LIBERDADE

fevereiro 23, 2018

Quem é livre?

Uns dizem, nem o pensamento

Pois, por mais que ele voe

Sempre algo lhe prende

Será que é certo?

Será que é errado?

Quem me respeita?

Quem eu respeito?

Estou sendo intolerante?

Arrogante?

Avoado?

Despreocupado demais?

Independente?

Tudo sempre depende

O pensamento livre

Se prende em perguntas

E ainda que ele voe

Sempre algo lhe prende

Será por medo?

Qual é o risco?

Será que é seguro?

Aonde me prendo?

Estou sozinho?

Quem está comigo?

Amigo? Inimigo?

Parceiro?

Quem quer meu bem?

E o bem de quem?

Ninguém é livre

Até o pensamento se prende

Ainda que se prenda

Em quem não deveria

Questionamentos?

Eu devo? Não devo?

O quê te incomoda?

O quê me incomoda?

Aceito? Não aceito?

O quê importa?

Não importa

Pensamento precisa voar

Porque pensar, liberta

E a liberdade começa no pensar

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TRISTEZA

dezembro 8, 2017

Ontem encontrei a tristeza

Estava triste de dar dó

Reclamava da solidão

Que nunca esteve tão só

Hoje ninguém lhe procura

Para chorar suas dores

Ninguém tem mais amargura

Ninguém sofre de amores

Todo mundo é feliz

Faz questão de mostrar

No sorriso da foto ninguém diz

Que está com o peito a sangrar

 

Hoje quem chora é a tristeza

Não tem com quem se consolar

Soluça seu pranto, sozinha

Esperando alguém lhe buscar

Hoje parece pecado ser triste

Só a felicidade que existe

O que importa é a casca de fora

Tudo mais, todo mundo ignora

Não há mais dor, só há beleza

Ser feliz é tudo o que se quer

Ninguém que mostrar a tristeza

Que ela fique em um canto qualquer


A dureza e a delícia de escrever

dezembro 1, 2017

Nesta semana terminei mais um módulo de uma oficina de Dramaturgia, uma oficina na acepção da palavra, pois, depois de prepararmos os textos para serem apresentados, ficou bem claro para todos que participamos, o quanto ainda temos que quebrar pedras até conseguirmos chegar à melhor forma possível para contarmos nossas histórias. Eis a verdadeira representação de que, para criarmos, precisamos de 1% de inspiração e 99% de transpiração.

Não dá para, simplesmente, agruparmos as nossas ideias, organizarmos diálogos de palavras soltas e colocarmos nas bocas das personagens para acharmos que temos um texto pronto para Teatro. Uma ideia é muito pouco para termos uma boa dramaturgia, há de se garimpar sentimentos, se esmiuçar anseios e desejos e ouvir o quê cada personagem tem a nos contar sobre si e sobra a sua história, até chegarmos ao ponto final do nosso texto.

Pode até parecer fácil quando estamos sentados, confortavelmente, em uma cadeira, assistindo a um espetáculo teatral, ver aqueles personagens conversando entre si, narrando suas aventuras e desventuras, nos comovendo, ou nos frustrando, não temos a dimensão exata de quão trabalhoso foi arquitetar aquele texto desde a sua ideia até o seu ponto final, muitas pessoas nem imaginam a dureza do prélio que o autor trava para preencher a folha em branco com sua história.

Mas é aí que reside a beleza da opção pela escrita, pois não é por que se sabe bem a língua, que se têm várias ideias na cabeça, que se tem talento para escrever, que a estrada ficará mais fácil, escrever é exercício diário, é abrir mão de companhias, é fazer do tempo um amigo para aproveitá-lo a qualquer instante, é estar disposto a frequentar a solidão de uma noite para buscar e rebuscar a palavra perfeita, o diálogo exato, a intenção precisa de cada frase.

Escrever não pode ser um ato da pressa, nem da ansiedade, escrever não pode ser só uma vontade, um capricho, escrever nunca será apenas uma inspiração, há de se transpirar até a própria exaustão. Para exercer o ofício de escritor se faz necessário quebrar muitas e muitas pedras, fazer e refazer a mesma história, sem se cansar, nem desistir, escrever é aprender que o melhor texto só nascerá depois de muito suor e de muita dedicação.

Quem pensa que escrever é trabalho que não cansa, trabalho que se pode executar sem se causar nenhum estresse, ou é um simples hobby, fica desde já convidado a frequentar qualquer uma oficina literária, seja para escrever um livro, um roteiro, ou uma peça de teatro, talvez, assim, seja possível conhecer e sentir na pele, a dureza e a delícia que é se debruçar sobre as palavras para escrever um belo texto ainda que quebrando muitas e muitas pedras.


MÁSCARAS

novembro 10, 2017

Quem é você?

Quem sou eu na multidão?

Somos rostos que passam

Passos apressados

Imagens que ficam

Aquilo que os olhos veem

Mas, jamais enxergarão

O quê se quer mostrar.

Todo mundo se esconde

Até onde a farsa é possível?

É impossível fingir?

Ninguém revela quem é

Ninguém fala o quê quer

Teu racismo, meu racismo

O cinismo que está por fora.

Ninguém tem preconceito

Ninguém tem defeitos

Teu direito, meu direito

A intolerância que aflora.

Ninguém se conhece a fundo

Somente no fundo do espelho

Talvez se ache o caminho

Mas quem tem coragem?

Todo mundo é covarde

Teu medo, meu medo

A vida feita de hipocrisia.

Todo mundo tem receio

Para quê se revelar?

Mostrar o quê há em si?

Se hoje o que importa

Não é o que há por trás da porta.

Meu pensamento, teu pensamento

Neste momento, neste instante

Toda ideia ofende

Todo mundo ataca

Todo mundo ofende

As máscaras nos protegem

Pois, a verdade de cada um

Nem sempre é a verdade comum

E quando uma máscara cai

Mostra sempre aquilo que mais dói.


O ódio venceu

novembro 3, 2017

Ainda na cama, deu para ouvir aquele grito seco, mas de desespero, que entoou por toda a cidade, espantei-me, mas preferi aproveitar alguns poucos segundos de sono antes de me levantar. Depois de passado o minuto de preguiça, com o celular na mão, uma enxurrada de mensagens me informavam que algo de muito sério estava acontecendo. Sai sem nem mesmo tomar meu café, não por curiosidade, mas porque custava acreditar nas notícias que me chegavam pelas redes sociais.

Nas ruas, muito engarrafamento, as pessoas caminhavam apressadas pelas, de cara fechada, ninguém falava com ninguém, todos rumavam para uma mesma direção, marchavam em silêncio. Não demorou muito e avistei a praça, que já se enchia de gente tentando saber o que tinha acontecido de fato, um empurra-empurra, mal se conseguia enxergar direito, tamanho o tumulto. E entre cotovelas, juntei-me aos que queriam saber se tudo que circulava pelas redes sociais era mesmo verdadeiro, ou apenas mais um novo factóide.

A imprensa estava toda por lá, tinha até helicóptero sobrevoando a praça, a polícia procurava a todo custo isolar a área, mas a aglomeração encurtava cada vez mais o cerco, tentando chegar ao centro da praça. Era preciso saber se aquilo era mesmo verdade. De repente se formou um grande tumulto. A polícia lançou mão de gases lacrimogêneos e tentou afastar a população na base da força, muitos se revoltaram e houve revide com pedras e xingamentos.

Não demorou muito para aquele lugar virar uma verdadeira praça de guerra, pessoas atacando pessoas, polícias atacando pessoas, pessoas atacando polícias, muita correria, quebradeira e muita destruição. A maioria que estava ali parecia que havia se esquecido do motivo que os levaram até aquela praça, todos estavam ali para saber se o quê circulava pelas redes sociais era mesmo verdade, mas a violência foi tamanha e tão generalizada, que ficou claro que o quê levou alguns até ali, havia sido apenas  uma mera curiosidade.

Na certa, muitos não estavam preocupados com a notícia de fato, queriam mesmo tirar algumas “selfies” para postarem em seus perfis e ganhar não sei quantas curtidas. Diante daquele misto de festa com passeata regada a hostilidades e violência descabidas, comecei a achar que a notícia era mesmo verdadeira, pois aquilo tudo que se transformou aquela aglomeração, deixava bem claro que, infelizmente, o que circulou mais cedo pelas redes sociais, era a mais pura verdade.

Depois que toda aquela confusão se desfez, a praça ficou quase vazia, apenas algumas pessoas permaneceram por lá para terem a certeza de que nada mais teria jeito. Sem aquela aglomeração, foi fácil ver estirado no chão, bem no meio da praça, em volta de uma poça de sangue, o Amor; algumas pessoas ao avistarem caído, se ajoelharam ao seu redor, cada um rezou na sua religião, algumas pessoas que traziam flores nas mãos, as deixaram a sua volta, choravam um choro contido. Deixei a praça com uma dor no peito, um tristeza nos olhos e a certeza de que o ódio venceu.


Sexta-Feira 13

outubro 13, 2017

Pense em uma pessoa supersticiosa. Pensou? Mas, duvido que seja tão ou mais supersticiosa que o Beto. A menos que você tenha pensado no Beto. Ô sujeito mais supersticioso! Só sai de casa com o pé direito, e também só entra de volta em casa, com o pé direito, jamais passa por debaixo de uma escada. Gato preto, então! Se ele pudesse, exterminava todos. Mas, o pior mesmo é quando é sexta-feira treze. Aí, ele se supera.

Dia de sexta-feira treze pode esquecer o Beto, nesses dias ele se tranca em casa e não sai nem da cama com medo que alguma coisa de ruim lhe aconteça. Quando está trabalhando, arruma sempre uma doença repentina para não sair de casa. Neste dia não aceita compromisso de jeito nenhum. A superstição do Beto é algo que precisa ser estuda, pois não pode ser normal alguém que abdica da vida por conta de uma sexta-feira treze.

Beto é uma pessoa esclarecida, pós-graduada, que gosta de escrever contos e poemas. Aliás, o seu maior sonho é se tornar um escritor famoso, e, quer saber, ele até merece, pois escreve muito bem. Talvez, escrever seja a única coisa que compete com pé de igualdades com a superstição que o Beto tem. Ele diz que quando for um escritor famoso, não vai ter ninguém que o obrigue a sair da sua cama nos dias de sexta-feira treze. Não vai ter mais medo do azar.

Outro encontrei o Beto e ele me contou o que a superstição dele fez com o maior sonho da vida dele. Uns dias atrás ele recebeu um e-mail o chamando para uma reunião, aliás, não era uma simples reunião, ele estava sendo convocado para uma entrevista em uma editora que estava interessado em publicar todos os escritos dele e distribuir os livros em todo o Brasil e até em alguns países de língua portuguesa.

No dia anterior à reunião, Beto foi dormir cedo, colocou o celular para despertar às seis e meia da manhã, rezou e se benzeu como faz todos os dias e tentou dormir. Custou a pegar no sono, pois a ansiedade lhe consumiu a noite toda. Até que toca o celular. Uma, duas, três vezes. Beto abre os olhos e está lá no visor: 6:32 – sexta-feira – 13… Beto desligou o celular e se enviou embaixo das cobertas. Não podia ser possível!

Beto, rolando na cama, sem acreditar que não se deu conta que a reunião mais importante da sua vida tivesse sido marcada para uma sexta-feira treze. Não teve forças para se levantar, sua superstição parecia estar vencendo o seu grande sonho de se tornar escritor. Não teve jeito, Beto pegou o telefone, ligou para a editora e inventou uma doença qualquer. Fim do sonho de Beto. Agora ele vive dizendo que é uma pessoa que não tem sorte na vida. Só que ninguém acredita.


REFUGIADO

setembro 29, 2017

Já não tenho nada
Só minhas lembranças…
A bagunça em meu quarto
O velho porta retrato
A goteira pingando
A janela aberta
Um quintal pra correr
Minha casa…
Meu refúgio…
Não tenho nada
As paredes no chão
O telhado no chão
Os sonhos no chão
Bombas, bombas…
Hoje só tenho o relento
Um lamento
Uma vida de tormento
Perdi meu pai
Perdi minha mãe
Perdi minha casa
Perdi minha infância
Não tenho nada
Nem mesmo um refúgio


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