O ódio venceu

novembro 3, 2017

Ainda na cama, deu para ouvir aquele grito seco, mas de desespero, que entoou por toda a cidade, espantei-me, mas preferi aproveitar alguns poucos segundos de sono antes de me levantar. Depois de passado o minuto de preguiça, com o celular na mão, uma enxurrada de mensagens me informavam que algo de muito sério estava acontecendo. Sai sem nem mesmo tomar meu café, não por curiosidade, mas porque custava acreditar nas notícias que me chegavam pelas redes sociais.

Nas ruas, muito engarrafamento, as pessoas caminhavam apressadas pelas, de cara fechada, ninguém falava com ninguém, todos rumavam para uma mesma direção, marchavam em silêncio. Não demorou muito e avistei a praça, que já se enchia de gente tentando saber o que tinha acontecido de fato, um empurra-empurra, mal se conseguia enxergar direito, tamanho o tumulto. E entre cotovelas, juntei-me aos que queriam saber se tudo que circulava pelas redes sociais era mesmo verdadeiro, ou apenas mais um novo factóide.

A imprensa estava toda por lá, tinha até helicóptero sobrevoando a praça, a polícia procurava a todo custo isolar a área, mas a aglomeração encurtava cada vez mais o cerco, tentando chegar ao centro da praça. Era preciso saber se aquilo era mesmo verdade. De repente se formou um grande tumulto. A polícia lançou mão de gases lacrimogêneos e tentou afastar a população na base da força, muitos se revoltaram e houve revide com pedras e xingamentos.

Não demorou muito para aquele lugar virar uma verdadeira praça de guerra, pessoas atacando pessoas, polícias atacando pessoas, pessoas atacando polícias, muita correria, quebradeira e muita destruição. A maioria que estava ali parecia que havia se esquecido do motivo que os levaram até aquela praça, todos estavam ali para saber se o quê circulava pelas redes sociais era mesmo verdade, mas a violência foi tamanha e tão generalizada, que ficou claro que o quê levou alguns até ali, havia sido apenas  uma mera curiosidade.

Na certa, muitos não estavam preocupados com a notícia de fato, queriam mesmo tirar algumas “selfies” para postarem em seus perfis e ganhar não sei quantas curtidas. Diante daquele misto de festa com passeata regada a hostilidades e violência descabidas, comecei a achar que a notícia era mesmo verdadeira, pois aquilo tudo que se transformou aquela aglomeração, deixava bem claro que, infelizmente, o que circulou mais cedo pelas redes sociais, era a mais pura verdade.

Depois que toda aquela confusão se desfez, a praça ficou quase vazia, apenas algumas pessoas permaneceram por lá para terem a certeza de que nada mais teria jeito. Sem aquela aglomeração, foi fácil ver estirado no chão, bem no meio da praça, em volta de uma poça de sangue, o Amor; algumas pessoas ao avistarem caído, se ajoelharam ao seu redor, cada um rezou na sua religião, algumas pessoas que traziam flores nas mãos, as deixaram a sua volta, choravam um choro contido. Deixei a praça com uma dor no peito, um tristeza nos olhos e a certeza de que o ódio venceu.

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Por que estamos destilando tanto ódio?

outubro 6, 2017

Parece que de uns tempos para cá uma nuvem negra estacionou sobre o país, deixando o tempo fechado entre os brasileiros, que se dividiram em duas correntes e vivem destilando entre si, um ódio quase mortal. Estão todos sempre com a razão, intolerantes, com os ânimos acirrados e com duas pedras nas mãos, dispostos a atirá-las a qualquer instante em qualquer um que discorde de seus pontos de vistas. Por que estamos destilando tanto ódio?

É claro que o rumo tomado pela situação política tem contribuído e muito para que tudo isso chegasse ao ponto que está hoje, existe uma acirrada briga de ideologias políticas de extremos radicais que está contaminando todo mundo e quem toma partido em algum assunto, defendendo o ponto de vista desde ou daquele lado, acaba sendo atacado e hostilizado pelo lado que acha ter o ponto de vista correto. Na há mais diálogos, só ofensas.

Talvez o problema esteja ligado à situação emocional em que está vivendo o brasileiro, pois, se analisarmos profundamente, existem vários fatores que estão contribuindo para o desequilíbrio das pessoas, uma grande parcela da população está desempregada, outra grande parcela está endividada, outra parte da população, vive as duas situações, sem contar a enorme constatação de injustiça que paira sobre nós, tudo isso tira qualquer um do prumo.

Quando tudo parece perdido, depositamos todas as nossas fichas em algumas situações e, no nosso caso, queremos ver os políticos presos e, quando a nossa expectativa não é satisfeita, em virtude do momento em que vivemos, acabamos destilando nosso ódio contra aquilo que nos contraria. Aproveito para fazer aqui a mea-culpa, pois, em alguns momentos me deixei envolver pelo clima de guerra, fazendo pré julgamentos de uma forma emocional. Há de buscar sempre a racionalidade em qualquer assunto.

Mas, voltando: como o rumo da política nos levou a divisão do país tal e qual um disputa futebolística, é claro que a torcida de cada time, jamais vai concordar com a opinião da torcida alheia e, como no futebol, sempre há os torcedores mais exaltados, que, por talvez, estarem passando por uma daquelas situações citadas acima, como: desemprego, endividamento, injustiça, querem resolver a situação através da briga, destilando o seu ódio represado, sobre o outro. E é nisso que se transformou o país, numa briga de torcidas.

Penso que toda essa insatisfação pessoal que o brasileiro está vivendo, também contribui para exaltar os ânimos e transformar pequenas discussões em uma destilação de ódio sem fim. É claro que a situação do país ajuda, e muito, a aumentar o estresse das pessoas, pois, estamos vivendo no limite de nossas paciências, quem tem mais controle sobre si, acaba resolvendo melhor esta ou aquela situação, mas quem tem pavio curto, usa qualquer coisa para destilar seu ódio, às vezes buscando apenas, aliviar o próprio estresse.

Se somarmos a este esgotamento emocional que as pessoas estão vivendo, o crescente fanatismo religioso, o preconceito latente e a imensa intolerância, têm-se um quadro que demonstra bem os possíveis motivos de tanto ódio e de como nossa sociedade está doente, pois, até parece que a destilação do ódio se tornou o alimento de nossas almas, vistos os diários apedrejamentos coletivos e às constantes provocações de poder direita/esquerda/direita. Estamos vivendo uma insanidade inimaginável!

É preciso, urgentemente, que retomemos a razão e não mais deixemos que a emoção seja a nossa porta voz, para, em primeiro lugar, pararmos de enxergar a política de uma maneira futebolística e retomarmos os diálogos, buscando os pontos em que existam convergências e não mais destilarmos todo o nosso ódio sobre as nossas divergências. Na força, sempre haverá um lado que sofrerá mais do que o outro, ou paramos de medir força, ou tudo isso ainda acabará muito mal. Mas respeito e mais amor, por favor!


O Amor e a Paz

abril 13, 2017

A raiva e o ódio uniram forças

E de tanto infernizarem

Contaminaram as almas para guerra

E agora, sobre a Terra

Só se vê violência

Nem mesmo a inocência da criança

É capaz de sair ilesa

E assim, sem defesa

Agarramo-nos em oração

Espero que nada nos aconteça

Torcendo para que a esperança

Em uma nova alvorada, amanheça

Sob as bênçãos do amor e da paz


O amor riscado a faca

fevereiro 17, 2017

Romeu, o filho caçula de Dona Ernestina era a última esperança de conquista de uma vida melhor, deixou sua cidade, Cafundó dos Judas, no agreste nordestino, para tentar a sorte no Sudeste. Tímido, se espantou quando desceu do ônibus na rodoviária e não demorou muito para conhecer como é viver em uma cidade grande. Romeu teve sua mala levada sem nem ver por quem.

Romeu está determinado e isso não lhe foi empecilho, saiu a caça de uma emprego e um lugar para ficar, conseguiu na construção de um enorme Shopping Center que estava sendo erguido bem em frente da Favela do Mangue. Teve sorte, pois na obra tinha alojamento e ele teve um lugar para ficar.

Romeu trabalha de sol a sol, era pau para toda obra e logo o Mestre de obra da construção, lhe elevou da condição de servente, para condição de pedreiro. Com isso, o dinheiro aumentou e Romeu se animou ainda mais em trabalhar sem parar. Tinha vindo com um único objetivo, enriquecer para dar uma velhice confortável para sua mãe.

Mas, a vida tem suas surpresas e ainda que a gente saiba direitinho aquilo que se quer, não conseguimos colocar em prática do jeito que a gente planejou. A vida tem seus mistérios e nunca saberemos o que nos vai acontecer enquanto estivermos por aqui. E os planos de Romeu começaram a mudar de rumo.

Julieta era a filha mais velha de Dona Umbelinda, que criava os cinco filhos com as diárias das faxinas que fazia nos escritórios comerciais da redondeza, fazia de todo para fazer de Julieta uma doutora. Provocante e maliciosa, mal sabia a mãe que sua filha era a alegria dos homens da favela. Gostava de funk e já era conhecida como Julieta Maçaneta.

Julieta gostava daquilo, gostava de se entregar para os homens e de tudo que aquilo lhe proporcionava, muito presentinhos caros, muita bebida importada, muita ostentação. Sua mãe estranhava tanta roupa nova, tanto perfume caro, mas Julieta lhe contava que era presente que ela ganhava de seus fãs nos bailes funks que se apresentava.

Julieta ganhou logo fama e sua disposição para o sexo e ostentação, chegou logo aos ouvidos do “Patrão” da favela, que fez dele a sua favorita. Deixou de se deitar com qualquer, mas, por outro lado viu o luxo entrar de vez na sua vida. Julieta tinha o que queria com o “Patrão”.

Mas, a vida tem suas surpresas, não é mesmo? Parece que o nosso destino já está traçado e mesmo que a gente se perca no meio do caminho, a vida se encarrega de nos colocar novamente no trilho, ainda que a gente não saiba até onde a estrada vai nos levar. E a vida de Julieta começou a mudar de rumo.

Em um dos raros momentos em que se permitia uma distração, Romeu resolveu ir até o baile funk da Favela do Mangue em frente à obra que trabalhava. Pediu logo uma garrafa de uísque e ficou com os olhos vidrados naquela mulher com jeito de menina que rebola e descia até o chão, provocante. E, o mais excitante é que aquela mulher descia e rebolava olhando para ele. Julieta sabia seduzir.

Passado mais de uma semana e Julieta não conseguia tirar da sua cabeça a imagem daquele homem que seus olhos grudaram no último baile funk. Julieta ficou estranha, começou a evitar as investidas do “Patrão” que, para se satisfazer, começou a lhe estuprar noite sim, noite não. Julieta só chorava.

Romeu quase sofreu um acidente na obra, imaginando aquela mulher com jeito de menina, rebolando para ele, nua, em sua cama. Decidiu ir à favela atrás daquela menina mulher que não sai de sua cabeça. Quando chegou à frente da entrada da favela, não conseguiu entrar, a polícia estava invadindo, muito tiroteio, muita correria, e ele preferiu voltar para obra.

A vida então deu uma mão para Romeu e Julieta. Ao entrar na favela, a polícia matou o “patrão”, com isso, Julieta pode se livrar das ameaças e dos estupros que estava sofrendo e voltou para casa de sua mãe. Voltou decidida a mudar de vida e falou para sua mãe que voltaria estudar. Que felicidade, Dona Umbelinda sentiu naquele momento.

Romeu não acreditou quando viu aquela mulher com jeito de menina em frente à oba esperando o ônibus, esqueceu a timidez e o trabalho e foi ao seu encontro. Não foi precisou nenhuma palavra, os dois se beijaram ali mesmo e à noite, Julieta já estava na cama de Romeu. Romeu viveu uma noite de sonhos.

Os dois não desgrudavam mais, dia e noite, noite e dia, Romeu e Julieta juntos. Ela estudando de verdade, ele trabalhando mais ainda, já faziam planos de casar e ter um monte de filhos. Julieta deixou o funk e apagava o seu fogo em noites quentes com Romeu. Romeu era uma felicidade só, Julieta, então, nunca se sentiu tão feliz. Romeu lhe cobria de presentes e mimos.

Só que o quê está destinado a nós, chega até nós de qualquer maneira. E em uma noite de festa para comemorar o fim da construção do Shopping, as vidas de Romeu e Julieta encontraram o seu destino. Muita bebida e não demorou muito para Julieta, de pileque, dançar maliciosamente provocante, um funk, deixando os homens da obra todos excitados. Romeu tentou impedir Julieta, que não lhe deu ouvido. Romeu, desiludido, caiu na bebedeira.

A festa rolava, Romeu bebia e Julieta, no alojamento, transava com cada um daqueles homens. Já amanhecia quando o último homem deixou o alojamento. Julieta, exausta, nua, dormia de cansada. Romeu entrou no alojamento, tirou da bainha uma faca e cravou no peito de Julieta, depois ainda cortou os bicos de seus seios, riscou o seu rosto e rasgou sua vagina.

Romeu deitou-se ao lado de Julieta e dormiu.


A primeira namorada

outubro 7, 2016

Naquele dia resolvi não ir almoçar em casa, pois tinha um trabalho urgente para terminar no escritório. Combinei comigo mesmo que assim que terminasse, descia para comer alguma coisa. Concentrado, tinha uma história para contar e um prazo para entregá-la e coloquei minhas mãos à obra.

De repente uma gritaria invadiu a sala pela janela do oitavo andar vinda da rua, não dei importância, pois era costumeiro ouvir gritos dos viciados em crack que perambulavam pelos arredores do prédio em que trabalho. De manhã, de tarde e até a hora de deixar o trabalho, homens e mulheres ficam embaixo das marquises das lojas, fumando seus cachimbos.

A gritaria continuava e eu ali, tentando me concentrar para terminar aquele texto, uma tarefa árdua naquela altura, e que o estômago também já se manifestava.

– Mas, vamos lá! Concentração. Concentração.

Levantei, dei aquela espreguiçada, virei o pescoço para um lado, virei o pescoço para outro, na tentativa de relaxar, fui até a janela verificar a gritaria e vi uma multidão que circulava dois homens e uma mulher que discutiam no meio da rua. Um dos homens ameaçava matar o casal com uma faca e a multidão gritava urros de incentivos.

– Que absurdo!

Tomei um copo d’água e voltei a me concentrar no que eu tinha que fazer e, enfim, consegui dar um ponto final no texto. Foi no exato momento que um grito de dor vindo da rua, entrou pela minha janela. Corri até a janela e ainda vi um dos homens virando a esquina, enquanto o outro segurava a mulher que havia sido esfaqueada.

Quando cheguei embaixo, algumas pessoas ainda lamentavam o ocorrido, me aproximei tão curioso quanto os demais que circulavam aquele casal e que assistiam ao homem pedir por socorro.

Olhei no rosto daquela mulher que sangrava, os olhos me fitaram me pedindo perdão. Mas, porque uma mulher viciada em crack, à beira da morte, precisava que a perdoasse? Encarei-a, olho no olho, e realmente ela me parecia ser familiar.

– Não pode ser!

Eu ali, inerte diante daqueles olhos que me fitavam, com o pensamento perdido em algum lugar, buscando na memória, até que me vieram às primeiras imagens. Lembrei! Não, não podia acreditar que ela tivesse um destino tão cruel.

Aqueles olhos que me pediam perdão eram daquela criatura doce que sentava ao meu lado na sala de aula, que me ensinava matemática, física e química, aquela que um dia tive coragem de lhe roubar um beijo, mal sabia eu, que era isso que ela esperava tanto de mim. A minha primeira namorada!

A cada imagem que vinha na minha cabeça, uma lágrima escorria pelo meu rosto, um aperto no peito exprimia o coração, dos olhos dela, escorriam lágrimas que desaguavam no sangue que ensopava seu peito. Eu ali, incrédulo, vendo a minha primeira namorada virar atração do meio dia.

Abri caminho, me ajoelhe diante dela, segurei sua mão, ela me olhou, nunca, ninguém apertou tão forte a minha mão.

– Fica calma! Vou te ajudar!

Não deu tempo nem de pegar o telefone, sua mão desgrudou da minha, seus olhos me fitaram pela última vez e ela se foi.

A multidão se dissipou assim que o resgate encostou. Eu ainda fiquei ali por mais alguns minutos, até o resgate constatar a sua morte. Fiz uma oração silenciosa e pedi que sua alma descansasse em paz.


As lições de todo dia

setembro 23, 2016

Já ouvimos milhares de vezes que a vida é um piscar, sabemos que ela é fugaz e que não vamos durar para sempre aqui por essas bandas, ainda que alguns acreditem em reencarnação, essa vida que vivemos, essa imagem que temos, as amizades que fazemos, os amores que cultivamos, as famílias que formamos, tudo isso, uma hora vai chegar ao fim, isso é um fato indiscutível, mas todos os dias aprendemos uma lição sobre isso.

Ainda que tenhamos a consciência da essência da vida, continuamos tendo uma certa dificuldade de absorção daquilo que realmente seria o necessário para viver por essas bandas e perdemos um tempo precioso com coisas pequenas, diante de uma imensidão de coisas que podemos realizar para nós, para o outro e com o outro, para que nossa vida valha realmente à pena. A simplicidade de viver ainda causa muito estranheza.

Nascemos sabendo que morreremos um dia, não sabemos se em uma manhã de verão de um sol escaldante, em uma tarde cinzenta de um inverno frio, se em uma noite sem estrelas, se daqui a um minuto, se daqui a dez, vinte, ou trinta anos, mas morreremos e, sempre que uma vida chega ao fim, é de supetão, de forma inesperada, sem dizer adeus, sem terminar os compromissos, sem um último abraço, um último beijo É finito, e pronto!

Mesmo sabendo disso tudo, acordamos apressados, estressados, cansados, mal humorados, irritados, infelizes, desgostosos, desesperançados com a vida. Julgamos, recriminados, brigamos, insultamos, ignoramos, humilhamos, provocamos, estouramos, destratamos as pessoas que mais nos amam. Estamos na vida para semear o amor, até sabemos disso, mas, ainda assim, não somos capazes de semearmos e nos encantarmos com a felicidade alheia.

Só quando acontece alguma tragédia, algo que nos comove, algo que nos faz pensar que podia ser conosco, é que nos vem à tona um turbilhão de sentimentos e de sensações, que nos faz repensar a vida, nossos atos, nossas atitudes, nosso modo de encarar a vida aqui por essas bandas, padecemos por uns dias, do sofrimento de saber que, de uma hora para a outra, podemos também ir, sem aviso, sem esperar.

E de nada terá adiantado, a nossa empáfia, a nossa soberba, as nossas atitudes impensadas, as nossas inimizades, os nossos desafetos e tudo de mal que semeamos. Por isso, é sempre tempo de abaixar as guardas e semear o amor e a alegria de viver. É bem melhor semear uma boa lembrança, uma gota de saudade que ficará nos olhos de alguém, um aperto que ficará no coração de alguém, um sorriso que ficará na memória de alguém, pois não sabemos por quanto tempo ficaremos por aqui. Todo dia a dor da morte chega para alguém.

É certo que muitos só se preocupam com a roda viva da vida e, logo, já não sofrerão mais com aquele dor da morte e perderão de novo o sentido de viver e, em pouco tempo, já se acharão novamente super heróis de uma vida que vai durar para sempre e se acharão maiores e melhores, buscarão as guerras, destilarão o ódio, o orgulho e dispensarão a mão do amor, aliás, todos nós. Até que a vida venha, mais uma vez, e nos ensine as lições que ela nos ensina todos os dias e não conseguimos aprender.


AMOR DE POLÍTICO

agosto 14, 2015

CENÁRIO: UM QUARTO

EM CENA UMA MULHER ESTÁ DEITADA NA CAMA DE CASAL DE CAMISOLA. ENTRA O HOMEM DE TERNO. VAI SE DESPINDO.

Mulher           – Boa noite, Agenor!

Homem          – Boa noite, meu amor!

Mulher           – Preciso conversar com você.

Homem          – Se for problemas, nem me venha!

Mulher           – É importante!

Homem          – Hoje a coisa ferveu lá na Câmara. Prenderam o Aderbal, não demora muito vão chegar em mim.

Mulher           – Eu preciso te contar uma coisa.

Homem          – É, minha querida, o cerco está se fechando!

Mulher           – Você precisa saber por mim!

O HOMEM FICA SÓ DE CUECA E CAMISETA, SE DEITA AO LADO DA MULHER.

Homem          – Não está fácil ser Deputado, viu?

Mulher           – Eu te trai!

SILÊNCIO

Mulher           – Agora você pode me ouvir?

Homem          – Você não está falando sério, está?

Mulher           – Estou!

Homem          – Puta que o pariu…

O HOMEM SE LEVANTA DA CAMA.

Homem          – Quem é o canalha?

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher           – Sabe aquele Deputado?

Homem          – Mas Deputado não presta mesmo! Que Deputado?

Mulher           – Aquele da oposição.

Homem          – Da oposição?

Mulher           – Aquele bonitão, de cabelos grisalhos, saradão!

Homem          – Ô, Dolores, você acha que fico reparando em homem?

Mulher          – Aquele Deputado que vive metendo o pau em ti! Então, ele meteu o pau em mim!

Homem          – Não acredito.

Mulher           – Aconteceu.

Homem          – Assim você me derruba. E você cobrou algum?

Mulher           – Como assim?

Homem          – Faz a sacanagem e nem pra levar uma grana do cara?

Mulher           – Eu não sou prostituta!

Homem        – Não é mesmo! Porque se fosse teria levado uma grana. Você não tem idéia da grana que essas mulheres ganham desses Deputados por aí!.

Mulher           – Não estou acreditando, Agenor.

Homem         – Você sabe que a coisa está toda complicada lá em Brasília, não rola nem mais uma comissãozinha de um contratinho… Você tem a chance de faturar um pixulé e dá pro cara de graça? Como que vai ficar minha cara?

Mulher           – Como ia adivinhar que você não ia ligar?

Homem          – Quem disse que eu não ia ligar?

Mulher           – Você acabou de falar.

Homem          – Era uma compensação pelo chifre, né, Dolores?

Mulher           – Eu que foi no impulso!

Homem          – E como é que eu fico agora?

Mulher           – Desculpa, meu amor! Eu to muito arrependida. Não Sei onde eu estava com a cabeça.E olha que aquele Deputado nem é nada disso!

Homem          – Tá certo, Dolores, tá certo!

Mulher           – E quer saber? Ele nem é nada disso que a mulherada fala, viu?

Homem         – Tudo bem, passou! Deixa que amanhã eu vou dor um jeito de consertar isso.

Mulher           – Não vai fazer nenhuma besteira.

Homem          – Você tentar cobrar o que é meu.

Mulher           – Então você me perdoa?

Homem          – Não devia! Não devia! Você foi muito amadora, não gosto disso! Aqui em Brasília nada é de graça, nada!

O HOMEM DA BITOCA NA MULHER E SE DEITA NA CAMA.

Homem          – Agora deixa eu dormir que amanhã o dia vai ser bem difícil.

A MULHER SE DEITA E FAZ UM CARINHO NO HOMEM.

Mulher           – Eu te amo, viu? Deputado Garanhão!!

Homem          – Para com isso, Dolores!

Mulher           – Você me perdoou mesmo?

Homem          – Te perdoei, Dolores! Já não disse?

Mulher           – Nenhuma raivinha?

Homem          – Deixa eu dormir, Dolores!

O HOMEM VIRA DE COSTAS PARA MULHER.

Mulher           – Olha aí, você ainda está zangado comigo sim!

Homem          – Amanhã isso passa! Mas vê se dá próxima vez cobra um pixulé! Depois não quero saber de ninguém reclamando pra mim que acabou o caviar hein?

O HOMEM APAGA A LUZ DO ABAJUR.

– Fim –


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