O FAZEDOR DE PIPAS

maio 12, 2017

CENÁRIO: UMA GARAGEM

AO ABRIR AS CORTINAS, VEMOS NO FUNDO DO PALCO, VÁRIAS PIPAS PENDURADAS EM UM VARAL. NO CENTRO DO PALCO, UMA BANCADA, ONDE UM SENHOR FAZ PIPAS. ENTRA UM JOVEM, DE CABEÇA BAIXA, DIGITANDO AO CELULAR.

Neto – Oi, Vô, tudo bom?

Avô   – (LEVANTANDO OS OLHOS) Oi, meu neto! Você não sai desse celular, hein?

O JOVEM DÁ UMA RISADA, ACABA DE DIGITAR E LEVANTA OS OLHOS.

Neto – Caracá, vô! Quanta pipa!! Tu tá vendendo pipa agora, vô?

Avô  – (SEM PARAR O QUÊ ESTÁ FAZENDO) Claro que não! Elas todas são pra você! Fiz cada uma delas para você!

Neto  – Pra mim?

Avô   – É, mas você não veio mais aqui!

Neto  – É que agora tenho outras paradas. Sabe como é, né vô?

Avô   – Eu sei, meu neto! Menino é igual a uma pipa, quando cresce, tem de voar!

O JOVEM MEXE EM CADA UMA DAS PIPAS PENDURADAS NO VARAL.

Neto – Lembra, vô, como eu ficava vidrado vendo tu fazendo as pipas? Nunca consegui fazer uma, né? Só estragava tudo!

Avô   – Não quer tentar de novo?

Neto – Eu não! Não tenho como competidor com o maior fazedor de pipas do mundo.

Avô   – Todo mundo sabe fazer uma pipa!

Neto  – Pode até saber, mas ninguém é melhor do que meu avô.

O JOVEM VAI ATÉ A BANCADA E ABRAÇA O AVÔ, QUE SEM PARAR O QUÊ ESTÁ FAZENDO, APENAS SORRI.

Neto – Caracá, vô, ver essas pipas todas pendradas me deu uma saudade! Lembra quando tu me levava para soltar pipas? Nunca esqueci disso! Era muito bom!

Avô   – E você acha que eu esqueci?

O AVÔ TERMINA A PIPA E A MOSTRA PARA O NETO.

Avô  – E então, ficou bonita esta?

Neto – Ficou! Todas são lindas! Queria saber fazer pipas como você, vô!

O AVÔ VAI ATÉ O FUNDO DO PALCO E A PENDURA JUNTO COM AS OUTRAS NO VARAL

Neto – Vô, me deu uma vontade de soltar pipa. Posso pegar uma?

Avô  – A que você quiser! Elas são tuas, meu neto!

O JOVEM ESCOLHE UMA DAS PIPAS E A RETIRADA DO VARAL.

Neto – Vou levar essa. Vamos comigo, vô? Não sei se ainda sei soltar uma pipa!!

Avô  – Claro, meu neto! Tenho certeza que você ainda sabe!

Neto – Eu já disse que te amo, vô?

Avô  – Já me disse sim! Logo quando chegou! Não lembra? Depois eu é que sou velho!!

Neto – Então vamos, vô! Vamos voar!!

O JOVEM SAI DE CENA FAZENDO QUE EMPINA A PIPA.

Avô  – E a linha, meu neto? Tem de levar a linha, senão a pipa não voa!

O AVÔ SAI DE CENA LEVANDO O CARRETEL DE LINHA. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. FECHAM-SE AS CORTINAS .

                                                                                                                            – FIM –


O ATAQUE ALIENÍGENA

março 24, 2017

CENÁRIO: UMA PRAÇA

SENTADO EM UM BANCO, UM HOMEM MEXE EM UM CELULAR. ENTRAM EM CENA DOIS MARCIANOS, PORTANDO UMA ARMA ESQUISITA. UM DE CADA LADO.

Marciano1     – Não se mexa!

Marciano2     – Se você se mexer, vou congelar você!

O HOMEM SE LEVANTA DO BANCO

Homem       – Calma aí, rapaziada! Sem violência!

Marciano1   – Largue essa arma!

Homem       – Pô, chefia, não é arma, não! Acabe de pegá essa parada agora. Não é de última geração. Tava tentando desbloquear. Mas pega aí!

Marciano 2    – Não faça nenhum movimento!

O HOMEM SE SENTA NO BANCO. OS MARCIANOS SE APROXIMAM. UM DE CADA LADO.

Homem          – Fantasia da hora, hein?

Marciano1     – Não estamos fantasiados.

Marciano2     – Nós somos marcianos e vamos conquistar esse lugar.

Marciano 1    – Me leve até o seu líder!

Marciano 2    – Vamos! Ande logo!

Homem          – Olha só, rapaziada, eu não tenho essa parada de líder, não! Eu trabalho por conta própria mesmo!

Marciano 1    – Como você não tem um líder?

O HOMEM SE LEVANTA DO BANCO.

Homem          – Ó, até fiz parte de uma quadrilha aí, mas o chefe caiu em cana e a rapaziada se separou. Sabe como é, né, chefia? A gente tem que garantir o leitinho das crianças.

Marciano 2    – (PARA MARCIANO 1) Acho que ele não está entendendo o que estamos falando.

Marciano1     – Mas aprendemos tudo!

Marciano2     – De repente eles falam algum dialeto que não aprendemos.

Marciano 1    – Você está entendendo?

Homem          – Total, rapaziada! Vocês são os marcianos, pá! Querem conquistar, pá!…

OS MARCIANOS APONTAM AS ARMAS PARA O HOMEM.

Marciano 1    – Então nos leve até o seu líder!

Marciano 2    – Vamos! Não temos o dia todo!

Homem          – Então, rapaziada, não vou poder ajudar vocês. Já falei que não tenho mais essa parada de líder, não!

O MARCIANO 1 AMEAÇA ATIRAR.

Homem          – Calma aí, chefia! Sem violência! Sem violência!

Marciano 2    – Queremos falar com o seu líder agora!

Homem          – O Zarolha tá preso… Deixa eu vê como posso ajudar vocês…

O HOMEM SE SENTA NO BANCO. OS MARCIANOS CONVERSAM ENTRE SI.

Marciano 1    – Não é possível que este lugar não tenha um líder.

Marciano 2    – Mas nós vimos que cada país neste planeta, tem um líder.

Marciano 1    – Como é que eles chamam o líder deles aqui, mesmo?

Marciano 2    – Acho que é… Sem dentes!

Marciano 1    – Não! É… Ao dente!

O HOMEM SE LEVANTA.

Marciano2     – Escrevente!

Homem          – Olha aqui, rapaziada!

Marciano 1    – Presidente!

Marciano 2    – Isso mesmo! Presidente!

Homem          – Ô, seu dois esquisitos, dá pra olhá pra mim?

Marciano 1    – Nos leve agora até o seu líder Presidente!

Homem          – Presidente?

Marciano 2    – Isso! O presidente deste país!

Marciano 1    – Ele não é seu líder?

Homem          – Ih, rapaziada isso eu não sei, viu?

Marciano 1    – Como não sabe?

Marciano 2    – Ele não é seu líder?

Homem          – Rapaziada, aqui tá uma confusão danada, viu? Tem gente que acha que é, mas a maioria acha que não é. Tem gente que fala que tem uma história de golpe na parada. Não sei, não! Aí é com vocês, mano!

Marciano 1    – (PARA MARCIANO 2) Que maravilha!

Marciano2     – Então vai ser mais fácil que a gente achava.

Marciano1     – Vamos dominar esse país!

Marciano2     – Esse país agora é nosso!

Homem          – Ih, mano, chegaram atrasados, rapaziada! Os americano já domina aqui! Ó, e um tempão, viu?

Marciano1     – Quem são esses americanos.

Marciano2     – De que planeta?

Homem          – Ih, eles moram lá nos Estaites!

Marciano2     – Estaites?

Homem          – Outro país!

Marciano1     – E quer dizer que eles já invadiram esse país?

Homem          – Ih, rapaziada, eles dominam quase o mundo todo.

Marciano2     – Dominam o mundo?

Homem          – Os cara são poderoso! Mexeu com eles, eles logo faz guerra.

OS DOIS MARCIANOS SE SENTAM NO BANCO E LARGAM SUAS ARMAS.

OS MARCIANOS CONVERSAM ENTRE SI.

Marciano1     – O que você acha?

Marciano2     – Acho que esse país aqui não vale nada.

Marciano1     – Então, vamos atacar os americanos?

Marciano2     – Vamos atacar os americanos!

O HOMEM VAI POR TRÁS DO BANCO E PEGA AS ARMAS DOS MARCIANOS.

Homem          – Perdeu, rapaziada! Quietinho senão eu atiro!

OS DOIS MARCIANOS SE LEVANTAM DO BANCO.

Marciano1     – Cuidado com isso, rapaz!

Marciano2     – Você não sabe usar isso!

Homem          – Vamô Pará de caô e me leva logo até o líder de vocês.

OS TRÊS VÃO SAINDO DE CENA COM O HOMEM APONTANDO AS ARMAR PARA OS MARCIANOS.

Homem          – Agora quero vê quem não vai me respeitá! Vou roubá agora noutro planeta! Ah, moleque!… Andando!… Andando!…

OS TRÊS SAEM DE CENA. FECHAM-SE AS CORTINAS.

– FIM –

 


E O AMANHÃ?!

maio 6, 2016

CENÁRIO: ESCOMBROS DE UM PRÉDIO.

AO ABRIR AS CORTINAS, UMA MULHER GRÁVIDA TEM A PERNA PRESA POR PARTES DOS ESCOMBROS.

Mulher           – Alguém ajuda, por favor! Eu não pedi essa guerra!!… Eu vou sair daqui!

A MULHER TENTA SE LIVRAR DOS ESCOMBROS.

Mulher           – Ajude, meu Deus! Eu não estou aguentando mais! Preciso salvar essa minha criança. Ela é a única coisa que me sobrou depois de tudo. Socorro!… Socorro!… Tem alguém por aí?… Socorro!… (ELA PRA. ESTÁ EXAUSTA) Fome!… Sede!… Medo!…

A MULHER DESMAIA. ENTRA UM HOMEM BASTANTE FERIDO.

Homem          – Tem alguém ali embaixo.

O HOMEM, COM DIFICULDADES, CHEGA ATÉ OS ESCOMBROS.

Homem          – Moça!… Moça!…

O HOMEM MOLHA A MÃO COM SUA SALIVA E PASSA NA BOCA DA MULHER, QUE PASSA A LÍNGUA SOBRE SEUS LÁBIOS.

Homem          – Moça, você está bem?

A MULHER ABRE OS OLHOS.

Mulher           – Não me mate!

Homem          – Não vou lhe matar!

Mulher           – Eu não tenho culpa da guerra.

Homem          – Eu também não!

Mulher           – Eu preciso salvar meu filho!

Homem          – Cadê seu filho?

Mulher           – Tá aqui comigo!

Homem          – Minha nossa! Você tá grávida!

Mulher           – Socorro, moço, socorro!

Homem          – Vou te ajudar a sair daí.

Mulher           – Fome!… Sede!…

Homem          – Fica calma! Vou tentar tirar isso de cima de você.

O HOMEM, COM DIFICULDADE, CONSEGUE TIRAR UM PEDAÇO DOS ESCOMBROS QUE ESTAVAM PRENDENDO A PERNA DA MULHER.

Homem          – Deixa eu te ajudar a levantar.

Mullher          – Eu não consigo! Estou muito fraca. Minha barriga está doendo muito!

Homem          – De quanto tempo você tá?

Mulher           – Três meses!

Homem          – Quanto tempo você tá aqui?

Mulher           – Não sei, moço!

Homem          – Você tá muito fraca!

Mulher           – Moço, tô com fome!… Tô com sede!…

Homem          – Aqui não tem comida, a água que estava escorrendo pelas fendas, secou… Eu tô há dias procurando uma saída.

O HOMEM TIRA DO BOLSO UM PEDAÇO DE PÃO E DÁ PRA MULHER, QUE COME DESESPERADA.

Mulher           – O que vai ser de nós, moço? O que vai ser?

Homem          – Fique calma!

A MULHER TENTA SE LEVANTAR, MAS CAI.

Homem          – Não faz isso, moça! Seu bebê!

A MULHER SE ESTIRA NO CHÃO.

Mulher           – Socorro! Socorro! Eu quero sair daqui!

Homem          – Olha só, moça! Atrás de onde estava você tem uma luz! Pode ser a saída!

O HOMEM COMEÇA A TIRAR OS ESCOMBROS COM DIFICULDADES. A MULHER, DE JOELHOS, TENTA AJUDÁ-LO.

Homem          – Não faça esforço! Deixa que eu consigo!

Mulher           – É pela liberdade do meu filho!

Homem          – Mas você está fraca!

Mulher           – Você também!

Homem          – Mas eu sou homem!

Muher             – E eu sou mulher!

Homem          – Eu só quero te proteger!

Muher             – Eu só quero salvar meu filho!

NA MEDIDA EM QUE VÃO SE POSICIONANDO, VÃO RETIRANDO OS ESCOMBROS.

Homem          – É por isso mesmo!

Mulher           – Eu quero ajudar!

Homem          – Você acha que guenta?

Mulher           – Nem que seja a última coisa que eu faça!

Homem          – Você tem coragem!

Mulher           – Você também!

Homem          – A gente vai conseguir!

Mulher           – Tenho certeza que sim!

DIANTE DELES SURGE UM GRANDE CLARÃO.

Mulher           – Conseguimos! Obrigado, meu Deus!

Homem          – Eu não acredito!

OS DOIS SE ABRAÇAM E VÃO DESCENDO, ABRAÇAÇADOS. FAZEM CARINHO NO ROSTO, UM NO OUTRO.

Mulher           – Você salvou a vida do meu filho!

Homem          – A gente se salvou!

Mulher           – Não sei de onde tirei tanta força!

Homem          – A gente só sabe a força que tem quando precisa dela.

Mulher           – Você foi forte!

Homem          – Nós fomos!

Mulher           – Maldita guerra!

Homem          – Malditos os homens que se preocupam em fazer a guerra!

Os Dois         – Malditos!

OS DOIS SE ENCARAM, OLHO NO OLHO. A MULHER SE DEITA SOBRE O COLO DO HOMEM. SEGURA A BARRIGA.

Homem          – Que foi?

Mulher           – Dor… Muita dor!

Homem          – Preciso te levar prum hospital.

Mulher           – Não sei se ainda vou resistir!

Homem          – Claro que vai!

Mulher           – Meu filho não vai resistir!

Homem          – Guenta! Você foi forte até agora.

Mulher           – Meu filho não vai resistir!

Homem          – Então espera que eu vou buscar ajuda!

Mulher           – Obrigado por me ajudar a sair.

Homem          – Guenta firme!

O HOMEM DEITA A MULHER SOBRE O CHÃO E SE LEVANTA.

Mulher           – Não precisa mais, moço!

Homem          – Agora, mais do que nunca!

Mulher           – Meu filho não resistiu!

A MULHER TEM A ROUPA MANCHADA DE SANGUE. O HOMEM SE COLOCA NO CHÃO E COLOCA A MULHER SOBRE O SEU COLO.

Mulher           – (CHORANDO) E agora, moço? Como vai ser meu amanhã?

Homem          – O amanhã é sempre uma nova história!

O HOMEM FAZ CARINHO NOS CABELOS DA MULHER. A LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. SONS DE SIRENES E SONS DE BOMBAS SE INTERCALAM.

– FIM –


A ACAREAÇÃO

outubro 16, 2015

CENÁRIO: SALA DE AUDIÊNCIA.

NA CABECEIRA DA MESA, O JUIZ; DE UM LADO, APENAS UMA MULHER DO OUTRO, UM HOMEM E UMA MULHER.

Juiz    – Estamos aqui para darmos andamento ao processo de acareação entre os réus e esclarecer às divergências apuradas durante todo o processo de investigação sobre o desvio de verbas em operações com o governo federal, bem como o envio de remessa de dinheiro irregularmente para o exterior. Dona Maria das Dores, no seu depoimento, a senhora afirmou não saber de nada. O que mais a senhora tem a dizer?

Maria  – Olha, senhor juiz, eu não sei nem porque eu to aqui, visse? Eu moro na Favela da Formiga da Bunda Grande, tenho seis filhos e trabalhava de empregada doméstica na casa do Seu Pedro e da Dona Helena há cinco anos até que…

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Protesto, Meritíssimo!!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher  – Não conhecemos essa mulher!

Maria  – Vixe! Como não? Ô, seu Pedro! Ô, dona Helena!… Sou eu, a Maria!

Juiz    – Os dois se manifestem apenas quando forem perguntados.

Homem – Perdão, Meritíssimo!

OS DOIS SENTAM.

Maria  – Mas, seu juiz, eu trabalhava pra eles!

Juiz    – Prossiga.

Maria  – Cês não lembra, não? Trabalhei até a polícia chegar e levar nós tudo! Foi assim, seu juiz: De repente a polícia baixou na casa deles, levo tudo, computador e até eu. Seu Pedro e dona Helena, se trancaram no quartinho dos fundos da casa e pediram pr’eu dizer que eles num tavam. Mas a polícia arrevirou tudo e acabou achando os dois escondidos. Aí, nós tudo fomos parar na delegacia. Cês alembram agora?

O HOMEM SE LEVANTA DE NOVO.

Juiz    – Queira se sentar?

O HOMEM SENTA.

Juiz    – Isso nós já sabemos, dona Maria. Precisamos de outros detalhes. E a empresa? A empresa que está em seu nome é de quem? A senhora assinou esses documentos? Ou falsificaram sua assinatura?

Maria  – Olha só, seu juiz: O negócio da firma foi o seguinte: Um dia, seu Pedro chegou em casa mais cedo… Dona Helena tinha ido pra casa de praia com as crianças. Seu Pedro chegou, começou a me acariciar… Eu até tentei escapar, mas vou dizê um negócio pro senhor, seu juiz. Sempre achei seu Pedro um tesão!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – Pedro Henrique!

Homem – Tudo mentira, Helena!

Juiz – A senhora queira se sentar, por favor?

Homem – Senta, Helena.

A MULHER SENTA.

Juiz – Prossiga, Dona Maria.

Maria – Eu não resiste, doutô! Ele me deu champanha, me beijou todinha me levou pra cama e creu! Aì que delícia!

Juiz – Sem muitos detalhes, dona Maria.

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Isso é mentira, Meritíssimo!

Juiz    – Sente!

Maria  – É verdade, doutô! Seu Pedro me deu um suador de louco! Aí, seu juiz, depois daquilo, se ele me pedisse para morrê, eu me matava. Foi assim que assinei toda aquela papelada que ele jogou na cama.

Homem – É mentira! É mentira!

A MULHER SE LEVANTA E DÁ UM TAPA NO ROSTO DO HOMEM.

Mulher – Seu safado! Eu mato você!

Homem – Olha aí, Meritíssimo, ela está me ameaçando.

Juiz – Os dois, sentados. Agora!

OS DOIS SENTAM.

Juiz – Então a senhora sabia da empresa?

Maria – Não, seu juiz. Eu só assinei aqueles papéis. Nem sabia pra quê que era! Nem o que era.

Mulher – (PARA O MARIDO) Você me paga, Pedro Henrique!

Homem – (PARA A MULHER) Essa mulher ta maluca, Helena!

Juiz – Sem conversas paralelas. Pois, bem Dona Maria. A senhora nunca movimentou a empresa, certo? E as contas nos bancos?

Maria – Ih, seu juiz, não tenho conta no banco, não. Seu Pedro e Dona Helena sempre me pagaram em dinheiro vivo.

Juiz – E os dólares?

Maria – Dona Helena escondia no cofre.

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – Mentira, Meritíssimo!

Juiz – Sente!

A MULHER SENTA.

Maria – De vez em quando ela pegava um pouquinho no cofre pra pagar os meninos que iam deitar com ela. Eu sempre achei uma injustiça com o seu Pedro. Tão bonito! Por que dona Helena passava as tardes com uns meninos no quarto? Eram uns três por tarde.

O HOMEM SE LEVANTA E ARRANCA A MULHER DA CADEIRA.

Homem – Sua vagabunda!!

O HOMEM LHE DÁ UM TAPA E A EMPURRA NO CHÃO.

Mulher – Seu corno!

Homem – Sua vaca!

A MARIA SE LEVANTA.

Maria – Eita! Como eles se amam!

Juiz – Parem com isso. Os dois se comportem!

Maria  – Se amavam tanto!!

OS DOIS SE XINGAM. O JUIZ SE LEVANTA, PEGA OS DOIS PELOS BRAÇOS E OS LEVA PARA FORA.

Juiz    – Guarda! Pode recolher esses dois!   

O JUIZ VOLTA E SE SENTA EM SEU LUGAR.

Juiz    – Bem, Dona Maria das Dores, suas informações foram muito importante e deixou tudo muito claro. Diante de tudo que presenciei e do que a senhora relatou nessa sala, posso afirmar que a senhora é inocente e foi usada por aqueles dois malfeitores, que fizeram uso de sua confiança para dar golpes. Vou expedir imediatamente o seu alvará de soltura. A senhora está livre.

Maria – Aff!! Graças a Deus! Posso ir mesmo, senhor juiz?

Juiz – Claro que sim!

Maria – Posso fazer uma ligação?

Juiz – Não se demore!

O JUIZ ARRUMA OS SEUS PAPÉIS E SAI DE CENA. MARIA PEGA O CELULAR.

Maria – ((ENQUANTO SAI) Zé, tudo resolvido! Acabei com aqueles dois safados que queriam passar a perna em nós! Agora é tudo nosso! Pode arrumá as malas que amanhã nos ta é na Suíça! Beijos.

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           – FIM –


AMOR DE POLÍTICO

agosto 14, 2015

CENÁRIO: UM QUARTO

EM CENA UMA MULHER ESTÁ DEITADA NA CAMA DE CASAL DE CAMISOLA. ENTRA O HOMEM DE TERNO. VAI SE DESPINDO.

Mulher           – Boa noite, Agenor!

Homem          – Boa noite, meu amor!

Mulher           – Preciso conversar com você.

Homem          – Se for problemas, nem me venha!

Mulher           – É importante!

Homem          – Hoje a coisa ferveu lá na Câmara. Prenderam o Aderbal, não demora muito vão chegar em mim.

Mulher           – Eu preciso te contar uma coisa.

Homem          – É, minha querida, o cerco está se fechando!

Mulher           – Você precisa saber por mim!

O HOMEM FICA SÓ DE CUECA E CAMISETA, SE DEITA AO LADO DA MULHER.

Homem          – Não está fácil ser Deputado, viu?

Mulher           – Eu te trai!

SILÊNCIO

Mulher           – Agora você pode me ouvir?

Homem          – Você não está falando sério, está?

Mulher           – Estou!

Homem          – Puta que o pariu…

O HOMEM SE LEVANTA DA CAMA.

Homem          – Quem é o canalha?

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher           – Sabe aquele Deputado?

Homem          – Mas Deputado não presta mesmo! Que Deputado?

Mulher           – Aquele da oposição.

Homem          – Da oposição?

Mulher           – Aquele bonitão, de cabelos grisalhos, saradão!

Homem          – Ô, Dolores, você acha que fico reparando em homem?

Mulher          – Aquele Deputado que vive metendo o pau em ti! Então, ele meteu o pau em mim!

Homem          – Não acredito.

Mulher           – Aconteceu.

Homem          – Assim você me derruba. E você cobrou algum?

Mulher           – Como assim?

Homem          – Faz a sacanagem e nem pra levar uma grana do cara?

Mulher           – Eu não sou prostituta!

Homem        – Não é mesmo! Porque se fosse teria levado uma grana. Você não tem idéia da grana que essas mulheres ganham desses Deputados por aí!.

Mulher           – Não estou acreditando, Agenor.

Homem         – Você sabe que a coisa está toda complicada lá em Brasília, não rola nem mais uma comissãozinha de um contratinho… Você tem a chance de faturar um pixulé e dá pro cara de graça? Como que vai ficar minha cara?

Mulher           – Como ia adivinhar que você não ia ligar?

Homem          – Quem disse que eu não ia ligar?

Mulher           – Você acabou de falar.

Homem          – Era uma compensação pelo chifre, né, Dolores?

Mulher           – Eu que foi no impulso!

Homem          – E como é que eu fico agora?

Mulher           – Desculpa, meu amor! Eu to muito arrependida. Não Sei onde eu estava com a cabeça.E olha que aquele Deputado nem é nada disso!

Homem          – Tá certo, Dolores, tá certo!

Mulher           – E quer saber? Ele nem é nada disso que a mulherada fala, viu?

Homem         – Tudo bem, passou! Deixa que amanhã eu vou dor um jeito de consertar isso.

Mulher           – Não vai fazer nenhuma besteira.

Homem          – Você tentar cobrar o que é meu.

Mulher           – Então você me perdoa?

Homem          – Não devia! Não devia! Você foi muito amadora, não gosto disso! Aqui em Brasília nada é de graça, nada!

O HOMEM DA BITOCA NA MULHER E SE DEITA NA CAMA.

Homem          – Agora deixa eu dormir que amanhã o dia vai ser bem difícil.

A MULHER SE DEITA E FAZ UM CARINHO NO HOMEM.

Mulher           – Eu te amo, viu? Deputado Garanhão!!

Homem          – Para com isso, Dolores!

Mulher           – Você me perdoou mesmo?

Homem          – Te perdoei, Dolores! Já não disse?

Mulher           – Nenhuma raivinha?

Homem          – Deixa eu dormir, Dolores!

O HOMEM VIRA DE COSTAS PARA MULHER.

Mulher           – Olha aí, você ainda está zangado comigo sim!

Homem          – Amanhã isso passa! Mas vê se dá próxima vez cobra um pixulé! Depois não quero saber de ninguém reclamando pra mim que acabou o caviar hein?

O HOMEM APAGA A LUZ DO ABAJUR.

– Fim –


O ATIVISTA

junho 12, 2015

CENÁRIO: UMA CONFEITARIA

EM CENA, UM BALCONISTA ESTÁ ATRÁS DE UMA VITRINE DE DOCES. ENTRA UM HOMEM.

Homem          – Bom dia,

Balconista     – Bom dia! O quê o senhor deseja?

Homem          – Estou procurando um doce…

Balconista     – Fique à vontade!

ENTRA UM OUTRO HOMEM.

Homen1        – E aí, Neguinho?

Balconista     – Fala, Cabeça! Que vai ser hoje?

O HOMEM 1 OLHA A VITRINE.

Homem1       – Cadê a Nêga Maluca?

Balconista     – Foi atrás do príncipe na Floresta Negra!

Homem1       – Tu é fogo, hein, neguinho?

O HOMEM SÓ OBSERVA OS DOIS.

Homem1       – Sabe aquele diamante negro?

Balconista     – Que aconteceu com ele?

Homem1       – Se perdeu nas Tetas de Nêga!

Balconista     – Essa foi boa, cabeça!

OS DOIS SE CUMPRIMENTAM COM A MÃO SOBRE A VITRINE.

Homem          – Mas, que absurdo!

Balconista     – Oi? Perdão, senhor, não ouvi. O senhor já escolheu?

Homem          – O que eu ouvi aqui, agora, é um absurdo!

Homem1       – Apenas uma brincadeira!

Balconista     – Ih, meu senhor, isso é todo dia!

Homem          – É por causa desse comportamento racista, que nunca acabaremos com o racismo.

Balconista     – É apenas uma brincadeira nossa!

Homem          – Piada com o nome dos doces!

Homem1       – Piada com uma raça!

Homem          – Nada disso, meu senhor!

Homem1       – É sempre essa desculpa de brincadeira, mas, no fundo mesmo, é puro racismo. Um desrespeito ao povo que sofreu com a escravidão e até hoje é subjugado com sub-raça.

Balconista     – Que isso, meu senhor! Não precisa se estressar desse jeito.

Homem          – A gente vai deixando pra lá e a humilhação não para. De piadinha em piadinha vou denegrindo o negro, o homossexual, o pobre, o feio…

Homem1       – Eu é que não to acreditando no quê estou ouvindo!

Balconista     – Vamos deixar isso pra lá! Foi um piada, pronto, acabou!

O HOMEM SE AFASTA, VAI ATÉ O PROSCÊNIO, COMO SE ESTIVESSE UM UMA DAS PORTAS DA CONFEITARIA.

Homem          – (GRITANDO) Mas pra mim não acabou, não! Eu não posso ficar calado diante do que ouvi aqui!

O HOMEM1 SE APROXIMA DO HOMEM.

Homem1       – Calma, meu senhor! Não aconteceu nada pra tudo isso!

Homem          – É porque não é sobre a cor da sua pele.

Homem1       – E o que eu senhor sabe da cor da minha pele?

Homem          – Que ela é branca.

O BALCONISTA SAI DE TRÁS DA VITRINE.

Balconista     – Mas eu sou neguinho.

Homem          – Uma pena que você se ache apenas um neguinho! É lamentável ver nossos irmãos de cor dando armas para o nosso inimigo!

Homem1       – Quem é inimigo aqui? Eu sou teu inimigo, neguinho?

Balconista     – Claro que não!

Homem          – Não fico nenhum mais um minuto neste lugar.

Balconista     – Calma, aí, meu irmão! Não precisa disso!.

Homem1       – Deixa ele, neguinho.

O HOMEM SAI PELA FRENTE DO PALCO, GRITANDO.

Homem          – Abaixo ao racismo! Abaixo ao racismo.

O BALCONISTA VAI PARA TRÁS DA VITRINE. ENTRA UMA MULHER NEGRA, OBSERVA A VITRINE.

Balconista     – Tu viu isso, cabeça?

Homem1       – É cada uma que a gente vê!

Balconista     – Então, o quê vai ser?

Homem1       – Pra não arrumar mais confusão por hoje, vu querer um pedaço daquele bolo afrodescendente ali!

Mulher           – (PARA O BALCONISTA) É Nêga maluca?

Balconista     – É sim!

Mulher           – O senhor aproveita e vê um pedaço pra mim também? Ah, é um cafézinho preto, por favor!

O HOMEM1 E O BALCONISTA SE OLHAM E RIEM.

Mulher           – Falei alguma coisa diferente?

Balconista     – Não! Não foi nada!

Homem1       – Não! (PARA MULHER) Bom café! Até amanhã, Neguinho!

Balconista     – Até amanhã, Cabeça!

O HOMEM1 SAI. O BALCONISTA SERVE A MULHER.

                                                           – FIM –


Saúde é só um detalhe

abril 24, 2015

CENÁRIO: RECEPÇÃO DE UM HOSPITAL

UM HOMEM ENTRA CARREGADO PELA MULHER, GRITA DE DORES. SUA MULHER SE APROXIMA DO BALCÃO DE ATENDIMENTO. O HOMEM SE SENTA EM UMA DAS CADEIRAS DA RECEPÇÃO.

MULHER – Moça, por favor, meu marido está morrendo de dor!

A RECEPCIONISTA, GORDA, ÓCULOS, COM COQUE NO CABELO, ESTÁ COSTAS PARA PLATEIA, FALA AO TELEFONE.

RECEPCIONISTA – Mas, menina, nem te falo. Sabe aquele cara do pagode? É, aquele loiro, forte, de olhos azuis, com uma tatuagem no braço. Saiu de mãos dadas com o neguinho do cavaquinho! Fiquei de boca aberta! E você passou a noite toda babando pelo bofe, hein?

MULHER – (BATENDO NO BALCÃO NERVOSA) Ei, mocinha, Dá pra mocinha desligar o telefone e me atender?

O HOMEM GEME. A RECEPCIONISTA SE VIRA E FAZ UM SINAL COM A MÃO PARA A MULHER ESPERAR, E SE VIRA DE NOVO.

MULHER – (MAIS NERVOSA AINDA) Moça, o meu marido está morrendo!

RECEPCIONISTA – Não é mentira, te juro! Pena que você já tinha saído. Saíram na maior naturalidade. O pessoal disse que eles namoram já faz um tempão!

MULHER – (GRITANDO) Você quer me atender agora! O meu marido morrendo e você fazendo fofoca no telefone!

RECEPCIONISTA – (AO TELEFONE) Vou ter que desligar. Depois a gente se fala! É… chegou mais um aqui que diz estar morrendo! Duvido que tenha o nosso plano de saúde! Eu já te ligo. Beijos!

A RECEPCIONISTA DESLIGA O TELEFONE E SE DIRIGE A MULHER.

RECEPCIONISTA – Documento do paciente e carteira do nosso convênio.

A MULHER VAI ATÉ O HOMEM.

MULHER – Tua identidade e a carteirinha do convênio.

O HOMEM COM DIFICULDADES, TIRA DO BOLSO DA CAMISA OS DOCU-MENTOS. ELE GEME. A MULHER PEGA OS DOCUMENTOS.

MULHER – (ENTREGANDO OS DOCUMENTOS) Olha, moça! Tudo aqui.

RECEPCIONISTA – (BALANÇANDO A CABEÇA NEGATIVAMENTE) Nós não aceitamos esse convênio. Só o nosso!

MULHER – Mas, a gente não tem o convênio de vocês, não, moça!

RECEPCIONISTA – Então não posso fazer nada, minha senhora! O nosso hospital só atende com o nosso plano de saúde. A sua nunca viu a propaganda? Saudmed: Sua saúde é só um detalhe!

MULHER – Mas o meu marido está quase morrendo. A gente paga imposto, minha filha, tem direito à saúde!

RECEPCIONISTA – Aí, querida, já não é comigo, não! Aqui a ordem é só atender com o nosso plano de saúde. Sem Saudmed, não posso fazer nada, nem pela senhora e nem pelo seu marido. Se a senhora quiser fazer nosso convênio, é só ir até o fim do corredor que a mocinha lhe atende.

MULHER – Mas isso é um absurdo! Eu vou chamar a polícia! Eu vou chamar a imprensa.

NAS CADEIRAS, O HOMEM, GEME. A RECEPCIONISTA SE VIRA DE COSTA PARA A MULHER E LIGA O TELEFONE.

RECEPCIONISTA – (AO TELEFONE) Alô!… Oi, sou eu!… Já atendi. Era mais um que não tinha o nosso plano. E aqui está assim, não tem o nosso plano, a ordem é despachar! Não!… Vai espernear um pouco e os seguranças chegam e colocam pra fora… Mas, então, menina, você vê só, a concorrência tá forte!

A MULHER XINGA, O HOMEM GEME. A LUZ CAI EM RESISTÊNCIA.

                                              – FIM –


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