É CARNAVAL!

janeiro 18, 2019

SEQ.1 – FADE IN. PLANO GERAL SOBRE UMA COMUNIDADE-EXT.NOITE                            

TIROTEIO, SIRENES DE POLÍCIA E GRITARIA. CORTE.

SEQ.2 – COMUNIDADE – EXT.DIA

PANORÂMICA ENTRE OS BARRACOS AMONTOADOS PELAS RUE LAS. A CÂMERA SE FIXA EM UM DELES, É SEXTA-FEIRA DE CARNAVAL.

SEQ.3 – BARRACO – INT.DIA

NAQUELE ÚNICO CÔMODO COM UMA PORTA E UMA JANELA, UMA TELEVISÃO, UM CD-PLAYER, UMA GELADEIRA USADA, TODOS LIGADOS ATRAVÉS DO “GATO” DE LUZ PUXADO LÁ DA ENTRADA DA FAVELA. NO CHÃO, AO LADO DE UM ARMÁRIO COM ALGUMAS PARTES DESCASCADAS,DOIS COLCHÕES DE SOLTEIRO, EM UM DELES AINDA DORMEM, UMA MENINA E UM MENINO. EM PÉ, UMA MORENA DE APROXIMADAMENTE 25 ANOS, PREPARA O CAFÉ EM UM FOGÃOZINHO DE DUAS BOCAS QUE SE ENCONTRA SOBRE UMA MESA DOBRÁVEL. CANTA ROLA UM SAMBA ENREDO.

MORENA

Shirlêy!!  Washington!! Vamos acordar!

               O café tá pronto.  Vamos logo, que  eu vou sair!

UMA DAS CRIANÇAS APENAS RESMUNGA. DO LADO DE FORA, CHAMAM MORENA.

  EM OFF

  Lady Morena, tú não vai pr’o barracão?

   MORENA

          Já tô indo!(TOM)Vocês ouviram, tô saindo. Tem café pronto e pão de ontem, se

          precisarem de mim, tô lá no barracão!

SEQ.4 – COMUNIDADE – EXT.DIA

LADY MORENA E A AMIGA CAMINHAM POR ENTRE AS RUE LAS DA FAVELA EM DIREÇÃO AO BARRACÃO DA ESCOLA DE SAMBA, MORENA CUMPRIMENTA AS PESSOAS QUE ENCONTRA.

     MORENA

          Cuidado aí no telhado, seu João, amanhã tem desfile…Bom dia, Jurema!

SEQ.5 – EM UMA RUA DA CIDADE – EXT.DIA

O CAMINHÃO DE LIXO VAI PASSANDO, DOIS GARIS CONVERSAM ENQUANTO APANHAM O LIXO.

     GARI 1

          Então, Tião, tá preparado?

      GARI 2

          Só tô esperando a hora! Amanhã, vou arrebentar, vai ser nota dez!

       GARI 1

                   (IMITANDO UMA NARRAÇÃO)

          Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Nota dez!

         GARI 2

          É isso!  Aparece lá no ensaio geral hoje à noite. (JOGANDO UM SACO) Segura aí!

SEQ.6 – CAIS DO PORTO – EXT.DIA

TRÊS HOMENS TRABALHAM NO EMBARQUE DE AÇUCAR, ENTRE ELES UM MULATO DE QUASE DOIS METROS DE ALTURA, VOZ ROUCA, BATUCA COM AS MÃOS.

           HOMEM 1

          Ainda dá p’ra sair na bateria?

          MULATO

          Pr’o ano que vem, dá! (TOM) Estamos ensaiando a três meses e tu agora quer desfilá?

             HOMEM 2

          Vai lá no barracão que tem vaga na ala da força, sempre precisa de gente pr’a empurrar os carro.

           MULATO

          Na bateria do mestre “Feijão”, só ensaiando desde o começo, porque se atravessar o samba, é varada na mão,  sem perdão. É ou não é, neguinho?

SEQ.7 – UM ARMAZÉM ABANDONADO – INT.DIA

DE UM LADO, QUATRO MULHERES BORDAM E COSTURAM FANTASIAS, ENTRE ELAS, LADY MORENA E A AMIGA. DO OUTRO, TRÊS HOMENS DECORAM UM CARRO ALEGÓRICO.

        AMIGA

          Não foi trabalhar hoje, Morena?

        MORENA

          Que nada,virei pr’a minha patroa e disse: – Dona Jô, amanhã não vai dar pr’a vir, eu tenho que ajudar a terminar as fantasias da escola!

          MULHER 1

          E ela?

        MORENA

          Disse que ia descontar o dia.  Eu,  ó! (BALANÇANDO OS OMBROS) Carnaval é  minha  vida,  emprego a gente arruma, tá cheio de madame por aí.

        MULHER 2

                 (COM SOTAQUE NORDESTINO)

          Tá não, vixe! Desde que cheguei de Juazeiro, só arrumei faxina, emprego fixo igual ao teu, tem não!

          AMIGA  

          Ela fala assim, porque sabe que Chicão não vai deixar faltar nada pr’a ela. O “cara” faz tudo por ela, é só pedir.

       MORENA

          Tá me estranhando? Eu mora na favela, mas  eu sou do bem! Não nasci pr’a ser mulher de bandido, não! E vamos  parar com essa conversa, é carnaval!

APANHA UMA VASSOURA QUE ESTÁ ENCOSTADA NA PAREDE E SAI DANÇANDO PELO BARRACÃO.

SEQ.8 – UM BOTECO NA COMUNIDADE – INT. FIM DE TARDE.

UM BALCÃO IMPROVISADO COM MADEIRAS REMENDADAS,DO LADO DE DENTRO, UMA GELADEIRA VERMELHA JÁ MOSTRANDO ALGUMA FERRUGEM, DO LADO DE FORA, UMA MESA DE FERRO COM QUATRO CADEIRAS, UMA DE CADA COR, EM UMA DELAS UM HOMEM SENTADO.

              HOMEM 

                 (AO HOMEM ATRÁS DO BALCÃO)

          Ô, Jacaré, dá um conhaque aí!

              JACARÉ

                 (ENQUANTO APANHA O CONHAQUE)

          E então, Macarrão,não arrumou emprego?

                HOMEM  

          Que nada, jacaré, tá foda!  É só bico. Um bico aqui, outro ali. Mas agora, me passa esse conhaque que preciso esquentar a garganta pr’o ensaio geral.  Amanhã, vamos arrebentar na avenida

JACARÉ ATRAVESSA O BALCÃO E SERVE AO HOMEM, QUE TOMA O CONHAQUE DE UMA SÓ VEZ E SAI.

                HOMEM 

          Põe na conta aí, jacaré!

SEQ.9 – RUA DA ENTRADA DA FAVELA – EXT. NOITE.

PANORÂMICA SOBRE A RUA QUE ESTÁ CHEIA DE GENTE, CÂMERA PASSEIA PELA BATERIA, FECHA NO MESTRE “FEIJÃO” ENSOPADO DE SUOR, QUE COMO UM MAESTRO, REGE AQUELES HOMENS  TODOS SUADOS. CÂMERA ACOMPANHA A PORTA-BANDEIRA MORENA E MESTRE-SALA TIÃO, CLOSE NELA, DEPOIS NELE. PLANO AMERICA NO NO HOMEM QUE PUXA O SAMBA-ENREDO. PANORÂMICA NA RUA.

SEQ.10– SÁBADO DE CARNAVAL. CASA DE MORENA – INT.DIA

                       MORENA

          Washington, tem que ir lá no barracão pegar a fantasia! Shirlêy, frita uns ovos pr’a gente comer!

                          SHIRLÊY

                          Só tem um ovo, mãe!

                          MORENA

                        (GRITANDO)

                 Washington!  Vai buscar a tua  fantasia, moleque!

                          WASHINGTON

          Fica fria, mãe,  dá tempo,  os ônibus só vão sair às 6:00 da tarde.

SEQ.11– NO ARMAZÉM – INT.DIA.

                          MORENA

                         Cadê a armação do meu vestido?

                          TIÃO

                      A Jurema já levou! Foi junto com a comissão de frente.

SEQ.12– ENTRADA DA COMUNIDADE – EXT.FIM DE TARDE.

PANORÂMICA SOBRE A RUA, AS PESSOAS VÃO CHEGANDO AO ÔNIBUS PARA EMBARCAREM RUMO AO DESFILE. PLANO GERAL NOS ÔNIBUS SAINDO, AS PESSOAS VÃO CANTANDO O SAMBA-ENREDO COM ALEGRIA.

SEQ.13– SAMBÓDROMO – EXT. NOITE.

A ESCOLA DE SAMBA VAI ENTRANDO NA AVENIDA, PANORÂMICA SOBRE AS PESSOAS EVOLUINDO NA CONCENTRAÇÃO. PLANO GERAL SOBRE A BATERIA, PLANO MÉDIO EM MESTRE FEIJÃO, PLANO MÉDIO EM MACARRÃO QUE ENTOA O GRITO DE GUERRA.

                          MACARRÃO

                              Alô comunidade, tá todo mundo aí? Hoje é a nossa vez, tem que ser…Segura Mestre Feijão!!…

A ESCOLA COMEÇA O DESFILE, PANORÂMICA SOBRE A ES COLA, SOBRE AS ARQUIBANCADAS QUE VIBRAM, CÂMERA SE APROXIMA DO MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA, CLOSE NELE. CLOSE NELA. CORTE.

SEQ.14– PLANO GERAL NA COMUNIDADE. EXT.NOITE.

TIROTEIOS, SIRENES DE POLÍCIA, GRITARIAS. FADE IN.

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O FILHO DE IEMANJÁ

novembro 2, 2018

ROTEIRO DE CURTA-METRAGEM

O FILHO DE IEMANJÁ

AUTOR

PAULO SACALDASSY

PERSONAGENS

VADÃO

CREUZA

PAI JOAQUIM

XERECO

SACA-ROLHA

HOMEM 1

HOMEM 2

FIGURANTES

DONO DA BIROSCA

SEGURANÇA 1

SEGURANÇA 2

NAMORADA DE SACA-ROLHA

SEQ.1 – RUA EM FRENTE UMA PENITENCIÁRIA – EXTERIOR – DIA.

CAI UMA CHUVA FINA. NA RUA EM FRENTE À PORTA DA PENITENCIÁRIA, CREUZA AGUARDA A SAÍDA DE VADÃO.

CRÉDITOS INICIAIS AO SOM DE UM PONTO PARA IEMANJÁ.

SEQ 2 – SAÍDA DA PENITENCIÁRIA – INT/EXT – DIA.

VADÃO SAI SEM OLHAR PARA TRÁS, TRAZ NA MÃO UMA PEQUENA SACOLA. CREUZA CORRE E O ABRAÇA.

VADÃO

         Vida nova!… Vida nova!

SEQ 3 – BOTECO DA FAVELA – INT/EXT – DIA.

NA FRENTE DA BIROSCA, UMA MESINHA DE FERRO COM QUATRO CADEIRAS ENFERRUJADAS. UMA MESA DE SINUCA ATRAVESSA À FRENTE, ATRAPALHANDO A PASSAGEM. DOIS HOMENS JOGAM SINUCA ENQUANTO BEBEM CERVEJA. NO CHÃO, AO LADO DA MESA DE SINUCA, MUITAS GARRAFAS. VADÃO CHEGA E SE SENTA EM UMA DAS CADEIRAS.

VADÃO

         Ai, chefe… uma cerva bem gelada!

HOMEM 1

         Fala, Vadão!

HOMEM 2

         Saiu de vez da gaiola?

VADÃO

         É! E agora vou viver uma vida nova! Quatro anos naquele inferno, não quero mais pra mim, não, xará!

O DONO DE BAR TRAZ A CERVEJA. VADÃO SE SERVE E VIRA O COPO NUM GOLE SÓ.

HOMEM 1

         Que tu vai fazer da vida agora?

HOMEM 2

         Aqui fora, emprego ta foda…

VADÃO

         Quero patrão, não! To pensando em abrir um negócio! To pensando numa parada aí. Só ta me faltando o capital. Mas isso eu vou dar um jeito.

HOMEM 1

         Fala com o Xereco, quem sabe ele não te faz um em-préstimo!

HOMEM 2

         Afinal de contas, tu é do conceito, não é mesmo?

VADÃO

         Agora to limpo e não quero mais nada com o Xereco. Desse negócio, to fora.

VADÃO VIRA O COPO DE UMA VEZ SÓ E SAI. OS HOMENS CONTINUAM O JOGO.

SEQ 4 – SALA DA CASA DE VADÃO – INTERIOR – DIA.

NUMA SALA APERTADA, DOIS PEQUENOS SOFÁS COBERTOS COM UMA CAPA COLORIDA, UMA TELEVISÃO DE 29’ E UM APARELHO DE SOM, COMPLETAM O CENÁRIO. NO SOFÁ, VADÃO ESTÁ PENSATIVO. CHEGA CREUZA.

CREUZA

         Que foi, Vadão? Aconteceu alguma coisa?

VADÃO

         Não consigo levantar a grana pra abrir o negócio!

CREUZA

         Amanhã vou falar com minha irmã. Vou ver se ela tem algum pra ajudar a gente.

VADÃO

         É melhor deixar tua irmã de fora. To sabendo que ela encheu tuas idéias pra tu me largar.

CREUZA

         É fofoca desse povinho! Não tem essa com a gente, não! Tu sabe que eu to contigo.

VADÃO

         To pensando pedir uma grana emprestada pro Xereco.

CREUZA

         Tu acha que ele vai te emprestar? Duvido! Tudo mundo fala que ele ta contigo atravessado…

VADÃO

         Puxei quatro anos pra livrar a cara dele. Não tem essa, não!

CREUZA

         Vamo lá no Centro do Pai Joaquim. Quem sabe tua mãe Iemanjá não te dá uma luz?

VADÃO

         Acho que tu ta certa, neguinha! É isso aí! To em falta com a minha mãe. Quem sabe ela não me ajuda, não é mesm? Só que antes vou levar um lero com o Xereco.

CREUZA

         Cuidado, Vadão! Não confio nesse cara!

VADÃO

         Vou levar um lero na amizade, só pra ver se dá pé!

SEQ 6 – CASA DE XERECO – INTERIOR – DIA.

NA FRENTE DA CASA, DOIS HOMENS ARMADOS FAZEM A VIGILÂNCIA. VADÃO BATE NA PORTA. UM DOS HOMENS A ABRE. XERECO ESTÁ SENTADO EM UMA POLTRONA. NA SALA UM SOFÁ RASGADO E ALGUMAS CAIXAS EMPILHADAS. VADÃO ENTRA.

XERECO

         Pensei que tu não ia vim visitar o teu camarada!

XERECO FAZ GESTOS PARA OS DOIS HOMENS, QUE SAEM E FECHAM A PORTA.

XERECO

Senta aí!

VADÃO

         A Nega me falou que tu tava bolado comigo!

XERECO

         Tenho que corta a língua dessas fofoqueiras todas! E aí, tá na ativa de novo?

VADÃO

         To fora, Xereco. Não quero mais aquele inferno pra mim, não! To afim de montar um negócio e levar uma vida nova.

XERECO

         Ta certo! É direito teu! Como tu é meu chapa, vou te liberar pra tu tocar tua vida de homem de bem.

VADÃO

         Caralho!… Tu me tira um peso na consciência…

XERECO

         Tu é sangue bom, meu chapa. É do conceito!

VADÃO

         Já que tu me deu esse conceito, queria te pedir um favor.

XERECO

         Qual é o teu problema?

VADÃO

         To precisando de um capital pra montar meu negócio.

XERECO

         Tá na mão!

VADÃO

         Tá brincando?…

XERECO

         Só que vou te pedir pra tu quebra uma aqui meu teu camarada.

VADÃO

         Manda aí!

XERECO

         Preciso que tu acabe com o Saca-Rolha. Se tu fizer isso pra mim, a grana é tua. Nem precisa nem me devolver!.

VADÃO

         To fora, Xereco… Não vai dar…

XERECO

         Tu vai pra casa e pensa, depois tu me avisa!

VADÃO

         Não vai dá!… Não vai dá!…

XERECO

         Vai e pensa melhor… Sei que tu vai fazer a coisa certa!

SEQ 7 – CENTRO ESPÍRITA – INTERIOR – NOITE.

NO CONGA, O BABALORIXÁ PAI JOAQUIM JOGA BÚZIOS PARA VADÃO E CREUZA.

VADÃO

         Preciso saber se Iemanjá pode me ajudar!

PAI JOAQUIM

(CONSULTANDO OS BUZIOS)

         Olha, meu filho, Iemanjá ta zangado com vos mi cê.

VADÃO

         É que eu tava preso! Saí faz dois dias. E to precisando de um conselho. To precisando montar um negócio, só que pra arrumar o dinheiro, tenho que fazer um trabalho aí… Queria pedir a proteção de Iemanjá pra tudo sair bem.

PAI JOAQUIM

(CONSULTANDO OS BÚZIOS)

         Vos micê tem que deixar o passado no passado. Pensá na vida nova!

VADÃO

         Pra pensar em vida nova, preciso fazer uma parada.

PAI JOAQUIM

(CONSULTANDO OS BÚZIOS)

         Fio não acredita em Iemanjá? Espera que ela mostra o caminho pra vos micê.

VADÃO

         Acredita, eu acredito… Mas, não posso perder essa chance, por isso, vim pedi proteção a minha mãe.

PAI JOAQUIM

         Então fio faz o que o coração mandá!

CENA 8 – PRAIA – EXTERIOR – DIA.

NA AREIA, VADÃO E CREUZA ESTÃO SENTADOS TOMANDO SOL. AOS POUCOS METROS, SACA-ROLHA E A NAMORADA CURTEM O MAIOR LOVE.

VADÃO

         Tava precisando tirar o mofo.

CREUZA

         Adorei você me trazer pra praia.

VADÃO

         E daqui pra frente todo fim de semana vai ser assim, Neguinha!

SACA-ROLHA ENTRA NA ÁGUA. VADÃO O SEGUE COM O OLHAR.

VADÃO

         Vou dar um mergulho, Neguinha.

NO MAR, SACA-ROLHA FAZ “JACARÉ” NA ONDA. VADÃO SE APROXIMA.

VADÃO

         E aí, Saca-Rolha, tudo na paz?

SACA-ROLHA

         Até que enfim saiu da gaiola, heim, Vadão?

VADÃO

         Saí pra te mandar pro inferno.

VADÃO PUXA UM CANIVETE DO SHORT E ACERTA SACA-ROLHA. QUANDO VADÃO VEM SAINDO DA ÁGUA, UM TIRO LHE ACERTA O PEITO. VADÃO CAI NA ÁGUA E É LEVADO PARA O FUNDO DO MAR. CREUZA CORRE E ENTRA NO MAR CHAMADO POR VADÃO. SACA-ROLHA SAI D’ÁGUA SEGURANDO A BARRIGA SANGRANDO. CREUZA PÁRA E VÊ O CORPO DE VADÃO SE AFASTANDO PARA O FUNDO. NO CALÇADÃO, UM HOMEM GUARDA A ARMA E SAI EM DISPARADA EM UMA BICICLETA. 

AO SOM DO MESMO PONTO PARA IEMANJÁ DO INÍCIO, A CÂMERA VAI SE AFASTANDO E PASSAM OS CRÉDITOS FINAIS.

– FIM –

 

 


MENINAS SONHAM DEMAIS

setembro 28, 2018

MENINAS SONHAM DEMAIS

(CURTA-METRAGEM)

AUTOR

PAULO SACALDASSY

PERSONAGENS

ANABELLA

VALQUÍRIA

ANTENOR

MOTORISTA

MULHER

OUTROS

TRABALHADORES DE CANA

MOTORISTA DO CARRO DE SOM

CENA 1 – UMA LAVOURA DE CANA-DE-AÇÚCAR – EXT.DIA.

TRABALHADORES FAZEM O CORTE DA CANA. ENTRAM OS CRÉDITOS DO FILME. (MÚSICA). UM HOMEM, POUCO MAIS DE TRINTA ANOS, BARBA RALA E UMA MULHER, TRINTA E POUCOS ANOS, DE ROSTO SOFRIDO, DISCUTEM.

ANTENOR

         Onde tá aquela minina, Valquiria? Ela num sabe que tem de ajudá nóis?

VALQUIRIA

         Ela num tava bem hoje não, Antenor.

ANTENOR

Agora essa minina deu de ficá doente todo dia. Vou dá um jeito nessa minina é hoji memo!

VALQUIRIA

         Dexa a minina, homem! Anabella merece coisa meió!

ANTENOR

         Quem sabe que é meió pra ela, sou eu!

CENA 2 – CASA DE ANABELLA – SALA – INT. – DIA.

UMA CASA SIMPLES COM QUARTO, SALA E COZINHA. NA SALA, MÓVEIS SIMPLES E UMA PEQUENA TELEVISÃO SOBRE UMA PEQUENA MESA. EM FRENTE À ELA, UMA MENINA LINDA, APROXIMADAMENTE 14 ANOS, SEGURANDO UMA BONECA DE PANO, TEM OS OLHOS VIDRADOS NA TELEVISÃO. CAM FOCALIZA A TV, ONDE UMA MODELO FAMOSA DÁ UMA ENTREVISTA.

ANABELLA

(V.O.)

         É isso que quero pra mim! Cortar cana, nunca mais!

VEMOS SOMENTE OS PÉS DE ANABELLA, QUE SAI. PÁRA NA BONECA DEIXADA NO CHÃO.

CENA 3 – RUAS DE UM VILAREJO – EXT. ENTARDECER.

CARRO DE SOM PASSEIA PELAS RUAS.

CARRO DE SOM

(V.O)

         “Até amanhã, inscrição para o concurso Miss Mundo Novo. Meninas a partir de quatorze anos podem participar”.

O CARRO PARA EM FRENTE A UMA CASA SIMPLES. NA JANELA, DEBRUÇADA, ANABELLA SORRI DE FELICIDADE.

CENA 4 – CASA DE ANABELLA – COZINHA – INT. – NOITE.

VALQUIRIA MEXE A PANELA QUE ESTÁ NO FOGO DE UM VELHO FOGÃO À LENHA. ANABELLA INVADE A COZINHA ESFUZIANTE.

ANABELLA

         Mãe! Mãe! Deixa eu entrar no concurso? Deixa, vai?

VALQUIRIA

         Sussega, minina! Que raio de concurso?

ANABELLA

         Concurso de Miss, mãe! Deixa? Pode ser minha chance de virar modelo.

VALQUIRIA

         É meió, cê pará com essa cunversa. Seu pai tá virado com ocê. Disse que ocê vai trabaiá amanhã, nem que seja amarrada.

ANABELLA

         Mas, não vou, mesmo!

ANABELLA SAI ENFURECIDA.

CENA 5 – QUARTO DA CASA – INT. NOITE.

NO QUARTO PEQUENO, UMA CAMA DE CASAL ENCOSTADA EM UMA DAS PAREDES, UM QUARTO-ROUPA DESCASCADO A SEPARA DE UM VELHO SOFÁ-CAMA. ANABELLA SENTADA, COM O ROSTO ENTRE AS PERNAS, CHORA. ENTRA SEU PAI.

ANTENOR

         Por quê cê num foi trabaiá hoje?…

ANABELLA NÃO RESPONDE.

ANTENOR

Tô falando contigo, Anabella… Cê qué me respondê?

ANABELLA LEVANTA A CABEÇA DE ENTRE AS PERNAS.

ANABELLA

(COM RAIVA)

         Não fui, porque não quis. E não vou mais, viu?

ANTENOR SE APROXIMA E ACERTA UM TAPA NO ROSTO DE ANABELLA.

ANTENOR

Cê acha que tá falando com quem? Mais uma dessa eu te quebro os dentes, minina!

ANABELLA COLOCA A MÃO NO ROSTO E MIRA O PAI COM RAIVA.

ANABELLA

         Não vou mais cortar cana! Eu vou ser modelo. E você e nem ninguém vai me impedir.

ANTENOR

         Ah, não! Espera só.

ANTENOR ABRE O VELHO GUARDA-ROUPA, PEGA UMA CINTA E COMEÇA A BATER EM ANABELLA. ELE SÓ PÁRA QUANDO VALQUIRIA CHEGA AO QUARTO, VINDA PELOS GRITOS DE ANABELLA.

CENA 6 – LADO DE FORA DA CASA – EXT. – MADRUGADA.

ANABELLA SAI E FECHA A PORTA ATRÁS DE SI, CUIDADOSAMENTE. LEVA UMA TROUXA NA MÃO.

CENA 7 – RODOVIA – EXT. – AMANHECENDO.

ANABELLA PEDE CARONA. VÁRIOS CARROS PASSAM. UM CAMINHÃO PARA. ANABELLA VAI CORRENDO NA SUA DIREÇÃO. ANABELLA CHEGA. A PORTA SE ABRE.

ANABELLA

(OFEGANTE)

         Moço, o senhor pode me dá uma carona até Mundo Novo?

MOTORISTA

(V.O.)

         Sobe aí, guria!

ANABELLA SOBE, CAMINHÃO DÁ A PARTIDA E SAI.

CENA 08 – BOLEIA DO CAMINHÃO – INT. DIA.

ANABELLA ESTÁ CALADA. OLHA FIXA A ESTRADA. O CAMINHONEIRO, POR SUA VEZ, OBSERVA ANABELLA POR INTEIRO, DOS PÉS A CABEÇA, ATÉ PARAR O OLHAR NO DECOTE DO VESTIDO DE CHITA, ONDE UM PEQUENO SEIO SE DEIXA MOSTRAR. ELE POUSA AS MÃOS SOBRE A COXA DE ANABELLA.

MOTORISTA

         Mas, o que tu vais fazer em Mundo Novo, guria? Vais estudar?

ANABELLA

         Não senhor, moço! Vou participar de um concurso de Miss.

MOTORISTA

         Miss?

ANABELLA

         É moço! Na verdade, eu quero ser modelo, então eu vou entrar nesse concurso, quem sabe alguém não me convida pra ser modelo? Até já sonhei comigo na passarela, dando entrevista, que nem as “modelo” famosas.

MOTORISTA

         É esse o seu sonho?

ANABELLA

         Isso é o que mais quero na minha vida, moço!

MOTORISTA

         Então hoje é teu dia de sorte, guria!

ANABELLA

         Sorte? Por quê?

MOTORISTA

         Porque  te levarei para um lugar onde tu vais ser modelo bem mais rápido que tu pensas. Podes comemorar, guria.

ANABELLA

Jura?

MOTORISTA

         Mas, bah! Podes acreditar! Vou te fazer a modelo mais linda deste país!

ANABELLA COLOCA A CABEÇA PRA FORA DA JANELA DO CAMINHÃO.

ANABELLA

(GRITANDO)

         Eu vou ser modelo! Eu vou ser modelo!

O MOTORISTA AUMENTA O RÁDIO DO CAMINHÃO. MÚSICA SERTANEJA.

CENA 09 – SOBRADO ANTIGO – INT. – TARDE.

MÓVEIS ANTIGOS DECORAM O AMBIENTE QUE TEM DOIS SOFÁS DE TRÊS LUGARES, ALMOFADAS ESPALHADAS SOBRE ELES. UM ESPELHO EM UMA DAS PAREDES. UMA SENHORA LOIRA, APROXIMADAMENTE 50 ANOS, FALA AO TELEFONE.

MULHER

         Vou lhe mandar o que eu tenho de melhor, deputado! Qual a vez que falhei com o senhor?

O MOTORISTA ABRE A PORTA E ENTRA, ANABELLA, ACUADA, SE ESCONDE ATRÁS DO HOMEM.

MOTORISTA

         Não tenhas medo, guria? Podes ficar a vontade.

A MULHER AINDA FALA AO TELEFONE, SÓ OBSERVA O MOTORISTA QUE FAZ GESTOS PARA QUE ELA DESLIGUE O TELEFONE.

MULHER

         Perfeitamente, deputado! Sigilo absoluto. Até mais!

A MULHER DESLIGA O TELEFONE. ANABELLA ANDA PELA SALA, ENCANTADA COM TUDO, NEM PRESTA ATENÇÃO NA CONVERSA.

MOTORISTA

         Olhas o que eu te trouxe. Modelo de primeira.

MULHER

         Mas, ela é de “menor”, Gaúcho! Não vou poder ficar. Com esse lance de pedofilia, os “homem” não tão aliviando.

MOTORISTA

         Mas, olha que prenda linda!Preciso estréia o material. Não podia entrar com ela num motel.

MULHER

         Gaúcho, gaúcho! Tu ainda vai se dá mal!

MOTORISTA

         Eu vou tomar um banho, depois leva ela até o meu quarto. Combinado?

MULHER

         Vai, gaúcho! Tu não presta, mesmo!

O MOTORISTA SOBE PELA ESCADA QUE FICA NA LATERAL DA SALA.

MULHER

(PARA ANABELLA)

         Vem cá menina! Como tu se chama?

ANABELLA SE APROXIMA.

ANABELLA

 Anabella.

MULHER

         Quantos anos tu tem?

ANABELLA

         Faço quinze a semana que vem.

MULHER

         Quer dizer que tu qué ser modelo?

ANABELLA

         Fugi de casa pra isso!

MULHER

(RESMUNGANDO PRA SI)

     Esse gaúcho não tem jeito!

ANABELLA

         A senhora vai me fazer ser modelo?

MULHER

         Olha só, menina: Aqui a gente não trabalha com modelo menor de idade, ta me entendendo. Vou deixar tu dormir aqui hoje, mas amanhã tu tem que procurar teu rumo, certo?

ANABELLA

         Mas o moço falou que ia me levar pr’um lugar que ia me fazer a modelo mais famosa do mundo.

MULHER

         Eu já falei que aqui não vai dá pra ficar. Agora sobe lá e se acerta com o gaúcho. Última porta no final do corredor.

CENA 09 – QUARTO – INT – ENTARDECER.

MOTORISTA COM A TOALHA ENROLADA NA CINTURA, ESTÁ DEITADO NA CAMA. OLHA FIXAMENTE A PORTA. OUVE-SE DUAS BATIDAS NA PORTA.

MOTORISTA

         A porta ta aberta. Podes entrar!

A PORTA ABRE LENTAMENTE. ANABELLA ENTRA. ESTÁ TRISTE. AO VER O MOTORISTA DESNUDO DEITADO NA CAMA, TAPA OS OLHOS.

ANABELLA

         Desculpe! Não sabia que o moço estava sem roupa. Volto depois.

MOTORISTA

         Não tenhas vergonha, guria. Vem. Sente aqui. Acertou tudo com a mulher lá embaixo?

ANABELLA

(COM OS OLHOS TAPADOS)

         A senhora disse que eu não posso ficar aqui porque sou menor de idade. Ela vai deixar eu dormir aqui hoje, mas amanhã tenho que ir embora.

O MOTORISTA SE LEVANTA, VAI ATÉ ANABELLA, TIRA AS MÃOS DOS OLHOS. OLHA FIXAMENTE PARA ELA.

MOTORISTA

         Tu és uma prenda mui linda, guria. Se tu quiseres, serás minha pra sempre. Agora, vem, vamos deitar um pouco. Não te preocupes, que depois resolvo com a mulher lá embaixo essa questão de modelo. Está certo?

ANABELLA

(ESBOÇANDO UM SORRISO)

  O moço jura?

MOTORISTA

         O que tu quiseres, prenda minha. Agora, vem, vamos deitar.

OS DOIS SE DEITAM NA CAMA. O MOTORISTA COMEÇA ALISAR AS PERNAS DE ANABELLA. QUE TENTA SE ESQUIVAR. O MOTORISTA A APERTA E SOBE COM AS CARÍCIAS ATÉ CHEGAR AO SEIO, QUANDO ENTÃO, RASGA O VESTIDO. ANABELLA ESTÁ ASSUSTADA. MUDA DE MEDO. O MOTORISTA A OLHA COM OLHOS DE DESEJO. TIRA A TOALHA ENROLADA NA CINTURA. UMA LÁGRIMA CAI DOS OLHOS DE ANABELLA. UM BARULHO DE CAMA BALANÇANDO SE MISTURA COM GRITOS DE PRAZER DO MOTORISTA. O MOTORISTA SE LEVANTE, SE ENROLA NA TOALHA E SAI. NA CAMA, ANABELLA NUA, COM A CABEÇA ENFIADA ENTRE AS PERNAS, CHORA. UM FIO DE SANGUE ESCORRE PELAS PERNAS, SE JUNTANDO A POÇA QUE SUJA O LENÇOL.

– FIM –


Um amor de quatro estações

junho 15, 2018

ROTEIRO DE CURTA METRAGEM

“UM AMOR EM QUATRO ESTAÇÕES”

AUTOR

PAULO SACALDASSY

CENA 1 – SALÃO DE VELÓRIO – INT. DIA.

NO SALÃO, UMA GRANDE CORBELHA COM OS DIZERES: “EU NUNCA TE ESQUECEREI, MEU AMOR! – LUCIANA”. LUCIANA, VESTIDA DE PRETO E ÓCULOS ESCUROS ESTÁ AO LADO DO CAIXÃO DO MARIDO, AMPARADA POR DUAS AMIGAS. ALGUMAS PESSOAS CONVERSAM, ALGUNS RIEM DISCRETAMENTE. LUCIANA CHORA.

LUCIANA

     E Agora? O que eu vou passar da minha vida?

AMIGA 1

     Não pensa nisso agora.

LUCIANA

     Uma vida inteira ao lado dele. Meu amor!

AMIGA 2

     Você precisa ser forte.

AMIGA 1

     O tempo cura.

LUCIANA

     Acho que essa dor nunca vai passar.

O HOMEM SE APROXIMA PARA FECHAR O CAIXÃO. LUCIANA SE DESESPERA E É AMPARADA PELAS AMIGAS. AS PESSOAS ENTRAM NO SALÃO. TODOS REZAM. LUCIANA SE DEITA SOBRE O CAIXÃO.

CENA 2 – RUAS DA CIDADE – EXT. DIA.

SOB UMA CHUVA FINA, DE UM DIA CINZENTO, O CORTEJO LEVANDO O CORPO ARAVESSA A CIDADE ATÉ CHEGAR AO CEMITÉRIO.

CENA 3 – CEMITÉRIO – INT. DIA.

AO LADO DO CARRINHO QUE LEVA O MARIDO, COM A MÃO SOBRE O CAIXÃO, LUCIANA, AMPARADA PELAS AMIGAS, CHORA.

LUCIANA

     Eu te amo, meu amor! Você foi a melhor coisa que me aconteceu! E nunca vou te esquecer.

O CARRINHO COM O CAIXÃO CHEGA NA LÁPIDE. O CAIXÃO É ENTERRADO. LUCIANA JOGA PÉTALAS DE FLORES SOBRE O CAIXÃO. A LÁPIDE É FECHADA. LUCIANA DEIXA O LOCAL AMPARADA PELAS AMIGAS.

LUCIANA

     Agora fiquei só! Sem meu marido, seus os filhos que a gente não pode ter. Sozinha!

AMIGA 1

     A gente vai cuidar de você!

AMIGA 2

     Com o tempo essa dor passa. Você vai ver!

LUCIANA

     Mas dói de mais!

AMIGA 1

     Vai pra casa de praia, descansa um pouco. Vai ser bom pra você.

AMIGA 2

     Se você quiser, vou contigo.

LUCIANA

     Acho que é isso que vou fazer. Preciso sangrar sozinha.

AS TRÊS SEGUEM DE BRAÇOS DADOS ATÉ A SAÍDA DO CEMITÉRIO.

CENA 4 – PRAIA DE UM VILAREJO – EXT. DIA.

RICARDO GUARDA SUAS REDES, SUAS TARRAFAS E SEUS PUÇAS NA PEQUENA EMBARCAÇÃO, A EMPURRA MAR ADENTRO, LIGA O MOTOR, ENTRA E PARTE ATÉ SE PERDER NO HORIZONTE.

CENA 5 – CASA DE PRAIA DE LUCIANA – EXT/INT. DIA.

LUCIANA, VESTIDA DE PRETO, ABRE A PORTA DA FRENTE DA CASA E ENTRA. NO QUARTO, COLOCA A MALA E A BOLSA SOBRE UMA POLTRONA. ABRE AS JANELAS E SE JOGA NA CAMA. ABRAÇA UMAS ALMOFADAS E CHORA.

CENA 6 – BEIRA DO MAR – EXT. DIA.

LUCIANA, COM UMA SAÍDA DE PRAIA ESTÁ NA BEIRA DO MAR. RICARDO CHEGA COM O SEU BARCO. OS DOIS SE OLHAM. LUCIANA ABAIXA A CABEÇA.

RICARDO

     Sube do ocorrido cum seu marido, meus sentimentos!

LUCIANA

Obrigado!

RICARDO

     A senhora que peixe? Tá fresquinho!

LUCIANA

     Hoje não!

RICARDO

     Então tá certo! Quarqué coisa, a sinhora me chama.

RICARDO EMPURRA O BARCO PARA A AREIA. LUCIANA REPARA NOS SEUS MÚSCULOS. RICARDO SORRI PARA LUCIANA. ELA ABAIXA A CABEÇA E ANDA EM DIREÇÃO A ÁGUA.

CENA 7 – VARANDA DA CASA DE PRAIA – EXT. DIA/NOITE.

PASSAGEM DE TEMPO MOSTRANDO AS QUATRO ESTAÇÕES DO ANO. DIA E NOITE. LUCIANA NA VARANDA, ENTRANDO E SAINDO DA CASA. LUCIANA CHORANDO, FELIZ, TRISTE. RICARDO ENTRANDO E VOLTANDO DO MAR. RICARDO OLHANDO LUCIANA, LUCIANA OLHANDO RICARDO. RICARDO TRAZENDO PEIXE PARA LUCIANA. LUCIANA OFERECENDO BOLO PARA RICARDO. RICARDO LHE ENTREGA UMA FLOR. LUCIANA TRISTE. RICARDO ACENANDO AO ENTRAR NO MAR. LUCIANA CHORANDO.

CENA 8 –PRAIA/MAR – EXT. DIA.

LUCIANA ESTÁ MUITO TRISTE, ENTRA NO MAR E AI CADA VEZ MAIS PARA O FUNDO. UMA ONDA A DERRUBA. LUCIANA SE DEBATE EM DESESPERO. RICARDO SE APROXIMA COM O BARCO E SE JOGA NA ÁGUA. RICARDO CARREGA LUCIANA PELOS BRAÇOS ATÉ A AREIA. ELA FAZ RESPIRAÇÃO BOCA A BOCA. LUCIANA ACORDA. RICARDO LHE FAZ CARINHOS NO ROSTO.

CENA 9 – QUARTO DE LUCIANA – INT. NOITE.

NA CAMA, LUCIANA E RICARDO FAZEM AMOR. LUCIANA ESTÁ TOTALMENTE ENTREGUE E FELIZ. DEITA-SE SOBRE O PEITO DE RICARDO APÓS A TRANSA. ELE LHE FAZ CARINHOS.

LUCIANA

     Eu achei que nunca mais seria feliz.

RICARDO

     Eu também!

LUCIANA

     A solidão quase acabou comigo.

RICARDO

     Só não morri por que tinha o mar.

LUCIANA

     Agora você tem a mim e eu tenho você.

LUCIANA SOBE EM CIMA DE RICARDO E COMEÇA A BEIJÁ-LO.

CENA 10 – PRAIA/MAR – EXT.DIA.

LUCIANA, FELIZ, ENTRA NO BARCO DE RICARDO. ELE EMPURRA O BARCO MAR ADENTRO, LIGA O MOTOR E SOBE. LUCIANA DEITA-SE SOBRE AS PERNAS DE RICARDO. O BARCO VAI SE AFASTANDO ATÉ SE PERDER NO HORIZONTE.

– FIM –


UM HOMEM SEM SORTE

abril 28, 2018

SEQUÊNCIA 1 – SALA DO APARTAMENTO DE CARLOS – INTERIOR – DIA.

NA SALA DE UM APARTAMENTO SIMPLES, COM POUCOS MÓVEIS, ROUPAS ESPALHADAS PELO SOFÁ, REVISTAS JOGADAS SOBRE UMA PEQUENA MESA, CARLOS, 32 ANOS, SOLTEIRO, FANÁTICO POR FUTEBOL, ESTÁ TERMINANDO DE SE ARRUMAR PARA IR ASSISTIR A FINAL DA COPA COM OS AMIGOS. CAMISA VERDE E AMARELA, BANDANA NA CABEÇA, BANDEIRA, CORNETA E TUDO MAIS. DA RUA, VEM BARULHO DE BUZINAS, FOGOS E GRITARIA. CARLOS VAI ATÉ A JANELA DO APARTAMENTO, 12º. ANDAR, COM SUA CORNETA E TAMBÉM DÁ O SEU RECADO. TOCA O TELEFONE.

                          CARLOS

         Alô!… Fala, Chicão! Segura meu lugar na mesa, que

         eu já tô chegando!

                          CHICÃO

                          (OFF)

         Vê se deixa teu azar em casa, hein?

                          CARLOS

         Que azar que nada! Eu tenho, é muita sorte!

CARLOS DESLIGA O TELEFONE, PEGA SEUS APETRECHOS DE TORCEDOR, COLOCA SEU CELULAR NA CINTURA, E SAI.

SEQUÊNCIA 2 – CORREDOR DO PRÉDIO – INTERIOR – DIA.

NO CORREDOR COM POUCO ILUMINAÇÃO, CARLOS AGUARDA O ELEVADOR, ESTÁ EUFÓRICO E VOLTA E MEIA, TOCA A CORNETA RESPONDENDO O BARULHO QUE VEM DA RUA. CARLOS COMEÇA A SENTIR CÓLICAS INTESTINAIS, ELAS VÃO AUMENTANDO. CARLOS SE CONTORCE, NÃO AGUENTA E SAI CORRENDO EM DIREÇÃO AO SEU APARTAMENTO.

                          CARLOS

         Ai, meu Deus!… Segura Carlão, segura!… Ui! Ai!

SEQUÊNCIA 3 – CORREDOR DO PRÉDIO – INTERIOR – DIA.

CARLOS CHEGA APRESSADO EM FRENTE AO ELEVADOR. O BARULHO DA RUA VAI DIMINUINDO. PENDURADO NA PORTA DO ELEVADOR, UM AVISO “EM MANUTENÇÃO”. CARLOS CHUTA A PORTA DO ELEVADOR E SAI EM DISPARADA ESCADA ABAIXO.

                          CARLOS

         É hoje!… Parece que acordei do avesso!

SEQUÊNCIA 4 – ESCADARIA DO PRÉDIO – INTERIOR – DIA.

CARLOS VAI DESCENDO OS DEGRAUS DE DOIS EM DOIS. COM O FONE NO OUVIDO VAI ESCUTANDO O JOGO.

                          CARLOS

         Caramba, já estão cantando o hino nacional! Tô ven-

         do que não vai dar tempo!… Se eu perder esse  jo-

         go, eu me mato!

SEQUÊNCIA 5 – GARAGEM DO PRÉDIO – INTERIOR – DIA.

CARLOS ENTRA NO CARRO E DÁ A PARTIDA. UMA, DUAS, TRÊS VEZES E NADA, O CARRO NÃO FUNCIONA. TÁ NERVOSO. SE DISTRAI COM O JOGO NO FONE DE OUVIDO. FICA TENSO. TENTA DE NOVO LIGAR O CARRO, E NADA. CARLOS BATE A PORTA DO CARRO E PARTE EM DIREÇÃO À RUA.

                          CARLOS

         Parece que me colocaram uma urucubaca hoje! Sai pra

         lá!… Xô!… Ainda bem que todo ônibus  que  passa

         aqui, passa lá no bar!

CARLOS CHEGA NA RUA, ESTÁ DESERTA, PELO FONE DE OUVIDO, CARLOS TORCE E VIBRA COM A SELEÇÃO DESESPERADAMENTE.

SEQUÊNCIA 6 – ÔNIBUS – INTERIOR – DIA.

CARLOS ESTÁ NO ÔNIBUS SOZINHO, APENAS ELE E MOTORISTA. CARLOS ESTÁ TENSO COM O JOGO.

                          MOTORISTA

         E o jogo?

                          CARLOS

         Tá duro!… Tá duro!…

O CELULAR COMEÇA A TER PROBLEMAS COM A SINTONIA. CARLOS DISCUTE COM O CELULAR.

                          CARLOS

         Não faz isso!… Agora, não!… Aí!… Assim!…

CARLOS CONSEGUE ENCONTRAR UMA SINTONIA. CARLOS VIBRA, A SELEÇÃO ESTÁ NO ATAQUE, PARECE QUE VAI SAIR UM GOL. O ÔNIBUS ENTRA EM UM TÚNEL, O CELULAR PERDE A SINTONIA. CARLOS ESBRAVEJA. QUANDO O ÔNIBUS SAI DO TÚNEL, O CELULAR JÁ NÃO FUNCIONA.

                          MOTORISTA

         E aí, rapaz! Saiu gol?

                          CARLOS

         Não sei!  A merda desse celular  parou de  funcionar!

         A bateria foi pro saco!… Ê, urucubaca! Sai!…

O ÔNIBUS VAI PARANDO, PARANDO E PÁRA.

                          MOTORISTA

         Aí, meu rapaz! É melhor você correr, senão vai aca-

         bar perdendo o resto do jogo, porque o ônibus, ó!

CARLOS DESCE DO ÔNIBUS, AINDA ESTÁ UM POUCO LONGE DO BAR ONDE VAI ENCONTRAR OS AMIGOS, UM MISTO DE TENSÃO E NERVOSISMO. A RUA ESTÁ DESERTA, DE REPENTE, CAI UM TEMPORAL, ENCHARCANDO CARLOS POR INTEIRO.

                          CARLOS

         Isso é hora de chover?… Preciso pegar um táxi!

SEQUÊNCIA 7 – TÁXI – INTERIOR – DIA.

UM VELHO DE CARA AMARRADA, SOTAQUE PORTUNHOL, DIRIGE O TÁXI, ENQUANTO CARLOS, ESTÁ LOUCO PARA SABER O RESULTADO DO JOGO.

                          CARLOS

         Será que dava pro senhor colocar no jogo?

                          TAXISTA

         No! No me gosto del futebol

                          CARLOS

         Mas é o Brasil!… É final da Copa do Mundo!

                          TAXISTA

         Jo que me interessa! Despos las pessoas ficam dizen

         do que não há dinheiro! Olha cá, tudo fechado! Don-

         de se viu isso!… Parar um país por causa del  futebol.

         Tomara que perca, aí, jo quero ver!

OUVE-SE UM ESTOURO. CARLOS ACHA QUE É GOL E VIBRA.

                          CARLOS

         É gol!… Põe no rádio pra gente ouvir!…

                          TAXISTA

         Que gol que nada! Isso foi o pneu del carro que fu-

         rou!

                          CARLOS

         Tão conspirando contra mim! Tão conspirando!…

CARLOS DESCE DO CARRO ENFURECIDO, PAGA A CORRIDA E SAI APRES-SADO.

SEQUÊNCIA 8 – RUA – EXTERIOR – DIA.

CARLOS PERCEBE QUE JÁ ESTÁ A DUAS QUADRAS DO BAR E ACELERA O PASSO. PELO SILÊNCIO, ACHA QUE O JOGO ESTÁ EMPATADO.

                           CARLOS

         Agora vou torcer para que fique empate,  assim,  eu

         consigo ver a prorrogação.

CARLOS ACELERA O PASSO, DE NOVO CAI UM TEMPORAL. CARLOS ESTÁ NERVOSO, COMEÇA CORRER PARA CHEGAR O QUANTO ANTES AO BAR. PASSA UM CARRO SOBRE UMA POÇA E JOGA TODA ÁGUA SUJA EM CIMA DE CARLOS, QUE ESBRAVEJA. COMEÇA AUMENTAR O MOVIMENTO NA RUA.

SEQUÊNCIA 09 – BAR – EXTERIOR – ANOITECER.

CARLOS CHEGA AO BAR, TODO MOLHADO E SUJO. O BAR JÁ ESTÁ FECHANDO, APENAS UM GARÇOM DO LADO DE FORA TERMINANDO DE FECHAR AS PORTAS. CARLOS O INTERPELA

                           CARLOS

         O que foi? Tá fechando por quê?… E o jogo?

                           GARÇOM

         (COM SOTAQUE NORDESTINO) Tu tava aonde?  Em  Marte?

         O jogo acabou, o Brasil perdeu! O pessoal foi  tudo

         embora!

                           CARLOS

         Você tá brincando!…

                           GARÇOM

         É verdade!… Foi 4 a 1 pros “cabra”!  Acabou com a

         nossa festa! Tu num viu o pessoal tudo indo de cabe

         ça baixa?Tudo triste?…

CARLOS SENTA-SE NO MEIO FIO, CABISBAIXO, FICA EM SILÊNCIO, DE REPENTE, LEVANTA, JOGA OS SEUS APETRECHOS DE TORCEDOR NO CHÃO E COMEÇA A PULAR EM CIMA DOS OBJETOS E A GRITAR DE RAIVA. DE REPENTE UM LADRÃO SE APROXIMA E ANUNCIA O ASSALTO.

                           LADRÃO

         Passa tudo!…

                         – FIM –


Quando a história não convence

dezembro 4, 2012

Como já foi dito por muitos, contar uma história não tem receita, não adianta conhecer os caminhos das pedras, já ter feito muitas histórias de sucesso, que não vai conseguir enganar ninguém com um arremedo de história. Não se pode querer contar uma história, apenas por contar, mesmo porque, a história quem conta é a própria personagem.

E personagem rasa, com história comum, não interessa a ninguém. Quem quer saber o dia-a-dia da vida do vizinho, se já sabemos que lá, tudo é sempre igual? É assim na dramaturgia. Sem um estado de transformação com necessidade de ser modificado, nenhuma história interessa. E não adianta o assunto abordado, por mais interessante que seja, se não tiver conflito e movimentação, não vai para frente.

Há novelistas que acham que, por fazerem parte de uma indústria, podem produzir em escalas, histórias de amor que vão encantar o telespectador. Ledo engano. O que aguça o Ser humano e o faz acompanhar uma novela, é uma história que o conquiste todos os dias e, que acima de tudo, tenha o básico de dramaturgia, um conflito a ser resolvido pela personagem em um estado necessitado de transformação.

Não se pode começar uma história pelo seu tema, por um assunto, ou por algo de grande relevância que se queira contar. Tudo isso é pano de fundo na vida da personagem que vive um dilema. Falar de violência, de tráfico, de doença, seja lá qual for o assunto, se não for através do drama de uma personagem, a história não convence. Ajudar a personagem a colocar sua vida no lugar, é o que impulsionada a vontade de acompanhar uma história.

É assim no livro, no teatro, no cinema e na televisão, dramaturgia não tem muito segredo, desde que você parta do drama de uma personagem para a história e não da história, para o drama de uma personagem. E outra coisa é muito importante em uma história, tudo que a movimente, tem que, necessariamente, desaguar na resolução do conflito da personagem.

A história tem de funcionar como um aro de bicicleta, onde esses aros, mesmo separados, convergem para um mesmo raio de uma mesma roda. Histórias, que não se movimentam tal qual uma roda de bicicleta acabam por derrubar a personagem, por serem tortas e disformes. Quando se quer contar uma história que convença, temos que expor o drama, o conflito e os caminhos que farão a personagem encontrar a sua redenção.

Portanto, ao começar escrever uma história, devemos pensar primeiro no conflito da personagem e não no assunto que queremos abordar, pois é através da busca da resolução do problema de nossa personagem, que contaremos a história, uma história que convença. Caso contrário, não haverá o que salva a sua história do fracasso.


A crítica gostou, então é bom!

outubro 1, 2010

Não consigo entender certos posicionamentos que algumas pessoas tomam diante de certas situações. Por vezes, são até capazes de subtraírem seus gostos, contrariarem suas vontades e irem contra suas próprias convicções, só para seguirem uma opinião. E isso acontece em diversos assuntos, mas vou me ater apenas na questão artística, pois os demais assuntos ficam para uma outra oportunidade.

Talvez para agradarem, ou para não se sentirem excluídos de certos grupos, algumas pessoas se deixam influenciar de tal forma por uma opinião, que não conseguem distinguir aquilo que realmente lhe dá satisfação, daquilo que foi induzido a lhe satisfazer. O impulso de compartilhar o filme da moda, a música da moda, os programas da moda, manipulam-na e ela nem percebe.

E se tal filme, novela, música, ou sei lá mais o quê, tiver o aval da crítica dita especializada, será a certificação de que fizeram a escolha certa. A opinião da crítica se tornar maior do que a própria opinião que elas tenham ou tinham sobre o tal filme, tal novela, tal peça de teatro ou tal música. A crítica gostou, então é bom!

O pior é que muitos artistas andam mais preocupados em agradar a crítica especializa do que as pessoas, e acabam se perdendo no meio do caminho, deixando o que realmente pretendiam realizar para trás, em troca de meia dúzia de palavras de recomendações dadas por uma única pessoa. Acho pouco receber a opinião de uma única pessoa, vocês não acham?

O artista faz e leva a sua arte para as pessoas e quanto mais pessoas tomarem contato com a sua obra, melhor. E o ideal é que as próprias pessoas formem suas opiniões sobre o seu trabalho, o aplaudindo, o criticando, o recomendando, ou simplesmente ignorando o seu trabalho. Contar com o gosto de uma única pessoa é prejudicial para o crescimento do artista, pois ninguém é dono da verdade.

Tomar como certa ou errada a opinião expressada por uma única pessoa não atesta a qualidade de nenhum trabalho. E se o que você realizou tinha como alvo, um público específico, com um gosto específico, diferente do gosto e da vontade desta pessoa e esta pessoa renega o seu trabalho, você vai abandonar tudo, tendo a certeza do que o que você fez não presta? A opinião de uma pessoa não deve refletir a vontade de uma maioria.

O artista tem de debruçar sobre a sua arte, colocando nela, toda a sua verdade, despreocupado se vai agradar esse ou aquele. O que interessa para o artista é a satisfação de realizar a sua arte e se ele conseguir atingir um grande número de pessoas, a satisfação vai ser maior e se dentre estas pessoas estiver o crítico especializado, a realização será plena. Mas, se não, sua obra estará feita e sempre vai encontrar alguém que com ela se comova.

Pare de se preocupar com o que vão dizer do seu trabalho, pois alguns vão gostar, outros vão odiar, outros tantos serão indiferentes. Portanto, não dê ouvidos à opinião de uma única pessoa. Seja você o verdadeiro crítico do seu trabalho.


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