O início de tudo

novembro 11, 2016

Hoje não tem publicação sobre pontos de vistas político, discussões sobre o rumo da Educação, nem exercícios de dramaturgia, não tem mensagens de otimismo, sobre filosofias de vida, nem tão pouco contos ou poesias, nem mesmo alguma aventura da pequena Helena, porque hoje o assunto é: comemoração e gratidão, pois, há exatos dez anos, pela primeira vez, um texto meu deixou o fundo de minha gaveta e ganhou os palcos.

Eu que, há dez anos, apenas alimentava o sonho de ver um texto meu montado, acabei sendo surpreendido com o contato de uma Companhia de Teatro de São Paulo, pedindo a autorização para levar aos palcos o meu texto “Galo, Galinho, Galão. Agora já tenho esporão!”, que havia sido garimpado em um site que disponibiliza textos clássicos e de jovens desconhecidos. A Companhia, que fazia sua estreia nos palcos, resolveu apostar em um texto de um desconhecido. Foi o início de tudo.

Por isso, antes de qualquer coisa, preciso manifestar aqui, minha eterna gratidão à Juliana Camargo, diretora e atriz da Companhia Cia. Teatro dos Quatro, por me dar a primeira oportunidade. É claro que não posso me esquecer de agradecer também, ao Luiz Picazzio, ao Felipe Silze e o Marco Bressan, que junto com a Juliana, formavam o elenco, bem como ao produtor Alessandro Leite, aos figurinos e cenários de Newton Lima e a trilha sonora de Rafael Altro.

Eu que dois meses antes já havia sido surpreendido pela premiação em um Concurso Nacional de Dramaturgia, com outros dois textos meus, um na Categoria Adulta e outro na Categoria Infantil, com a chegada do meu primeiro texto aos palcos, comecei a acreditar, de fato, que o sonho poderia virar, sim, realidade e que era possível ver meus textos fora da gaveta, ou das páginas do livro de dramaturgia editado com os meus textos premiados no Concurso.

Infelizmente a Cia. de Teatro dos Quatro não prosseguiu após Juliana se tornar mãe. Só que pra mim, ela será eterna. Com certeza, todos eles não devem ter ideia o quanto foram importantes para minha carreira como dramaturgo. Portanto, escrevo essas poucas palavras, com o sentimento eterno de gratidão, pela oportunidade e aposta, em um desconhecido, que sem fazer parte de nenhum grupo teatral e morar longe das capitais, nutria apenas o sonho de ser, um dia, reconhecido com dramaturgo.

Muita coisa passou depois daquele 11 de Novembro de 2.006, quando, muito emocionado, assisti a estréia do meu texto, outras tantas pessoas cruzaram o meu caminho e acreditaram em meu trabalho, e eu, que antes sonhava em ter meu texto encenado, acabei por ver vários deles viajando por todo o Brasil, de Norte a Sul, de Leste a Oeste e ainda assisti algo inimaginável no início de tudo, meus textos aportando em terras portuguesas e em país africanos que falam a nossa língua. Tornei-me sim, um Dramaturgo.

E hoje, uma década depois, não posso também me furtar de estender os meus mais sinceros agradecimentos, aos grupos e companhias de teatro, profissionais, amadores e estudantis que apostaram e apostam em meus textos, nestes longos dez anos escrevendo para Teatro. Saibam que, todos vocês, foram tão ou mais importantes nesta minha trajetória de dramaturgo, por isso, para não esquecer de ninguém, quero que todos saibam que em meu blog tem um cantinho agradecendo cada um de vocês.

Mas, antes de encerrar essas poucas palavras, não posso deixar de prestar a minha eterna gratidão a uma pessoa muito especial, que apostou nos meus textos desde sempre, que sempre me incentivou, que sempre que pôde me abriu portas, que sempre fez questão de divulgar meu trabalho e que, sem a sua generosidade, jamais teria ido tão longe. Por isso, minha eterna gratidão, ao meu professor, amigo e Mestre inspirador: Nelson Albissú.

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A tristeza do Caboclo

outubro 21, 2016

Outro dia encontrei o meu amigo

É, aquele Caboclo da Capital

Que sempre tem uma novidade

Mas, desta vez quase não o reconheci

Estava por demais, cabisbaixo

Com o quê fizeram com a Sociedade.

Ele não se conformava!

Como podia alguém do povo

Se servir do povo

Para enganar o próprio povo?

Ele, que já tinha visto de tudo

As maiores negociatas

Tudo que era tipo de trapaça

Não conseguia assimilar

Aquela tamanha desgraça.

Dizia ele, indignado:

– Como pode isso, “cumpade”?

Era tristeza de cortar o coração.

Esfregava uma mão na outra.

Cerrava os punhos,

Se pudesse, ele mesmo daria a lição.

Não admitia ver o povo enganado

Ver quem dizia ser do povo

Virar as costas para o povo

Só para não sair do poder.

Não se preocuparam com nada.

Nem com o que “arvera” de vir.

Dizia ele:

– Mataram a esperança do povo!

Os olhos do Caboclo encheram d’água.

Tanta gente desempregada!

Tanta gente endividada!

Tanta gente desesperada!

Tanta gente sem ter mais nada!

Nem a esperança.

E o pior, ainda me disse ele:

– Cavaram, por essas bandas, a desavença.

Agora tem povo contra povo

Numa “brigalhada” sem fim.

Todo mundo quer ter razão.

Mas ninguém tem mais certeza de nada.

Cada um pensa que seu lado dá certo

Só o que está mesmo certo

É que o povo foi enganado de verdade

E não adianta meia dúzia de gatos pingados

Tentar afirmar que nada estava errado.

O Caboclo sabia do sentimento do povo.

Ainda tentei animá-lo:

– As coisas vão mudar, Caboclo!

Sempre mudam. Na vida, tudo passa!

E ele me disse, cheio de decepção:

– Quem sabe, “cumpade!”

– Quem sabe quando a tristeza passar.


E o novo se fez

setembro 2, 2016

Naquele dia tudo já foi diferente, ainda que o inverno marcasse o calendário, o sol nasceu soberano irradiando sua luz sobre tudo, pelas ruas já era possível notar sorrisos largos, a alegria apareceu, enfim, foi jogada para longe a tristeza dos dias nublados, chuvosos e frios que nos castigava, ainda que não fosse primavera, flores já brotavam nos vasos sobre os beirais das janelas e até o ar já parecia estar mais leve e perfumado.

A esperança parece que voltou a dar o ar da graça e já era possível perceber a fé sendo renovada e as pessoas acreditando em dias melhores, ainda que a tarefa fosse árdua, já se apostava que as dificuldades haviam ficado para trás, com tudo mais que havia ficado envelhecido e que emperra a vida. A sensação de alívio era facilmente notada em cada respiração que, outrora era ofegante e, era só olhar para ver de novo, as cabeças erguidas.

Diferente de um dia de ressaca, aquele dia amanheceu feliz e leve, mesmo que sentíssemos os passos firmes que cortavam as ruas, a caminhada era tranquila, até para quem tinha uma certa pressa de recuperar o tempo perdido, ou ainda de salvar o que já se achava sem salvação. Os carros, ainda que apressados como nos outros dias, pareciam evitar o caos para não atrapalhar aquilo que já tinha sido atrapalhado demais.

Aquele dia solar e alegre já deixava claro que havia uma festa, que não se fazia necessária comemorar, cada qual sentia em si a felicidade que amanheceu junto com aquele dia que trouxe os sopros de um novo tempo, um tempo de mudança, um tempo de reconstrução, um tempo de resgate, um tempo sem medo e sem receio, um tempo de fazer diferente, um tempo de corrigir o que estava errado, um tempo para fazer a vida valer à pena.

É certo que nem todos estavam sorrindo naquele dia de libertação, há os que não gostam do novo, são tristes, pessimistas e sempre vão apostar em dias chuvosos, diria até que eles apostam em dias de temporais, daqueles que quando vem, quase sempre são devastadores, mas para quem já teve a vida forjada por mentiras travestidas de verdade, não teme temporais, pois é certo que o novo sempre vem, com já dizia a canção.

Mas o dia estava lindo e radiante como há tempos no se via naquele lugar, as pessoas se saudavam com a felicidade de quem recebeu o novo de braços abertos e com a certeza de que daquele dia em diante, a vida voltaria ao normal. Ainda que houvesse um falatório que as ruas seriam cobertas de vermelho para manchar de sangue os rumos de um novo tempo, naquele dia, só havia espaço para dar boas vindas ao novo e tudo de bom que ele sempre nos traz.

E ao fim daquele dia de sol de verão, com flores de primavera em pleno inverno, em que tal e qual o outono se foi possível trocar todas as folhas velhas da vida daquele lugar, a noite se fez presente com uma lua nova, atestando que a partir daquele dia, mesmo que nem sempre fosse possível viver só dias de sol, ficou claro que naquele lugar, não mais se viveriam só dias de chuvas, pois, para alegria de todos, o novo se fez.

 


O Santo

março 18, 2016

Luisinho nasceu pobre, como milhões de brasileiros nordestinos; como milhões de brasileiros nordestinos, também passou fome; teve uma infância sofrida, como milhões de brasileiros nordestinos; enfrentou a seca como milhões de brasileiros nordestinos e, como milhões de brasileiros nordestinos, veio com a família tentar a sorte no sul do país.

Luisinho logo conseguiu um emprego em uma fábrica na Capital, mas, um acidente que lhe custou a amputação de um dos dedos de sua mão, mudou o seu destino. Luisinho se afastou da linha da produção e se filiou ao sindicato de classe. Era o auge da ditadura e Luisinho madrugava para chegar à frente das fábricas para comandar as manifestações.

Luisinho, de pouco estudo, mas doutor nas filosofias da vida, foi conquistando seu espaço e, surgiu como uma liderança popular capaz de enfrentar os grandes coronéis da elite brasileira. Luisinho foi gostando, tentou uma, tentou duas, tentou três, até que na quarta tentativa, o povo resolver dar um crédito de confiança às propostas pregadas por Luisinho.

Luisinho se tornou o grande líder dos menos favorecidos, um exemplo a ser seguindo, o menino pobre nordestino, sem estudo, que passou fome na infância, que emergiu das classes populares para dar voz e poder para as classes populares. Luisinho governou e foi reeleito pelo povo, que o transformou em seu herói. Luisinho acreditou naquilo que se tornou.

Luisinho deixou o governo fazendo o seu sucessor, tinha certeza que o povo estava perpetuado no poder e, saiu de cena para dar vida a um outro Luisinho, talvez, ao verdadeiro Luisinho. Fascinado pelas facilidades que o dinheiro proporciona, Luisinho se viu na condição de levar uma vida de ostentação, financiada por favores de grandes empresários.

Luisinho sempre foi esperto, aprendeu com as raposas da política como agir e sabia que era preciso manter a fachada de homem do povo, sem recursos, sem patrimônio, o pobre nordestino que venceu na vida e não esqueceu dos seus. Luisinho tinha de manter sua vida boa e de seus familiares, longe dos holofotes, pois como clamar que o povo se volte contra a burguesia, sendo ele, agora, um membro desta mesma burguesia?

Luisinho fez a sua lição, direitinho! Criou um Instituto para receber doações, abriu uma empresa para justificar suas palestras, que muitos dizem não existir registros de nenhuma delas, e contou com a fidelidade de bons amigos, que, a custas de bons contratos com o governo de seu partido, blindaram a sua vida de homem rico e bem sucedido, e, assim, Luisinho pode desfilar sua áurea de homem do povo, de homem pobre.

Luisinho acreditava estar blindado e estar acima do bem e do mal, com o amparo do povo, tinha certeza que seu projeto de imagem de guerreiro do povo brasileiro, não seria desmantelado. Acontece que Luisinho abusou de sua desfaçatez e acabou causando a ira de parte do povo que o levou ao poder pela primeira vez. Luisinho se faz de vitima, se diz perseguido, e inflama o povo a sair às ruas pela honra de seu nome.

Luisinho está tendo sérios problemas com a justiça, mas se declara inocente, precisa que seu povo acredite nas mentiras verdadeiras ou verdades mentirosas, que ele sempre lhes contou. Luisinho é muito orgulhoso para admitir algum deslize, diria até arrogante além da conta. Luisinho, de forma duvidosa, conseguiu até um Ministério para se proteger das injustiças que ele diz sofrer.

Luisinho não está medindo esforços para continuar operando os seus “milagres” de ter vida de rico e imagem de pobre. Luisinho tem feito o possível e o impossível, para isso. Luisinho, acreditada piamente, na ajuda de parte do povo que tem certeza ele é um verdadeiro santo, mas, acontece que a outra parte do povo, tem certeza que ele não é. Aliás, Luisinho vem deixando bem claro que de santo, ele nunca teve nada! Luisinho deixou o país dividido. Que Deus abençoe o povo brasileiro!


Na velocidade da luz

novembro 9, 2013

O Sol nasceu ainda meio preguiçoso, mas fez com que seus raios entrassem propositalmente na fresta de uma janela, certo de que despertaria alguém. Ledo engano. Até mesmo o pássaro pousado sobre a arvore de frente a casa, já não encontrara quem quisesse ouvir seu canto. A casa já estava vazia, muito embora nem tivesse terminada de ser anunciada a alvorada de um novo dia.

E é assim, todos os dias, na maioria das casas, de todas as cidades, desse imenso país que acorda já acelerado para cumprir os compromissos de um mundo globalizado e que se mostra cada dia mais veloz, onde todos passam as horas correndo na velocidade da luz, lutando contra o tempo, em busca de alguma felicidade frívola, que sempre se esvai entre os dedos.

Mas, continuamos, acelerando os passos, os compassos do coração já batem tão rápido que nos faz ofegantes, e corremos… corremos para atender aqueles que como nós, têm pressa, corremos para saciar a nossa ansiedade, corremos e corremos… Tudo virou urgente! Até o relógio virou acessório de moda, pois nem mesmo o seu “tic tac” é capaz de acompanhar a velocidade do nosso tempo.

Imediatismo, esta é a palavra da hora. Não, do minuto. Não, do segundo. Não, de já! Nada mais pode ser germinado, tudo tem de ser colhido já. Ainda que não tenha sido cultivado, há de ser fazer a colheita Tornamo-nos amigos inseparáveis até o próximo segundo. Vivemos em meio a uma multidão, mas apressados, não enxergamos o quê e quem está ao nosso lado. Não há mais função para o verbo, contemplar.

Há quanto tempo não perdemos um piscar de olhos para ver aquela lua cheia que te convida para uma noite de amor? Mas a pressa nos cobra tanto que até uma ejaculação precoce já se mostra levar tempo demais. Vivemos como fôssemos morrer em seguida, mas morremos um pouco a cada dia, sem nem perceber. Nossa saúde definha por migalhas que escorrem de nossa mão, na mesma velocidade da luz.

Só que de repente, a vida atropela a nossa pressa, sem dó, nem piedade e nos freia, que até nos faz pensar: Do que valeu correr tanto? De certo, muita coisa valeu. Ainda que tudo tenha sido construído ao preço de uma velocidade ensandecida, que não tenha nos dado tempo de levar o filho à escola, nem acompanhado a queda do seu primeiro dente, que nem mesmo tenhamos percebido os nossos cabelos embranquecerem.

Mas, esse pensamento é quase sempre passageiro. É como devaneio de quem para, toma fôlego e recomeça a sua corrida. Nem mesmo se a saúde der sinais de cansaço, perdemos a nossa pressa. Queremos, porque queremos, domar o tempo. E nos achamos, mais e mais, senhores do nosso próprio tempo e continuamos correndo, ás vezes até, mais rápido que a velocidade da luz.

Para chegar aonde? Para chegar onde poderíamos chegar de forma compassada, sentindo o calor do Sol arder na pele, depois de vazar a fresta na janela, ou ainda podendo ouvir o canto que o pássaro nos oferece quando pousa na árvore de frente a nossa casa. Mas, continuamos correndo como o mundo fosse acabar depois dessa leitura.


Viver é tão simples

outubro 19, 2013

Ás vezes a gente passa os dias remoendo problemas e nem se dá conta como viver é tão simples. Outro dia, mergulhado em meus problemas, já nem sentia a razão exercer alguma pressão sobre as minhas emoções, só enxergava problemas, problemas e problemas. Sem equilíbrio, resolvi pegar o carro e sair estrada afora, talvez buscasse fugir dos tais problemas.

Aos poucos a música que saia do rádio do carro foi me acalmando, a razão começava a pressionar a emoção, que aquela altura já dava sinais de cansaço e passei a prestar a atenção nos carros que passavam por mim apressadamente, comecei a enxergar a beleza bucólica da natureza que margeava a estrada e vi o que os olhos já não conseguiam perceber.

Entrei na cidade já com a minha atenção totalmente voltada às pessoas que passavam pelas ruas e fui tentando analisar cada uma deles como quem buscasse encontrar alguém em pior situação com a que eu achava que me encontrava, egoísta como qualquer ser humano, sentia-me no fundo do poço, perdido, sem saída, só que aquela altura, um pouco mais equilibrado.

Parei o carro e simplesmente passei horas e horas prestando atenção no comportamento das pessoas que passavam, e pude observar o quanto estamos todos meio parecidos emocionalmente, pois discussões banais, perdi as contas de quantas presenciei. Vi as pessoas passarem carrancudas, apressadas, todas mostrando estarem à flor da pele.

Mas, de repente, uma gargalhada espontânea me chamou a atenção, busquei com os olhos encontrar de onde viria aquela centelha de felicidade que desviou os meus olhos das pessoas que eu analisava. Custei a achar, até que avistei três moradores de rua sob uma marquise de um prédio abandonado, rindo sem parar. Fixei ali meus olhos na tentava de entender tamanha felicidade.

E passei horas a fio vendo aquelas três pessoas se divertindo descompromissadamente, talvez se comportassem assim por não terem nenhuma responsabilidade, marginalizados, não sofrem pressão de nada. Foi então que me questionei, poderia haver problema maior do que viver a margem da sociedade? E reconheci ali a minha pequenez de ser humano egoísta e mal agradecido.

Não precisei buscar mais nada em minha volta, liguei o carro e parti em direção à minha casa com a certeza irrefutável de que não temos como fugir dos problemas, uns terão problemas banais, outros terão graves problemas, mas todos nós teremos problemas e não podemos deixar que os problemas nos paralisem, pois corremos o risco de passar a vida sem viver e viver é tão simples, não é mesmo?


O Amor e a Violência

junho 15, 2013

O Amor sempre foi considerado um sujeito esquisitão, ás vezes meio calado, outras falante demais, ás vezes sossegado, outras temperamental. O boato que corre a boca pequena é que ele é bipolar. Mas, no fundo, bem lá no fundo, todo mundo curte o Amor, pois, apesar de tudo, o Amor é boa praça e quando ele está de bem com a vida, tudo fica mais leve.

O Amor flerta com todo mundo, mas quem ele quer mesmo é a Paz. Só que a Paz é muito complicada, volta e meia está envolvida em confusão. A Paz é o sonho de qualquer um, mas chegar até ela não é nada fácil. Dizem até que ela gosta mesmo do Amor, mas nenhum dos dois teve coragem de se declarar um para o outro. É o Amor de um lado e a Paz de outro e todo mundo correndo atrás dos dois. 

Dizem que os dois não ficam juntos por conta da Violência. Ela é apaixonada pelo Amor, é muito possessiva e basta ouvir falar que o Amor e a Paz estão flertando que ela fica furiosa e entra em campo, faz barraco e o Amor, coitado, de tão inocente, tenta contemporizar. Mas todo mundo sabe que o Amor faz isso só para manter a Paz em segurança, longe da Violência.

Mas, numa noite dessas, o Amor, depois de beber três ou quatro copos de coragem, levantou a cabeça, estufou o peito e partiu decidido a se declarar para Paz. Justamente naquela noite em que a Paz não estava bem. Ela estava preocupada demais com tudo que vinha acontecendo na cidade. O clima estava muito pesado, promessas de manifestações por todos os cantos. 

E o Amor chegou de mansinho, se sentou ao lado da Paz e, ainda que um pouco sem jeito, ele começou a levantar o astral da Paz. E conversa vai, conversa vem, e o Amor e a Paz já estavam aos beijos no canto. Ficaram assim a noite inteira. O Amor e a Paz terminaram a noite juntos. Mas a notícia correu feito rastilho de pólvora e chegou aos ouvidos da Violência, que ficou furiosa.

Quando o Sol deu seu bom dia, Amor e Paz eram uma felicidade só e resolveram que passariam o dia juntos. Mas apesar da harmonia entre os dois, a Paz estava preocupada com as manifestações marcadas na cidade e pediu que o Amor fosse junto com ela, pois temia que algo de muito rim acontecesse, já que o ânimos estavam bem exaltados. 

O Amor, mesmo não gostando de participar desses movimentos, não recuou, deu o braço para a Paz e, então, os dois partiram em direção à praça. Chegaram de mansinho e, aos poucos, todos já estavam envolvidos pelo Amor e ela Paz. Só que do outro lado da rua, a Violência tinha sangue nos olhos e assistiam tudo enquanto esperava o seu amigo Caos chegar.

E tudo corria com tranquilidade, até que de repente, Caos e Violência invadiram a praça e ninguém mais teve razão. A Esperança que espiava tudo da esquina, não teve coragem de se aproxima. Mas assistiu com lágrimas nos olhos, quando os paramédicos colocaram o Amor e a Paz dentro da ambulância, que saiu em disparada. No meio da confusão formada, Caos e Violência riam e comemoravam.


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