Um amor de quatro estações

junho 15, 2018

ROTEIRO DE CURTA METRAGEM

“UM AMOR EM QUATRO ESTAÇÕES”

AUTOR

PAULO SACALDASSY

CENA 1 – SALÃO DE VELÓRIO – INT. DIA.

NO SALÃO, UMA GRANDE CORBELHA COM OS DIZERES: “EU NUNCA TE ESQUECEREI, MEU AMOR! – LUCIANA”. LUCIANA, VESTIDA DE PRETO E ÓCULOS ESCUROS ESTÁ AO LADO DO CAIXÃO DO MARIDO, AMPARADA POR DUAS AMIGAS. ALGUMAS PESSOAS CONVERSAM, ALGUNS RIEM DISCRETAMENTE. LUCIANA CHORA.

LUCIANA

     E Agora? O que eu vou passar da minha vida?

AMIGA 1

     Não pensa nisso agora.

LUCIANA

     Uma vida inteira ao lado dele. Meu amor!

AMIGA 2

     Você precisa ser forte.

AMIGA 1

     O tempo cura.

LUCIANA

     Acho que essa dor nunca vai passar.

O HOMEM SE APROXIMA PARA FECHAR O CAIXÃO. LUCIANA SE DESESPERA E É AMPARADA PELAS AMIGAS. AS PESSOAS ENTRAM NO SALÃO. TODOS REZAM. LUCIANA SE DEITA SOBRE O CAIXÃO.

CENA 2 – RUAS DA CIDADE – EXT. DIA.

SOB UMA CHUVA FINA, DE UM DIA CINZENTO, O CORTEJO LEVANDO O CORPO ARAVESSA A CIDADE ATÉ CHEGAR AO CEMITÉRIO.

CENA 3 – CEMITÉRIO – INT. DIA.

AO LADO DO CARRINHO QUE LEVA O MARIDO, COM A MÃO SOBRE O CAIXÃO, LUCIANA, AMPARADA PELAS AMIGAS, CHORA.

LUCIANA

     Eu te amo, meu amor! Você foi a melhor coisa que me aconteceu! E nunca vou te esquecer.

O CARRINHO COM O CAIXÃO CHEGA NA LÁPIDE. O CAIXÃO É ENTERRADO. LUCIANA JOGA PÉTALAS DE FLORES SOBRE O CAIXÃO. A LÁPIDE É FECHADA. LUCIANA DEIXA O LOCAL AMPARADA PELAS AMIGAS.

LUCIANA

     Agora fiquei só! Sem meu marido, seus os filhos que a gente não pode ter. Sozinha!

AMIGA 1

     A gente vai cuidar de você!

AMIGA 2

     Com o tempo essa dor passa. Você vai ver!

LUCIANA

     Mas dói de mais!

AMIGA 1

     Vai pra casa de praia, descansa um pouco. Vai ser bom pra você.

AMIGA 2

     Se você quiser, vou contigo.

LUCIANA

     Acho que é isso que vou fazer. Preciso sangrar sozinha.

AS TRÊS SEGUEM DE BRAÇOS DADOS ATÉ A SAÍDA DO CEMITÉRIO.

CENA 4 – PRAIA DE UM VILAREJO – EXT. DIA.

RICARDO GUARDA SUAS REDES, SUAS TARRAFAS E SEUS PUÇAS NA PEQUENA EMBARCAÇÃO, A EMPURRA MAR ADENTRO, LIGA O MOTOR, ENTRA E PARTE ATÉ SE PERDER NO HORIZONTE.

CENA 5 – CASA DE PRAIA DE LUCIANA – EXT/INT. DIA.

LUCIANA, VESTIDA DE PRETO, ABRE A PORTA DA FRENTE DA CASA E ENTRA. NO QUARTO, COLOCA A MALA E A BOLSA SOBRE UMA POLTRONA. ABRE AS JANELAS E SE JOGA NA CAMA. ABRAÇA UMAS ALMOFADAS E CHORA.

CENA 6 – BEIRA DO MAR – EXT. DIA.

LUCIANA, COM UMA SAÍDA DE PRAIA ESTÁ NA BEIRA DO MAR. RICARDO CHEGA COM O SEU BARCO. OS DOIS SE OLHAM. LUCIANA ABAIXA A CABEÇA.

RICARDO

     Sube do ocorrido cum seu marido, meus sentimentos!

LUCIANA

Obrigado!

RICARDO

     A senhora que peixe? Tá fresquinho!

LUCIANA

     Hoje não!

RICARDO

     Então tá certo! Quarqué coisa, a sinhora me chama.

RICARDO EMPURRA O BARCO PARA A AREIA. LUCIANA REPARA NOS SEUS MÚSCULOS. RICARDO SORRI PARA LUCIANA. ELA ABAIXA A CABEÇA E ANDA EM DIREÇÃO A ÁGUA.

CENA 7 – VARANDA DA CASA DE PRAIA – EXT. DIA/NOITE.

PASSAGEM DE TEMPO MOSTRANDO AS QUATRO ESTAÇÕES DO ANO. DIA E NOITE. LUCIANA NA VARANDA, ENTRANDO E SAINDO DA CASA. LUCIANA CHORANDO, FELIZ, TRISTE. RICARDO ENTRANDO E VOLTANDO DO MAR. RICARDO OLHANDO LUCIANA, LUCIANA OLHANDO RICARDO. RICARDO TRAZENDO PEIXE PARA LUCIANA. LUCIANA OFERECENDO BOLO PARA RICARDO. RICARDO LHE ENTREGA UMA FLOR. LUCIANA TRISTE. RICARDO ACENANDO AO ENTRAR NO MAR. LUCIANA CHORANDO.

CENA 8 –PRAIA/MAR – EXT. DIA.

LUCIANA ESTÁ MUITO TRISTE, ENTRA NO MAR E AI CADA VEZ MAIS PARA O FUNDO. UMA ONDA A DERRUBA. LUCIANA SE DEBATE EM DESESPERO. RICARDO SE APROXIMA COM O BARCO E SE JOGA NA ÁGUA. RICARDO CARREGA LUCIANA PELOS BRAÇOS ATÉ A AREIA. ELA FAZ RESPIRAÇÃO BOCA A BOCA. LUCIANA ACORDA. RICARDO LHE FAZ CARINHOS NO ROSTO.

CENA 9 – QUARTO DE LUCIANA – INT. NOITE.

NA CAMA, LUCIANA E RICARDO FAZEM AMOR. LUCIANA ESTÁ TOTALMENTE ENTREGUE E FELIZ. DEITA-SE SOBRE O PEITO DE RICARDO APÓS A TRANSA. ELE LHE FAZ CARINHOS.

LUCIANA

     Eu achei que nunca mais seria feliz.

RICARDO

     Eu também!

LUCIANA

     A solidão quase acabou comigo.

RICARDO

     Só não morri por que tinha o mar.

LUCIANA

     Agora você tem a mim e eu tenho você.

LUCIANA SOBE EM CIMA DE RICARDO E COMEÇA A BEIJÁ-LO.

CENA 10 – PRAIA/MAR – EXT.DIA.

LUCIANA, FELIZ, ENTRA NO BARCO DE RICARDO. ELE EMPURRA O BARCO MAR ADENTRO, LIGA O MOTOR E SOBE. LUCIANA DEITA-SE SOBRE AS PERNAS DE RICARDO. O BARCO VAI SE AFASTANDO ATÉ SE PERDER NO HORIZONTE.

– FIM –

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Não há mais amor ao sul do Equador

maio 4, 2018

Não tem sido nada fácil viver ao sul do Equador, o amor se perdeu em alguma curva da estrada e o poder se tornou mais importante do que a própria vida, agora o que vemos é ódio, muito ódio pelo semelhante. Não há mais convergências, só as divergências é que interessam e que incitam cada vez mais o ódio entre as pessoas. E a quem interessa esse ódio? A mim não interessa, interessa a você?   

Por conta de defenderem políticos inescrupulosos que não estão e nunca estiveram preocupados com o bem estar das pessoas, e sim com os seus e de seus pares, mergulhamos na escuridão da falta de respeito, da ofensa gratuita, das ameaças, da irritabilidade, da instabilidade emocional e a troco de quê? Por que as pessoas estão se alimentando tanto deste ódio que não lhes acrescenta nada em suas vidas?

É triste ver, viver e ter que conviver com tanta manifestação de ódio, assistir as pessoas fazendo coro com quem está querendo livrar a sua pele de problemas judiciais e que para tornar isso possível, faz questão de atirar pessoas contra pessoas, instalar o caos, fomentar o ódio, para depois se colocar como Salvador. Quem quer o bem, jamais usaria o mal para atingir o seu objetivo, quem deseja o mal, quer mesmo é que as coisas continuem de mal a pior.

E vamos sucumbindo, dia a dia, diante de um quadro que parece irreversível, em que tanto ódio só poderá desaguar em um rio de sangue, aonde pessoas inocentes se matarão em nome do amor de quem só faz o ódio aumentar entre os iguais. Nada parece ser possível para acalmar os ânimos e o amor parece não estar mesmo mais ente nós, pois nem mesmo uma tragédia que deveria nos unir na dor, só fez aumentar ainda mais o ódio de um lado ao outro.

Hoje em dia, qualquer manifestação de ideia contrária a este ou aquele lado, é faísca para acender um pavio curto e incendiar o país inteiro de ódio. Por que quem diz que quer pacificar, incita tanto para que haja uma guerra? Não haverá heróis. A história deixará marcada em seus livros que bandidos destruíram um país através da disseminação do ódio entre as pessoas, para poderem ficar no poder eternamente, se locupletando do dinheiro público.

Até quando vamos aguentar? Ainda não dá para saber, mas temo pelo que ainda possa vir, pois aquele velho país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, ruiu, frente à sede de poder de homens que fazem das suas vaidades, a arma para convencer que o amor não faz sentido se eles não estiverem no poder, que só ódio será capaz de reconduzi-los aos seus pedestais de arrogância e ganância. Para essas pessoas, o amor não tem mais lugar por aqui.


O ódio venceu

novembro 3, 2017

Ainda na cama, deu para ouvir aquele grito seco, mas de desespero, que entoou por toda a cidade, espantei-me, mas preferi aproveitar alguns poucos segundos de sono antes de me levantar. Depois de passado o minuto de preguiça, com o celular na mão, uma enxurrada de mensagens me informavam que algo de muito sério estava acontecendo. Sai sem nem mesmo tomar meu café, não por curiosidade, mas porque custava acreditar nas notícias que me chegavam pelas redes sociais.

Nas ruas, muito engarrafamento, as pessoas caminhavam apressadas pelas, de cara fechada, ninguém falava com ninguém, todos rumavam para uma mesma direção, marchavam em silêncio. Não demorou muito e avistei a praça, que já se enchia de gente tentando saber o que tinha acontecido de fato, um empurra-empurra, mal se conseguia enxergar direito, tamanho o tumulto. E entre cotovelas, juntei-me aos que queriam saber se tudo que circulava pelas redes sociais era mesmo verdadeiro, ou apenas mais um novo factóide.

A imprensa estava toda por lá, tinha até helicóptero sobrevoando a praça, a polícia procurava a todo custo isolar a área, mas a aglomeração encurtava cada vez mais o cerco, tentando chegar ao centro da praça. Era preciso saber se aquilo era mesmo verdade. De repente se formou um grande tumulto. A polícia lançou mão de gases lacrimogêneos e tentou afastar a população na base da força, muitos se revoltaram e houve revide com pedras e xingamentos.

Não demorou muito para aquele lugar virar uma verdadeira praça de guerra, pessoas atacando pessoas, polícias atacando pessoas, pessoas atacando polícias, muita correria, quebradeira e muita destruição. A maioria que estava ali parecia que havia se esquecido do motivo que os levaram até aquela praça, todos estavam ali para saber se o quê circulava pelas redes sociais era mesmo verdade, mas a violência foi tamanha e tão generalizada, que ficou claro que o quê levou alguns até ali, havia sido apenas  uma mera curiosidade.

Na certa, muitos não estavam preocupados com a notícia de fato, queriam mesmo tirar algumas “selfies” para postarem em seus perfis e ganhar não sei quantas curtidas. Diante daquele misto de festa com passeata regada a hostilidades e violência descabidas, comecei a achar que a notícia era mesmo verdadeira, pois aquilo tudo que se transformou aquela aglomeração, deixava bem claro que, infelizmente, o que circulou mais cedo pelas redes sociais, era a mais pura verdade.

Depois que toda aquela confusão se desfez, a praça ficou quase vazia, apenas algumas pessoas permaneceram por lá para terem a certeza de que nada mais teria jeito. Sem aquela aglomeração, foi fácil ver estirado no chão, bem no meio da praça, em volta de uma poça de sangue, o Amor; algumas pessoas ao avistarem caído, se ajoelharam ao seu redor, cada um rezou na sua religião, algumas pessoas que traziam flores nas mãos, as deixaram a sua volta, choravam um choro contido. Deixei a praça com uma dor no peito, um tristeza nos olhos e a certeza de que o ódio venceu.


Por que estamos destilando tanto ódio?

outubro 6, 2017

Parece que de uns tempos para cá uma nuvem negra estacionou sobre o país, deixando o tempo fechado entre os brasileiros, que se dividiram em duas correntes e vivem destilando entre si, um ódio quase mortal. Estão todos sempre com a razão, intolerantes, com os ânimos acirrados e com duas pedras nas mãos, dispostos a atirá-las a qualquer instante em qualquer um que discorde de seus pontos de vistas. Por que estamos destilando tanto ódio?

É claro que o rumo tomado pela situação política tem contribuído e muito para que tudo isso chegasse ao ponto que está hoje, existe uma acirrada briga de ideologias políticas de extremos radicais que está contaminando todo mundo e quem toma partido em algum assunto, defendendo o ponto de vista desde ou daquele lado, acaba sendo atacado e hostilizado pelo lado que acha ter o ponto de vista correto. Na há mais diálogos, só ofensas.

Talvez o problema esteja ligado à situação emocional em que está vivendo o brasileiro, pois, se analisarmos profundamente, existem vários fatores que estão contribuindo para o desequilíbrio das pessoas, uma grande parcela da população está desempregada, outra grande parcela está endividada, outra parte da população, vive as duas situações, sem contar a enorme constatação de injustiça que paira sobre nós, tudo isso tira qualquer um do prumo.

Quando tudo parece perdido, depositamos todas as nossas fichas em algumas situações e, no nosso caso, queremos ver os políticos presos e, quando a nossa expectativa não é satisfeita, em virtude do momento em que vivemos, acabamos destilando nosso ódio contra aquilo que nos contraria. Aproveito para fazer aqui a mea-culpa, pois, em alguns momentos me deixei envolver pelo clima de guerra, fazendo pré julgamentos de uma forma emocional. Há de buscar sempre a racionalidade em qualquer assunto.

Mas, voltando: como o rumo da política nos levou a divisão do país tal e qual um disputa futebolística, é claro que a torcida de cada time, jamais vai concordar com a opinião da torcida alheia e, como no futebol, sempre há os torcedores mais exaltados, que, por talvez, estarem passando por uma daquelas situações citadas acima, como: desemprego, endividamento, injustiça, querem resolver a situação através da briga, destilando o seu ódio represado, sobre o outro. E é nisso que se transformou o país, numa briga de torcidas.

Penso que toda essa insatisfação pessoal que o brasileiro está vivendo, também contribui para exaltar os ânimos e transformar pequenas discussões em uma destilação de ódio sem fim. É claro que a situação do país ajuda, e muito, a aumentar o estresse das pessoas, pois, estamos vivendo no limite de nossas paciências, quem tem mais controle sobre si, acaba resolvendo melhor esta ou aquela situação, mas quem tem pavio curto, usa qualquer coisa para destilar seu ódio, às vezes buscando apenas, aliviar o próprio estresse.

Se somarmos a este esgotamento emocional que as pessoas estão vivendo, o crescente fanatismo religioso, o preconceito latente e a imensa intolerância, têm-se um quadro que demonstra bem os possíveis motivos de tanto ódio e de como nossa sociedade está doente, pois, até parece que a destilação do ódio se tornou o alimento de nossas almas, vistos os diários apedrejamentos coletivos e às constantes provocações de poder direita/esquerda/direita. Estamos vivendo uma insanidade inimaginável!

É preciso, urgentemente, que retomemos a razão e não mais deixemos que a emoção seja a nossa porta voz, para, em primeiro lugar, pararmos de enxergar a política de uma maneira futebolística e retomarmos os diálogos, buscando os pontos em que existam convergências e não mais destilarmos todo o nosso ódio sobre as nossas divergências. Na força, sempre haverá um lado que sofrerá mais do que o outro, ou paramos de medir força, ou tudo isso ainda acabará muito mal. Mas respeito e mais amor, por favor!


O Amor e a Paz

abril 13, 2017

A raiva e o ódio uniram forças

E de tanto infernizarem

Contaminaram as almas para guerra

E agora, sobre a Terra

Só se vê violência

Nem mesmo a inocência da criança

É capaz de sair ilesa

E assim, sem defesa

Agarramo-nos em oração

Espero que nada nos aconteça

Torcendo para que a esperança

Em uma nova alvorada, amanheça

Sob as bênçãos do amor e da paz


O amor riscado a faca

fevereiro 17, 2017

Romeu, o filho caçula de Dona Ernestina era a última esperança de conquista de uma vida melhor, deixou sua cidade, Cafundó dos Judas, no agreste nordestino, para tentar a sorte no Sudeste. Tímido, se espantou quando desceu do ônibus na rodoviária e não demorou muito para conhecer como é viver em uma cidade grande. Romeu teve sua mala levada sem nem ver por quem.

Romeu está determinado e isso não lhe foi empecilho, saiu a caça de uma emprego e um lugar para ficar, conseguiu na construção de um enorme Shopping Center que estava sendo erguido bem em frente da Favela do Mangue. Teve sorte, pois na obra tinha alojamento e ele teve um lugar para ficar.

Romeu trabalha de sol a sol, era pau para toda obra e logo o Mestre de obra da construção, lhe elevou da condição de servente, para condição de pedreiro. Com isso, o dinheiro aumentou e Romeu se animou ainda mais em trabalhar sem parar. Tinha vindo com um único objetivo, enriquecer para dar uma velhice confortável para sua mãe.

Mas, a vida tem suas surpresas e ainda que a gente saiba direitinho aquilo que se quer, não conseguimos colocar em prática do jeito que a gente planejou. A vida tem seus mistérios e nunca saberemos o que nos vai acontecer enquanto estivermos por aqui. E os planos de Romeu começaram a mudar de rumo.

Julieta era a filha mais velha de Dona Umbelinda, que criava os cinco filhos com as diárias das faxinas que fazia nos escritórios comerciais da redondeza, fazia de todo para fazer de Julieta uma doutora. Provocante e maliciosa, mal sabia a mãe que sua filha era a alegria dos homens da favela. Gostava de funk e já era conhecida como Julieta Maçaneta.

Julieta gostava daquilo, gostava de se entregar para os homens e de tudo que aquilo lhe proporcionava, muito presentinhos caros, muita bebida importada, muita ostentação. Sua mãe estranhava tanta roupa nova, tanto perfume caro, mas Julieta lhe contava que era presente que ela ganhava de seus fãs nos bailes funks que se apresentava.

Julieta ganhou logo fama e sua disposição para o sexo e ostentação, chegou logo aos ouvidos do “Patrão” da favela, que fez dele a sua favorita. Deixou de se deitar com qualquer, mas, por outro lado viu o luxo entrar de vez na sua vida. Julieta tinha o que queria com o “Patrão”.

Mas, a vida tem suas surpresas, não é mesmo? Parece que o nosso destino já está traçado e mesmo que a gente se perca no meio do caminho, a vida se encarrega de nos colocar novamente no trilho, ainda que a gente não saiba até onde a estrada vai nos levar. E a vida de Julieta começou a mudar de rumo.

Em um dos raros momentos em que se permitia uma distração, Romeu resolveu ir até o baile funk da Favela do Mangue em frente à obra que trabalhava. Pediu logo uma garrafa de uísque e ficou com os olhos vidrados naquela mulher com jeito de menina que rebola e descia até o chão, provocante. E, o mais excitante é que aquela mulher descia e rebolava olhando para ele. Julieta sabia seduzir.

Passado mais de uma semana e Julieta não conseguia tirar da sua cabeça a imagem daquele homem que seus olhos grudaram no último baile funk. Julieta ficou estranha, começou a evitar as investidas do “Patrão” que, para se satisfazer, começou a lhe estuprar noite sim, noite não. Julieta só chorava.

Romeu quase sofreu um acidente na obra, imaginando aquela mulher com jeito de menina, rebolando para ele, nua, em sua cama. Decidiu ir à favela atrás daquela menina mulher que não sai de sua cabeça. Quando chegou à frente da entrada da favela, não conseguiu entrar, a polícia estava invadindo, muito tiroteio, muita correria, e ele preferiu voltar para obra.

A vida então deu uma mão para Romeu e Julieta. Ao entrar na favela, a polícia matou o “patrão”, com isso, Julieta pode se livrar das ameaças e dos estupros que estava sofrendo e voltou para casa de sua mãe. Voltou decidida a mudar de vida e falou para sua mãe que voltaria estudar. Que felicidade, Dona Umbelinda sentiu naquele momento.

Romeu não acreditou quando viu aquela mulher com jeito de menina em frente à oba esperando o ônibus, esqueceu a timidez e o trabalho e foi ao seu encontro. Não foi precisou nenhuma palavra, os dois se beijaram ali mesmo e à noite, Julieta já estava na cama de Romeu. Romeu viveu uma noite de sonhos.

Os dois não desgrudavam mais, dia e noite, noite e dia, Romeu e Julieta juntos. Ela estudando de verdade, ele trabalhando mais ainda, já faziam planos de casar e ter um monte de filhos. Julieta deixou o funk e apagava o seu fogo em noites quentes com Romeu. Romeu era uma felicidade só, Julieta, então, nunca se sentiu tão feliz. Romeu lhe cobria de presentes e mimos.

Só que o quê está destinado a nós, chega até nós de qualquer maneira. E em uma noite de festa para comemorar o fim da construção do Shopping, as vidas de Romeu e Julieta encontraram o seu destino. Muita bebida e não demorou muito para Julieta, de pileque, dançar maliciosamente provocante, um funk, deixando os homens da obra todos excitados. Romeu tentou impedir Julieta, que não lhe deu ouvido. Romeu, desiludido, caiu na bebedeira.

A festa rolava, Romeu bebia e Julieta, no alojamento, transava com cada um daqueles homens. Já amanhecia quando o último homem deixou o alojamento. Julieta, exausta, nua, dormia de cansada. Romeu entrou no alojamento, tirou da bainha uma faca e cravou no peito de Julieta, depois ainda cortou os bicos de seus seios, riscou o seu rosto e rasgou sua vagina.

Romeu deitou-se ao lado de Julieta e dormiu.


A primeira namorada

outubro 7, 2016

Naquele dia resolvi não ir almoçar em casa, pois tinha um trabalho urgente para terminar no escritório. Combinei comigo mesmo que assim que terminasse, descia para comer alguma coisa. Concentrado, tinha uma história para contar e um prazo para entregá-la e coloquei minhas mãos à obra.

De repente uma gritaria invadiu a sala pela janela do oitavo andar vinda da rua, não dei importância, pois era costumeiro ouvir gritos dos viciados em crack que perambulavam pelos arredores do prédio em que trabalho. De manhã, de tarde e até a hora de deixar o trabalho, homens e mulheres ficam embaixo das marquises das lojas, fumando seus cachimbos.

A gritaria continuava e eu ali, tentando me concentrar para terminar aquele texto, uma tarefa árdua naquela altura, e que o estômago também já se manifestava.

– Mas, vamos lá! Concentração. Concentração.

Levantei, dei aquela espreguiçada, virei o pescoço para um lado, virei o pescoço para outro, na tentativa de relaxar, fui até a janela verificar a gritaria e vi uma multidão que circulava dois homens e uma mulher que discutiam no meio da rua. Um dos homens ameaçava matar o casal com uma faca e a multidão gritava urros de incentivos.

– Que absurdo!

Tomei um copo d’água e voltei a me concentrar no que eu tinha que fazer e, enfim, consegui dar um ponto final no texto. Foi no exato momento que um grito de dor vindo da rua, entrou pela minha janela. Corri até a janela e ainda vi um dos homens virando a esquina, enquanto o outro segurava a mulher que havia sido esfaqueada.

Quando cheguei embaixo, algumas pessoas ainda lamentavam o ocorrido, me aproximei tão curioso quanto os demais que circulavam aquele casal e que assistiam ao homem pedir por socorro.

Olhei no rosto daquela mulher que sangrava, os olhos me fitaram me pedindo perdão. Mas, porque uma mulher viciada em crack, à beira da morte, precisava que a perdoasse? Encarei-a, olho no olho, e realmente ela me parecia ser familiar.

– Não pode ser!

Eu ali, inerte diante daqueles olhos que me fitavam, com o pensamento perdido em algum lugar, buscando na memória, até que me vieram às primeiras imagens. Lembrei! Não, não podia acreditar que ela tivesse um destino tão cruel.

Aqueles olhos que me pediam perdão eram daquela criatura doce que sentava ao meu lado na sala de aula, que me ensinava matemática, física e química, aquela que um dia tive coragem de lhe roubar um beijo, mal sabia eu, que era isso que ela esperava tanto de mim. A minha primeira namorada!

A cada imagem que vinha na minha cabeça, uma lágrima escorria pelo meu rosto, um aperto no peito exprimia o coração, dos olhos dela, escorriam lágrimas que desaguavam no sangue que ensopava seu peito. Eu ali, incrédulo, vendo a minha primeira namorada virar atração do meio dia.

Abri caminho, me ajoelhe diante dela, segurei sua mão, ela me olhou, nunca, ninguém apertou tão forte a minha mão.

– Fica calma! Vou te ajudar!

Não deu tempo nem de pegar o telefone, sua mão desgrudou da minha, seus olhos me fitaram pela última vez e ela se foi.

A multidão se dissipou assim que o resgate encostou. Eu ainda fiquei ali por mais alguns minutos, até o resgate constatar a sua morte. Fiz uma oração silenciosa e pedi que sua alma descansasse em paz.


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