Um amor de quatro estações

junho 15, 2018

ROTEIRO DE CURTA METRAGEM

“UM AMOR EM QUATRO ESTAÇÕES”

AUTOR

PAULO SACALDASSY

CENA 1 – SALÃO DE VELÓRIO – INT. DIA.

NO SALÃO, UMA GRANDE CORBELHA COM OS DIZERES: “EU NUNCA TE ESQUECEREI, MEU AMOR! – LUCIANA”. LUCIANA, VESTIDA DE PRETO E ÓCULOS ESCUROS ESTÁ AO LADO DO CAIXÃO DO MARIDO, AMPARADA POR DUAS AMIGAS. ALGUMAS PESSOAS CONVERSAM, ALGUNS RIEM DISCRETAMENTE. LUCIANA CHORA.

LUCIANA

     E Agora? O que eu vou passar da minha vida?

AMIGA 1

     Não pensa nisso agora.

LUCIANA

     Uma vida inteira ao lado dele. Meu amor!

AMIGA 2

     Você precisa ser forte.

AMIGA 1

     O tempo cura.

LUCIANA

     Acho que essa dor nunca vai passar.

O HOMEM SE APROXIMA PARA FECHAR O CAIXÃO. LUCIANA SE DESESPERA E É AMPARADA PELAS AMIGAS. AS PESSOAS ENTRAM NO SALÃO. TODOS REZAM. LUCIANA SE DEITA SOBRE O CAIXÃO.

CENA 2 – RUAS DA CIDADE – EXT. DIA.

SOB UMA CHUVA FINA, DE UM DIA CINZENTO, O CORTEJO LEVANDO O CORPO ARAVESSA A CIDADE ATÉ CHEGAR AO CEMITÉRIO.

CENA 3 – CEMITÉRIO – INT. DIA.

AO LADO DO CARRINHO QUE LEVA O MARIDO, COM A MÃO SOBRE O CAIXÃO, LUCIANA, AMPARADA PELAS AMIGAS, CHORA.

LUCIANA

     Eu te amo, meu amor! Você foi a melhor coisa que me aconteceu! E nunca vou te esquecer.

O CARRINHO COM O CAIXÃO CHEGA NA LÁPIDE. O CAIXÃO É ENTERRADO. LUCIANA JOGA PÉTALAS DE FLORES SOBRE O CAIXÃO. A LÁPIDE É FECHADA. LUCIANA DEIXA O LOCAL AMPARADA PELAS AMIGAS.

LUCIANA

     Agora fiquei só! Sem meu marido, seus os filhos que a gente não pode ter. Sozinha!

AMIGA 1

     A gente vai cuidar de você!

AMIGA 2

     Com o tempo essa dor passa. Você vai ver!

LUCIANA

     Mas dói de mais!

AMIGA 1

     Vai pra casa de praia, descansa um pouco. Vai ser bom pra você.

AMIGA 2

     Se você quiser, vou contigo.

LUCIANA

     Acho que é isso que vou fazer. Preciso sangrar sozinha.

AS TRÊS SEGUEM DE BRAÇOS DADOS ATÉ A SAÍDA DO CEMITÉRIO.

CENA 4 – PRAIA DE UM VILAREJO – EXT. DIA.

RICARDO GUARDA SUAS REDES, SUAS TARRAFAS E SEUS PUÇAS NA PEQUENA EMBARCAÇÃO, A EMPURRA MAR ADENTRO, LIGA O MOTOR, ENTRA E PARTE ATÉ SE PERDER NO HORIZONTE.

CENA 5 – CASA DE PRAIA DE LUCIANA – EXT/INT. DIA.

LUCIANA, VESTIDA DE PRETO, ABRE A PORTA DA FRENTE DA CASA E ENTRA. NO QUARTO, COLOCA A MALA E A BOLSA SOBRE UMA POLTRONA. ABRE AS JANELAS E SE JOGA NA CAMA. ABRAÇA UMAS ALMOFADAS E CHORA.

CENA 6 – BEIRA DO MAR – EXT. DIA.

LUCIANA, COM UMA SAÍDA DE PRAIA ESTÁ NA BEIRA DO MAR. RICARDO CHEGA COM O SEU BARCO. OS DOIS SE OLHAM. LUCIANA ABAIXA A CABEÇA.

RICARDO

     Sube do ocorrido cum seu marido, meus sentimentos!

LUCIANA

Obrigado!

RICARDO

     A senhora que peixe? Tá fresquinho!

LUCIANA

     Hoje não!

RICARDO

     Então tá certo! Quarqué coisa, a sinhora me chama.

RICARDO EMPURRA O BARCO PARA A AREIA. LUCIANA REPARA NOS SEUS MÚSCULOS. RICARDO SORRI PARA LUCIANA. ELA ABAIXA A CABEÇA E ANDA EM DIREÇÃO A ÁGUA.

CENA 7 – VARANDA DA CASA DE PRAIA – EXT. DIA/NOITE.

PASSAGEM DE TEMPO MOSTRANDO AS QUATRO ESTAÇÕES DO ANO. DIA E NOITE. LUCIANA NA VARANDA, ENTRANDO E SAINDO DA CASA. LUCIANA CHORANDO, FELIZ, TRISTE. RICARDO ENTRANDO E VOLTANDO DO MAR. RICARDO OLHANDO LUCIANA, LUCIANA OLHANDO RICARDO. RICARDO TRAZENDO PEIXE PARA LUCIANA. LUCIANA OFERECENDO BOLO PARA RICARDO. RICARDO LHE ENTREGA UMA FLOR. LUCIANA TRISTE. RICARDO ACENANDO AO ENTRAR NO MAR. LUCIANA CHORANDO.

CENA 8 –PRAIA/MAR – EXT. DIA.

LUCIANA ESTÁ MUITO TRISTE, ENTRA NO MAR E AI CADA VEZ MAIS PARA O FUNDO. UMA ONDA A DERRUBA. LUCIANA SE DEBATE EM DESESPERO. RICARDO SE APROXIMA COM O BARCO E SE JOGA NA ÁGUA. RICARDO CARREGA LUCIANA PELOS BRAÇOS ATÉ A AREIA. ELA FAZ RESPIRAÇÃO BOCA A BOCA. LUCIANA ACORDA. RICARDO LHE FAZ CARINHOS NO ROSTO.

CENA 9 – QUARTO DE LUCIANA – INT. NOITE.

NA CAMA, LUCIANA E RICARDO FAZEM AMOR. LUCIANA ESTÁ TOTALMENTE ENTREGUE E FELIZ. DEITA-SE SOBRE O PEITO DE RICARDO APÓS A TRANSA. ELE LHE FAZ CARINHOS.

LUCIANA

     Eu achei que nunca mais seria feliz.

RICARDO

     Eu também!

LUCIANA

     A solidão quase acabou comigo.

RICARDO

     Só não morri por que tinha o mar.

LUCIANA

     Agora você tem a mim e eu tenho você.

LUCIANA SOBE EM CIMA DE RICARDO E COMEÇA A BEIJÁ-LO.

CENA 10 – PRAIA/MAR – EXT.DIA.

LUCIANA, FELIZ, ENTRA NO BARCO DE RICARDO. ELE EMPURRA O BARCO MAR ADENTRO, LIGA O MOTOR E SOBE. LUCIANA DEITA-SE SOBRE AS PERNAS DE RICARDO. O BARCO VAI SE AFASTANDO ATÉ SE PERDER NO HORIZONTE.

– FIM –

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UM HOMEM SEM SORTE

abril 28, 2018

SEQUÊNCIA 1 – SALA DO APARTAMENTO DE CARLOS – INTERIOR – DIA.

NA SALA DE UM APARTAMENTO SIMPLES, COM POUCOS MÓVEIS, ROUPAS ESPALHADAS PELO SOFÁ, REVISTAS JOGADAS SOBRE UMA PEQUENA MESA, CARLOS, 32 ANOS, SOLTEIRO, FANÁTICO POR FUTEBOL, ESTÁ TERMINANDO DE SE ARRUMAR PARA IR ASSISTIR A FINAL DA COPA COM OS AMIGOS. CAMISA VERDE E AMARELA, BANDANA NA CABEÇA, BANDEIRA, CORNETA E TUDO MAIS. DA RUA, VEM BARULHO DE BUZINAS, FOGOS E GRITARIA. CARLOS VAI ATÉ A JANELA DO APARTAMENTO, 12º. ANDAR, COM SUA CORNETA E TAMBÉM DÁ O SEU RECADO. TOCA O TELEFONE.

                          CARLOS

         Alô!… Fala, Chicão! Segura meu lugar na mesa, que

         eu já tô chegando!

                          CHICÃO

                          (OFF)

         Vê se deixa teu azar em casa, hein?

                          CARLOS

         Que azar que nada! Eu tenho, é muita sorte!

CARLOS DESLIGA O TELEFONE, PEGA SEUS APETRECHOS DE TORCEDOR, COLOCA SEU CELULAR NA CINTURA, E SAI.

SEQUÊNCIA 2 – CORREDOR DO PRÉDIO – INTERIOR – DIA.

NO CORREDOR COM POUCO ILUMINAÇÃO, CARLOS AGUARDA O ELEVADOR, ESTÁ EUFÓRICO E VOLTA E MEIA, TOCA A CORNETA RESPONDENDO O BARULHO QUE VEM DA RUA. CARLOS COMEÇA A SENTIR CÓLICAS INTESTINAIS, ELAS VÃO AUMENTANDO. CARLOS SE CONTORCE, NÃO AGUENTA E SAI CORRENDO EM DIREÇÃO AO SEU APARTAMENTO.

                          CARLOS

         Ai, meu Deus!… Segura Carlão, segura!… Ui! Ai!

SEQUÊNCIA 3 – CORREDOR DO PRÉDIO – INTERIOR – DIA.

CARLOS CHEGA APRESSADO EM FRENTE AO ELEVADOR. O BARULHO DA RUA VAI DIMINUINDO. PENDURADO NA PORTA DO ELEVADOR, UM AVISO “EM MANUTENÇÃO”. CARLOS CHUTA A PORTA DO ELEVADOR E SAI EM DISPARADA ESCADA ABAIXO.

                          CARLOS

         É hoje!… Parece que acordei do avesso!

SEQUÊNCIA 4 – ESCADARIA DO PRÉDIO – INTERIOR – DIA.

CARLOS VAI DESCENDO OS DEGRAUS DE DOIS EM DOIS. COM O FONE NO OUVIDO VAI ESCUTANDO O JOGO.

                          CARLOS

         Caramba, já estão cantando o hino nacional! Tô ven-

         do que não vai dar tempo!… Se eu perder esse  jo-

         go, eu me mato!

SEQUÊNCIA 5 – GARAGEM DO PRÉDIO – INTERIOR – DIA.

CARLOS ENTRA NO CARRO E DÁ A PARTIDA. UMA, DUAS, TRÊS VEZES E NADA, O CARRO NÃO FUNCIONA. TÁ NERVOSO. SE DISTRAI COM O JOGO NO FONE DE OUVIDO. FICA TENSO. TENTA DE NOVO LIGAR O CARRO, E NADA. CARLOS BATE A PORTA DO CARRO E PARTE EM DIREÇÃO À RUA.

                          CARLOS

         Parece que me colocaram uma urucubaca hoje! Sai pra

         lá!… Xô!… Ainda bem que todo ônibus  que  passa

         aqui, passa lá no bar!

CARLOS CHEGA NA RUA, ESTÁ DESERTA, PELO FONE DE OUVIDO, CARLOS TORCE E VIBRA COM A SELEÇÃO DESESPERADAMENTE.

SEQUÊNCIA 6 – ÔNIBUS – INTERIOR – DIA.

CARLOS ESTÁ NO ÔNIBUS SOZINHO, APENAS ELE E MOTORISTA. CARLOS ESTÁ TENSO COM O JOGO.

                          MOTORISTA

         E o jogo?

                          CARLOS

         Tá duro!… Tá duro!…

O CELULAR COMEÇA A TER PROBLEMAS COM A SINTONIA. CARLOS DISCUTE COM O CELULAR.

                          CARLOS

         Não faz isso!… Agora, não!… Aí!… Assim!…

CARLOS CONSEGUE ENCONTRAR UMA SINTONIA. CARLOS VIBRA, A SELEÇÃO ESTÁ NO ATAQUE, PARECE QUE VAI SAIR UM GOL. O ÔNIBUS ENTRA EM UM TÚNEL, O CELULAR PERDE A SINTONIA. CARLOS ESBRAVEJA. QUANDO O ÔNIBUS SAI DO TÚNEL, O CELULAR JÁ NÃO FUNCIONA.

                          MOTORISTA

         E aí, rapaz! Saiu gol?

                          CARLOS

         Não sei!  A merda desse celular  parou de  funcionar!

         A bateria foi pro saco!… Ê, urucubaca! Sai!…

O ÔNIBUS VAI PARANDO, PARANDO E PÁRA.

                          MOTORISTA

         Aí, meu rapaz! É melhor você correr, senão vai aca-

         bar perdendo o resto do jogo, porque o ônibus, ó!

CARLOS DESCE DO ÔNIBUS, AINDA ESTÁ UM POUCO LONGE DO BAR ONDE VAI ENCONTRAR OS AMIGOS, UM MISTO DE TENSÃO E NERVOSISMO. A RUA ESTÁ DESERTA, DE REPENTE, CAI UM TEMPORAL, ENCHARCANDO CARLOS POR INTEIRO.

                          CARLOS

         Isso é hora de chover?… Preciso pegar um táxi!

SEQUÊNCIA 7 – TÁXI – INTERIOR – DIA.

UM VELHO DE CARA AMARRADA, SOTAQUE PORTUNHOL, DIRIGE O TÁXI, ENQUANTO CARLOS, ESTÁ LOUCO PARA SABER O RESULTADO DO JOGO.

                          CARLOS

         Será que dava pro senhor colocar no jogo?

                          TAXISTA

         No! No me gosto del futebol

                          CARLOS

         Mas é o Brasil!… É final da Copa do Mundo!

                          TAXISTA

         Jo que me interessa! Despos las pessoas ficam dizen

         do que não há dinheiro! Olha cá, tudo fechado! Don-

         de se viu isso!… Parar um país por causa del  futebol.

         Tomara que perca, aí, jo quero ver!

OUVE-SE UM ESTOURO. CARLOS ACHA QUE É GOL E VIBRA.

                          CARLOS

         É gol!… Põe no rádio pra gente ouvir!…

                          TAXISTA

         Que gol que nada! Isso foi o pneu del carro que fu-

         rou!

                          CARLOS

         Tão conspirando contra mim! Tão conspirando!…

CARLOS DESCE DO CARRO ENFURECIDO, PAGA A CORRIDA E SAI APRES-SADO.

SEQUÊNCIA 8 – RUA – EXTERIOR – DIA.

CARLOS PERCEBE QUE JÁ ESTÁ A DUAS QUADRAS DO BAR E ACELERA O PASSO. PELO SILÊNCIO, ACHA QUE O JOGO ESTÁ EMPATADO.

                           CARLOS

         Agora vou torcer para que fique empate,  assim,  eu

         consigo ver a prorrogação.

CARLOS ACELERA O PASSO, DE NOVO CAI UM TEMPORAL. CARLOS ESTÁ NERVOSO, COMEÇA CORRER PARA CHEGAR O QUANTO ANTES AO BAR. PASSA UM CARRO SOBRE UMA POÇA E JOGA TODA ÁGUA SUJA EM CIMA DE CARLOS, QUE ESBRAVEJA. COMEÇA AUMENTAR O MOVIMENTO NA RUA.

SEQUÊNCIA 09 – BAR – EXTERIOR – ANOITECER.

CARLOS CHEGA AO BAR, TODO MOLHADO E SUJO. O BAR JÁ ESTÁ FECHANDO, APENAS UM GARÇOM DO LADO DE FORA TERMINANDO DE FECHAR AS PORTAS. CARLOS O INTERPELA

                           CARLOS

         O que foi? Tá fechando por quê?… E o jogo?

                           GARÇOM

         (COM SOTAQUE NORDESTINO) Tu tava aonde?  Em  Marte?

         O jogo acabou, o Brasil perdeu! O pessoal foi  tudo

         embora!

                           CARLOS

         Você tá brincando!…

                           GARÇOM

         É verdade!… Foi 4 a 1 pros “cabra”!  Acabou com a

         nossa festa! Tu num viu o pessoal tudo indo de cabe

         ça baixa?Tudo triste?…

CARLOS SENTA-SE NO MEIO FIO, CABISBAIXO, FICA EM SILÊNCIO, DE REPENTE, LEVANTA, JOGA OS SEUS APETRECHOS DE TORCEDOR NO CHÃO E COMEÇA A PULAR EM CIMA DOS OBJETOS E A GRITAR DE RAIVA. DE REPENTE UM LADRÃO SE APROXIMA E ANUNCIA O ASSALTO.

                           LADRÃO

         Passa tudo!…

                         – FIM –


Promessas de casamento

setembro 8, 2017

CENÁRIO: Uma Igreja

Abrem–se as cortinas, no palco, ao centro, um padre, em um dos cantos, o noivo (ansioso). Toca a marcha nupcial. A noiva entra com um vestido branco. Caminha em direção ao noivo. Os dois se colocam em frente ao padre.

Padre – Queridos irmãos, estamos aqui reunidos pela vontade de Deus, para realizarmos o enlace matrimonial deste jovem casal: Giovanna e Gustavo. Agora, pergunto a você, Giovanna e a você, Gustavo, vocês prometem ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, se amando e se respeitando até que a morte os separe?

Giovanna – Não!

Gustavo – Giovanna!?

Padre – Minha filha!

Giovanna – Escuta aqui, seu padre! Essa conversa tá muito démodé! É sempre o mesmo discurso. O mesmo texto batido de todo casamento! Comigo. Não! No meu casamento eu quero outra coisa!

Gustavo – Que isso, Giovanna?

Padre – Mas, minha filha!

Giovanna – Agora, seu padre, você faça o favor de prestar atenção:

Gustavo – Você bebeu, Giovanna?

Padre – Olha aqui, minha filha: vamos andar logo com isso que ainda tenho mais três casamentos depois do seu.

Giovanna – Agora, Gustavo, repete comigo: Prometo não deixar a paixão fazer de mim uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade da minha amada, lembrando sempre que ela não me pertence e que está ao meu lado por livre e espontânea vontade.

Gustavo – O que está acontecendo com você, Giovanna?

Giovanna – Vai, seu padre, pode anotar tudinho aí.

O PADRE SE SERVE DE VINHO E BEBE NUM GOLE SÓ.

Giovanna – Prometo saber ser amigo e ser amante, sabendo exatamente quando devo entrar em cena sem que isso me transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica.

Gustavo – Não acredito. Você deve ter bebido alguma coisa, Giovana!

Padre – Meu, filho, você quer fazer o favor de controlar a sua noiva?

GUSTAVO SACODE GIOVANNA.

Padre – Sem violência, meu filho!

Giovanna – Prometo sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato dela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela. Promete se deixar conhecer.

GUSTAVO SOLTA GIOVANNA.

Gustavo – Tudo bem, Giovanna, se você quer assim, vamos fazer assim, não é seu Padre?

Padre – Eu só quero que isso acabe logo, senão, eu dou um jeito de acabar com isso.

Giovanna – Então, repete comigo, Gustavo: Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?

Gustavo – Prometo!

Giovanna – Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?

Gustavo – Prometo!

Giovanna – Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você? E que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?

Gustavo – Prometo!

Padre – Será que eu posso continuar?

Giovanna – Está acabando, seu padre. Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?

Gustavo – Agora tá bom, Giovanna! Já deu!

Padre – Então, como eu ia dizendo…

Giovanna – Calma, seu padre! Tem mais uma: Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?

Gustavo – Prometo!

Giovanna – Promete que será o mesmo que era minutos antes de entrar na igreja?

Gustavo – Prometo tudo que você quiser, Giovanna. Agora deixa o padre terminar que eu to fritando dentro desta roupa.

Giovanna – Então, agora pode finalizar, seu padre!

Padre – Eu os declaro, marido e mulher. Pode beijar a noiva, meu filho, antes que ela comece de novo.

GUSTAVO BEIJA GIOVANNA.

– FIM –

 


O FAZEDOR DE PIPAS

maio 12, 2017

CENÁRIO: UMA GARAGEM

AO ABRIR AS CORTINAS, VEMOS NO FUNDO DO PALCO, VÁRIAS PIPAS PENDURADAS EM UM VARAL. NO CENTRO DO PALCO, UMA BANCADA, ONDE UM SENHOR FAZ PIPAS. ENTRA UM JOVEM, DE CABEÇA BAIXA, DIGITANDO AO CELULAR.

Neto – Oi, Vô, tudo bom?

Avô   – (LEVANTANDO OS OLHOS) Oi, meu neto! Você não sai desse celular, hein?

O JOVEM DÁ UMA RISADA, ACABA DE DIGITAR E LEVANTA OS OLHOS.

Neto – Caracá, vô! Quanta pipa!! Tu tá vendendo pipa agora, vô?

Avô  – (SEM PARAR O QUÊ ESTÁ FAZENDO) Claro que não! Elas todas são pra você! Fiz cada uma delas para você!

Neto  – Pra mim?

Avô   – É, mas você não veio mais aqui!

Neto  – É que agora tenho outras paradas. Sabe como é, né vô?

Avô   – Eu sei, meu neto! Menino é igual a uma pipa, quando cresce, tem de voar!

O JOVEM MEXE EM CADA UMA DAS PIPAS PENDURADAS NO VARAL.

Neto – Lembra, vô, como eu ficava vidrado vendo tu fazendo as pipas? Nunca consegui fazer uma, né? Só estragava tudo!

Avô   – Não quer tentar de novo?

Neto – Eu não! Não tenho como competidor com o maior fazedor de pipas do mundo.

Avô   – Todo mundo sabe fazer uma pipa!

Neto  – Pode até saber, mas ninguém é melhor do que meu avô.

O JOVEM VAI ATÉ A BANCADA E ABRAÇA O AVÔ, QUE SEM PARAR O QUÊ ESTÁ FAZENDO, APENAS SORRI.

Neto – Caracá, vô, ver essas pipas todas pendradas me deu uma saudade! Lembra quando tu me levava para soltar pipas? Nunca esqueci disso! Era muito bom!

Avô   – E você acha que eu esqueci?

O AVÔ TERMINA A PIPA E A MOSTRA PARA O NETO.

Avô  – E então, ficou bonita esta?

Neto – Ficou! Todas são lindas! Queria saber fazer pipas como você, vô!

O AVÔ VAI ATÉ O FUNDO DO PALCO E A PENDURA JUNTO COM AS OUTRAS NO VARAL

Neto – Vô, me deu uma vontade de soltar pipa. Posso pegar uma?

Avô  – A que você quiser! Elas são tuas, meu neto!

O JOVEM ESCOLHE UMA DAS PIPAS E A RETIRADA DO VARAL.

Neto – Vou levar essa. Vamos comigo, vô? Não sei se ainda sei soltar uma pipa!!

Avô  – Claro, meu neto! Tenho certeza que você ainda sabe!

Neto – Eu já disse que te amo, vô?

Avô  – Já me disse sim! Logo quando chegou! Não lembra? Depois eu é que sou velho!!

Neto – Então vamos, vô! Vamos voar!!

O JOVEM SAI DE CENA FAZENDO QUE EMPINA A PIPA.

Avô  – E a linha, meu neto? Tem de levar a linha, senão a pipa não voa!

O AVÔ SAI DE CENA LEVANDO O CARRETEL DE LINHA. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. FECHAM-SE AS CORTINAS .

                                                                                                                            – FIM –


O ATAQUE ALIENÍGENA

março 24, 2017

CENÁRIO: UMA PRAÇA

SENTADO EM UM BANCO, UM HOMEM MEXE EM UM CELULAR. ENTRAM EM CENA DOIS MARCIANOS, PORTANDO UMA ARMA ESQUISITA. UM DE CADA LADO.

Marciano1     – Não se mexa!

Marciano2     – Se você se mexer, vou congelar você!

O HOMEM SE LEVANTA DO BANCO

Homem       – Calma aí, rapaziada! Sem violência!

Marciano1   – Largue essa arma!

Homem       – Pô, chefia, não é arma, não! Acabe de pegá essa parada agora. Não é de última geração. Tava tentando desbloquear. Mas pega aí!

Marciano 2    – Não faça nenhum movimento!

O HOMEM SE SENTA NO BANCO. OS MARCIANOS SE APROXIMAM. UM DE CADA LADO.

Homem          – Fantasia da hora, hein?

Marciano1     – Não estamos fantasiados.

Marciano2     – Nós somos marcianos e vamos conquistar esse lugar.

Marciano 1    – Me leve até o seu líder!

Marciano 2    – Vamos! Ande logo!

Homem          – Olha só, rapaziada, eu não tenho essa parada de líder, não! Eu trabalho por conta própria mesmo!

Marciano 1    – Como você não tem um líder?

O HOMEM SE LEVANTA DO BANCO.

Homem          – Ó, até fiz parte de uma quadrilha aí, mas o chefe caiu em cana e a rapaziada se separou. Sabe como é, né, chefia? A gente tem que garantir o leitinho das crianças.

Marciano 2    – (PARA MARCIANO 1) Acho que ele não está entendendo o que estamos falando.

Marciano1     – Mas aprendemos tudo!

Marciano2     – De repente eles falam algum dialeto que não aprendemos.

Marciano 1    – Você está entendendo?

Homem          – Total, rapaziada! Vocês são os marcianos, pá! Querem conquistar, pá!…

OS MARCIANOS APONTAM AS ARMAS PARA O HOMEM.

Marciano 1    – Então nos leve até o seu líder!

Marciano 2    – Vamos! Não temos o dia todo!

Homem          – Então, rapaziada, não vou poder ajudar vocês. Já falei que não tenho mais essa parada de líder, não!

O MARCIANO 1 AMEAÇA ATIRAR.

Homem          – Calma aí, chefia! Sem violência! Sem violência!

Marciano 2    – Queremos falar com o seu líder agora!

Homem          – O Zarolha tá preso… Deixa eu vê como posso ajudar vocês…

O HOMEM SE SENTA NO BANCO. OS MARCIANOS CONVERSAM ENTRE SI.

Marciano 1    – Não é possível que este lugar não tenha um líder.

Marciano 2    – Mas nós vimos que cada país neste planeta, tem um líder.

Marciano 1    – Como é que eles chamam o líder deles aqui, mesmo?

Marciano 2    – Acho que é… Sem dentes!

Marciano 1    – Não! É… Ao dente!

O HOMEM SE LEVANTA.

Marciano2     – Escrevente!

Homem          – Olha aqui, rapaziada!

Marciano 1    – Presidente!

Marciano 2    – Isso mesmo! Presidente!

Homem          – Ô, seu dois esquisitos, dá pra olhá pra mim?

Marciano 1    – Nos leve agora até o seu líder Presidente!

Homem          – Presidente?

Marciano 2    – Isso! O presidente deste país!

Marciano 1    – Ele não é seu líder?

Homem          – Ih, rapaziada isso eu não sei, viu?

Marciano 1    – Como não sabe?

Marciano 2    – Ele não é seu líder?

Homem          – Rapaziada, aqui tá uma confusão danada, viu? Tem gente que acha que é, mas a maioria acha que não é. Tem gente que fala que tem uma história de golpe na parada. Não sei, não! Aí é com vocês, mano!

Marciano 1    – (PARA MARCIANO 2) Que maravilha!

Marciano2     – Então vai ser mais fácil que a gente achava.

Marciano1     – Vamos dominar esse país!

Marciano2     – Esse país agora é nosso!

Homem          – Ih, mano, chegaram atrasados, rapaziada! Os americano já domina aqui! Ó, e um tempão, viu?

Marciano1     – Quem são esses americanos.

Marciano2     – De que planeta?

Homem          – Ih, eles moram lá nos Estaites!

Marciano2     – Estaites?

Homem          – Outro país!

Marciano1     – E quer dizer que eles já invadiram esse país?

Homem          – Ih, rapaziada, eles dominam quase o mundo todo.

Marciano2     – Dominam o mundo?

Homem          – Os cara são poderoso! Mexeu com eles, eles logo faz guerra.

OS DOIS MARCIANOS SE SENTAM NO BANCO E LARGAM SUAS ARMAS.

OS MARCIANOS CONVERSAM ENTRE SI.

Marciano1     – O que você acha?

Marciano2     – Acho que esse país aqui não vale nada.

Marciano1     – Então, vamos atacar os americanos?

Marciano2     – Vamos atacar os americanos!

O HOMEM VAI POR TRÁS DO BANCO E PEGA AS ARMAS DOS MARCIANOS.

Homem          – Perdeu, rapaziada! Quietinho senão eu atiro!

OS DOIS MARCIANOS SE LEVANTAM DO BANCO.

Marciano1     – Cuidado com isso, rapaz!

Marciano2     – Você não sabe usar isso!

Homem          – Vamô Pará de caô e me leva logo até o líder de vocês.

OS TRÊS VÃO SAINDO DE CENA COM O HOMEM APONTANDO AS ARMAR PARA OS MARCIANOS.

Homem          – Agora quero vê quem não vai me respeitá! Vou roubá agora noutro planeta! Ah, moleque!… Andando!… Andando!…

OS TRÊS SAEM DE CENA. FECHAM-SE AS CORTINAS.

– FIM –

 


E O AMANHÃ?!

maio 6, 2016

CENÁRIO: ESCOMBROS DE UM PRÉDIO.

AO ABRIR AS CORTINAS, UMA MULHER GRÁVIDA TEM A PERNA PRESA POR PARTES DOS ESCOMBROS.

Mulher           – Alguém ajuda, por favor! Eu não pedi essa guerra!!… Eu vou sair daqui!

A MULHER TENTA SE LIVRAR DOS ESCOMBROS.

Mulher           – Ajude, meu Deus! Eu não estou aguentando mais! Preciso salvar essa minha criança. Ela é a única coisa que me sobrou depois de tudo. Socorro!… Socorro!… Tem alguém por aí?… Socorro!… (ELA PRA. ESTÁ EXAUSTA) Fome!… Sede!… Medo!…

A MULHER DESMAIA. ENTRA UM HOMEM BASTANTE FERIDO.

Homem          – Tem alguém ali embaixo.

O HOMEM, COM DIFICULDADES, CHEGA ATÉ OS ESCOMBROS.

Homem          – Moça!… Moça!…

O HOMEM MOLHA A MÃO COM SUA SALIVA E PASSA NA BOCA DA MULHER, QUE PASSA A LÍNGUA SOBRE SEUS LÁBIOS.

Homem          – Moça, você está bem?

A MULHER ABRE OS OLHOS.

Mulher           – Não me mate!

Homem          – Não vou lhe matar!

Mulher           – Eu não tenho culpa da guerra.

Homem          – Eu também não!

Mulher           – Eu preciso salvar meu filho!

Homem          – Cadê seu filho?

Mulher           – Tá aqui comigo!

Homem          – Minha nossa! Você tá grávida!

Mulher           – Socorro, moço, socorro!

Homem          – Vou te ajudar a sair daí.

Mulher           – Fome!… Sede!…

Homem          – Fica calma! Vou tentar tirar isso de cima de você.

O HOMEM, COM DIFICULDADE, CONSEGUE TIRAR UM PEDAÇO DOS ESCOMBROS QUE ESTAVAM PRENDENDO A PERNA DA MULHER.

Homem          – Deixa eu te ajudar a levantar.

Mullher          – Eu não consigo! Estou muito fraca. Minha barriga está doendo muito!

Homem          – De quanto tempo você tá?

Mulher           – Três meses!

Homem          – Quanto tempo você tá aqui?

Mulher           – Não sei, moço!

Homem          – Você tá muito fraca!

Mulher           – Moço, tô com fome!… Tô com sede!…

Homem          – Aqui não tem comida, a água que estava escorrendo pelas fendas, secou… Eu tô há dias procurando uma saída.

O HOMEM TIRA DO BOLSO UM PEDAÇO DE PÃO E DÁ PRA MULHER, QUE COME DESESPERADA.

Mulher           – O que vai ser de nós, moço? O que vai ser?

Homem          – Fique calma!

A MULHER TENTA SE LEVANTAR, MAS CAI.

Homem          – Não faz isso, moça! Seu bebê!

A MULHER SE ESTIRA NO CHÃO.

Mulher           – Socorro! Socorro! Eu quero sair daqui!

Homem          – Olha só, moça! Atrás de onde estava você tem uma luz! Pode ser a saída!

O HOMEM COMEÇA A TIRAR OS ESCOMBROS COM DIFICULDADES. A MULHER, DE JOELHOS, TENTA AJUDÁ-LO.

Homem          – Não faça esforço! Deixa que eu consigo!

Mulher           – É pela liberdade do meu filho!

Homem          – Mas você está fraca!

Mulher           – Você também!

Homem          – Mas eu sou homem!

Muher             – E eu sou mulher!

Homem          – Eu só quero te proteger!

Muher             – Eu só quero salvar meu filho!

NA MEDIDA EM QUE VÃO SE POSICIONANDO, VÃO RETIRANDO OS ESCOMBROS.

Homem          – É por isso mesmo!

Mulher           – Eu quero ajudar!

Homem          – Você acha que guenta?

Mulher           – Nem que seja a última coisa que eu faça!

Homem          – Você tem coragem!

Mulher           – Você também!

Homem          – A gente vai conseguir!

Mulher           – Tenho certeza que sim!

DIANTE DELES SURGE UM GRANDE CLARÃO.

Mulher           – Conseguimos! Obrigado, meu Deus!

Homem          – Eu não acredito!

OS DOIS SE ABRAÇAM E VÃO DESCENDO, ABRAÇAÇADOS. FAZEM CARINHO NO ROSTO, UM NO OUTRO.

Mulher           – Você salvou a vida do meu filho!

Homem          – A gente se salvou!

Mulher           – Não sei de onde tirei tanta força!

Homem          – A gente só sabe a força que tem quando precisa dela.

Mulher           – Você foi forte!

Homem          – Nós fomos!

Mulher           – Maldita guerra!

Homem          – Malditos os homens que se preocupam em fazer a guerra!

Os Dois         – Malditos!

OS DOIS SE ENCARAM, OLHO NO OLHO. A MULHER SE DEITA SOBRE O COLO DO HOMEM. SEGURA A BARRIGA.

Homem          – Que foi?

Mulher           – Dor… Muita dor!

Homem          – Preciso te levar prum hospital.

Mulher           – Não sei se ainda vou resistir!

Homem          – Claro que vai!

Mulher           – Meu filho não vai resistir!

Homem          – Guenta! Você foi forte até agora.

Mulher           – Meu filho não vai resistir!

Homem          – Então espera que eu vou buscar ajuda!

Mulher           – Obrigado por me ajudar a sair.

Homem          – Guenta firme!

O HOMEM DEITA A MULHER SOBRE O CHÃO E SE LEVANTA.

Mulher           – Não precisa mais, moço!

Homem          – Agora, mais do que nunca!

Mulher           – Meu filho não resistiu!

A MULHER TEM A ROUPA MANCHADA DE SANGUE. O HOMEM SE COLOCA NO CHÃO E COLOCA A MULHER SOBRE O SEU COLO.

Mulher           – (CHORANDO) E agora, moço? Como vai ser meu amanhã?

Homem          – O amanhã é sempre uma nova história!

O HOMEM FAZ CARINHO NOS CABELOS DA MULHER. A LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. SONS DE SIRENES E SONS DE BOMBAS SE INTERCALAM.

– FIM –


A ACAREAÇÃO

outubro 16, 2015

CENÁRIO: SALA DE AUDIÊNCIA.

NA CABECEIRA DA MESA, O JUIZ; DE UM LADO, APENAS UMA MULHER DO OUTRO, UM HOMEM E UMA MULHER.

Juiz    – Estamos aqui para darmos andamento ao processo de acareação entre os réus e esclarecer às divergências apuradas durante todo o processo de investigação sobre o desvio de verbas em operações com o governo federal, bem como o envio de remessa de dinheiro irregularmente para o exterior. Dona Maria das Dores, no seu depoimento, a senhora afirmou não saber de nada. O que mais a senhora tem a dizer?

Maria  – Olha, senhor juiz, eu não sei nem porque eu to aqui, visse? Eu moro na Favela da Formiga da Bunda Grande, tenho seis filhos e trabalhava de empregada doméstica na casa do Seu Pedro e da Dona Helena há cinco anos até que…

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Protesto, Meritíssimo!!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher  – Não conhecemos essa mulher!

Maria  – Vixe! Como não? Ô, seu Pedro! Ô, dona Helena!… Sou eu, a Maria!

Juiz    – Os dois se manifestem apenas quando forem perguntados.

Homem – Perdão, Meritíssimo!

OS DOIS SENTAM.

Maria  – Mas, seu juiz, eu trabalhava pra eles!

Juiz    – Prossiga.

Maria  – Cês não lembra, não? Trabalhei até a polícia chegar e levar nós tudo! Foi assim, seu juiz: De repente a polícia baixou na casa deles, levo tudo, computador e até eu. Seu Pedro e dona Helena, se trancaram no quartinho dos fundos da casa e pediram pr’eu dizer que eles num tavam. Mas a polícia arrevirou tudo e acabou achando os dois escondidos. Aí, nós tudo fomos parar na delegacia. Cês alembram agora?

O HOMEM SE LEVANTA DE NOVO.

Juiz    – Queira se sentar?

O HOMEM SENTA.

Juiz    – Isso nós já sabemos, dona Maria. Precisamos de outros detalhes. E a empresa? A empresa que está em seu nome é de quem? A senhora assinou esses documentos? Ou falsificaram sua assinatura?

Maria  – Olha só, seu juiz: O negócio da firma foi o seguinte: Um dia, seu Pedro chegou em casa mais cedo… Dona Helena tinha ido pra casa de praia com as crianças. Seu Pedro chegou, começou a me acariciar… Eu até tentei escapar, mas vou dizê um negócio pro senhor, seu juiz. Sempre achei seu Pedro um tesão!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – Pedro Henrique!

Homem – Tudo mentira, Helena!

Juiz – A senhora queira se sentar, por favor?

Homem – Senta, Helena.

A MULHER SENTA.

Juiz – Prossiga, Dona Maria.

Maria – Eu não resiste, doutô! Ele me deu champanha, me beijou todinha me levou pra cama e creu! Aì que delícia!

Juiz – Sem muitos detalhes, dona Maria.

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Isso é mentira, Meritíssimo!

Juiz    – Sente!

Maria  – É verdade, doutô! Seu Pedro me deu um suador de louco! Aí, seu juiz, depois daquilo, se ele me pedisse para morrê, eu me matava. Foi assim que assinei toda aquela papelada que ele jogou na cama.

Homem – É mentira! É mentira!

A MULHER SE LEVANTA E DÁ UM TAPA NO ROSTO DO HOMEM.

Mulher – Seu safado! Eu mato você!

Homem – Olha aí, Meritíssimo, ela está me ameaçando.

Juiz – Os dois, sentados. Agora!

OS DOIS SENTAM.

Juiz – Então a senhora sabia da empresa?

Maria – Não, seu juiz. Eu só assinei aqueles papéis. Nem sabia pra quê que era! Nem o que era.

Mulher – (PARA O MARIDO) Você me paga, Pedro Henrique!

Homem – (PARA A MULHER) Essa mulher ta maluca, Helena!

Juiz – Sem conversas paralelas. Pois, bem Dona Maria. A senhora nunca movimentou a empresa, certo? E as contas nos bancos?

Maria – Ih, seu juiz, não tenho conta no banco, não. Seu Pedro e Dona Helena sempre me pagaram em dinheiro vivo.

Juiz – E os dólares?

Maria – Dona Helena escondia no cofre.

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – Mentira, Meritíssimo!

Juiz – Sente!

A MULHER SENTA.

Maria – De vez em quando ela pegava um pouquinho no cofre pra pagar os meninos que iam deitar com ela. Eu sempre achei uma injustiça com o seu Pedro. Tão bonito! Por que dona Helena passava as tardes com uns meninos no quarto? Eram uns três por tarde.

O HOMEM SE LEVANTA E ARRANCA A MULHER DA CADEIRA.

Homem – Sua vagabunda!!

O HOMEM LHE DÁ UM TAPA E A EMPURRA NO CHÃO.

Mulher – Seu corno!

Homem – Sua vaca!

A MARIA SE LEVANTA.

Maria – Eita! Como eles se amam!

Juiz – Parem com isso. Os dois se comportem!

Maria  – Se amavam tanto!!

OS DOIS SE XINGAM. O JUIZ SE LEVANTA, PEGA OS DOIS PELOS BRAÇOS E OS LEVA PARA FORA.

Juiz    – Guarda! Pode recolher esses dois!   

O JUIZ VOLTA E SE SENTA EM SEU LUGAR.

Juiz    – Bem, Dona Maria das Dores, suas informações foram muito importante e deixou tudo muito claro. Diante de tudo que presenciei e do que a senhora relatou nessa sala, posso afirmar que a senhora é inocente e foi usada por aqueles dois malfeitores, que fizeram uso de sua confiança para dar golpes. Vou expedir imediatamente o seu alvará de soltura. A senhora está livre.

Maria – Aff!! Graças a Deus! Posso ir mesmo, senhor juiz?

Juiz – Claro que sim!

Maria – Posso fazer uma ligação?

Juiz – Não se demore!

O JUIZ ARRUMA OS SEUS PAPÉIS E SAI DE CENA. MARIA PEGA O CELULAR.

Maria – ((ENQUANTO SAI) Zé, tudo resolvido! Acabei com aqueles dois safados que queriam passar a perna em nós! Agora é tudo nosso! Pode arrumá as malas que amanhã nos ta é na Suíça! Beijos.

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           – FIM –


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