. Disse o Paulinho.

Como a gente ia sair dali? A gente não podia olhar senão ficava cego. Foi aí que eu me lembrei da aula do Folclore. O Boitatá é uma cobra de fogo que protege a floresta e ataca quem tenta colocar fogo na mata. Mas, é uma lenda. Não podia ser real. Só que era, e tava ali, na nossa frente. Iluminando a mata. Foi então que eu gritei:

– Vamos apagar a fogueira! O Boitatá pensa que a gente tá colocando fogo na mata. Por isso quer atacar a gente!

Mas, como a gente ia apagar aquela fogueira? Aquela cobra ia acabar pegando a gente. Não tinha jeito! De repente só escutei um barulho de água e a fogueira apagando. Os meninos fizeram xixi em cima da fogueira e apagaram o fogo.

– Podem abrir os olhos, meninas! Acabou  fogo! Disse o Paulinho

Aquilo só podia mesmo ter sido ideia do Paulinho. Quando a gente abriu os olhos, não tinha mais nada, nem fogueira, nem Boitatá, só a escuridão e os nossos olhos brilhando. Foi um susto tão grande que quando tudo acabou, eu e a Joana caímos no chão.

Só me lembro da gente acordando no quarto no dia seguinte em que a gente chegou à casa dos tios. Mas, vocês não fiquem pensando que foi tudo um sonho meu, não! Foi tudo de verdade, viu? Podem perguntar pra Joana e pro Paulinho que eles vão confirmar tudinho!

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A Sereia do Rio

novembro 6, 2015

Quando eu me lembro dessa história, fico toda arrepiada, foi a primeira vez que eu senti medo de verdade. O que era para ser uma grande aventura, acabou sendo um grande susto. Vou contar tudo pra vocês.

Não sei se vocês se lembram do meu primo, o João e o Antônio! Aqueles que são donos do Chicão. Que moram lá no interior! Então, foi por causa deles e com um deles, que quase acontece a maior desgraceira!

Nas últimas férias, fui passar uns dias na casa deles e saímos para andar pelas matas perto do sítio deles. Eu não queria, mesmo porque dá última vez que fui à floresta com eles, dei de cara com o Saci, depois com o Curupira. Nem imaginava o que eu ia encontrar por lá.

– E aí, Helena, vamos caçar Saci? Disse meu primo João.

– Eu não! Nem inventa essa brincadeira que eu volto correndo pra casa da tia.

– Para de botar medo na prima! Me defendeu o  primo Antônio.

– Brincadeira, Helena! Disse o João.

Aí eu tive uma ideia: – Que tal a gente ir até o rio?

De primeira, o primo João gostou da ideia, mas o primo Antonio não achou uma boa ideia.

– A gente só fica na beirinha, a gente não entra. Disse eu a ele.

Antonio não queria, mas João conseguiu o convencer. Então fomos nós lá para o rio. Só que a gente tinha que atravessar um bambuzal enorme pra chegar lá. E eu, morrendo de medo de que aparecesse um Saci, mas não podia mostrar pr’os primos que eu tava com medo. Atravessei o bambuzal todo rezando.

O primo Antonio, não tava feliz, não sabia porque ele não queria ir para o rio.

– Que foi, Antonio. Por que você não quer ir pr’o rio?

– É por nada, não, Helena!

– Já sei! O Antonio está com medo de encontrar a sereia do rio!

– Nada disso!

Eu nunca tinha escutado que no rio tinha sereia. A única sereia que eu conhecia era a que vivia no mar que nem conta a história da pequena sereia.

– Sereia do Rio? Perguntei.

– É, Helena! A Iara mãe d’água! Disso Antonio

– Ah! Essa eu já ouvi falar. Não vai dizer que aqui também tem Iara?

– Vou pegar e dar um nó nos cabelos daquela sereia, podem apostar. Disse o primo João.

– Você sabe que a gente não pode mexer com ela! Retrucou o Antonio.

E parece que eu disse uma palavra mágica. Assim que acabei de falar da Iara, comecei a ouvir uma música tão bonita, mas, tão bonita, que não ouvia mais nada que estava na floresta, só aquela música. Nem os cantos dos passarinhos, das folhas que a gente pisava, nem na correnteza do rio. Foi aí que o primo deu enorme grito no meu ouvido que eu quase fiquei surda.

– Que isso, Antonio? Quer me deixar surda?

– Fecha os ouvidos com a mão. Você não pode ouvir essa música.

– Por quê?

– Fecha que eu to mandado!

Não discuti com o Antonio e tratei logo de tapar os meus ouvidos com a mão, ele também tinha feito o mesmo, mas o primo João… Bem…

– Cadê o João, Antonio?

– Ah não! Corre Helena!

E saímos correndo em direção ao rio, assim que deu um clarão, eu vi, era de verdade! Tava lá, sentada na pedra, penteando os cabelos e cantando aquela música.

– Não ouve, Helena! É a sereia do rio!

Nisso, eu olhei por rio e vi o primo João dentro na água, foi entrando, entrando, até a água cobrir ele todo. Logo depois, a sereia pulou da pedra para dentro da água e o primo Antonio pulou atrás. Comecei a ficar com muito medo.

O tempo tava passando e nada dos primos. Comecei a pensar que eles tinham se afogado.

– Ai, meu Deus! E agora? Socorro!! Alguém ajuda!

Ninguém me respondeu. Só os passarinhos que ficaram todos agitados; começou uma cantoria misturada, que deu até dor de cabeça. De repente eu vejo o primo Antonio arrastando o primo João para fora do rio.

– Ajuda, Helena! Vai chamar o pai!

Saí correndo pra casa dos tios para buscar ajuda, tava morrendo de medo que o João tivesse morrido. Cheguei que nem conseguia falar e mesmo sem entender direito, o tio correu lá pra beira do rio.

O que aconteceu? A sereia do rio encantou o primo João com seu canto e tava levando ele para morar com ela no fundo do rio, se não fosse o primo Antônio, aquela aventura que nem aconteceu, ia terminar na maior desgraça.

Essa foi mais uma das minhas férias inesquecíveis no sitio dos primos. Tem horas que eles parecem pior que o Paulinho, viu?


Samba Lelê tá doente

agosto 21, 2015

Chegamos a mais uma semana em que se comemora o folclore nacional e uma pergunta me surge: Será que ainda há espaço nas escolas para divulgar e difundir a cultura popular, seus mitos e lendas? Será que as crianças de hoje sabem alguma cantiga de roda, alguma brincadeira, parlenda, ou até mesmo algum trava-línguas? Será ainda que as crianças de hoje, sabem o quão é importante a preservação desta data?

Ainda me lembro bem dos meus tempos de escola quando comemorávamos o dia do folclore, aquele universo que me foi mostrado, habita até hoje o meu imaginário e acho até que me ajudou muito, a saber, que me era permitido imaginar. Mas, parece que toda aquela cultura preservada a séculos já não se mostra tão importante. A cada dia que passa, um pouco de nossa cultura vai ficando esquecida.

Vejo, muito indignado, toda a mercantilização que envolve as comemorações pelo tal “hallowenn” americano que nada tem a ver com a nossa cultura. Uma enxurrada de abóboras assustadoras, bruxas nas cores laranja, roxa e preta tomam conta das vitrines, das redes sociais, dos pátios de escolas, em uma comemoração que não nos diz nada, apenas deixa transparecer o quanto estamos deixamos de ser nós para sermos eles.

Canções, lendas e mitos que contribuíram na construção de nossa identidade cultural como um país, está ficando relegada, dependendo das poucas iniciativas de alguns professores que, felizmente, ainda entendem ser importante a divulgação, difusão e preservação de nossa cultura. Somos o que somos por tudo aquilo que fomos e, quanto mais nos afastamos de quem fomos, nos tornamos pessoas que deixarão de se reconhecer como um povo independente.

Pode parecer banal deixar de lado as comemorações do dia do folclore, não há de causar grandes estragos em nossas crianças. Ledo engano! Hoje já vemos muitas crianças que não se identificam mais com a nossa cultura, pois, lendas e mitos importados já habitam os seus imaginários e não há mais espaços para histórias de saci, de mula-sem-cabeça, de curupira, de lobisomem, de boitatá, de neguinho do patoreio, nem dos cantos de Iara mãe d’água.

Samba Lelê tá doente e não está apenas com a cabeça quebrada, parece que samba Lelê não tem mais cura, pois todo o universo do folclore nacional que exercia um enorme fascínio em tempos idos, agora está ficando cada vez esquecido, jogado no fundo do mesmo baú onde já dormem as velhas bonecas de pano, os velhos soldadinhos de chumbo, os piões e suas fieiras, as cordas, as bolinhas de gude e as brincadeiras de roda.


CURUPIRA: O DONO DA FLORESTA

setembro 19, 2014

Nas últimas férias, eu, meu pai e minha mãe, fomos para um Hotel Fazenda. Que lugar mais irado! Andei de tirolesa, andei a cavalo, fiz trilha, brinquei de caça ao tesouro de noite. Todo dia era a maior farra. Tinha um monte de criança lá também e fiz uma porção de amigos. Mas, também tive uma aventura que foi de arrepiar. Achei que nunca mais ia ver minha mãe e meu pai outra vez.

Logo de manhã quando eu cheguei, conheci uma menina, o nome dela era Clara, Clarinha. A gente não se desgrudou um só minuto, era eu no quarto dela, ela no meu quarto, todas as brincadeiras a gente sempre fazia juntas. A Clarinha tinha um irmão. Ôô menino mais chato, viu? Não desgrudava da gente, aonde a gente ia, ele ia atrás, depois eu descobri porque ele não desgrudava da gente.

Quase no dia que ia embora, os tios fizeram uma brincadeira, que era assim: Tinha que se dividir em grupo e ir buscar no meio da floresta uma borboleta. Eu sempre quis caçar borboletas. Os tios deram uma redinha para cada grupo e aquele grupo que chegasse primeiro trazendo a borboleta, ganhava o jogo.

A Clarinha e o Julinho, o Julinho é o irmão grudento da Clarinha, não queriam participar da brincadeira. Eu insistia e eles diziam que não.

– Poxa! Se vocês não forem comigo, não vou poder participar da brincadeira. Todo mundo já formou seu grupo.

– Da outra vez que a gente teve aqui e participou da brincadeira, quase ficamos pra sempre presos na floresta. Disse Clarinha.

– Verdade! Confirmou Julinho, já com a cara de assustado.

Mas de tanto eu insistir, eles aceitaram me acompanhar.

– Só que nós não vamos caçar borboletas, tá? Disse Clarinha.

– Isso pode deixar comigo! Esse sempre foi meu sonho!

Sai correndo em disparada para floresta e quando olhei pra trás, a Clarinha e o Julinho não saíram do lugar.

– Ei, vocês não vêem? Gritei.

A Clarinha e o Julinho se olharam e começaram a andar bem devagar.

– Vamos, gente, assim a gente vai perder a brincadeira!

Chegamos lá no meio da floresta e já sai logo correndo atrás de uma borboleta que passava. A Clarinha e o Julinho ficaram parados, só me olhando. Às vezes eles fofocavam alguma coisa, olhavam, olhavam e não saiam do lugar.

Foi então que percebi uma borboleta bem em cima de um galho que estava bem em cima da cabeça da Clarinha.

– Pssiiuuu!! Não faz barulho! Tem uma borboleta bem aí em cima. Falei bem baixinho.

Comecei a pular pra vê se conseguia alcançar, quando de repente saiu de trás da árvore, um menino verde, de cabelo espetado e de pé virado pra trás. Eu fiquei paralisada.

– Quem você pensa que é para caçar borboletas na minha floresta?

E ali fiquei feito estátua e comecei a chorar. Foi aí que entendi o porquê que os meus amigos não queriam caçar borboletas.

– Oi, seu Curupira! Disse Julinho.

– A gente só está mostrando a floresta. Lembra que você pediu pra gente trazer nossos amigos? Disse Clarinha.

– Mas essa menina estava caçando borboletas. Não estava?

Eu ali, paralisada, só balancei a cabeça dizendo sim.

– Você sabe o que acontece com quem faz isso na minha floresta? Disse o Curupira.

– Por favor, seu Curupira, não faz nada com ela! Disse Clarinha.

– A gente leva ela embora daqui. Disse Julinho.

– Fica presa pra sempre aqui comigo! Disse o Curupira.

Eu não me lembro de mais nada, só sei que cai desmaiada no chão. Quando acordei, estava na enfermaria do Hotel Fazenda com o meu pai e minha mãe do meu lado.

– Tudo bem, Helena, Disse minha mãe.

– Vamos embora daqui, papai! Rápido! Rápido!

– Já estamos de saída. Só faltava você acordar. Disse meu pai.

– O que aconteceu na floresta, hein Helena?

Eu não falei mais nada, levantei, corri para me despedir dos meus amigos, entrei no carro e pedi pro meu pai correr o mais rápido que ele pudesse. Eu só queria ficar bem longe daquele lugar. Vai que o Curupira aparece por ali pra me buscar?

Eu gostei muito do Hotel Fazenda, mas, brincadeira na floresta eu não faço mais, a floresta tem dono e eu tenho certeza que ela é do Curupira.


A noite do Lobisomem

julho 20, 2013

Essa história eu não vou esquecer nunca, só de me lembrar já fico toda arrepiada. Tudo começou assim: A mãe do Paulinho convidou todo mundo para ir na festa junina que ela ia fazer lá na casa dela, a mãe dele até conversou com a minha mãe pra deixar eu ir com a mãe da Joana. Minha mãe não queria deixar, mas eu insisti tanto, que ela acabou deixando. Mas eu devia ter ouvido a minha mãe e ficado em casa, isso sim!

Chegamos na casa do Paulinho e tava a maior bagunça, os tios, as tias, os amigos da mãe do Paulinho, todo mundo vestido com roupa de caipira. Pensei comigo: – Que mico! A Joana até queria que a gente viesse vestida de caipira, mas eu logo tirei isso da cabeça dela.

Tinha tanta comida, que parecia que a mãe do Paulinho tinha convidado a cidade toda. Era milho, paçoca, pinhão, amendoim, bolo de fubá, tinha até caldo verde. Os adultos tomavam quentão e vinho quente e dançavam quadrilha que nem a gente na escola.

Na frente da casa do Paulinho tinha uma fogueira enorme, onde o tio dele assava batata doce numa panela velha. Eu, o Paulinho e a Joana ficamos brincando na rua de estalinho e de pega pega. Uma coisa que eu também não esqueço, é tava um frio de congelar!

No meio na noite, os tios  e  as  tias do Paulinho, começaram a contar uma história sobre um lobisomem que todo ano vinha participar da festa. Pensei comigo: – Só pode ser um dos tios do Paulinho que se fantasia de Lobisomem para assustar a gente. Eu não dei bola praquela história e chamei o Paulinho e a Joana pra soltar estalinho lá fora, mas que nada, o Paulinho queria era saber das histórias do Lobisomem.

Aquela conversa já tava ficando muito chato e como nem a Joana e nem o Paulinho queriam sair dali, fui sozinha lá pra rua, sentei na calçada e fiquei olhando a Lua. Era uma Lua cheia, tão grande, que parecia uma bola de tão redonda. De repente comecei a escutar um cachorro chorando, olhava pros lados, mas não tinha nada e cada vez aumentava mais e eu fui ficando com medo.

– Meu Deus, e agora? Será que essa história de Lobisomem é verdade mesmo?

Levantei da calçada e corri para entrar na casa do Paulinho, só que quando eu saí, bati o portão de raiva e ele acabou trancando. Toquei a campainha, bati palmas, mas ninguém me ouvia. Meu medo foi aumentando, aumentando, que comecei a gritar. Foi aí que apareceu um homem e abriu o portão pra mim. Eu nem olhei, saí em disparada pra dentro da casa.

Fui logo pedi pra mãe da Joana que eu queria ir embora, mas como estava todo mundo se divertindo com as histórias do Lobisomem, ninguém me deu bola. Sentei numa cadeira e fiquei sozinha.

Então, o homem que abriu a porta pra mim se sentou do meu lado e começou a conversar comigo.

– Que foi? Você está triste por quê?

– Eu só tô com sono!

– Você não gosta de histórias de Lobisomem?

– Não sei! Não! Sim! Eu só quero embora!

– Não dá bola pra isso não!  São só histórias! Vai brincar com as crianças lá fora, disse ele.

Como vi que não tinha jeito da mãe da Joana querer ir embora mesmo, fui brincar com uns amigos do Paulinho na frente da casa. Não demorou muito e a Joana e o Paulinho apareceram pra brincar também.

– Puxa vida! Ainda bem que vocês vieram!

– A gente tava escutando as histórias do Lobisomem!

– Não quero saber!

– Que foi, Helena, tá com medo? Disse a Joana.

– Que medo o quê! É que tô achando a festa chata.

– É por causa do Lobisomem! É sim! Disse o Paulinho já querendo me botar medo.

– Que Lobisomem o quê? Lobisomem não existe! É tudo história pra enganar criança boba que nem vocês?

De repente ouvi um choro de cachorro bem forte no meu ouvido! Era mas ou menos assim: – Auuuuuu! Auuuuuu!

Fiquei parada como uma estátua. O Paulinho, a Joana e as outras crianças, saíram todas correndo de medo! Eu ainda vi uma mão peluda no meu ombro e depois não me lembro de mais nada, quando acordei estava deitada no sofá da sala do Paulinho sendo olhada para todo mundo.

Nunca mais me esqueci daquela mão peluda de Lobisomem no meu ombro e daquele: – Auuuuuu!… no meu ouvido. Só de lembrar, fico toda arrepiada!

E quem duvida que Lobisomem existe é porque nunca foi numa festa junina na casa do Paulinho!  


Por onde andam as lendas?

agosto 18, 2011

Por onde anda o Saci Pererê? Por onde anda o Curupira? Onde se escondeu a Mula-sem-cabeça? Alguém sabe por onde anda o Negrinho do Pastoreio? É, alguém apagou as lendas da nossa memória. Alguém sabe onde está o Boitatá? Hoje não vemos mais o Lobisomem quando da lua cheia. Por onde andam as lendas que nos encantavam?

Em que lugar do tempo, deixamos escapar o interesse em divulgar nossas lendas e mitos? Talvez no tempo em que resolvemos compartilhar outras culturas. Perdemos cada vez mais a nossa identidade e, ao tornarmos mais importantes lendas e mitos de outros países, contribuímos para perder contato com nossas raízes e com nossa história.

A cultura de um país é a sua identidade e a preservação do conjunto de lendas e mitos que compõem o que chamamos de folclore, reforçam a característica e a singularidade de um povo. Cada lenda e cada mito contam um pouco da formação de nosso país e de nosso povo. Quando abandonamos a idéia e deixamos de dar importância às festas populares, descaracterizamos cada vez mais o nosso país.

Quanto mais o tempo passa, mais é visível a falta de importância que é dada para as comemorações do dia do folclore. São raras as manifestações e as intervenções que propagam as lendas e mitos populares, muitos, apenas distribuem pinturas com figuras do nosso folclore para as crianças colorirem e assim, cada vez mais vemos nossas lendas e nossos mitos se distanciarem.

Sempre que ouço o desdém que algumas pessoas tem sobre os assuntos da cultura, percebo de como já estamos distantes daquilo que formou o nosso país e ver passar quase em branco o mês do folclore, mostra que o nosso povo já não se identifica com nossas lendas e nossos mitos. Aos poucos, as lendas e mitos se afastam do imaginário popular e não demorará muito para serem esquecidas de vez.

Enquanto se é possível, devemos valorizar as manifestações populares, nossas lendas e mitos, reforçando o conceito que é o conjunto de todas essas coisas que criam a identidade de um povo e, cada vez, que nos afastamos das coisas de nossa terra, mais nos afastamos daquilo que nos representa como filhos do lugar.

Por isso, procuremos o Saci-Pererê, corremos atrás de encontrar o Curupira, vamos atrás de encontrar onde se escondeu a Mula-sem-cabeça, busquemos seguir a lua cheia para encontrar com o lobisomem. Assim, será possível resistir à idéia de apagar da nossa memória a importância de preservar nosso folclore.

 

 


E o nosso folclore?

fevereiro 10, 2010

Não há como negar a presença estrangeira em nossa vida, mesmo porque, somos um país miscigenado e essa mistura fez e faz parte do nosso povo. Acontece que essa presença acaba interferindo na moda, na música, na língua, nos hábitos e influenciando de tal forma, que até parece que as coisas deles são sempre melhores do que as nossas. É claro que tenho consciência que em muitas coisas eles são adiantados, quiçá até mesmo superiores, mas, sobrepor a sua cultura sobre a nossa, me deixa um pouco incomodado.

Tudo bem que em certos segmentos, principalmente o voltado para o público infantil, não temos como competir, pois falta mesmo produção cultural para tal. (Deixando claro aqui, o meu voto de louvor ao pessoal que faz a Turma da Mônica; O Cocoricó; O Sitio do Pica Pau Amarelo; O Ratimbum). E com isso, os desenhos e séries infanto-juvenis tomam conta da TV e ditam o comportamento da galerinha. Mas, com o tempo tenho certeza que a gente consegue chegar lá e assumir o mercado. É tudo uma questão de dinheiro.

O problema maior é ver as nossas crianças e jovens vibrando com lendas estrangeiras. Qualquer livro que fale sobre vampiros, zumbis, vende que é um absurdo. E ainda tem, as bruxas e bruxos e todo aquele frenesi em tempos de halloween. Já tem até criança batendo na porta do vizinho pedindo doces ou travessuras! E o nosso folclore?

Um país multicultural e de proporções continentais como nosso que possui uma infinidade de lendas, mitos e crendices (umas até desconhecidas) e que em seu conjunto foram e são responsáveis pela formação do nosso povo, não precisa se apossar de lendas, mitos e costumes de culturas alheias, como se estas fossem de fato nossas. Isso não tem cabimento.

Por que tanta idolatria às “caras de abóboras assustadoras” ao invés de temermos a mula-sem-cabeça? Por que admirarmos jovens vampiros, ao invés de nos encantarmos por jovens lobisomens? Quem precisa de bruxa, se temos a Cuca? Quem precisa de bruxas para fazer travessuras, se temos o Saci, o rei de todas as travessuras? E ainda temos muito mais: O Negrinho do Pastoreio, o Boitatá, o Curupira, a Iara… Não precisamos de monstros alheios.

Há de se fazer uma cruzada em favor da nossa cultura popular. E quem trabalha com cultura e educação tem o dever de levantar essa bandeira, para que não percamos a essência do nosso povo. Temos que fazer valer o nosso folclore, custe o que custar, doe a quem doer, porque senão, não vai demorar muito e teremos crianças achando que o Saci-Pererê é coisa de estrangeiro.

Podemos precisar de muitas coisas vindas dos povos estrangeiros, como alías, sempre precisamos, mas uma coisa nós não precisamos e nunca vamos precisar: Importar lendas, mitos ou crendices. Pensando bem, temos lendas, mitos e crendices o suficiente para exportar se eles assim quiserem.


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