O FAZEDOR DE PIPAS

maio 12, 2017

CENÁRIO: UMA GARAGEM

AO ABRIR AS CORTINAS, VEMOS NO FUNDO DO PALCO, VÁRIAS PIPAS PENDURADAS EM UM VARAL. NO CENTRO DO PALCO, UMA BANCADA, ONDE UM SENHOR FAZ PIPAS. ENTRA UM JOVEM, DE CABEÇA BAIXA, DIGITANDO AO CELULAR.

Neto – Oi, Vô, tudo bom?

Avô   – (LEVANTANDO OS OLHOS) Oi, meu neto! Você não sai desse celular, hein?

O JOVEM DÁ UMA RISADA, ACABA DE DIGITAR E LEVANTA OS OLHOS.

Neto – Caracá, vô! Quanta pipa!! Tu tá vendendo pipa agora, vô?

Avô  – (SEM PARAR O QUÊ ESTÁ FAZENDO) Claro que não! Elas todas são pra você! Fiz cada uma delas para você!

Neto  – Pra mim?

Avô   – É, mas você não veio mais aqui!

Neto  – É que agora tenho outras paradas. Sabe como é, né vô?

Avô   – Eu sei, meu neto! Menino é igual a uma pipa, quando cresce, tem de voar!

O JOVEM MEXE EM CADA UMA DAS PIPAS PENDURADAS NO VARAL.

Neto – Lembra, vô, como eu ficava vidrado vendo tu fazendo as pipas? Nunca consegui fazer uma, né? Só estragava tudo!

Avô   – Não quer tentar de novo?

Neto – Eu não! Não tenho como competidor com o maior fazedor de pipas do mundo.

Avô   – Todo mundo sabe fazer uma pipa!

Neto  – Pode até saber, mas ninguém é melhor do que meu avô.

O JOVEM VAI ATÉ A BANCADA E ABRAÇA O AVÔ, QUE SEM PARAR O QUÊ ESTÁ FAZENDO, APENAS SORRI.

Neto – Caracá, vô, ver essas pipas todas pendradas me deu uma saudade! Lembra quando tu me levava para soltar pipas? Nunca esqueci disso! Era muito bom!

Avô   – E você acha que eu esqueci?

O AVÔ TERMINA A PIPA E A MOSTRA PARA O NETO.

Avô  – E então, ficou bonita esta?

Neto – Ficou! Todas são lindas! Queria saber fazer pipas como você, vô!

O AVÔ VAI ATÉ O FUNDO DO PALCO E A PENDURA JUNTO COM AS OUTRAS NO VARAL

Neto – Vô, me deu uma vontade de soltar pipa. Posso pegar uma?

Avô  – A que você quiser! Elas são tuas, meu neto!

O JOVEM ESCOLHE UMA DAS PIPAS E A RETIRADA DO VARAL.

Neto – Vou levar essa. Vamos comigo, vô? Não sei se ainda sei soltar uma pipa!!

Avô  – Claro, meu neto! Tenho certeza que você ainda sabe!

Neto – Eu já disse que te amo, vô?

Avô  – Já me disse sim! Logo quando chegou! Não lembra? Depois eu é que sou velho!!

Neto – Então vamos, vô! Vamos voar!!

O JOVEM SAI DE CENA FAZENDO QUE EMPINA A PIPA.

Avô  – E a linha, meu neto? Tem de levar a linha, senão a pipa não voa!

O AVÔ SAI DE CENA LEVANDO O CARRETEL DE LINHA. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. FECHAM-SE AS CORTINAS .

                                                                                                                            – FIM –


O ATAQUE ALIENÍGENA

março 24, 2017

CENÁRIO: UMA PRAÇA

SENTADO EM UM BANCO, UM HOMEM MEXE EM UM CELULAR. ENTRAM EM CENA DOIS MARCIANOS, PORTANDO UMA ARMA ESQUISITA. UM DE CADA LADO.

Marciano1     – Não se mexa!

Marciano2     – Se você se mexer, vou congelar você!

O HOMEM SE LEVANTA DO BANCO

Homem       – Calma aí, rapaziada! Sem violência!

Marciano1   – Largue essa arma!

Homem       – Pô, chefia, não é arma, não! Acabe de pegá essa parada agora. Não é de última geração. Tava tentando desbloquear. Mas pega aí!

Marciano 2    – Não faça nenhum movimento!

O HOMEM SE SENTA NO BANCO. OS MARCIANOS SE APROXIMAM. UM DE CADA LADO.

Homem          – Fantasia da hora, hein?

Marciano1     – Não estamos fantasiados.

Marciano2     – Nós somos marcianos e vamos conquistar esse lugar.

Marciano 1    – Me leve até o seu líder!

Marciano 2    – Vamos! Ande logo!

Homem          – Olha só, rapaziada, eu não tenho essa parada de líder, não! Eu trabalho por conta própria mesmo!

Marciano 1    – Como você não tem um líder?

O HOMEM SE LEVANTA DO BANCO.

Homem          – Ó, até fiz parte de uma quadrilha aí, mas o chefe caiu em cana e a rapaziada se separou. Sabe como é, né, chefia? A gente tem que garantir o leitinho das crianças.

Marciano 2    – (PARA MARCIANO 1) Acho que ele não está entendendo o que estamos falando.

Marciano1     – Mas aprendemos tudo!

Marciano2     – De repente eles falam algum dialeto que não aprendemos.

Marciano 1    – Você está entendendo?

Homem          – Total, rapaziada! Vocês são os marcianos, pá! Querem conquistar, pá!…

OS MARCIANOS APONTAM AS ARMAS PARA O HOMEM.

Marciano 1    – Então nos leve até o seu líder!

Marciano 2    – Vamos! Não temos o dia todo!

Homem          – Então, rapaziada, não vou poder ajudar vocês. Já falei que não tenho mais essa parada de líder, não!

O MARCIANO 1 AMEAÇA ATIRAR.

Homem          – Calma aí, chefia! Sem violência! Sem violência!

Marciano 2    – Queremos falar com o seu líder agora!

Homem          – O Zarolha tá preso… Deixa eu vê como posso ajudar vocês…

O HOMEM SE SENTA NO BANCO. OS MARCIANOS CONVERSAM ENTRE SI.

Marciano 1    – Não é possível que este lugar não tenha um líder.

Marciano 2    – Mas nós vimos que cada país neste planeta, tem um líder.

Marciano 1    – Como é que eles chamam o líder deles aqui, mesmo?

Marciano 2    – Acho que é… Sem dentes!

Marciano 1    – Não! É… Ao dente!

O HOMEM SE LEVANTA.

Marciano2     – Escrevente!

Homem          – Olha aqui, rapaziada!

Marciano 1    – Presidente!

Marciano 2    – Isso mesmo! Presidente!

Homem          – Ô, seu dois esquisitos, dá pra olhá pra mim?

Marciano 1    – Nos leve agora até o seu líder Presidente!

Homem          – Presidente?

Marciano 2    – Isso! O presidente deste país!

Marciano 1    – Ele não é seu líder?

Homem          – Ih, rapaziada isso eu não sei, viu?

Marciano 1    – Como não sabe?

Marciano 2    – Ele não é seu líder?

Homem          – Rapaziada, aqui tá uma confusão danada, viu? Tem gente que acha que é, mas a maioria acha que não é. Tem gente que fala que tem uma história de golpe na parada. Não sei, não! Aí é com vocês, mano!

Marciano 1    – (PARA MARCIANO 2) Que maravilha!

Marciano2     – Então vai ser mais fácil que a gente achava.

Marciano1     – Vamos dominar esse país!

Marciano2     – Esse país agora é nosso!

Homem          – Ih, mano, chegaram atrasados, rapaziada! Os americano já domina aqui! Ó, e um tempão, viu?

Marciano1     – Quem são esses americanos.

Marciano2     – De que planeta?

Homem          – Ih, eles moram lá nos Estaites!

Marciano2     – Estaites?

Homem          – Outro país!

Marciano1     – E quer dizer que eles já invadiram esse país?

Homem          – Ih, rapaziada, eles dominam quase o mundo todo.

Marciano2     – Dominam o mundo?

Homem          – Os cara são poderoso! Mexeu com eles, eles logo faz guerra.

OS DOIS MARCIANOS SE SENTAM NO BANCO E LARGAM SUAS ARMAS.

OS MARCIANOS CONVERSAM ENTRE SI.

Marciano1     – O que você acha?

Marciano2     – Acho que esse país aqui não vale nada.

Marciano1     – Então, vamos atacar os americanos?

Marciano2     – Vamos atacar os americanos!

O HOMEM VAI POR TRÁS DO BANCO E PEGA AS ARMAS DOS MARCIANOS.

Homem          – Perdeu, rapaziada! Quietinho senão eu atiro!

OS DOIS MARCIANOS SE LEVANTAM DO BANCO.

Marciano1     – Cuidado com isso, rapaz!

Marciano2     – Você não sabe usar isso!

Homem          – Vamô Pará de caô e me leva logo até o líder de vocês.

OS TRÊS VÃO SAINDO DE CENA COM O HOMEM APONTANDO AS ARMAR PARA OS MARCIANOS.

Homem          – Agora quero vê quem não vai me respeitá! Vou roubá agora noutro planeta! Ah, moleque!… Andando!… Andando!…

OS TRÊS SAEM DE CENA. FECHAM-SE AS CORTINAS.

– FIM –

 


O início de tudo

novembro 11, 2016

Hoje não tem publicação sobre pontos de vistas político, discussões sobre o rumo da Educação, nem exercícios de dramaturgia, não tem mensagens de otimismo, sobre filosofias de vida, nem tão pouco contos ou poesias, nem mesmo alguma aventura da pequena Helena, porque hoje o assunto é: comemoração e gratidão, pois, há exatos dez anos, pela primeira vez, um texto meu deixou o fundo de minha gaveta e ganhou os palcos.

Eu que, há dez anos, apenas alimentava o sonho de ver um texto meu montado, acabei sendo surpreendido com o contato de uma Companhia de Teatro de São Paulo, pedindo a autorização para levar aos palcos o meu texto “Galo, Galinho, Galão. Agora já tenho esporão!”, que havia sido garimpado em um site que disponibiliza textos clássicos e de jovens desconhecidos. A Companhia, que fazia sua estreia nos palcos, resolveu apostar em um texto de um desconhecido. Foi o início de tudo.

Por isso, antes de qualquer coisa, preciso manifestar aqui, minha eterna gratidão à Juliana Camargo, diretora e atriz da Companhia Cia. Teatro dos Quatro, por me dar a primeira oportunidade. É claro que não posso me esquecer de agradecer também, ao Luiz Picazzio, ao Felipe Silze e o Marco Bressan, que junto com a Juliana, formavam o elenco, bem como ao produtor Alessandro Leite, aos figurinos e cenários de Newton Lima e a trilha sonora de Rafael Altro.

Eu que dois meses antes já havia sido surpreendido pela premiação em um Concurso Nacional de Dramaturgia, com outros dois textos meus, um na Categoria Adulta e outro na Categoria Infantil, com a chegada do meu primeiro texto aos palcos, comecei a acreditar, de fato, que o sonho poderia virar, sim, realidade e que era possível ver meus textos fora da gaveta, ou das páginas do livro de dramaturgia editado com os meus textos premiados no Concurso.

Infelizmente a Cia. de Teatro dos Quatro não prosseguiu após Juliana se tornar mãe. Só que pra mim, ela será eterna. Com certeza, todos eles não devem ter ideia o quanto foram importantes para minha carreira como dramaturgo. Portanto, escrevo essas poucas palavras, com o sentimento eterno de gratidão, pela oportunidade e aposta, em um desconhecido, que sem fazer parte de nenhum grupo teatral e morar longe das capitais, nutria apenas o sonho de ser, um dia, reconhecido com dramaturgo.

Muita coisa passou depois daquele 11 de Novembro de 2.006, quando, muito emocionado, assisti a estréia do meu texto, outras tantas pessoas cruzaram o meu caminho e acreditaram em meu trabalho, e eu, que antes sonhava em ter meu texto encenado, acabei por ver vários deles viajando por todo o Brasil, de Norte a Sul, de Leste a Oeste e ainda assisti algo inimaginável no início de tudo, meus textos aportando em terras portuguesas e em país africanos que falam a nossa língua. Tornei-me sim, um Dramaturgo.

E hoje, uma década depois, não posso também me furtar de estender os meus mais sinceros agradecimentos, aos grupos e companhias de teatro, profissionais, amadores e estudantis que apostaram e apostam em meus textos, nestes longos dez anos escrevendo para Teatro. Saibam que, todos vocês, foram tão ou mais importantes nesta minha trajetória de dramaturgo, por isso, para não esquecer de ninguém, quero que todos saibam que em meu blog tem um cantinho agradecendo cada um de vocês.

Mas, antes de encerrar essas poucas palavras, não posso deixar de prestar a minha eterna gratidão a uma pessoa muito especial, que apostou nos meus textos desde sempre, que sempre me incentivou, que sempre que pôde me abriu portas, que sempre fez questão de divulgar meu trabalho e que, sem a sua generosidade, jamais teria ido tão longe. Por isso, minha eterna gratidão, ao meu professor, amigo e Mestre inspirador: Nelson Albissú.


Dramaturgo Santista em cinco cidades

agosto 10, 2016

reportagem1


Qual a dificuldade de se pagar direitos autorais?

agosto 5, 2016

É impressionante, mas volta e meia é preciso voltar nesse assunto. Qual a dificuldade de se pagar os direitos autorais para o autor que escreveu o texto? Realmente eu até busco entender que nem sempre o espetáculo tem fins lucrativos e, que muitas vezes é preciso que todos coloquem a mão no bolso para realizar a produção, que a vontade de levar o espetáculo aos palcos é maior que as possibilidades, mas, porque os direitos autorais não figuram como um custo para realização da produção?

Se o principal produto que fará com que o espetáculo aconteça, é o texto, no mínimo, o custo para obtenção de sua liberação deveria ser a primeira coisa a ser pensada para se começar uma produção. Como começar a produção de um espetáculo sem saber se o autor liberará o texto? Existem outros fatores que vão muito além da simples liberação do texto pelo autor, sem o pagamento dos direitos autorais. Às vezes o autor está impossibilitado de fazê-lo por ter firmado outro compromisso com quem pensou o texto como parte do processo.

Eu sei o quanto é penoso levar o Teatro até a população, muito mais para quem está longe dos grandes centros, sem possibilidades de captação de recursos, sem apoio nenhum para gerir a cultura local. Nem sempre é possível obter condições suficientes para se colocar o espetáculo em boas condições para uma apresentação digna, até por isso, não me furto, em vez e outra, liberar a utilização dos meus textos, principalmente para os grupos amadores, sem o pagamento dos meus direitos autorais.

Muitas dessas produções são estudantis, realizadas em salas de aulas e que buscam usar o meu texto como instrumento pedagógico, na formação de público e, portanto, entendo que a liberação em troca da divulgação de meu nome, seja uma maneira de contribuir para a formação desses estudantes. Mas, cada caso é um caso, e é só o autor quem decide se o texto será ou não liberado do pagamento dos direitos autorais. Por isso, não adianta fazer a produção antes de solicitar a liberação, pois pode ser que ela não aconteça.

Quem pretende trabalhar com o Teatro, produzir espetáculos, deve ter a consciência da obrigação de se remunerar o autor do texto, pois se há espaço nas planilhas de custos para o pagamento, do cenógrafo, do figurinista, do iluminador, da trilha sonora, do Teatro, porque não há espaço para os direitos autorais? Um espetáculo é um processo coletivo, em que todos tem sua função, tanto na produção, quanto na apresentação e o autor do texto precisa ser valorizado dentro de todo esse processo.

Entendo toda a dificuldade que é produzir um espetáculo de teatro e, mais ainda, gerar dele, lucro suficiente para conseguir sobreviver, mas, tal como o ator e o diretor que precisam viver do espetáculo, o autor, que despendeu dias e noites para escrever aquele texto e fazer dele o seu ganha pão, também necessita que seu trabalho seja devidamente remunerado. Portanto, quando pensar em montar um espetáculo, coloque em suas planilhas, o pagamento dos direitos autorais, porque o autor não vive só da divulgação do seu nome.


E O AMANHÃ?!

maio 6, 2016

CENÁRIO: ESCOMBROS DE UM PRÉDIO.

AO ABRIR AS CORTINAS, UMA MULHER GRÁVIDA TEM A PERNA PRESA POR PARTES DOS ESCOMBROS.

Mulher           – Alguém ajuda, por favor! Eu não pedi essa guerra!!… Eu vou sair daqui!

A MULHER TENTA SE LIVRAR DOS ESCOMBROS.

Mulher           – Ajude, meu Deus! Eu não estou aguentando mais! Preciso salvar essa minha criança. Ela é a única coisa que me sobrou depois de tudo. Socorro!… Socorro!… Tem alguém por aí?… Socorro!… (ELA PRA. ESTÁ EXAUSTA) Fome!… Sede!… Medo!…

A MULHER DESMAIA. ENTRA UM HOMEM BASTANTE FERIDO.

Homem          – Tem alguém ali embaixo.

O HOMEM, COM DIFICULDADES, CHEGA ATÉ OS ESCOMBROS.

Homem          – Moça!… Moça!…

O HOMEM MOLHA A MÃO COM SUA SALIVA E PASSA NA BOCA DA MULHER, QUE PASSA A LÍNGUA SOBRE SEUS LÁBIOS.

Homem          – Moça, você está bem?

A MULHER ABRE OS OLHOS.

Mulher           – Não me mate!

Homem          – Não vou lhe matar!

Mulher           – Eu não tenho culpa da guerra.

Homem          – Eu também não!

Mulher           – Eu preciso salvar meu filho!

Homem          – Cadê seu filho?

Mulher           – Tá aqui comigo!

Homem          – Minha nossa! Você tá grávida!

Mulher           – Socorro, moço, socorro!

Homem          – Vou te ajudar a sair daí.

Mulher           – Fome!… Sede!…

Homem          – Fica calma! Vou tentar tirar isso de cima de você.

O HOMEM, COM DIFICULDADE, CONSEGUE TIRAR UM PEDAÇO DOS ESCOMBROS QUE ESTAVAM PRENDENDO A PERNA DA MULHER.

Homem          – Deixa eu te ajudar a levantar.

Mullher          – Eu não consigo! Estou muito fraca. Minha barriga está doendo muito!

Homem          – De quanto tempo você tá?

Mulher           – Três meses!

Homem          – Quanto tempo você tá aqui?

Mulher           – Não sei, moço!

Homem          – Você tá muito fraca!

Mulher           – Moço, tô com fome!… Tô com sede!…

Homem          – Aqui não tem comida, a água que estava escorrendo pelas fendas, secou… Eu tô há dias procurando uma saída.

O HOMEM TIRA DO BOLSO UM PEDAÇO DE PÃO E DÁ PRA MULHER, QUE COME DESESPERADA.

Mulher           – O que vai ser de nós, moço? O que vai ser?

Homem          – Fique calma!

A MULHER TENTA SE LEVANTAR, MAS CAI.

Homem          – Não faz isso, moça! Seu bebê!

A MULHER SE ESTIRA NO CHÃO.

Mulher           – Socorro! Socorro! Eu quero sair daqui!

Homem          – Olha só, moça! Atrás de onde estava você tem uma luz! Pode ser a saída!

O HOMEM COMEÇA A TIRAR OS ESCOMBROS COM DIFICULDADES. A MULHER, DE JOELHOS, TENTA AJUDÁ-LO.

Homem          – Não faça esforço! Deixa que eu consigo!

Mulher           – É pela liberdade do meu filho!

Homem          – Mas você está fraca!

Mulher           – Você também!

Homem          – Mas eu sou homem!

Muher             – E eu sou mulher!

Homem          – Eu só quero te proteger!

Muher             – Eu só quero salvar meu filho!

NA MEDIDA EM QUE VÃO SE POSICIONANDO, VÃO RETIRANDO OS ESCOMBROS.

Homem          – É por isso mesmo!

Mulher           – Eu quero ajudar!

Homem          – Você acha que guenta?

Mulher           – Nem que seja a última coisa que eu faça!

Homem          – Você tem coragem!

Mulher           – Você também!

Homem          – A gente vai conseguir!

Mulher           – Tenho certeza que sim!

DIANTE DELES SURGE UM GRANDE CLARÃO.

Mulher           – Conseguimos! Obrigado, meu Deus!

Homem          – Eu não acredito!

OS DOIS SE ABRAÇAM E VÃO DESCENDO, ABRAÇAÇADOS. FAZEM CARINHO NO ROSTO, UM NO OUTRO.

Mulher           – Você salvou a vida do meu filho!

Homem          – A gente se salvou!

Mulher           – Não sei de onde tirei tanta força!

Homem          – A gente só sabe a força que tem quando precisa dela.

Mulher           – Você foi forte!

Homem          – Nós fomos!

Mulher           – Maldita guerra!

Homem          – Malditos os homens que se preocupam em fazer a guerra!

Os Dois         – Malditos!

OS DOIS SE ENCARAM, OLHO NO OLHO. A MULHER SE DEITA SOBRE O COLO DO HOMEM. SEGURA A BARRIGA.

Homem          – Que foi?

Mulher           – Dor… Muita dor!

Homem          – Preciso te levar prum hospital.

Mulher           – Não sei se ainda vou resistir!

Homem          – Claro que vai!

Mulher           – Meu filho não vai resistir!

Homem          – Guenta! Você foi forte até agora.

Mulher           – Meu filho não vai resistir!

Homem          – Então espera que eu vou buscar ajuda!

Mulher           – Obrigado por me ajudar a sair.

Homem          – Guenta firme!

O HOMEM DEITA A MULHER SOBRE O CHÃO E SE LEVANTA.

Mulher           – Não precisa mais, moço!

Homem          – Agora, mais do que nunca!

Mulher           – Meu filho não resistiu!

A MULHER TEM A ROUPA MANCHADA DE SANGUE. O HOMEM SE COLOCA NO CHÃO E COLOCA A MULHER SOBRE O SEU COLO.

Mulher           – (CHORANDO) E agora, moço? Como vai ser meu amanhã?

Homem          – O amanhã é sempre uma nova história!

O HOMEM FAZ CARINHO NOS CABELOS DA MULHER. A LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. SONS DE SIRENES E SONS DE BOMBAS SE INTERCALAM.

– FIM –


A Dramaturgia e a Encenação

abril 15, 2016

O dramaturgo é um contador de histórias e, como qualquer escritor, materializa suas ideias numa folha de papel, mas, só que as faz, usando a carpintaria cênica. Sob seu ponto de vista, ele narra a sua história em busca da resolução dos conflitos em que vivem as suas personagens. A ideia, o desenvolvimento e o ponto final do texto, são seus, do começo ao fim do papel, ali sua história é soberana e é, justamente, o interesse de alguém em tirar essa sua história do papel e levá-la aos palcos, que dará vida à sua criação.

Aprendi com o meu Mestre, amigo e professor de Dramaturgia Nelson Albissú, que quando o autor dá o ponto final no seu texto, ele já não lhe pertence mais, pois quem o lê, já o enxergará sobre outros tantos pontos de vistas que o autor nem pensou enquanto contava a sua história. Sei que não é nada fácil se desapegar daquelas vidas que você criou, dos conflitos que você solucionou, confesso que já sofri muito com isso, mas é um sofrimento em vão, pois toda história toca alguém de um jeito e cada um terá um ponto de vista sobre ela.

O dramaturgo como o autor da história é dono daquele ponto de vista, daquela narrativa que está no papel, acontece que, quando a história sai do papel, não é sempre que a carpintaria que o dramaturgo usou para contar os conflitos de suas personagens se encaixa no ponto de vista de seu diretor encenador, não se trata de fragilidade da dramaturgia, nem da interferência do diretor encenador e sim, divergências naturais sobre o ponto de vista entre a narrativa no papel e a materialização da história.

Depois que superei essa questão do apego sobre o que escrevo, comecei a entender melhor as necessidades de interferências no texto quando da sua encenação. Às vezes, a dinâmica que está no papel não funciona cenicamente, pois, quando escrevo, o faço sobre um ponto de vista de montagem que orienta a narrativa da minha história, mas não posso exigir do diretor encenador que ele veja a minha história, do mesmo ponto de visto que vi quando eu a escrevi. É preciso estar aberto para um outro olhar sobre a nossa obra.

É claro que não posso concordar que uma encenação rasgue a minha narrativa de ponta a ponta, ao ponto de transformá-la em outra história, mas acredito que todo o texto pode ser melhorado a luz de uma encenação que venha se somar às questões da narrativa que, por ventura, ficaram obscuras ou situações de conflitos que não se tornaram viáveis quando da sua montagem. Quando se respeita a estrutura da narrativa e se preserva o arco dramático do meu texto, o diretor encenador tem a liberdade de sua criação, pois é através de seu ponto de vista que a minha história sairá do papel.

Sei que esse não é um assunto fácil e para mais de um artigo, mas, como toda dramaturgia só se torna teatro quando o texto sai do papel e ganha os palcos pelas mãos de um diretor encenador, aprendi que, para ter as minhas histórias materializadas, preciso contar com a sensibilidade do diretor encenador e manter um diálogo aberto para aproximar, ao máximo, os nossos pontos de vista e, assim, tornar possível a encenação mais fiel da história que escrevi.

Mas, uma coisa deve ficar bem clara, se não houver um consenso entre autor e diretor encenador, para que a história seja preservada ao máximo, o melhor é que o diretor encenador escreva a sua própria história.


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