DEPOIS DAQUELA CANÇÃO

janeiro 23, 2015

DEPOIS DAQUELA CANÇÃO

TEXTO ADULTO DE CURTA DURAÇÃO

AUTOR: PAULO SACALDASSY

PERSONAGENS

HEITOR

JULIA

CENÁRIO: UMA CAMA DE CASAL NO CENTRO DO PALCO, DE UM LADO, UMA CÔMODA, E DO OUTRO UM GUARDA-ROUPA. DE UM DOS LADOS, A PORTA DO QUARTO.

AO ABRIR AS CORTINAS, O PALCO ESTÁ ESCURO, APENAS UM FOCO DE LUZ SOBRE O CASAL QUE ESTÁ SENTADO NO CHÃO, AOS PÉS DA CAMA, UM COM AS COSTAS ENCOSTADAS NO OUTRO. ELE VESTE APENAS CUECA E ELA, CALCINHA E SUTIÃ. AOS POUCOS A LUZ VAI ABRINDO ATÉ LUZ GERAL.

Julia               – Acho que a gente exagerou um pouco no vinho!

Heitor             – Só um pouquinho!… Mas, foi bom, não foi?

Julia               – Sabe há quanto tempo a gente não faz isso?

Heitor             – Ah!… Sei lá!… No casamento da tua irmã?

Julia               – É!… No casamento na minha irmã! Sabe quanto tempo faz isso?

Heitor             – Dois anos?

Julia               – Cinco!… Cinco anos!

Heitor             – O tempo tá voando mesmo!

Julia               – Sabe o que isso significa?

Heitor             – Já falei!… O tempo tá voando!

Julia               – Nada disso! Isso significa que as coisas não são mais como antes.

Heitor             – Como não?

Julia               – Se lembra quando a gente se conheceu?

Heitor             – Claro! Timtim por timtim! Lembro até a roupa que você estava?

Julia               – Taí, quero ver!

Heitor             – Você estava de vestido vermelho, sapatos de salto alto…

Julia               – Pára, Heitor!

Heitor             – Não era essa?

Julia               – Claro que não!

Heitor             – E qual era?

Julia               – Calça Jeans e camiseta!

Heitor             – Jura?

Julia               – Claro!

Heitor             – Acho que você tá fazendo confusão por causa do vinho!

Julia               – Não vou nem discutir!

Heitor             – Quer ver como vou te provar que eu tô certo?

Julia               – Duvido!

Heitor             – A gente se conheceu na fila do cinema!

Julia               – Errado!

Heitor             – Como errado?

Julia               – Foi na fila do banco!

Heitor             – Olha aí! Não falei que foi na fila?

Julia               – Tenho saudades daqueles tempos!

Heitor             – Eu também!

Julia               – Se lembra que você me prometeu as estrelas?

Heitor             – Te levei as alturas várias vezes! Você não pegou porque não quis!

Julia               – Sem graça!

Heitor             – Você lembra daquela música?

Julia               – Como eu ia esquecer?

HEITOR LEVANTA-SE, PEGA JULIA E COMEÇA A CANTAR UMA MÚSICA RO-MÂNTICA (A ESCOLHA). OS DOIS DANÇAM AGARRADINHOS PELO PALCO.

Heitor             – Eu me lembro de tudo!

Julia               – Eu também!

Heitor             – Sua boca!…

Julia               – Seus olhos!…

Heitor             – Seu olhar!…

Julia               – Seu beijo!

OS DOIS BEIJAM-SE APAIXONADOS, ENQUANTO VÃO DANÇANDO.

Julia               – Espera, Heitor!… Tô vendo tudo rodar!

Heitor             – Fecha os olhos!

Julia               – Pára, Heitor!

Heitor             – Tá bom!

OS DOIS PARAM. JULIA SENTA-SE NA CAMA.

Julia               – Acho que por hoje chega!… Amanhã vou ter um dia duro!

Heitor             – Esquece amanhã!

Julia               – Não posso!

Heitor             – Só hoje!

Julia               – Agora chega, Heitor!… Tô cansada! Vou deitar!

Heitor             – Só mais um pouquinho!

Julia               – Vem, vamos deitar, vai!

Heitor             – Julia!

Julia               – Fala, Heitor!

Heitor             – Sabe, a Helena?

JULIA SE LEVANTA DA CAMA.

Julia               – Não acredito que você vai terminar nossa noite com essa mulher!

Heitor             – É que tenho uma coisa importante pra falar!

Julia               – Essa mulher é uma fantasma em nossa vida!

Heitor             – Nunca foi um fantasma!

Julia               – Não se faça de mal entendido!

Heitor             – Tudo bem!… Deixa pra lá!

Julia               – Agora que já estragou a noite, fala!

Heitor             – Hoje a gente bebeu demais! É melhor, não!

Julia               – Ela não foi morar fora do país?

Heitor             – Foi! Você não lembra?

Julia               – Como é que eu ia esquecer? Você não deixa, não é mesmo?

Heitor             – Quem escuta pensa que eu falo nela todo dia!

Julia               – É, mas é só beber um pouquinho a mais, que lá vem você e essa Helena! Às vezes acho que você só ficou comigo porque ela foi embora!

Heitor             – Uma coisa não tem nada a ver com a outra!

Julia               – Na certa, quando tava comigo, pensava na outra! Ah, como teria si-do com ela?

Heitor             – Não fala isso! Você sabe que isso não é verdade!

Julia               – Mas, desembucha! O que é que foi com a Helena? Morreu?

Heitor             – Vamos dormir!… Você tem razão, a gente exagerou no vinho!

HEITOR SE DEITA NA CAMA. JULIA ANDA PELA CENA.

Julia               – Eu não acredito! Uma noite maravilhosa dessa, e você tinha que to-car no nome daquela mulher!

Heitor             – Chega, Julia!

Julia               – Diz, Heitor, diz! O que é que tem a Helena?

HEITOR SENTA-SE NA CAMA.

Heitor             – A Helena voltou!

Julia               – E o que é que tem?

Heitor             – Ela me procurou!

Julia               – Que vagabunda!

Heitor             – A gente conversou!

Julia               – Bem que eu estava desconfiada nesta noite especial!

Heitor             – A gente tinha muito que conversar!

Julia               – Deviam ter, mesmo!

Heitor             – Assim vai ficar difícil!

Julia               – Tantos anos longe, não é mesmo?

Heitor             – A gente resolveu…

Julia               – Só espero que você não tenha feito nenhuma besteira!

Heitor             – A gente vai se dar uma chance!

JULIA DESABA SOBRE A CAMA.

Heitor             – Eu tava indeciso, mas… Olha!… Julia!… Eu não queria!…

Julia               – Eu não acredito!

Heitor             – Eu quero que você entenda! Não foi uma coisa pensada!

Julia               – Eu sempre esperei por isso! Sabia que mais cedo ou mais tarde, is-so ia acontecer!

Heitor             – Não era a minha intenção! Juro!

JULIA LEVANTA-SE.

Julia               – Todos esses anos, e você brincando de casinha comigo, não é?

Heitor             – Não!… Eu sempre fiz tudo por você!

Julia               – Eu sei muito bem, o tudo que você fez!

Heitor             – A gente foi feliz!

Julia               – Só se for na fotografia!

Heitor             – Não fala assim!

Julia               – Tudo que abri mão por você!

Heitor             – Eu também tive que fazer isso!

Julia               – As coisas que eu fiz por você!

Heitor             – Eu não pedi nada!

Julia               – Eu fiz por amor! Por amor! Mas, você não sabe o que é isso!

Heitor             – Eu não queria te magoar!

Julia               – Não quero tua piedade!

Heitor             – Amanhã mesmo eu vou embora!

Julia               – Some da minha frente! Não quero ver mais essa sua cara deslava-da!

Heitor             – Não faz assim, Julia! A gente sempre foi amigo!

Julia               – Sabe o que você faz com essa amizade?

Heitor             – Assim você está deixando as coisas mais difíceis!

Julia               – Ah! Você achava que seria tudo fácil? Você chegava e dizia assim: Olha, Julia, sabe da Helena? É, a Helena! Encontrei com ela e a gente resolveu que vai ficar juntos! Aí então, eu virava pra você e dizia: Claro, Heitor! Pode ir com ela, eu não me importo!… Vai à merda, Heitor! Vai à merda!

Heitor             – Eu sabia que não seria fácil, mas você tá complicando ainda mais!

Julia               – Ah! Quer dizer que pra você, um casamento de dez anos acaba as-sim… feito poeira! Você vem e me assopra pra fora da tua vida!

Heitor             – Você sabe que não é nada disso!

Julia               – Olha, Heitor! Melhor você sair desse quarto, senão!…

Heitor             – Senão o quê?

Julia               – Não me obrigue a falar coisas que não quero falar!

Heitor             – Por que você está tornando tudo tão difícil?

Julia               – Quem te falou que eu queria me separar de você?

Heitor             – Não se trata disso!

Julia               – Ah! Esquecí que você quem toma a decisão! Eu só digo:sim senhor!

Heitor             – Não estava nos meus planos!

Julia               – Você nunca esqueceu essa vagabunda! Ficou comigo por conveni-ência!

Heitor             – Isso é mentira!

Julia               – Tinha levado um pé na bunda, e como tinha uma trouxa te dando bola, você foi lá, e eu, caí feito uma patinha!

Heitor             – Eu fui verdadeiro com você! Eu senti cada momento de prazer!

Julia               – Eu sei! Sei tanto, que até acreditei que você jamais teria coragem de fazer o que está fazendo hoje!

Heitor             – Você acha que eu passei a minha vida inteira fazendo planos para o dia que eu fosse me separar de você?

Julia               – Some da minha frente!

Heitor             – Eu devia ter feito isso antes!

Julia               – Eu vou acabar com você!

Heitor             – Você está me fazendo arrepender de cada momento que eu passei com você!

Julia               – Eu já me arrependi disso, faz tempo!

HEITOR ABRE O GUARDA-ROUPA E COMEÇA APANHAR SUAS ROUPAS.

Heitor             – Pensei que pudesse ficar com você essa noite pra que a gente se entendesse!

JULIA VAI ATÉ A CÔMODA, ABRE AS GAVETAS E COMEÇA ATIRAR ROUPAS EM CIMA DE HEITOR. HEITOR SE VESTE.

Julia               – Como você é bonzinho!

Heitor             – Chega de ironia!

Julia               – Ah, o moço não quer ironia?

Heitor             – Não me tire do sério!

Julia               – Por quê? Vai me matar?

Heitor             – Não me obrigue a fazer o que eu não quero!

Julia               – Você pode me obrigar a fazer o que eu não quero, né? Engraçado!

Heitor             – Acho que nesse caso, não é questão de obrigar ninguém a nada!

Julia               – Ah! Tem razão, você apenas fez uma comunicação!

Heitor             – Não achei que seria assim?

Julia               – E é melhor a gente parar por aqui!

Heitor             – É melhor mesmo!

HEITOR COMEÇA A AJEITAR SUAS ROUPAS DENTRO DA MALA. JULIA VAI, DEITA-SE NA CAMA DE COSTAS PARA HEITOR. SILÊNCIO.

Heitor             – Olha, Julia! Não foi por mal!

Julia               – Tá bom, Heitor, já entendi!

Heitor             – Eu preferia que não tivesse sido assim!

Julia               – Tudo bem, Heitor, tudo bem!

Heitor             – Então, eu vou embora!

Julia               – Tchau!

Heitor             – Desculpe, Julia!

Julia               – Espera Heitor!

Heitor             – Fala!

Julia               – Você tem certeza do que está fazendo?

Heitor             – Certeza eu não tenho!

Julia               – Mas, vai fazer assim mesmo?

Heitor             – Só quero que você saiba que não foi nada com você!

Julia               – Pode até ser!

Heitor             – Preciso resolver isso comigo! Aqui dentro!

Julia               – Heitor!

HEITOR ESTÁ PRÓXIMA DA PORTA DO QUARTO.

Heitor             – Fala!

Julia               – Preciso te falar uma coisa!

Heitor             – Pode falar!

Julia               – Eu tenho outra pessoa!

HEITOR SOLTA A MALA NO CHÃO.

Heitor             – O quê?

Julia               – Nós estamos juntos há um ano!

Heitor             – Não acredito!

Julia               – Mas, eu precisava te contar!

JULIA DEITA-SE NA CAMA.

Heitor             – Não pode ser!

Julia               – Quando sair, apaga luz, tá?

Heitor             – Como você pode?

Julia               – É que amanhã tenho um compromisso!

Heitor             – Sua descarada!

Julia               – Vou ser feliz!

Heitor             – Você não podia ter feito isso!

Julia               – Boa sorte com a sua Helena!… Não esquece de apagar a luz, hein?

JULIA VIRA DE COSTAS PARA HEITOR. HEITOR VEM EM DIREÇÃO A CAMA E SACODE JULIA SEM PARAR, QUE NÃO REAGE, APENAS RI.

Heitor             – Por quê você fez isso? Por quê?

BLACK OUT. JÚLIA DÁ GARGALHADAS. AS GARGALHADAS VÃO SUMINDO AOS POUCOS, DANDO LUGAR A GEMIDOS DESESPERADOS. LUZ GERAL. JULIA ESTÁ ESTIRADA NA CAMA COM O TRAVESSEIRO SOBRE O SEU ROSTO. HEITOR PEGA SUA MALA E SAI.

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           – FIM -


HOJE VOU BRINCAR DE SER FELIZ

dezembro 13, 2014

CENÁRIO: QUARTO DE MENINA. ALGUMAS ALMOFADAS, UM DIÁRIO E UM TELEFONE CELULAR, TUDO COMBINANDO. AO FUNDO DO PALCO, UMA JANELA QUE MOSTRA UMA VISTA DA CIDADE. NO CENTRO, UMA ENORME CAIXA DE MÚSICA.

AO ABRIR AS CORTINAS, FOCO NA CAIXA DE MÚSICA ONDE ESTÁ NINA, VESTIDA DE BAILARINA, RODANDO AO SOM DE UMA VALSA.

NINA  – Nina,

              A pequenina do papai,

              A princesinha do lugar,

              Que se nega a crescer.

              Nina,

              A menina da mamãe,

              A alegria deste lar,

              Que não quer crescer.

              Vou ficar assim,

              Qual a bailarina

              Nessa caixinha de música,

              Para sempre protegida.

              Isso não vai ter um fim,

              Serei sempre a menina

              Vivendo de forma lúdica,

              As aventuras dessa vida.

              Nina!… Nina!… Nina!…

A MÚSICA VAI PARANDO COMO ESTIVESSE ACABANDO A CORDA DA CAIXA DE MÚSICA. TOCA O CELULAR. NINA DESCE DA CAIXA.

NINA  – (ATENDENDO O CELULAR) Alô!… Sei!… Sei!… Tá bom!

NINA DESLIGA O CELULAR.

NINA  – Mamãe!… Mamãe!… Acho que fiquei sozinha! Será que não é perigoso? Dizem que meninas como eu não podem ficar sozinha? Papai diz que o mundo tá mundo perigoso! Ele acha que eu não sei! Eu já falei pra ele que eu cresci, mas acho que ele não acredita! Eu pergunto para minha mamãe: Por que eu não posso sair? Todas as minhas amigas já podem sair sozinha, não sei por que eu não posso? Antes mesmo da mamãe responder, papai atravessa e diz: – Você ainda é uma menina, não é a hora?… Ele  fecha  a  cara  e logo manda uma bronca: Vê se desliga essa televisão e vai dormir!… Eles acham que não sei das coisas! Sei muito bem!… Eles que não conseguem enxergar que eu tô crescendo!

NINA PEGA O SEU DIÁRIO.

NINA  – Querido diário, hoje é um dia muito importante para mim. Hoje finalmente sou igual às minhas amigas. Isso mesmo! Pois, elas todas me achavam diferente, principalmente a Belinha (IMITANDO BELINHA) Não acredito que você ainda não menstruou? Papai sempre diz que ainda sou menina, por que eu já tinha que ter menstruado?… Mas, hoje vou me vingar dela! Ela vai ver só!… Sabe diário, vou te confessar uma coisa. Eu tenho medo desta mudança toda que está acontecendo dentro de mim. Às vezes, me sinto um monstro! Mamãe falou que menina é uma lagarta que vira borboleta, mas dói tanto!… Será que vai ser assim todo mês? E se for?… Acho que não vou querer isso, não!…

NINA SOLTA O DIÁRIO E CORRE PARA A CAIXA DE MÚSICA. COMEÇA RODAR AO SOM DE UMA VALSA.

NINA  – Nina,

              A pequenina do papai,

              A princesinha do lugar,

              Já começou a crescer.

              Nina,

              A menina da mamãe,

              A alegria deste lar,

              Uma mulher a florescer.

              Nina!… Nina!… Nina!…

A MÚSICA VAI TERMINADO COMO SE TIVESSE ACABADO A CORDA DA CAIXINHA. NINA DESCE.

NINA  – Mamãe!… Mamãe!… Já sou mocinha!… Será que papai não vai gostar mais de mim?… (IMITANDO A MÃE) Quando você crescer, precisa prestar muita atenção, porque homem não presta, minha filha, não presta! Mas, papai faz tudo pra mim!… Não entendo, mamãe!… Todas as minhas amigas já beijaram na boca, menos eu!… Será que sou feia?… Papai diz que sou sua princesinha!…  Acho  que deve ser porque os garotos acham que eu ainda sua criança! Papai acha!…  Eles acham que eu não sei das coisas!… Sei muito bem!…

NINA CORRE ATÉ A JANELA, ACENA PARA ALGUÉM. VOLTA E PEGA NOVAMENTE O DIÁRIO.

NINA  – Diário, você sempre entendeu os meus problemas, não é mesmo? Cada pedacinho da minha vida eu deixei registrado em você!… Mas, vou te confessar uma coisa. Teve muita coisa que eu não te contei!… E acho que daqui pra frente, vai ser assim! Não fica bem, uma mocinha como eu, contando o meus segredos pra você!… Até agora você foi leal, mas, que você cisme que eu te abandonei, e acaba entregando minha vida pra todo mundo? Acho que essa mudança mexeu comigo de verdade!… Papai vai ter de aceitar que eu cresci!… Será que ele vai ficar bravo comigo?… E se ficar?… Não quero que papai fique bravo comigo!…

NINA CORRE PARA CAIXINHA DE MÚSICA. COMEÇA A RODAR AO SOM DE UMA VALSA.

NINA  – Nina,

              A pequenina do papai

              Nina,

              A menina da mamãe

              Nina!… Nina!… Nina!…

A MÚSICA VAI TERMINANDO. NINA DESCE DA CAIXA DE MÚSICA.

Nina   – Papai!… Mamãe!… Eles insistem em não querer me ouvir!… Então não vai ter jeito!… Vou ter que mostrar que a princesinha do papai, cresceu! Que a menina da mamãe, já não é mais tão menina assim!… (TOCA O CELULAR) Alô!… Sou eu! Claro que tá tudo certo!… Deixa o papai e mamãe comigo!… Que vai ser um choque!… Isso acontece com todo menina!… Ou eles achavam que comigo iria ser diferente?… Claro que tenho certeza!… Cinco minutos!…

NINA DESLIGA O CELULAR E PEGA O DIÁRIO.

Nina   – Olha aqui diário, vou escrever isso aqui, mas não é pra ficar espalhando, viu?… Principalmente pra mamãe! Pro papai então, nem pensar!… Olha lá, hein? Vou confiar em você!… Posso confiar? Então lá vai!… Diário, a princesinha do papai, conheceu um garoto, ele vem buscar pra gente sair… Ele disse que vai me beijar na boca!… Confesso que eu tô tremendo… Ele diz que quer namorar comigo!… Quero só ver a cara da Belinha, quando ela me ver com ele!… Sabe, diário! Eu gostava daquela vida de criança, mas, a vida é assim mesmo!… Minha mãe fala, fala, fala, mas ele também teve que crescer!… E meu pai então? Se minha mãe não tivesse crescido, eu jamais estaria aqui!… Eles acham que eu não sei das coisas!… Sei muito bem!…

NINA VAI ATÉ A JANELA.

NINA  – Já tô descendo!…

NINA SOBE NA CAIXA DE MÚSICA.  COMEÇA A RODAR AO SOM DE UMA VALSA.

NINA  – Nina!… Nina!… Nina!…

BLACK OUT. FOCO NA CAIXINHA DE MÚSICA VAZIA, SOBRE ELA, AS ROUPAS DE BAILARINA. A MÚSICA VAI TERMINANDO.

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           – FIM –  


É QUESTÃO DE EDUCAÇÃO

outubro 17, 2014

CENÁRIO: UMA MESA, ATRÁS DA MESA, UMA CADEIRA E NA FRENTE, DUAS. NAS LATERAIS, ESTANTES COM LIVROS. EM CIMA DA MESA, UMA PLACA: DIRETORA

EM CENA, UMA MULHER ESTÁ SENTADA, FAZ ALGUMAS ANOTAÇÕES. ENTRA UM CASAL, ELE, COM CABELOS COMPRIDOS E BARBAS LONGAS, APARÊNCIA RUDE E ROUPAS RASGADAS E ELA, COM CABELOS PINTADOS DE VERDE, PIERCINGS E MUITAS TATUAGENS PELO CORPO.

Homem – (COM VOZ FORTE) Dá licença!

Diretora – (SEM LEVANTAR OS OLHOS) Pode sentar.

Mulher   – É que a gente veio matriculá nosso pivete!

Diretora – (SEM LEVANTAR OS OLHOS) Já vou atender. Só um minuto.

O HOMEM E A MULHER ANDAM PELA CENA. ELES EXAMINAM OS LIVROS NAS ESTANTES, CADA UM DE UM LADO.

Diretora – Pronto. Desculpem, precisava terminar o novo regulamento da escola. Vocês? O que vocês querem aqui?

Homem – (COM VOZ FORTE) A gente qué matriculá nosso pivete aqui.

Diretora – Mas vocês…

Mulher – A gente não é um casal assim… certinho!

Diretora – Não é isso! É que…

Homem – (COM VOZ FORTE) Então, dá pra matriculá o pivete?

Mulher – (PARA O HOMEM) Sem grosseria, meu!

Diretora – Então quer dizer que vocês querem matricular o filho de vocês em nossa escola?

Homem – É isso aí!

Mulher  – O pivete não ta fácil!

Diretora – Entendo.

Homem – O muleque não obedece ninguém.

Mulher – Então falaram que essa escola resolve tudo.

Diretora – Vocês fizeram a escolha certa. Sentem!

Mulher   – E vocês não mesmo jeito no muleque?

OS DOIS SE SENTAM.

Diretora – A nossa escola ensina o que há de mais moderno na pedagogia. Aqui nossas crianças são tratadas e formadas para fazerem deste país, um verdadeiro paraíso.

Mulher – E a dona aí acha mesmo que esse método funciona?

Homem – Porque também tem o seguinte: a gente qué acalmar o muleque, mas não qué que ele vire um mulherzinha. A dona entende, né?

A DIRETORA SE LEVANTA.

Diretora – Não se preocupem. Aqui pensamos em todos esses detalhes e respeitamos a opção sexual de cada um. Se seu filho quiser ser mulherzinha, não vai sofrer nenhuma discriminação! Aqui nossos alunos são educados para serem organizados, gentis, prestativos e compreensivos com seu semelhante.

Homem – (PARA MULHER) Que conversa é essa de quê se meu filho quiser virar mulherzinha?

Mulher – (PARA O HOMEM) Fica quieto e não atrapalha. Deixa a dona termina! Tu não sabe nada dessas coisas da vida moderna. Eu to sabendo das paradas. O negócio agora é ser politicamente correto. Não é mesmo, diretora?

Diretora – É isso mesmo minha querida! E aqui na nossa instituição, seu filho vai aprender tudo para se tornar uma pessoa politicamente correta.

Homem – To achando esse papo meio torto!

Mulher – Gente maluca como a gente, hoje ta por fora. Tem que abrir a cabeça!

A DIRETORA VOLTA A SE SENTAR.

Diretora – Vou explicar direitinho pra vocês a nossa metodologia de ensino. Usando como base a pedagogia do empirismo, realizamos os exercícios do politicamente correto até que a criança chegue à exaustão e, então, entenda, que se não for politicamente correta, não poderá ir ao banheiro, não poderá comer o lanche, não poderá brincar no parque e não poderá permanecer no pátio enquanto as outras crianças estiverem no recreio.

Homem – Ih… então isso não vai dá pro pivete, não!

Mulher – É!… A gente já fez essa parada de não deixá ele fazê as coisa, mas não rolo não.

Diretora – É que falta exemplo. Aqui, o filho de vocês vai aprender que menino deve levantar a tábua quando for fazer xixi e abaixá-la depois que acabar. Vai aprender que não pode coçar o saco, nem arrotar em hipótese nenhuma. Que não deve maltratar nenhum bichinho indefeso e acima de tudo, que para conseguir arrumar uma linda namorada, vai ter que ser um bom moço.

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Rá! Isso eu quero vê!

Mulher – Senta, meu!

O HOMEM SE SENTA.

Mulher – E quem é que faz essas parada?

Diretora – Temos professores que são verdadeiros exemplos de como ser politicamente correto. Aqui o filho de vocês vai se tornar o mais belo exemplar de bom moço. Tenho certeza que o politicamente correto vai transformar até a vida de vocês. Podem apostar! E então, vamos matricular o filho de vocês?

Mulher – (PARA O HOMEM) E aí, o que tu acha da parada?

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Tu que sabe. Tu que invento essa novidade!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – A gente precisa acalmar aquele pequeno terrorista.

Homem – Se tu acha que é melhor…

Diretora – Vocês não vão se arrepender. Em dois tempos o filho de vocês estará um lorde.

Homem – Ih!

Mulher – Então ta certo. Pode matriculá o pivete!

Diretora – Vocês estão fazendo a escolha certa.

A DIRETORA SE DESPEDE DOS DOIS. OS DOIS VÃO EM DIREÇÃO À SAÍDA.

Homem – (PARA A MULHER) Mas escuta só, se o pivete virar um nerd afeminado, cheio de não me toque, tu que vai segurá a bronca. Morô!

OS DOIS SAEM DE CENA. A DIRETORA VOLTA À MESA E COMEÇA A ASSINAR ALGUNS DOCUMENTOS. UM OBJETO É JOGADO EM CENA, EM SEGUIDA, UMA EXPLOSÃO.

Diretora – (GRITANDO) Suas pestes! Vou trancar todo mundo no banheiro! Inspetora! Inspetora!

A LUZ VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA.

APAGAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.



NÃO TÁ FÁCIL PRA NINGUÉM

junho 13, 2014

CENÁRIO: UMA SALA

EM CENA, NO CENTRO DO PALCO, UMA MACA. NA FRENTE DA MACA, UMA MULHER USANDO UM JALECO ESTÁ SENTADA EM UMA CADEIRA. AO LADO DA MACA, UM “BANNER”: MASSAGEM ANTIESTRESSE – 01 HORA – R$ 20,00

Mulher – Já estamos no meio da semana e só fiz duas massagens, meu Deus, por favor, manda alguém pra mim, porque o negócio aqui está preto! Me ajuda, meu Deus, me ajuda!

ENTRA UM HOMEM.

Homem – Dá licença?

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – (ERGUENDO AS MÃOS PARA O ALTO) Obrigado, meu Deus! O senhor não me falha.
Homem – Eu sei…
Mulher – Hãn?
Homem – É aqui a massagem?
Mulher – Claro! Vamos aliviar essa tensão?
Homem – É para isso que vim!
Mulher – Então vamos lá. O moço pode se deitar na maca.

O HOMEM SE DEITA NA MACA.

Mulher – De bruços, por favor!
Homem – Claro! Sei que você é muito boa nisso.
Mulher – Como você sabe?
Homem – Eu conheço a sua fama.
Mulher – Eu?… Famosa?…
Homem – Muito.
Mulher – Se eu fosse tão famosa assim, não precisava pedir para Deus me ajudar a toda hora.

A MULHER COMEÇA A FAZER MASSAGEM NAS COSTAS DO HOMEM.

Homem – Isso é verdade! Às vezes você exagera um pouco.
Mulher – O quê?
Homem – Você pede muito, como todo mundo! Todo mundo pede ajuda pra Deus! Um estresse!
Mulher – Como você sabe que eu peço muito?
Homem – Depois a gente conversa, agora faz o seu trabalho para que eu possa fazer o meu. Eu estou precisando relaxar.
Mulher – O moço tem uma conversa engraçada.
Homem – Você tem mãos de massagista mesmo!
Mulher – E o moço está realmente muito travado. Cheio de nódulos. Muita tensão. Isso é estresse!
Homem – Eu sei, minha filha, estou a beira de um ataque de nervos.
Mulher – O moço trabalha no quê?
Homem – Digamos que eu trabalhe com milagres.
Mulher – Milagres?
Homem – Isso.
Mulher – O moço é padre?
Homem – Mais ou menos.
Mulher – Pastor?
Homem – Mais ou menos.
Mulher – Então é Pai de Santo!
Homem – Digamos que eu seja tudo isso.
Mulher – Como assim?
Homem – Depois… Continue… Você está fazendo um bom trabalho.

A MULHER COMEÇA A MASSAGEAR OS PÉS DO HOMEM.

Homem – Nossa, que delícia! Melhor do que andar sobre o mar.
Mulher – O moço está bem?
Homem – Estou melhorando.
Mulher – Tem muita tensão, precisa relaxar.
Homem – Relaxar… Mas é difícil! Toda hora tem alguém me pedindo o impossível! É só problema e quanto mais problema, mas as pessoas me chamam. Nem eu estando em todos os lugares ao mesmo tempo, tenho dado conta de tanto pedido! Assim vou explodir!
Mulher – O moço fala como se fosse…
Homem – Deus?
Mulher – É!
Homem – É porque eu sou Deus, então tenho que falar como Deus.
Mulher – Isso é alguma brincadeira? É pegadinha?
Homem – Por isso ando tão estressado! Você mesmo estava aí agora me pedindo para te ajudar, é mentira? E como ando muito estressando, precisando de uma boa massagem, pensei: Por que não ajudar? Então estou aqui.
Mulher – Isso não é verdade.
Homem – Claro que é!

A MULHER PARA DE FAZER A MASSAGEM.

Homem – Por que você parou? Agora que eu estava me sentindo melhor!
Mulher – Peraí!

A MULHER PEGA NO BOLSO DO JALECO SEU CELULAR.

Mulher – Então, já que você é Deus, vamos tirar uma foto que eu vou postar no meu perfil. Meu facebook vai bombar!
Homem – Não, não faz isso!
Mulher – Faço sim! Vamos ver até onde vai essa brincadeira!
Homem – Não é brincadeira!

A MULHER COLA O ROSTO NO HOMEM E TIRA A FOTO.

Mulher – Agora sim. Depois que todo ficar sabendo que Deus está fazendo massagem comigo, minha vida vai mudar pra melhor.
Homem – E a minha pra pior!
Mulher – Pronto. Agora é só esperar.
Homem – Eu não vou agüentar!

EM “OFF” COMEÇAM A SURGIR VÁRIOS PEDIDOS A DEUS.

“AÍ, DEUS, DÁ UM PULINHO AQUI NA MINHA OFICINA!”
“DEUS, DÁ UMA CHEGADA AQUI NO MEU RESTAURANTE!”
“MEU DEUS, ESTOU PRECISANDO DE UNS TROCADOS…”
“POR FAVOR, DEUS, MEU NEGÓCIO ESTÁ FALINDO, DÁ UM PULINHO POR AQUI”
“DEUS, SOCORRO, ME ARRUMA UM EMPREGO AÍ”
“DEUS, ME AJUDA A ARRUMAR UM MARIDO!”
“DEUS, ME AJUDA A ARRUMAR UMA MULHER!”
“DEUS, ME AJUDA A PASSAR DE ANO!”
“DEUS, QUERO FICAR RICO!”
“DEUS, VOCÊ É UM GATO!”

NA MACA, O HOMEM COMEÇA A ESTREBUCHAR. A MULHER ENTRA EM DESESPERO.

Mulher – Que isso, Deus? Para com isso, moço!!

OS PEDIDO EM “OFF” VÃO SE REPETINDO. A MULHER FAZ UMA LIGAÇÃO NO CELULAR.

Mulher – Alô?… É da Emergência?… Por favor, preciso de uma ambulância urgente!,,, É urgente!… Deus está morrendo na minha maca!

O HOMEM CONTINUA ESTREBUCHANDO NA MACA, ENQUANTO OS PEDIDOS EM “OFF” VÃO SE REPETINDO. A LUZ VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                              – FIM -


CONTRATA-SE JUSTICEIRO

maio 16, 2014

EM CENA, UMA MULHER, VESTIDA COM ROUPAS PROVOCANTES, SENTADA EM UMA POLTRONA, RETOCA A MAQUIAGEM EM UM ESPELHO DE MÃO. ENTRA UM HOMEM.

Homem – Dá licença!
Mulher – (SEM OLHAR O HOMEM) O que você deseja?
Homem – Vim por causa do anúncio.
Mulher – (SEM OLHAR O HOMEM) Tem experiência?
Homem – Tenho sim senhora!
Mulher – (SEM OLHAR O HOMEM) Tem referências?

O HOMEM TIRA DO BOLSO UM JORNAL TODO AMASSADO.

Homem – Tenho aqui, ó!

A MULHER GUARDA A MAQUIAGEM, SE LEVANTA, APANHA O JORNAL E O LÊ

Mulher – Quer dizer que o seu negócio é fazer justiça com as próprias mãos?
Homem – É que eu sou justo, dona!
Mulher – Sei…
Homem – Já que a polícia não dá conta de tanta injustiça, nós é obrigado a tomar a frente, né mesmo?
Mulher – Quer dizer que basta eu dizer que alguém foi injusto comigo que…
Homem – Olhe, dona, já não fale mais que já to sentindo ódio.
Mulher – E se for mentira?
Homem – Se a senhora me jura que é verdade, pronto, já me basta!

A MULHER DOBRA O JORNAL E ENTREGA PARA O HOMEM.

Mulher – Acho que você é a pessoa certa.
Homem – A senhora manda, que eu mando o cabra pros quintos dos infernos sem dó!
Mulher – Mas, o trabalho não é nada fácil.
Homem – Não escolho trabalho não, viu dona?
Mulher – O senhor faz todo tipo de trabalho, mesmo?
Homem – Se é pra fazer justiça, não falo, não!

A MULHER SE SENTA NA POLTRONA.

Homem – A dona me fala quem é o cabra, que eu vô até os quinto dos infernos pra pegar o cabrunco!
Mulher – O homem tem medo da morte?
Homem – Tenho não!
Mulher – Mas, se o homem morrer?
Homem – Isso não acontece. Tenho o corpo fechado.
Mulher – Interessante.
Homem – Então, dona, qual é o serviço?

A MULHER SE LEVANTA, RODEIA O HOMEM. SUSSURA EM SEU OUVIDO.

Mulher – Eu quero que você me mate.

O HOMEM SE ASSUSTA E SE AFASTA DA MULHER.

Mulher – Eu quero que você me mate!
Homem – Que isso, dona? Não mato o contratante.
Mulher – Se você não me matar, eu te mato.
Homem – A dona tá de brincadeira?
Mulher – Chegou a hora de você acertar as suas mortes.
Homem – Que conversa é essa, dona?
Mulher – Você não é justiceiro?
Homem – Tenho isso no sangue.
Mulher – Eu também sou.
Homem – Que brincadeira é essa, dona?

A MULHER VOLTA A RODEAR O HOMEM E SUSSURRA EM SEU OUVIDO.

Mulher – Eu sou a morte!

O HOMEM SE ASSUSTA, FAZ O SINAL DA CRUZ.

Mulher – Eu sou a morte!
Homem – Que morte o quê?
Mulher – Você nunca ouviu dizer que a morte não é tão feia quanto pintam?
Homem – Isso só pode ser coisa do capeta.
Mulher – E então justiceiro: Vai me matar, ou prefere morrer?
Homem – Sai pra lá, satanás!
Mulher – Se não matar a morte, a morte te mata, justiceiro!

O HOMEM SACA DA CINTURA, UM REVOLVER. A MULHER SE APROXIMA DO HOMEM.

Mulher – Que justiceiro mais covarde que me apareceu por aqui!
Homem – Eu vou atirar.
Mulher – Não vai! O homem não é de nada!
Homem – Mais um passo e eu atiro no meio da sua testa, dona!
Mulher – Agora, eu é que vou te matar, justiceiro!

O HOMEM ENGATILHA A ARMA. A MULHER ABRAÇA O HOMEM E LHE DÁ UM BEIJO NA BOCA. O HOMEM CAI DESFALECIDO NO CHÃO. A MULHER SE SENTA NA POLTRONA E RETOCA A MAQUIAGEM COM UM ESPELHO DE MÃO.

                                                             – FIM -


MARIA SUBMISSA

março 28, 2014

NO BANHEIRO DE UM SHOPPING, DUAS MULHERES, UMA COM UM VESTIDO FLORIDO, MAIS DISCRETA, RETOCA O CONTORNO DOS OLHOS E A OUTRA COM SHORTS JEANS, BLUSA DECOTADA, RETOCA OS LÁBIOS VERMELHO CARMIM.

Maria 1 – Maria?
Maria 2 – Maria?
Maria 1 – Quanto tempo, hein?
Maria 2 – Abafa o caso, amiga! Senão a gente acaba entregando a idade.
Maria 1 – Já casou?
Maria 2 – Eu não! Quero isso pra mim, não! E você?
Maria 1 – Casei sim.
Maria 2 – Então me conta: É boa a vida de casada?
Maria 1 – Às vezes.
Maria 2 – Se é só às vezes, então separa logo, ué!
Maria 1 – Que separar o quê! Eu amo meu marido!
Maria 2 – Mas, você está dizendo que é só às vezes, ora!
Maria 1 – É que tem dia que não é bom!
Maria 2 – Não vai dizer que ele te bate? Te bate?
Maria 1 – Só quando eu estou errada.
Maria 2 – O quê?
Maria 1 – Agora já não tenho errado tanto.
Maria 2 – Eu não acredito!
Maria 1 – Mas ele tinha razão quando fazia isso.
Maria 2 – Para, Maria! Vamos agora denunciar esse escroto!
Maria 1 – Ei, não fala assim do meu marido. Você nem conhece ele.
Maria 2 – Mas, Maria, você não pode se submeter a isso!
Maria 1 – É como diz o ditado: Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher!
Maria 2 – Eu não acredito que estou ouvindo isso.
Maria 1 – Foi por dar ouvidos a esses pensamentos aí, que eu quase me separei do meu marido.
Maria 2 – Você já devia ter separada há anos! Apanhando, Maria?
Maria 1 – Agora ele já não tem batido mais.
Maria 2 – E por que você quase se separou do seu marido, hein?
Maria 1 – Descobri que ele me traiu.
Maria 2 – E você não fez nada?
Maria 1 – Eu quase me separei dele.
Maria 2 – Por que não se separou, Maria?
Maria 1 – Porque minha mãe é que estava certa.
Maria 2 – Traição não tem perdão, Maria!
Maria 1 – Mas a culpa não foi dele.
Maria 2 – Ãhn?
Maria 1 – Eu tinha acabado de ter neném, estava na quarentena, ele lá, cheio de necessidade. Tinha que resolver a necessidade com alguém. Resolveu com a secretária.
Maria 2 – Não acredito no que estou ouvindo.
Maria 1 – Minha mãe conversou comigo e me disse: Filha, foi só uma vez! E eu acabei entendendo a atitude dele. Afinal, homens têm as suas necessidades, não é mesmo? Aí tive que perdoar! Ainda bem!
Maria 2 – Mulher também tem suas necessidades e nem por isso…
Maria 1 – É diferente, Maria!
Maria 2 – Maria, você não precisa dele! Se livra desse homem!
Maria 1 – Mas, também, hoje em dia a mulherada anda quase pelada por aí. Fica provocando. Aí, não tem homem que resiste.
Maria 2 – Meu Deus, eu não estou ouvindo isso!

TOCA O CELULAR DA MARIA 1.

Maria 1 – Alô!… Oi, meu amor… Não, não… Já estou saindo!… É que… Tá bom!… É que estava cheio o banheiro!… Calma, não precisa ficar nervoso. Já to saindo!… Beijo.

ELA DESLIGA O CELULAR.

Maria 1 – Bom, vou ter de ir. Meu amor me espera!
Maria 2 – Deixa esse homem, Maria!
Maria 1 – Jogar fora a minha felicidade? Aqui ó!
Maria 2 – Você está acabando com a sua vida.
Maria 1 – Você fala isso porque não casou. Se não, concordava comigo.
Maria 2 – Jamé!
Maria 1 – E vê se toma cuidado! Se você passar vestida desse jeito na frente do meu marido e ele te pegar, a culpa vai ser toda tua, viu?

A MULHER 1 PASSA A MÃO NOS CABELOS, SE OLHA DO ESPELHO DÁ UM ACENO À AMIGA E SAI DO BANHEIRO.

Maria 2 – Não acredito! Será que eu sonhei tudo isso? Não pode, em pleno século XXI, ter mulher assim tão submissa!

ELA SE VOLTA PARA O ESPELHO E RETOCA NOVAMENTE OS LÁBIOS VERMELHO CARMIM.

Maria 2 – Mas, pensando bem? O mundo está cheio delas, sim! Tem mulher até que se satisfaz como amante! Coitada delas! Eu, hein? Eu sou mulher!
ELA AJEITA O CABELO, PASSA O DEDO PELOS LÁBIOS E SAI.

                                               – FIM -


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