O ATAQUE ALIENÍGENA

março 24, 2017

CENÁRIO: UMA PRAÇA

SENTADO EM UM BANCO, UM HOMEM MEXE EM UM CELULAR. ENTRAM EM CENA DOIS MARCIANOS, PORTANDO UMA ARMA ESQUISITA. UM DE CADA LADO.

Marciano1     – Não se mexa!

Marciano2     – Se você se mexer, vou congelar você!

O HOMEM SE LEVANTA DO BANCO

Homem       – Calma aí, rapaziada! Sem violência!

Marciano1   – Largue essa arma!

Homem       – Pô, chefia, não é arma, não! Acabe de pegá essa parada agora. Não é de última geração. Tava tentando desbloquear. Mas pega aí!

Marciano 2    – Não faça nenhum movimento!

O HOMEM SE SENTA NO BANCO. OS MARCIANOS SE APROXIMAM. UM DE CADA LADO.

Homem          – Fantasia da hora, hein?

Marciano1     – Não estamos fantasiados.

Marciano2     – Nós somos marcianos e vamos conquistar esse lugar.

Marciano 1    – Me leve até o seu líder!

Marciano 2    – Vamos! Ande logo!

Homem          – Olha só, rapaziada, eu não tenho essa parada de líder, não! Eu trabalho por conta própria mesmo!

Marciano 1    – Como você não tem um líder?

O HOMEM SE LEVANTA DO BANCO.

Homem          – Ó, até fiz parte de uma quadrilha aí, mas o chefe caiu em cana e a rapaziada se separou. Sabe como é, né, chefia? A gente tem que garantir o leitinho das crianças.

Marciano 2    – (PARA MARCIANO 1) Acho que ele não está entendendo o que estamos falando.

Marciano1     – Mas aprendemos tudo!

Marciano2     – De repente eles falam algum dialeto que não aprendemos.

Marciano 1    – Você está entendendo?

Homem          – Total, rapaziada! Vocês são os marcianos, pá! Querem conquistar, pá!…

OS MARCIANOS APONTAM AS ARMAS PARA O HOMEM.

Marciano 1    – Então nos leve até o seu líder!

Marciano 2    – Vamos! Não temos o dia todo!

Homem          – Então, rapaziada, não vou poder ajudar vocês. Já falei que não tenho mais essa parada de líder, não!

O MARCIANO 1 AMEAÇA ATIRAR.

Homem          – Calma aí, chefia! Sem violência! Sem violência!

Marciano 2    – Queremos falar com o seu líder agora!

Homem          – O Zarolha tá preso… Deixa eu vê como posso ajudar vocês…

O HOMEM SE SENTA NO BANCO. OS MARCIANOS CONVERSAM ENTRE SI.

Marciano 1    – Não é possível que este lugar não tenha um líder.

Marciano 2    – Mas nós vimos que cada país neste planeta, tem um líder.

Marciano 1    – Como é que eles chamam o líder deles aqui, mesmo?

Marciano 2    – Acho que é… Sem dentes!

Marciano 1    – Não! É… Ao dente!

O HOMEM SE LEVANTA.

Marciano2     – Escrevente!

Homem          – Olha aqui, rapaziada!

Marciano 1    – Presidente!

Marciano 2    – Isso mesmo! Presidente!

Homem          – Ô, seu dois esquisitos, dá pra olhá pra mim?

Marciano 1    – Nos leve agora até o seu líder Presidente!

Homem          – Presidente?

Marciano 2    – Isso! O presidente deste país!

Marciano 1    – Ele não é seu líder?

Homem          – Ih, rapaziada isso eu não sei, viu?

Marciano 1    – Como não sabe?

Marciano 2    – Ele não é seu líder?

Homem          – Rapaziada, aqui tá uma confusão danada, viu? Tem gente que acha que é, mas a maioria acha que não é. Tem gente que fala que tem uma história de golpe na parada. Não sei, não! Aí é com vocês, mano!

Marciano 1    – (PARA MARCIANO 2) Que maravilha!

Marciano2     – Então vai ser mais fácil que a gente achava.

Marciano1     – Vamos dominar esse país!

Marciano2     – Esse país agora é nosso!

Homem          – Ih, mano, chegaram atrasados, rapaziada! Os americano já domina aqui! Ó, e um tempão, viu?

Marciano1     – Quem são esses americanos.

Marciano2     – De que planeta?

Homem          – Ih, eles moram lá nos Estaites!

Marciano2     – Estaites?

Homem          – Outro país!

Marciano1     – E quer dizer que eles já invadiram esse país?

Homem          – Ih, rapaziada, eles dominam quase o mundo todo.

Marciano2     – Dominam o mundo?

Homem          – Os cara são poderoso! Mexeu com eles, eles logo faz guerra.

OS DOIS MARCIANOS SE SENTAM NO BANCO E LARGAM SUAS ARMAS.

OS MARCIANOS CONVERSAM ENTRE SI.

Marciano1     – O que você acha?

Marciano2     – Acho que esse país aqui não vale nada.

Marciano1     – Então, vamos atacar os americanos?

Marciano2     – Vamos atacar os americanos!

O HOMEM VAI POR TRÁS DO BANCO E PEGA AS ARMAS DOS MARCIANOS.

Homem          – Perdeu, rapaziada! Quietinho senão eu atiro!

OS DOIS MARCIANOS SE LEVANTAM DO BANCO.

Marciano1     – Cuidado com isso, rapaz!

Marciano2     – Você não sabe usar isso!

Homem          – Vamô Pará de caô e me leva logo até o líder de vocês.

OS TRÊS VÃO SAINDO DE CENA COM O HOMEM APONTANDO AS ARMAR PARA OS MARCIANOS.

Homem          – Agora quero vê quem não vai me respeitá! Vou roubá agora noutro planeta! Ah, moleque!… Andando!… Andando!…

OS TRÊS SAEM DE CENA. FECHAM-SE AS CORTINAS.

– FIM –

 


E O AMANHÃ?!

maio 6, 2016

CENÁRIO: ESCOMBROS DE UM PRÉDIO.

AO ABRIR AS CORTINAS, UMA MULHER GRÁVIDA TEM A PERNA PRESA POR PARTES DOS ESCOMBROS.

Mulher           – Alguém ajuda, por favor! Eu não pedi essa guerra!!… Eu vou sair daqui!

A MULHER TENTA SE LIVRAR DOS ESCOMBROS.

Mulher           – Ajude, meu Deus! Eu não estou aguentando mais! Preciso salvar essa minha criança. Ela é a única coisa que me sobrou depois de tudo. Socorro!… Socorro!… Tem alguém por aí?… Socorro!… (ELA PRA. ESTÁ EXAUSTA) Fome!… Sede!… Medo!…

A MULHER DESMAIA. ENTRA UM HOMEM BASTANTE FERIDO.

Homem          – Tem alguém ali embaixo.

O HOMEM, COM DIFICULDADES, CHEGA ATÉ OS ESCOMBROS.

Homem          – Moça!… Moça!…

O HOMEM MOLHA A MÃO COM SUA SALIVA E PASSA NA BOCA DA MULHER, QUE PASSA A LÍNGUA SOBRE SEUS LÁBIOS.

Homem          – Moça, você está bem?

A MULHER ABRE OS OLHOS.

Mulher           – Não me mate!

Homem          – Não vou lhe matar!

Mulher           – Eu não tenho culpa da guerra.

Homem          – Eu também não!

Mulher           – Eu preciso salvar meu filho!

Homem          – Cadê seu filho?

Mulher           – Tá aqui comigo!

Homem          – Minha nossa! Você tá grávida!

Mulher           – Socorro, moço, socorro!

Homem          – Vou te ajudar a sair daí.

Mulher           – Fome!… Sede!…

Homem          – Fica calma! Vou tentar tirar isso de cima de você.

O HOMEM, COM DIFICULDADE, CONSEGUE TIRAR UM PEDAÇO DOS ESCOMBROS QUE ESTAVAM PRENDENDO A PERNA DA MULHER.

Homem          – Deixa eu te ajudar a levantar.

Mullher          – Eu não consigo! Estou muito fraca. Minha barriga está doendo muito!

Homem          – De quanto tempo você tá?

Mulher           – Três meses!

Homem          – Quanto tempo você tá aqui?

Mulher           – Não sei, moço!

Homem          – Você tá muito fraca!

Mulher           – Moço, tô com fome!… Tô com sede!…

Homem          – Aqui não tem comida, a água que estava escorrendo pelas fendas, secou… Eu tô há dias procurando uma saída.

O HOMEM TIRA DO BOLSO UM PEDAÇO DE PÃO E DÁ PRA MULHER, QUE COME DESESPERADA.

Mulher           – O que vai ser de nós, moço? O que vai ser?

Homem          – Fique calma!

A MULHER TENTA SE LEVANTAR, MAS CAI.

Homem          – Não faz isso, moça! Seu bebê!

A MULHER SE ESTIRA NO CHÃO.

Mulher           – Socorro! Socorro! Eu quero sair daqui!

Homem          – Olha só, moça! Atrás de onde estava você tem uma luz! Pode ser a saída!

O HOMEM COMEÇA A TIRAR OS ESCOMBROS COM DIFICULDADES. A MULHER, DE JOELHOS, TENTA AJUDÁ-LO.

Homem          – Não faça esforço! Deixa que eu consigo!

Mulher           – É pela liberdade do meu filho!

Homem          – Mas você está fraca!

Mulher           – Você também!

Homem          – Mas eu sou homem!

Muher             – E eu sou mulher!

Homem          – Eu só quero te proteger!

Muher             – Eu só quero salvar meu filho!

NA MEDIDA EM QUE VÃO SE POSICIONANDO, VÃO RETIRANDO OS ESCOMBROS.

Homem          – É por isso mesmo!

Mulher           – Eu quero ajudar!

Homem          – Você acha que guenta?

Mulher           – Nem que seja a última coisa que eu faça!

Homem          – Você tem coragem!

Mulher           – Você também!

Homem          – A gente vai conseguir!

Mulher           – Tenho certeza que sim!

DIANTE DELES SURGE UM GRANDE CLARÃO.

Mulher           – Conseguimos! Obrigado, meu Deus!

Homem          – Eu não acredito!

OS DOIS SE ABRAÇAM E VÃO DESCENDO, ABRAÇAÇADOS. FAZEM CARINHO NO ROSTO, UM NO OUTRO.

Mulher           – Você salvou a vida do meu filho!

Homem          – A gente se salvou!

Mulher           – Não sei de onde tirei tanta força!

Homem          – A gente só sabe a força que tem quando precisa dela.

Mulher           – Você foi forte!

Homem          – Nós fomos!

Mulher           – Maldita guerra!

Homem          – Malditos os homens que se preocupam em fazer a guerra!

Os Dois         – Malditos!

OS DOIS SE ENCARAM, OLHO NO OLHO. A MULHER SE DEITA SOBRE O COLO DO HOMEM. SEGURA A BARRIGA.

Homem          – Que foi?

Mulher           – Dor… Muita dor!

Homem          – Preciso te levar prum hospital.

Mulher           – Não sei se ainda vou resistir!

Homem          – Claro que vai!

Mulher           – Meu filho não vai resistir!

Homem          – Guenta! Você foi forte até agora.

Mulher           – Meu filho não vai resistir!

Homem          – Então espera que eu vou buscar ajuda!

Mulher           – Obrigado por me ajudar a sair.

Homem          – Guenta firme!

O HOMEM DEITA A MULHER SOBRE O CHÃO E SE LEVANTA.

Mulher           – Não precisa mais, moço!

Homem          – Agora, mais do que nunca!

Mulher           – Meu filho não resistiu!

A MULHER TEM A ROUPA MANCHADA DE SANGUE. O HOMEM SE COLOCA NO CHÃO E COLOCA A MULHER SOBRE O SEU COLO.

Mulher           – (CHORANDO) E agora, moço? Como vai ser meu amanhã?

Homem          – O amanhã é sempre uma nova história!

O HOMEM FAZ CARINHO NOS CABELOS DA MULHER. A LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. SONS DE SIRENES E SONS DE BOMBAS SE INTERCALAM.

– FIM –


A ACAREAÇÃO

outubro 16, 2015

CENÁRIO: SALA DE AUDIÊNCIA.

NA CABECEIRA DA MESA, O JUIZ; DE UM LADO, APENAS UMA MULHER DO OUTRO, UM HOMEM E UMA MULHER.

Juiz    – Estamos aqui para darmos andamento ao processo de acareação entre os réus e esclarecer às divergências apuradas durante todo o processo de investigação sobre o desvio de verbas em operações com o governo federal, bem como o envio de remessa de dinheiro irregularmente para o exterior. Dona Maria das Dores, no seu depoimento, a senhora afirmou não saber de nada. O que mais a senhora tem a dizer?

Maria  – Olha, senhor juiz, eu não sei nem porque eu to aqui, visse? Eu moro na Favela da Formiga da Bunda Grande, tenho seis filhos e trabalhava de empregada doméstica na casa do Seu Pedro e da Dona Helena há cinco anos até que…

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Protesto, Meritíssimo!!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher  – Não conhecemos essa mulher!

Maria  – Vixe! Como não? Ô, seu Pedro! Ô, dona Helena!… Sou eu, a Maria!

Juiz    – Os dois se manifestem apenas quando forem perguntados.

Homem – Perdão, Meritíssimo!

OS DOIS SENTAM.

Maria  – Mas, seu juiz, eu trabalhava pra eles!

Juiz    – Prossiga.

Maria  – Cês não lembra, não? Trabalhei até a polícia chegar e levar nós tudo! Foi assim, seu juiz: De repente a polícia baixou na casa deles, levo tudo, computador e até eu. Seu Pedro e dona Helena, se trancaram no quartinho dos fundos da casa e pediram pr’eu dizer que eles num tavam. Mas a polícia arrevirou tudo e acabou achando os dois escondidos. Aí, nós tudo fomos parar na delegacia. Cês alembram agora?

O HOMEM SE LEVANTA DE NOVO.

Juiz    – Queira se sentar?

O HOMEM SENTA.

Juiz    – Isso nós já sabemos, dona Maria. Precisamos de outros detalhes. E a empresa? A empresa que está em seu nome é de quem? A senhora assinou esses documentos? Ou falsificaram sua assinatura?

Maria  – Olha só, seu juiz: O negócio da firma foi o seguinte: Um dia, seu Pedro chegou em casa mais cedo… Dona Helena tinha ido pra casa de praia com as crianças. Seu Pedro chegou, começou a me acariciar… Eu até tentei escapar, mas vou dizê um negócio pro senhor, seu juiz. Sempre achei seu Pedro um tesão!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – Pedro Henrique!

Homem – Tudo mentira, Helena!

Juiz – A senhora queira se sentar, por favor?

Homem – Senta, Helena.

A MULHER SENTA.

Juiz – Prossiga, Dona Maria.

Maria – Eu não resiste, doutô! Ele me deu champanha, me beijou todinha me levou pra cama e creu! Aì que delícia!

Juiz – Sem muitos detalhes, dona Maria.

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Isso é mentira, Meritíssimo!

Juiz    – Sente!

Maria  – É verdade, doutô! Seu Pedro me deu um suador de louco! Aí, seu juiz, depois daquilo, se ele me pedisse para morrê, eu me matava. Foi assim que assinei toda aquela papelada que ele jogou na cama.

Homem – É mentira! É mentira!

A MULHER SE LEVANTA E DÁ UM TAPA NO ROSTO DO HOMEM.

Mulher – Seu safado! Eu mato você!

Homem – Olha aí, Meritíssimo, ela está me ameaçando.

Juiz – Os dois, sentados. Agora!

OS DOIS SENTAM.

Juiz – Então a senhora sabia da empresa?

Maria – Não, seu juiz. Eu só assinei aqueles papéis. Nem sabia pra quê que era! Nem o que era.

Mulher – (PARA O MARIDO) Você me paga, Pedro Henrique!

Homem – (PARA A MULHER) Essa mulher ta maluca, Helena!

Juiz – Sem conversas paralelas. Pois, bem Dona Maria. A senhora nunca movimentou a empresa, certo? E as contas nos bancos?

Maria – Ih, seu juiz, não tenho conta no banco, não. Seu Pedro e Dona Helena sempre me pagaram em dinheiro vivo.

Juiz – E os dólares?

Maria – Dona Helena escondia no cofre.

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – Mentira, Meritíssimo!

Juiz – Sente!

A MULHER SENTA.

Maria – De vez em quando ela pegava um pouquinho no cofre pra pagar os meninos que iam deitar com ela. Eu sempre achei uma injustiça com o seu Pedro. Tão bonito! Por que dona Helena passava as tardes com uns meninos no quarto? Eram uns três por tarde.

O HOMEM SE LEVANTA E ARRANCA A MULHER DA CADEIRA.

Homem – Sua vagabunda!!

O HOMEM LHE DÁ UM TAPA E A EMPURRA NO CHÃO.

Mulher – Seu corno!

Homem – Sua vaca!

A MARIA SE LEVANTA.

Maria – Eita! Como eles se amam!

Juiz – Parem com isso. Os dois se comportem!

Maria  – Se amavam tanto!!

OS DOIS SE XINGAM. O JUIZ SE LEVANTA, PEGA OS DOIS PELOS BRAÇOS E OS LEVA PARA FORA.

Juiz    – Guarda! Pode recolher esses dois!   

O JUIZ VOLTA E SE SENTA EM SEU LUGAR.

Juiz    – Bem, Dona Maria das Dores, suas informações foram muito importante e deixou tudo muito claro. Diante de tudo que presenciei e do que a senhora relatou nessa sala, posso afirmar que a senhora é inocente e foi usada por aqueles dois malfeitores, que fizeram uso de sua confiança para dar golpes. Vou expedir imediatamente o seu alvará de soltura. A senhora está livre.

Maria – Aff!! Graças a Deus! Posso ir mesmo, senhor juiz?

Juiz – Claro que sim!

Maria – Posso fazer uma ligação?

Juiz – Não se demore!

O JUIZ ARRUMA OS SEUS PAPÉIS E SAI DE CENA. MARIA PEGA O CELULAR.

Maria – ((ENQUANTO SAI) Zé, tudo resolvido! Acabei com aqueles dois safados que queriam passar a perna em nós! Agora é tudo nosso! Pode arrumá as malas que amanhã nos ta é na Suíça! Beijos.

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           – FIM –


AMOR DE POLÍTICO

agosto 14, 2015

CENÁRIO: UM QUARTO

EM CENA UMA MULHER ESTÁ DEITADA NA CAMA DE CASAL DE CAMISOLA. ENTRA O HOMEM DE TERNO. VAI SE DESPINDO.

Mulher           – Boa noite, Agenor!

Homem          – Boa noite, meu amor!

Mulher           – Preciso conversar com você.

Homem          – Se for problemas, nem me venha!

Mulher           – É importante!

Homem          – Hoje a coisa ferveu lá na Câmara. Prenderam o Aderbal, não demora muito vão chegar em mim.

Mulher           – Eu preciso te contar uma coisa.

Homem          – É, minha querida, o cerco está se fechando!

Mulher           – Você precisa saber por mim!

O HOMEM FICA SÓ DE CUECA E CAMISETA, SE DEITA AO LADO DA MULHER.

Homem          – Não está fácil ser Deputado, viu?

Mulher           – Eu te trai!

SILÊNCIO

Mulher           – Agora você pode me ouvir?

Homem          – Você não está falando sério, está?

Mulher           – Estou!

Homem          – Puta que o pariu…

O HOMEM SE LEVANTA DA CAMA.

Homem          – Quem é o canalha?

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher           – Sabe aquele Deputado?

Homem          – Mas Deputado não presta mesmo! Que Deputado?

Mulher           – Aquele da oposição.

Homem          – Da oposição?

Mulher           – Aquele bonitão, de cabelos grisalhos, saradão!

Homem          – Ô, Dolores, você acha que fico reparando em homem?

Mulher          – Aquele Deputado que vive metendo o pau em ti! Então, ele meteu o pau em mim!

Homem          – Não acredito.

Mulher           – Aconteceu.

Homem          – Assim você me derruba. E você cobrou algum?

Mulher           – Como assim?

Homem          – Faz a sacanagem e nem pra levar uma grana do cara?

Mulher           – Eu não sou prostituta!

Homem        – Não é mesmo! Porque se fosse teria levado uma grana. Você não tem idéia da grana que essas mulheres ganham desses Deputados por aí!.

Mulher           – Não estou acreditando, Agenor.

Homem         – Você sabe que a coisa está toda complicada lá em Brasília, não rola nem mais uma comissãozinha de um contratinho… Você tem a chance de faturar um pixulé e dá pro cara de graça? Como que vai ficar minha cara?

Mulher           – Como ia adivinhar que você não ia ligar?

Homem          – Quem disse que eu não ia ligar?

Mulher           – Você acabou de falar.

Homem          – Era uma compensação pelo chifre, né, Dolores?

Mulher           – Eu que foi no impulso!

Homem          – E como é que eu fico agora?

Mulher           – Desculpa, meu amor! Eu to muito arrependida. Não Sei onde eu estava com a cabeça.E olha que aquele Deputado nem é nada disso!

Homem          – Tá certo, Dolores, tá certo!

Mulher           – E quer saber? Ele nem é nada disso que a mulherada fala, viu?

Homem         – Tudo bem, passou! Deixa que amanhã eu vou dor um jeito de consertar isso.

Mulher           – Não vai fazer nenhuma besteira.

Homem          – Você tentar cobrar o que é meu.

Mulher           – Então você me perdoa?

Homem          – Não devia! Não devia! Você foi muito amadora, não gosto disso! Aqui em Brasília nada é de graça, nada!

O HOMEM DA BITOCA NA MULHER E SE DEITA NA CAMA.

Homem          – Agora deixa eu dormir que amanhã o dia vai ser bem difícil.

A MULHER SE DEITA E FAZ UM CARINHO NO HOMEM.

Mulher           – Eu te amo, viu? Deputado Garanhão!!

Homem          – Para com isso, Dolores!

Mulher           – Você me perdoou mesmo?

Homem          – Te perdoei, Dolores! Já não disse?

Mulher           – Nenhuma raivinha?

Homem          – Deixa eu dormir, Dolores!

O HOMEM VIRA DE COSTAS PARA MULHER.

Mulher           – Olha aí, você ainda está zangado comigo sim!

Homem          – Amanhã isso passa! Mas vê se dá próxima vez cobra um pixulé! Depois não quero saber de ninguém reclamando pra mim que acabou o caviar hein?

O HOMEM APAGA A LUZ DO ABAJUR.

– Fim –


O ATIVISTA

junho 12, 2015

CENÁRIO: UMA CONFEITARIA

EM CENA, UM BALCONISTA ESTÁ ATRÁS DE UMA VITRINE DE DOCES. ENTRA UM HOMEM.

Homem          – Bom dia,

Balconista     – Bom dia! O quê o senhor deseja?

Homem          – Estou procurando um doce…

Balconista     – Fique à vontade!

ENTRA UM OUTRO HOMEM.

Homen1        – E aí, Neguinho?

Balconista     – Fala, Cabeça! Que vai ser hoje?

O HOMEM 1 OLHA A VITRINE.

Homem1       – Cadê a Nêga Maluca?

Balconista     – Foi atrás do príncipe na Floresta Negra!

Homem1       – Tu é fogo, hein, neguinho?

O HOMEM SÓ OBSERVA OS DOIS.

Homem1       – Sabe aquele diamante negro?

Balconista     – Que aconteceu com ele?

Homem1       – Se perdeu nas Tetas de Nêga!

Balconista     – Essa foi boa, cabeça!

OS DOIS SE CUMPRIMENTAM COM A MÃO SOBRE A VITRINE.

Homem          – Mas, que absurdo!

Balconista     – Oi? Perdão, senhor, não ouvi. O senhor já escolheu?

Homem          – O que eu ouvi aqui, agora, é um absurdo!

Homem1       – Apenas uma brincadeira!

Balconista     – Ih, meu senhor, isso é todo dia!

Homem          – É por causa desse comportamento racista, que nunca acabaremos com o racismo.

Balconista     – É apenas uma brincadeira nossa!

Homem          – Piada com o nome dos doces!

Homem1       – Piada com uma raça!

Homem          – Nada disso, meu senhor!

Homem1       – É sempre essa desculpa de brincadeira, mas, no fundo mesmo, é puro racismo. Um desrespeito ao povo que sofreu com a escravidão e até hoje é subjugado com sub-raça.

Balconista     – Que isso, meu senhor! Não precisa se estressar desse jeito.

Homem          – A gente vai deixando pra lá e a humilhação não para. De piadinha em piadinha vou denegrindo o negro, o homossexual, o pobre, o feio…

Homem1       – Eu é que não to acreditando no quê estou ouvindo!

Balconista     – Vamos deixar isso pra lá! Foi um piada, pronto, acabou!

O HOMEM SE AFASTA, VAI ATÉ O PROSCÊNIO, COMO SE ESTIVESSE UM UMA DAS PORTAS DA CONFEITARIA.

Homem          – (GRITANDO) Mas pra mim não acabou, não! Eu não posso ficar calado diante do que ouvi aqui!

O HOMEM1 SE APROXIMA DO HOMEM.

Homem1       – Calma, meu senhor! Não aconteceu nada pra tudo isso!

Homem          – É porque não é sobre a cor da sua pele.

Homem1       – E o que eu senhor sabe da cor da minha pele?

Homem          – Que ela é branca.

O BALCONISTA SAI DE TRÁS DA VITRINE.

Balconista     – Mas eu sou neguinho.

Homem          – Uma pena que você se ache apenas um neguinho! É lamentável ver nossos irmãos de cor dando armas para o nosso inimigo!

Homem1       – Quem é inimigo aqui? Eu sou teu inimigo, neguinho?

Balconista     – Claro que não!

Homem          – Não fico nenhum mais um minuto neste lugar.

Balconista     – Calma, aí, meu irmão! Não precisa disso!.

Homem1       – Deixa ele, neguinho.

O HOMEM SAI PELA FRENTE DO PALCO, GRITANDO.

Homem          – Abaixo ao racismo! Abaixo ao racismo.

O BALCONISTA VAI PARA TRÁS DA VITRINE. ENTRA UMA MULHER NEGRA, OBSERVA A VITRINE.

Balconista     – Tu viu isso, cabeça?

Homem1       – É cada uma que a gente vê!

Balconista     – Então, o quê vai ser?

Homem1       – Pra não arrumar mais confusão por hoje, vu querer um pedaço daquele bolo afrodescendente ali!

Mulher           – (PARA O BALCONISTA) É Nêga maluca?

Balconista     – É sim!

Mulher           – O senhor aproveita e vê um pedaço pra mim também? Ah, é um cafézinho preto, por favor!

O HOMEM1 E O BALCONISTA SE OLHAM E RIEM.

Mulher           – Falei alguma coisa diferente?

Balconista     – Não! Não foi nada!

Homem1       – Não! (PARA MULHER) Bom café! Até amanhã, Neguinho!

Balconista     – Até amanhã, Cabeça!

O HOMEM1 SAI. O BALCONISTA SERVE A MULHER.

                                                           – FIM –


Saúde é só um detalhe

abril 24, 2015

CENÁRIO: RECEPÇÃO DE UM HOSPITAL

UM HOMEM ENTRA CARREGADO PELA MULHER, GRITA DE DORES. SUA MULHER SE APROXIMA DO BALCÃO DE ATENDIMENTO. O HOMEM SE SENTA EM UMA DAS CADEIRAS DA RECEPÇÃO.

MULHER – Moça, por favor, meu marido está morrendo de dor!

A RECEPCIONISTA, GORDA, ÓCULOS, COM COQUE NO CABELO, ESTÁ COSTAS PARA PLATEIA, FALA AO TELEFONE.

RECEPCIONISTA – Mas, menina, nem te falo. Sabe aquele cara do pagode? É, aquele loiro, forte, de olhos azuis, com uma tatuagem no braço. Saiu de mãos dadas com o neguinho do cavaquinho! Fiquei de boca aberta! E você passou a noite toda babando pelo bofe, hein?

MULHER – (BATENDO NO BALCÃO NERVOSA) Ei, mocinha, Dá pra mocinha desligar o telefone e me atender?

O HOMEM GEME. A RECEPCIONISTA SE VIRA E FAZ UM SINAL COM A MÃO PARA A MULHER ESPERAR, E SE VIRA DE NOVO.

MULHER – (MAIS NERVOSA AINDA) Moça, o meu marido está morrendo!

RECEPCIONISTA – Não é mentira, te juro! Pena que você já tinha saído. Saíram na maior naturalidade. O pessoal disse que eles namoram já faz um tempão!

MULHER – (GRITANDO) Você quer me atender agora! O meu marido morrendo e você fazendo fofoca no telefone!

RECEPCIONISTA – (AO TELEFONE) Vou ter que desligar. Depois a gente se fala! É… chegou mais um aqui que diz estar morrendo! Duvido que tenha o nosso plano de saúde! Eu já te ligo. Beijos!

A RECEPCIONISTA DESLIGA O TELEFONE E SE DIRIGE A MULHER.

RECEPCIONISTA – Documento do paciente e carteira do nosso convênio.

A MULHER VAI ATÉ O HOMEM.

MULHER – Tua identidade e a carteirinha do convênio.

O HOMEM COM DIFICULDADES, TIRA DO BOLSO DA CAMISA OS DOCU-MENTOS. ELE GEME. A MULHER PEGA OS DOCUMENTOS.

MULHER – (ENTREGANDO OS DOCUMENTOS) Olha, moça! Tudo aqui.

RECEPCIONISTA – (BALANÇANDO A CABEÇA NEGATIVAMENTE) Nós não aceitamos esse convênio. Só o nosso!

MULHER – Mas, a gente não tem o convênio de vocês, não, moça!

RECEPCIONISTA – Então não posso fazer nada, minha senhora! O nosso hospital só atende com o nosso plano de saúde. A sua nunca viu a propaganda? Saudmed: Sua saúde é só um detalhe!

MULHER – Mas o meu marido está quase morrendo. A gente paga imposto, minha filha, tem direito à saúde!

RECEPCIONISTA – Aí, querida, já não é comigo, não! Aqui a ordem é só atender com o nosso plano de saúde. Sem Saudmed, não posso fazer nada, nem pela senhora e nem pelo seu marido. Se a senhora quiser fazer nosso convênio, é só ir até o fim do corredor que a mocinha lhe atende.

MULHER – Mas isso é um absurdo! Eu vou chamar a polícia! Eu vou chamar a imprensa.

NAS CADEIRAS, O HOMEM, GEME. A RECEPCIONISTA SE VIRA DE COSTA PARA A MULHER E LIGA O TELEFONE.

RECEPCIONISTA – (AO TELEFONE) Alô!… Oi, sou eu!… Já atendi. Era mais um que não tinha o nosso plano. E aqui está assim, não tem o nosso plano, a ordem é despachar! Não!… Vai espernear um pouco e os seguranças chegam e colocam pra fora… Mas, então, menina, você vê só, a concorrência tá forte!

A MULHER XINGA, O HOMEM GEME. A LUZ CAI EM RESISTÊNCIA.

                                              – FIM –


QUEM TEM MEDO DA SOLIDÃO!?

março 6, 2015

CENÁRIO: PALCO VAZIO.

“Os diálogos não serão falados pelos atores, apenas mostrados em um telão ao fundo do palco como se fosse uma tela de celular. Os atores falarão seus monólogos individuais que não serão mostrados no telão.”

UMA ATRIZ ENTRA EM CENA PELA PLATÉIA TECLANDO EM SEU CELULAR.

Ana    – Clara, já saí do fórum, a gente se vê na balada.

ENTRA UM ATOR TAMBÉM PELA PLATÉIA

Pedro – Ana, to saindo do banco, a gente se vê na balada.

ENTRA UMA ATRIZ POR UMA DAS COXIAS.

Clara  – João, saí do escritório e te encontro lá!.

ENTRA UM ATOR POR UMA DAS COXIAS.

João   – Pedro, não dei aula hoje. Já to saindo.

OS QUATRO SE ENCONTRAM NO PALCO. COMEÇA UMA BALADA E ELES SE COMUNICAM APENAS PELOS CELULARES.

João   – Hoje vou me acabar!!

Pedro – Pega leve, hein João?

Ana    – To adorando!

Clara  – Eu também.

Pedro – Olha aquilo, João!

João   – Ishauishauishau

Ana    – KKKKKK

Clara  – kkk

João   – Adoro essa música!!

Ana    – Se joga, João!!

Clara  – Maravilha!

Pedro – Você ta linda, Ana!

Ana    – Obrigada!

Clara  – O que é aquilo, Ana?

Ana    – Socorro!!

Pedro – KKKKKK

João   – Que foi, Pedro?

Pedro – Essa tua dança…!

Ana    – Liga, não João!

Clara  – rs

João   – Se solta, Pedro!

A MÚSICA É CORTADA. PEDRO SE DESCOLA DO GRUPO. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. FOCO EM PEDRO NO PROSCÊNIO.

Pedro – Às vezes não me entendo

              Me misturo

              Me apuro

              Mas tudo parece escuro

              Tudo é tão vazio

              No meio da multidão

              Falo tanto

              Falo nada

              Só sinto a solidão

A MÚSICA VOLTA. AS MENSAGENS VOLTAM A SER TROCADAS NO TELÃO. PEDRO SE JUNTA AO GRUPO.

Ana    – O q foi, Pedro?

João   – Tá apaixonado!

Clara  – Jura?

Pedro – sqn

João   – Tá sim, Ana!

Clara  – Ai q lindo!

Pedro – Deixa eu dançar!

Ana    – Pedro, S2

João   – kkkkk

JOÃO VAI DANÇAR AO LADO DO PEDRO.

Clara  – Deixa o Pedro, João!

Ana    – Deixa!

João   – Arrasa, Pedro!

Clara  – KKKKKK

Pedro – Larga de mim, João

Clara  – Ishuaishauishau

Ana    – kkkkk

João   – rsrsrsrs

Pedro – Vai colar na Clara, João!

Ana    – João? Na Clara? Sqn!

João   – A Clara sabe qual é a minha!

A MÚSICA É CORTADA. CLARA SE DESCOLA DO GRUPO. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. FOCO EM CLARA NO PROSCÊNIO.

Clara  – O barulho não abafa

              Eu só quero alegria

              A voz que não é ouvida

              O eco da risada

              Diz, mas não fala nada

              A dor da alma

              Não acalma

              E não tira a calma

              Nem esconde a solidão

A MÚSICA VOLTA. AS MENSAGENS VOLTAM A SER TROCADAS NO TELÃO. CLARA SE JUNTA AO GRUPO.

Pedro – O q foi, Clara?

Clara  – Acho q vou embora.

Ana    – Ah, não!

João   – Clara S2.

Pedro – Ainda é cedo!

Clara  – Fiquei baixo astral!

João   – Vc?

Pedro – KKKKK

Clara  – Ih, não posso ficar mal?

Ana    – Vamos dançar, vem!

ANA PUXA CLARA PARA DANÇAR. JOÃO E PEDRO SE JUNTAM À ELAS.

João   – Amo vcs!

Pedro – Idem!

Clara  – S2

Ana    – S2 tb

Pedro – Vc viu o vídeo, João?

João   – Que vídeo?

Clara  – Maior babado!

Ana    – Aquele?

João   – Quero ver.

Clara  – Vou postar.

Ana    – Posta, não, Clara?

Pedro – Posta, sim!

Ana    – Nada a ver!

João   – Do quê que é?

Clara  – Não tem mais aqui.

Pedro – Deixa que o posto.

Ana    – Não faz isso!

João   – Então me fala.

Pedro – Não tenho aqui!

Ana    – É bobeira, João.

Clara  – Sqn

João   – Fiquei na vontade?

Pedro – Depois te passo.

Ana    – KKK

João   – rs

Clara  – kkkkkkkk

Pedro – rsrsrs

A MÚSICA É CORTADA. JOÃO SE DESCOLA DO GRUPO. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. FOCO EM JOÃO NO PROSCÊNIO.

João   – Olhos vêem muito

              Não enxergam o que vê

              O que importa, não basta

              E a vida se gasta

              Tudo de real, escapa

              A gente anda

              Se cansa

              Caminhando cada vez mais só

A MÚSICA VOLTA. AS MENSAGENS VOLTAM A SER TROCADAS NO TELÃO. JOÃO SE JUNTA AO GRUPO.

Clara  – Sumiu, João?

Pedro – Saiu por quê?

Ana    – Pra mim não sumiu.

João   – Minha conexão caiu.

Clara  – Se a minha cai, eu morro!

Pedro – E eu?

Ana    – Eu é que não morro.

João   – Não?

Clara  – Sqn.

Pedro – kkkkkk

Ana    – Verdade!

João   – Ishuaishuaishua

Ana    – Eu que não morro mesmo!

Clara  – S2

João   – Bjs, bjs, bjs…

Pedro – Hoje em dia, todo mundo morre!

Clara  – Eu morro!

João   – Eu também!

Ana    – Mas, eu não!

Pedro – Sqn.

A MÚSICA É CORTADA. ANA SE DESCOLA DO GRUPO. LUZ CAI EM RESITÊNCIA. FOCO EM ANA NO PROSCÊNIO.

Ana    – Me faltam abraços

              Os laços abraçados

              Que me escutem

              E ouçam o meu coração

              Eu falo por medo

              Mas calo segredos

              Ecos de desespero

              Da minha solidão.

A MÚSICA VOLTA. AS MENSAGENS VOLTAM A SEREM TROCADAS NO TELÃO. ANA SE JUNTA AO GRUPO.

Clara  – Que foi, Ana?

Ana    – Eu vou embora.

Pedro – Eu te levo.

João   – Fico deprê?

Ana    – Preciso ir

Clara  – O q foi?

Pedro – Ainda é cedo!

Ana    – Amanhã eu tenho médico.

Clara  – E daí, eu tb!

João   – Nem me fale, aturar mais uma sessão!

Pedro – Vc tb faz terapia?

Ana    – Faço.

João   – E quem não faz?

Clara  – kkkkkk

Pedro – rsrsrs

Ana    – !!!

João   – Ishauishauishau

Clara  – Hoje todo mundo é pirado!

Ana    – Pirada é vc!

João   – Ishauishauishau

Clara  – kkkkk

Pedro – Então deixa acabar essa música.

Ana    – Tudo bem!

Clara  – Ai a gente vai junto!

Pedro – Ta certo.

João   – Então vamos se jogar na pista!

Clara  – Seus lindos S2

Ana    – linda!

Pedro – S2

OS QUATRO DANÇAM COMO SE O MUNDO FOSSE ACABAR. BLACKOUT.

FOCO NOS QUATRO, NO PROSCÊNIO.

Pedro – Às vezes a rotina me sufoca, é muita pressão, horários, compromissos, chefes, problemas, uma angústia… Olho e não vejo ninguém! Acho que não tenho amigos de verdade. Será que alguém tem? Às vezes faço coisas que não queria, coisas que não gosto, só para não ficar sozinho. Às vezes eu tenho medo. Às vezes eu sinto culpa. Às vezes eu me sinto só!

Clara  – Eu me acho alegre. Eu sou alegre! Não tenho dificuldade para lidar com as pessoas, acho que elas é que tem dificuldades de lidar comigo. Sei que tem gente que me acha maluca. E quem não é? Não sou uma pessoa fácil, eu sei disso. É difícil ter muitos amigos em quem confiar, mas eu tenho alguns. E tenho sempre muitas companhias para os momentos de tristeza.

João   – Não me mostro pra todo mundo. Eu tenho um segredo. Eu gosto de meninos, mas tenho medo de me abrir. Tenho medo de que as pessoas façam chorar. Meus poucos amigos sabem. Uns me provocam, eu não ligo! É claro que eu gosto de alegria, gosto de dançar, mas lá no fundo, me sento muito triste. Acho que tenho vergonha. Não tenho coragem. Às vezes fico tão apavorado que… deixa pra lá!

Ana    – Eu me acho bem sucedida, bem resolvida. Apesar dos meus vinte e poucos anos. sei o que quero para minha vida e, por isso, não brinco com os meus sentimentos. Sou eu que vou sofrer. Não abro a minha guarda pra ninguém. Eu até finjo que deixo, mas na hora h, me fecho e não tem que me tire do meu casulo. Na verdade, tenho muito medo de ficar sozinha!…

Pedro – Tem dias que eu gosto de curtir com as meninas, quero curtir com a galera, sair, cair na bebedeira, farrear, ter muita gente comigo… Não, eu não tenho frustrações, pelo menos elas nunca se manifestarem dentro de mim. O problema é que às vezes, deitado na cama, olhando o teto, nas noites que não se tem o quê fazer, passa tanta bobagem pela cabeça que dá até medo.

Clara  – Na verdade eu gosto mesmo é de ficar rodeada de gente, mas, às vezes eu curto ficar sozinha com os meus pensamentos. Parece estranho, mas isso que eu sinto. Me ajuda a organizar as idéias. Gosto do silêncio da solidão, de não dar satisfações pra ninguém. Odeio que fiquem me dizendo o que devo e que não devo fazer. Tem hora que prefiro mesmo a solidão.

João   – Muitas vezes pensei sair de casa, morar sozinho, viver a minha vida, mas gosto no aconchego da casa dos meus pais, gosto do carinho deles. Não tenho motivos pra isso. Já quis falar para eles sobre mim, mas eles dizem que cada um é o que é. Eu fico confuso. Não sei se eles me aceitam, ou se não. Na verdade queria poder fazer confidências. Mas na verdade sou sozinho.

Ana    – Tenho pensado muito na solidão, embora eu acho que não me sinta muito só. Às vezes. Na verdade, me sinto só todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Eu preciso de gente. Falo sempre da boca pra fora. Sofro calada. Eu preciso falar com as pessoas, preciso ouvir elogios, preciso me sentir amada, mas tenho medo de abrir minha intimidade e me machucar.

Pedro – Tenho procurado equilibrar meus pensamentos, meus sentimentos, buscar pessoas, conversar, até gosto de uma pessoa. Gosto mais do que devia, pois ela não me deixa entrar. Me estimula, me atiça, eu finjo que vou, ela finge que quer, mas fico com medo de sofrer. Acho que não. Não sei se o que sinto por ela é amor. Tenho medo que seja apenas um jeito de fugir de uma possível solidão.

Clara  – Eu vejo meus amigos, acho que eles não têm problemas de solidão. Todo mundo sempre animado. A gente sai, se diverte, conversa o dia todo. Eu é que às vezes prefiro ficar no meu canto. Ando pensado demais na solidão. Não sei se isso é bom, ou se isso é mal. Gosto de pessoas, mas tenho namorado muito com a solidão. Às vezes, isso me assusta. Será que estou ficando maluca? Eu e a solidão? Acho que não!

João   – Sei que as pessoas me olham, uns até me acham esquisito. Tem gente que tem medo de se aproximar de mim. Prefiro que fiquem longe mesmo. Não tenho doença contagiosa! Na verdade, acho que a culpa é minha. Tem dia que caio de cabeça, me jogo numa aventura. Sei que não vai dar em nada, mas tem dia que a solidão parece que quer me engolir. Dá vontade de pular do alto de um prédio, de tirar a vida. Tenho medo da solidão!

Ana    – Tem um carinha que quer ficar comigo, eu também quero ficar com ela, mas não sei, eu tenho medo. Acho que a gente se combina. Talvez eu precise me jogar de cabeça, abrir um pouco a minha intimidade, meus sentimentos, contar meus segredos, escutar os segredos dele. Quem sabe não é isso? Não tenho motivos para tanta angústia. A gente se dá bem, somos independentes. Podemos fugir da solidão. Eu tenho medo da solidão!

Pedro – Não sei, mas acho que estou com medo da solidão.

Clara  – Quem não tem medo da solidão? Eu acho eu não!

João   – Eu tenho sentindo tanto medo da solidão!!

LUZ GERAL. OS QUATROS ANDAM PELO PALCO, OLHARES PERDIDOS.

Pedro – Preciso me declarar de verdade para Ana. Eu sei que gosto dela. Se não der certo, vai ter valido à pena. Mas tenho que falar isso olhando nos olhos dela. Pra ela saber que é verdade.

Clara  – Tenho que conversar mais como os meus amigos. Mas conversa e menos festa. Eles são meus amigos. Temos que conversar olho no olho. Ficar mais juntos. Mostrar o que a gente sente de verdade.

João   – Só tem um jeito de fugir da solidão, conseguir abrigo nos braços das pessoas que gostam da gente de verdade. A gente não precisa ficar com medo de mostrar o que a gente sente. Pior que sofrer por se entregar e viver só, fugindo da solidão.

Ana    – Vou falar com o Pedro que eu gosto de dele. Mas ali, olho no olho. Deixar que ele me abrace e sinta o meu coração batendo acelerado. A gente precisa se dar essa chance. Amor pode até fazer sofrer, mas não mata como a solidão.

OS QUATRO SE COMUNICAM PELOS CELULARES.

Pedro – Ana, quero te ver.

Ana    – Preciso falar contigo

Clara  – Pessoal, amo vocês!

João   – Tenho um segredo pra contar.

Pedro – Qual será o segredo, hein?

João   – Amo vc, seu lindo!

Pedro – Ana, me responde.

Ana    – Depois do trabalho, Pedro.

Clara  – Demorô!

João   – Lindos!!

Pedro – Pedro S2 Ana

Clara  – Agora a coisa pega fogo!

Ana    – Para que eu fico tensa!

OS QUATRO SAEM PELOS MESMOS LUGARES QUE ENTRARAM.

Pedro – S2

João   – Faz brigadeiro, Ana!

Clara  – Mas me chama, hein?

Ana    – Vou comer a lata de leite condensado inteira.

Pedro – Ana, te amo!!

Clara  – Ih, Ana, o babado é forte!

João   – Ah, o amor!…

Ana    – kkkkkk

Clara  – KKKK

João   – ishauisahuisahui

Pedro – rsrsrsrs

Ana    – Pedro, S2

APAGAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

– FIM –


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