O Carnaval não é só uma festa

fevereiro 24, 2017

Todo ano é mesma celeuma, ficam pedindo para cancelar o carnaval como se o Carnaval fosse o principal motivo pelos desmandos governamentais que cortam o país de norte a sul e leste a oeste. As pessoas precisam compreender que o carnaval não é só uma festa em que alguns enchem a cara, outros colocam suas fantasias e outros tantos liberam os seus bichos, Carnaval é uma manifestação popular que nos dá identidade perante o Mundo.

Agora essa sociedade hipócrita em que vivemos, com gente vazia, interessada em criar polêmicas nas redes sociais para alcançar seus cinco minutos de glória, fica fazendo patrulha e querendo que todos pensem e ajam como uma unanimidade que não existe. Tudo agora é ofensivo a este ou a aquele, ao ponto absurdo de tentarem apagar do consciente coletivo, marchinhas carnavalescas que embalaram a vida do país.

Outras, menos avisadas, querem tomar pra si o direito do uso do turbante e insultam com um discurso reacionário, como elas fossem às únicas herdeiras desta vestimenta. Em primeiro lugar, estas pessoas precisam estudar um pouco mais sobre cultura de um povo e até conhecer a origem do turbante para reivindicar o uso somente por uma etnia ou religião. E desde quando o uso do turbante foi desrespeitoso, se já foram tantos Sultões pelos salões?

Todo mundo tem direito de não gostar do Carnaval, de não concordaram com as manifestações que tomam conta do País por quatro dias, mas não tem o direito de querer impedir que ele aconteça. Carnaval é uma manifestação mundial, que no Brasil ganhou proporções enormes, ao ponto de formar um dos traços mais marcantes da nossa cultura e isso, não se acaba por voltando de uma minoria ofendida.

Se as pessoas, ao invés de criticarem o Carnaval, com o já manjado discurso viciado de desperdício de dinheiro e de tempo, procurassem saber um pouco mais sobre esse evento que movimenta a economia do país, gerando milhares de empregos formais e informais, talvez passassem a compreender que a culpa não foi, não é e nunca será do Carnaval, talvez, o que passamos seja culpa desta própria sociedade hipócrita que emergiu à superfície neste século XXI.

Por isso, se você acha que é um absurdo ouvir marchinhas carnavalescas com conteúdos ofensivos às minorias; se você acha um acinte o uso do turbante como fantasia, se você acha que o Carnaval não lhe acrescenta nada na vida, não participe desta manifestação popular, faça o seu retiro, busque o seu isolamento, mas não tente convencer a população que o melhor para o país é não ter mais carnaval.

Ainda que o Carnaval não tenha mais a força que já teve em outros tempos, e que muitos tentam desvirtuá-lo, transformá-lo em uma festa de “pegação” e bebedeira, ele não acabará por vontade de uma minoria que se diz defensora da verdadeira família brasileira, ou por conta desta ou daquela minoria que se sente ofendida por esta ou aquela marchinha, pois o Carnaval está no sangue do brasileiro, mesmo que uns poucos digam que não.


A arte longe dos incentivos fiscais

maio 20, 2016

Sem querer entrar no mérito de quem tem razão, até porque a reivindicação daquilo que se acredita, é legítimo e deve ser manifestado plenamente em um regime democrático, o anúncio da extinção do Ministério da Cultura fez os artistas levantarem a voz, acabando assim por dividir opiniões, trazendo à superfície a questão do uso da renúncia fiscal para projetos artísticos. Mas distante disso tudo, a arte se faz presente sem o benefício desses e de tantos outros incentivos.

Lá, nos rincões do Brasil, onde fazer cultura é um ato de heroísmo, o artista quer é colocar a sua arte para o povo e não se prende apenas na possibilidade de conseguir ou não algum incentivo fiscal para custear o seu projeto, é preciso colocar a mão na massa para que o trabalho aconteça. O artista é o artesão de sua a arte e fazê-la, independe de ter ou não condições viáveis para isso, ás vezes, se faz sem nenhuma.

É assim, principalmente se formos falar nas artes cênicas. Quantos e quantos grupos amadores espalhados pelos quatro cantos do país são custeados por seus próprios integrantes? E quantos projetos são realizados em suas escolas, levando o Teatro aos jovens e incentivando a cultura? O artista faz a cultura acontecer, de uma forma ou de outra, uma pena que as coisas chegaram nesse pé, mas quem nunca teve a ajuda de incentivos, continuará se virando para levar a sua arte.

E não é porque o governo, através de uma canetada, decidiu que ter um órgão que represente a cultura não é mais prioridade para o país, que a cultura deixará de ser manifestada pelos seus artistas. É claro que tudo ficará um pouco mais complicado, mas, quando foi assim tão fácil? O artista continuará exercendo o seu ofício, pois o “fazer arte” está nele e não em nenhum órgão que lhe represente. Levar cultura ao povo é o que move o artista.

A arte, sempre habitou o senso comum como entretenimento e não como objeto de absorção do saber, agora, mais do que nunca, cabe a cada artista mostrar ao povo, como é duro o trabalho e a real importância da cultura, ainda que se esteja sem um órgão que a fomente, pois, independente disso, o povo, ainda que não saiba, necessita de arte e cultura para desenvolver a sua vida e tem que ter bem claro na mente que a arte é o que alimenta a alma do seu corpo cansado.

O que fica disso tudo é um sentimento de muita tristeza, pois, mais uma vez, a Cultura não recebeu do governo o respeito e a prioridade que merece.  Acerca de todas as nossas necessidades que poderiam ser supridas com outros cortes em gastos de outras pastas, se optou por cortar as despesas daquilo que não traria uma economia irrelevante às contas públicas. Uma economia porca que ajudou a piorar ainda mais aquilo que já estava ruim.

Mas, apesar de tudo, façamos a arte acontecer do jeito que sempre nos foi possível, sem recursos, sem apoios, sem a valorização devida e cumpramos a nossa missão de artista, que é levar a cultura para mais gente possível, pois a extinção de uma repartição não é o fim para quem sempre fez arte longe dos incentivos fiscais.


“Cada Um Se Vira Como Pode” do santista Paulo Sacaldassy, no RJ

setembro 16, 2015

http://www.resenhando.com/2015/09/cada-um-se-vira-como-pode-do-santista.html


Quem quer cultura?

setembro 11, 2015

Quem conhece o mundo das artes e a luta dos artistas, sabe muito bem do quê vou falar aqui, pois todos sentem na pele a dureza do fazer cultural em nosso país. Nos quatro cantos do Brasil, centenas de abnegados, tentam levar um pouco de cultura para suas cidades, montando seus espetáculos com míseros recursos, muitas vezes tirados dos próprios bolsos, sem nenhuma ajuda dos poderes locais, com raríssimas exceções.

Já está pra lá de ultrapassado, o velho discurso dos homens da política que se apoiam em promessas vãs de que a cultura será mais bem incentivada, que os olhos dos governos fomentarão e privilegiarão as produções locais, ninguém mais acredita, até mesmo porque, toda e qualquer iniciativa de fomentar a cultura, sempre acaba chegando primeiro para quem menos precisa: vide a Lei Rouanet, que sempre acaba contemplando artistas consagrados.

Para falar a verdade, cultura nunca foi levada a sério em nosso país e, não é de hoje, que ela é fomentada pelas próprias pernas dos artistas, que acreditam no poder transformador da arte, para alimentar de sonhos, as realidades degradantes. E vocês podem reparar que, qualquer movimento de corte de despesas do governo, a primeira a sofrer é a cultura; agora mesmo já falam em acabar com o Ministério da Cultura e o seu gestor não diz uma palavra.

Uma pena que os homens que capitaneiam as políticas governamentais ainda não se aperceberam que cultura é muito mais do que apenas entretenimento, cultura faz parte da cadeia produtiva, é geradora de emprego e renda, e capaz de movimentar a economia de qualquer lugar. Mas, quem quer cultura? É certo de que quem está no poder, não quer, pois, se levarmos em conta o desdém com que eles tratam do assunto, não pode ser diferente.

O que me parece é que essa será uma luta interminável, de um lado os artistas em busca de apoios, incentivos, fomentos e condições que contemplem todos os artistas na mesma igualdade de condições, e do outro, os homens do governo que enxergam a cultura apenas como uma diversão frívola para distrair o povo depois de um dia difícil de trabalho. Pensam eles: Um pouco de circo para amenizar a falta de pão.

Mas, o que é certo é que, independente de quaisquer ações efetivas dos governantes, sejam de quaisquer esferas, no sentido de fazer o segmento da cultura prosperar e tornar o artista um profissional verdadeiramente respeitado pelo seu ofício, a cultura continuará a ser disseminada pelo trabalho incansável de formiguinhas de centenas de artistas espalhados pelos quatro cantos do país que sabem muito bem quem quer cultura.


Samba Lelê tá doente

agosto 21, 2015

Chegamos a mais uma semana em que se comemora o folclore nacional e uma pergunta me surge: Será que ainda há espaço nas escolas para divulgar e difundir a cultura popular, seus mitos e lendas? Será que as crianças de hoje sabem alguma cantiga de roda, alguma brincadeira, parlenda, ou até mesmo algum trava-línguas? Será ainda que as crianças de hoje, sabem o quão é importante a preservação desta data?

Ainda me lembro bem dos meus tempos de escola quando comemorávamos o dia do folclore, aquele universo que me foi mostrado, habita até hoje o meu imaginário e acho até que me ajudou muito, a saber, que me era permitido imaginar. Mas, parece que toda aquela cultura preservada a séculos já não se mostra tão importante. A cada dia que passa, um pouco de nossa cultura vai ficando esquecida.

Vejo, muito indignado, toda a mercantilização que envolve as comemorações pelo tal “hallowenn” americano que nada tem a ver com a nossa cultura. Uma enxurrada de abóboras assustadoras, bruxas nas cores laranja, roxa e preta tomam conta das vitrines, das redes sociais, dos pátios de escolas, em uma comemoração que não nos diz nada, apenas deixa transparecer o quanto estamos deixamos de ser nós para sermos eles.

Canções, lendas e mitos que contribuíram na construção de nossa identidade cultural como um país, está ficando relegada, dependendo das poucas iniciativas de alguns professores que, felizmente, ainda entendem ser importante a divulgação, difusão e preservação de nossa cultura. Somos o que somos por tudo aquilo que fomos e, quanto mais nos afastamos de quem fomos, nos tornamos pessoas que deixarão de se reconhecer como um povo independente.

Pode parecer banal deixar de lado as comemorações do dia do folclore, não há de causar grandes estragos em nossas crianças. Ledo engano! Hoje já vemos muitas crianças que não se identificam mais com a nossa cultura, pois, lendas e mitos importados já habitam os seus imaginários e não há mais espaços para histórias de saci, de mula-sem-cabeça, de curupira, de lobisomem, de boitatá, de neguinho do patoreio, nem dos cantos de Iara mãe d’água.

Samba Lelê tá doente e não está apenas com a cabeça quebrada, parece que samba Lelê não tem mais cura, pois todo o universo do folclore nacional que exercia um enorme fascínio em tempos idos, agora está ficando cada vez esquecido, jogado no fundo do mesmo baú onde já dormem as velhas bonecas de pano, os velhos soldadinhos de chumbo, os piões e suas fieiras, as cordas, as bolinhas de gude e as brincadeiras de roda.


A história ao alcance dos olhos

julho 24, 2015

Quando a história nos é ofertada apenas através das páginas de um livro, ou por um acervo de imagens, nem sempre ela é capaz de nos seduzir a ponto de despertar o nosso interesse, às vezes até nos causa desdém, mas quando ela está ali, ao alcance dos nossos olhos, o fascínio é imediato. Poder contemplar cada pedacinho de história, o quanto tudo aquilo contribuiu para a formação da identidade cultural do país, é impagável.

Pude ter o prazer de desfrutar desses momentos que ainda hoje estão em minhas retinas e perceber o quanto as pessoas do lugar estão envolvidas e comprometidas na divulgação das histórias de suas centenárias igrejas, de seus museus, de suas casas tombadas, suas ruas de pedras, suas ladeiras, suas festas carnavalescas, seus ritmos, suas tradições e de como toda aquela cultura ao céu aberto é importante para a sua cidade.

Há em cada segmento, desde o hoteleiro até o comércio de artesanatos, um comprometimento de fazer aquela roda não parar de alimentar riquezas para a cidade. É tudo voltado para fazer da história preservada do lugar, a mola propulsora para atrair cada vez mais turistas para lugar. Receptividade, disponibilidade, informações de cada pedaço da cidade na ponta da língua, tudo torna aquele banho de cultura, envolvente.

Eu, que já gosto muito de conhecer a cultura de cada lugar que visito, a cada rua, cada ladeira, cada igreja restaurada, aprendia mais e mais curiosidades e, as novas informações e explicações que recebia, deixavam-me ainda mais satisfeito por poder desfrutar daquela oportunidade de ver diante dos meus olhos, parte da história de nosso país. Poder estar onde a cultura e a história ainda são vivas e, reavivadas a cada dia, isso, realmente não tem preço.

É certo que muitos, talvez não deem a devida importância para isso tudo e jamais entenderão o que é poder ver a olhos nus, o que as páginas dos livros nem sempre retratam na sua fidelidade, ou ainda ver algumas daquelas imagens desbotadas em fotos, em seus formatos reais e palpáveis, ou ainda poder ouvir com riquezas de detalhes, cada fato histórico que contribuiu para a cultura daquela região, pois nem todos reconhecem o valor da cultura.

Olinda é assim, uma cidade que sabe da grandiosidade de sua história e de sua cultura, uma cidade que sabe da importância de receber bem o turista e lhe contar tudo sobre os segredos de suas igrejas restauradas, suas casas tombadas, suas ruas, suas ladeiras; uma cidade preocupada com seus jovens, a ponto de transformá-los em guias turísticos entusiasmados, que dão um banho de saber, fazendo de uma simples caminhada, uma grande aula.

Eu sei que tenho tudo isso bem ao alcance dos meus olhos, aqui mesmo no meu quintal; tenho tudo e muito mais e, minha curiosidade já me fez conhecer cada um dos detalhes das ruas, igrejas e ruínas que me cercam. O que lamento é que muito da história de nosso país está relegado ao interesse de poucos, sem que se dê o devido valor assim como faz Olinda. Quando uma cidade entende o quanto é importante valorizar a história que está ao alcance dos olhos de cada visitante, a viagem se tornar uma grande lição.


Empobrecendo o pobre

abril 25, 2014

Quando se nasce em uma comunidade pobre, onde falta um pouco de tudo, desde saneamento básico até o mínimo de infra-estrutura, são poucas as coisas capazes de realizar uma verdadeira transformação na vida de seus habitantes e uma delas é a arte. A descoberta das nobres artes, como o Teatro, por exemplo, é capaz de abrir os horizontes e criar um novo ponto de vista sobre a vida.

A experiência de entrar em contato com os grandes clássicos, com os grandes pensadores, com os grandes dramaturgos, com a história da humanidade, faz com que a pessoa comece a ter uma análise mais crítica de sua situação de vida, do que tem e/ou precisa melhorar à sua volta. É através do contato com as artes que se é possível descobrir um mundo novo que vai muito além das vielas da comunidade.

Mas quando a arte não encontra espaço para entrar na comunidade, o que vemos é que a própria comunidade cria a sua “arte”. Muitas culturas criadas nos guetos e nas vielas das comunidades, como instrumento de voz, de protesto ou por exclusão social, acabam ganhando grande importância como manifestação cultural, e foram muitas, principalmente na música como o rap e até mesmo o funk.

Só que o que vem acontecendo hoje em dia com esse tipo de funk feito nas comunidades é um crime cultural e não contribui em nada para promover a transformar dos habitantes da comunidade em pessoas melhores, muito pelo contrário, essa manifestação “pseudo cultural” que ecoa das vielas das comunidades, não tem nada de arte e só tem contribuído para empobrecer ainda mais o pobre.

Enaltecer a ostentação, a bebedeira, o poder do consumismo, não promove a discussão para os problemas da comunidade, não estimula a visão crítica de seus moradores, os fazem sim, cada vez mais pobres culturalmente e a mídia, interessadíssima na exploração do consumo, vem idolatrado esse tipo de manifestação, criando ídolos e transformando jovens em “pop stars” da burrice declarada e assumida.

Deve ser uma obrigação do Governo, seja ele de qual esfera for, interceder nesse descalabro que está instalado nos dias de hoje. Privar os moradores das comunidades do contato com as grandes artes da humanidade é atestar a exclusão social de uma parte menos privilegiada da população. Pior do que isso, é assistir calado, a mídia enaltecendo essa pobreza cultural vendida como a nova música de um país.

A arte precisa encontrar seu espaço nas comunidades, ser apresentada como o grande instrumento transformador, tomar o lugar do que hoje é produzido por falta de cultura, ser capaz de formar jovens cultos, inteligentes e capazes de decidirem por um futuro melhor, caso o contrário, continuaremos a assistir, cada vez mais, o empobrecimento do pobre, pois sem cultura não se é capaz de ser uma pessoa melhor.


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