Vida malvada

maio 19, 2017

A vida nunca foi fácil, mas para algumas pessoas a vida sempre foi mais difícil de que para outras. Getúlia chegou a cidade de São Paulo para trabalhar como empregada doméstica na casa dos patrões de seu tio, o motorista da casa. Menina ainda chegou cheia de timidez e recato, tinha medo até de abrir a boca. Com o tempo ela foi se soltando e já se mostrava feliz e agradecida por ter fugido da seca nordestina que levou embora quatro de seus irmãos.

Só que o destino, como sempre cheio de armadilhas que não conhecemos, virou a vida de Getúlia de cabeça para baixo, em um acidente automobilístico, ela perdeu de uma só vez o tio, os patrões e o emprego e se viu sozinha no meio daquela desgraça toda que, só não foi maior, porque àquela altura, Getúlia já namorava com Otávio, que a acolheu e a consolou nas horas mais difíceis que passou.

Otávio trabalhava como zelador em um edifício vizinho da casa em que Getúlia trabalhava, de conversa em conversa foram se conhecendo e acabaram por namorar e no momento de maior desespero e desesperança de Getúlia, Otávio a pediu em casamento e os dois foram morar no pequeno apartamento que Otávio morava na cobertura do edifício em que trabalhava. A vida começava a sorrir novamente para Getúlia.

Mas, Getúlia veio para essa vida para sofrer, nada era tranquilo na vida da coitada, que até já vivia uma vida feliz com Otávio, já tinha conseguido trabalho, (fazia algumas faxinas nos apartamentos do edifício em que morava) tudo aquilo já deixava Getúlia olhar para vida com olhos de felicidade, até que seu marido Otávio é demitido. E naquela hora ficaram os dois ali, sem trabalho, sem moradia, sem dinheiro, sem esperança.

Otávio não se desesperou como Getúlia e tratou logo de tomar as rédeas da situação, com o pouco dinheiro que recebeu e as poucas faxinas que Getúlia ainda conseguia fazer, arrumou um quartinho para alugar e lá se foram os dois tentar arrumar a vida novamente. Como a situação do país piorou, Getúlia foi perdendo uma a uma as suas faxinas e Otávio, esse já estava há mais de um ano sem conseguir trabalho. Pronto, sem dinheiro, acabaram por ser despejados.

Ali, outra vez na rua, perdidos, Getúlia e Otávio só tinham um ao outro para atravessar aquele vendaval. Mais uma vez sem esperanças e com a certeza de não conseguir nenhum trabalho na cidade, Otávio foi com a mulher Getúlia se juntar ao Movimento dos Sem Terra na tentativa de conseguir um pedacinho de chão para recomeçar a vida. No assentamento, apesar de muita pobreza, aos poucos as coisas foram se encaixando, ainda que não tivessem empregos, nem salários, as doações que recebiam e um canto para dormir já bastavam.

Foram anos e anos caminhando por esse país afora, na esperança de encontrar um lugar para fincar pé. Otávio persistia, Getúlia ainda mantinha a fé e no meio daquilo tudo, Getúlia acabou ficando grávida. Um sopro de felicidade no meio daquela vida sofrida, pois uma criança sempre traz o prenúncio de boas novas. Otávio tratou de se chegar mais perto dos chefes do movimento, na tentativa de agilizar a possibilidade de encontrarem logo um pedacinho de terra para ficarem em paz.

Como a vida de Getúlia nunca foi realmente fácil, uma nova reviravolta a deixou de vez sem esperança. Justo naquela hora que estava tudo resolvido pelo líder do movimento, na nova invasão, Otávio e Getúlia iriam ganhar seu pedaço de chão e deixariam de vez o movimento para trás. Começariam uma vida nova, pai, mãe, filho e um pedaço de terra para serem feliz.

Mas, quis o destino, que bem na hora da invasão, Getúlia entrasse em trabalho de parto e viesse a parir o filho, sozinha, e, na naquele momento sublime de felicidade em que vivia, no instante em que a vida parecia querer lhe fazer feliz, ela, com o filho nos braços, vê o marido Otávio voltar cambaleante para cair aos seus pés, ferido de morte.


A paz que não temos

maio 5, 2017

Lá se vai ao longe, o tempo em que a paz se fazia presente entre nós, já não se pode mais ter a calmaria de uma rede a balançar no final de uma tarde preguiçosa, sem nem se preocupar com o amanhã, pois, a violência que ainda ontem apenas nos espreitava em esquinas mal iluminadas de noites escuras, hoje já nos ataca em plena luz do dia, sem medo das conseqüências, sem piedade da nossa alma, sem se importar se destroçará uma família, sem dó!

Lá se vai ao longe, o tempo das cadeiras nas calçadas em noites abafadas de tantos verões, ninguém tem mais coragem de se debruçar sobre o muro, apenas para ver o movimento do vai e vem das pessoas, pois todos passam apressados a passos largos em direção às suas casas, com o medo estampado no rosto e o coração palpitando dentro do peito, pedindo proteção a todos os santos para que nenhuma bala perdida lhe cruze o caminho.

Lá se vai ao longe, o tempo de crianças brincando inocente pelas ruas até a chegada da noite, já não há mais vidraças quebradas por bolas chutadas em peladas de pernas de pau, não há mais pega-pega, não há mais esconde-esconde, o que há ainda, é polícia e ladrão, só que não mais a brincadeira inocente de outra, agora a caçada real e violenta, uma guerra urbana que aumenta a cada dia e que parece não ter fim.

Lá se vai ao longe, já quase não se vê a paz, hoje a intolerância travestiu o ser humano e passou a dar as cartas pelos quatro cantos do mundo, não há um único lugar seguro, não há espaço nem mesmo para esperança, pois o ódio invadiu os corações de pessoas que não se importam com a vida, nem mesmo as próprias, pois são capazes de explodirem pelos ares com artefatos bélicos enrolados no próprio corpo, arrastando quem tiver no caminho.

Lá se vai ao longe, o tempo em que se podia viver sem que o medo levanta-se conosco todas as manhãs e nos acompanhasse por todo dia, até nos trazer de voltar para o nosso lar, para que assistamos em nossas TVs, a violência encurralando a paz em plena luz do dia, tingindo as ruas de sangue, matando pouco a pouco a esperança, nos fazendo querer desligar do mundo real para encontrar em um canto qualquer, nem que seja um pouquinho da paz.

Lá se vai ao longe a paz, e parece ir cada vez mais longe, tão longe que cada vez fica mais difícil correr para alcançá-la, pois quanto mais nos trancamos atrás das grades das nossas prisões, mais a violência aumenta o seu tamanho, se agiganta, de tal forma, que nos falta coragem de arriscarmos as nossas vidas com medo da morte por um assalto a mão armada, por um seqüestro relâmpago, por um estupro, por uma bala perdida e cada dia ficamos mais sem saída, mais sem vida, mais longe da paz.


O Amor e a Paz

abril 13, 2017

A raiva e o ódio uniram forças

E de tanto infernizarem

Contaminaram as almas para guerra

E agora, sobre a Terra

Só se vê violência

Nem mesmo a inocência da criança

É capaz de sair ilesa

E assim, sem defesa

Agarramo-nos em oração

Espero que nada nos aconteça

Torcendo para que a esperança

Em uma nova alvorada, amanheça

Sob as bênçãos do amor e da paz


A difícil tarefa de subir a nossa escada

março 3, 2017

Às vezes, penso que não vou conseguir, na cabeça, um turbilhão de pensamentos positivos e negativos, se digladiam em uma luta feroz; os olhos buscam o fim da escada, mas só vejo degraus e mais degraus para serem subidos; o corpo, mais envelhecido, já dá sinais que a tarefa está cada vez mais difícil. Mas, aquilo que alimenta o coração, ainda continua a despejar o combustível que me faz resistir ao cansaço e seguir o meu caminho.

É preciso prosseguir, até porque, ninguém conhece os mistérios da vida e, talvez, uma escada tão grande, seja necessária para oxigenar as buscas efêmeras que nos desviam daquilo que realmente nos trouxe aqui. Muitas vezes, nos perdemos por querer o objetivo como troféu, como um prêmio por nossa persistência, quando, na verdade, o alcance dos objetivos é a consequência de todo o esforço usado na subida de nossa escada.

Muitas vezes sonhamos em ter asas para chegar mais rápido no pico mais alto que queremos alcançar, outras tantas, buscamos subir as escadas, correndo, ou pulando vários degraus de uma só vez, pensando em atingir os nossos objetivos e, enfim, poder descansar da caminhada difícil. Mas, como querer descansar se o quê se quer só vai realmente começar de fato, quando chegarmos ao nosso objetivo?

Não foram poucas às vezes que sai correndo escada acima, pulando vários degraus, no afã de chegar mais rápido, mas isso me resultou em vários tombos que, com certeza, atrasaram ainda mais a minha escalada. Muitos me falaram para subir com calma, que de nada adiantava a pressa, mas para mim, o mais importante era me livrar logo da minha escada. Hoje sei que de nada adiantou a minha pressa.

Perdi muita coisa na minha escala, pois tive que parar minha subida para tratar dos meus hematomas e até recuperar o fôlego para retomar a caminhada, foram dias e noites de muito sentimento de culpa. Aos poucos, entendi que devagar também se vai ao longe e reaprendi que só se sobe degrau por degrau. Agora tenho certeza que voltei firme a minha subida e sei que estou cada vez mais perto do quero para mim.

Assim, apesar da dificuldade da subida, sei que não há problema nenhum fazer paradas estratégicas e até mesmo descer uns degraus para ganhar novo impulso, pois, o mais importante é continuar a minha subida, pacientemente, deixando que os mistérios da vida sem encarreguem de abreviar ou não a minha subida em direção aos meus objetivos. Sei que tem dias que o cansaço vai tentar me impedir, mas a convicção daquilo que está no coração, me empurra para cima, todos os dias.


Amanhã eu faço

janeiro 20, 2017

Amanhã eu faço diferente,

Vou ter mais coragem,

Vou sair na minha zona de conforto

Vou arriscar tudo pelo sonho

 

Amanhã eu faço diferente

Vou dizer o quanto amo

Vou buscar ter tolerância

Vou encontrar tempo pra tudo

 

Amanhã eu faço diferente

Vou pedir todas as desculpas

Vou mostrar arrependimentos

Vou agradecer por tudo

 

Amanhã eu faço diferente

Vou mudar meu comportamento

Vou jogar o que não me serve

Vou tratar de cuidar do que me faz feliz

 

Amanhã eu faço diferente

Amanhã vai ser como sonhei

Amanhã sempre passa

E eu nada faço nada

Mas, amanhã eu vou fazer tudo,

Sem falta!


Confiando no Tempo

janeiro 6, 2017

Toda vez que um ano vira, são promessas feitas, expectativas de coisas melhores, pensamento de mudanças, a gente aspira alcançar cada um dos objetivos que não foram alcançados no ano que passou, mas, este ano decidi que não vou deixar a ansiedade conduzir meus passos atrás de um futuro que ainda não se fez, vou apenas respirar fundo todas as manhãs e confiar no Tempo, talvez assim as coisas aconteçam sem eu nem esperar.

É como bem sabemos, tudo acontece no seu devido tempo, só que insistimos em carregar nossas mentes de expectativas, querendo que a vida nos leve para onde desejamos, e, por mais que tenhamos nas mãos as rédeas do nosso destino, nem sempre conseguimos chegar perto daquilo que tanto queremos, pois, somente o Tempo é capaz de nos levar até lá. Com o Tempo, tudo se encaixa de um jeito que jamais conseguiríamos.

É claro que devemos planejar nossos passos, mapear nossa jornada, mas de nada adianta espernearmos feito criança mimada, pois só teremos nas mãos aquilo que almejamos, no Tempo certo. Não somos tão poderosos quanto imaginamos para fazer que tudo aconteça no nosso tempo, as coisas tendem a fluir com mais naturalidade quando apenas colocamos o pé na estrada e aproveitamos a paisagem.

Perdemos dias inteiros, ansiosos com resultados que não existem ainda, isso, tanto para o bem, quanto para mal, às vezes, perdemos noites inteiras de sono, buscando soluções para problemas que ainda não aconteceram e que talvez, nem aconteçam, ao invés de repousarmos a mente para que ela esteja leve e livre para decidir quanto chegar o Tempo certo das coisas. A ansiedade atrapalha muito mais a nossa viagem do que a espera pelo tempo que nos traga o quê queremos.

O Tempo passa e não adianta perdê-lo com insatisfações, com frustrações, com ilusões, por isso, aquilo que mais desejo neste ano que começa, é poder ter a sabedoria de aprender a confiar no Tempo, só ele nos traz as mudanças que almejamos, nunca cedo demais, nunca tarde demais, na hora exata em que estamos realmente preparados para recebê-las. Às vezes queremos tanto mudar, e repetimos que não mudamos porque não temos tempo.

Portanto, pé na estrada, fé no que virá, esperança renovada e paciência para esperar o Tempo certo das coisas, até porque Saturno estará à frente de tudo. Portanto, é hora de me preparar, refazer rotas, planejar estratégias e viver a vida do jeito que ela me levar, pois, se tudo é mesmo uma questão de tempo, então não há o porquê descarregar minhas energias em coisas vãs, nem tão pouco deixar a ansiedade tomar a frente, agora é hora de seguir a vida confiando no Tempo.


Um ano de aprendizado

dezembro 16, 2016

Chegamos ao fim de mais um ano, um ano complicado, difícil de ultrapassar, mas tem comigo que, pelo menos para mim, tenho este ano como ano de grande aprendizado. Um ano que fez aprender que a paciência é a estrada que deve ser seguida e que os ventos sempre vão soprar, às vezes nos empurrando para frente, às vezes nos obrigando a vencer sua força contrária e que não adianta simplesmente querer, pois a vida é quem sabe o que quer.

Foi um ano em que enxerguei a possibilidade de corrigir os meus erros, muito embora, pouca coisa eu pude acertar de fato até agora, ao menos consegui ajustar as velas do meu barco e o coloquei de novo na velha rota da qual me perdi há tempos atrás e que, por desrespeitar a força da natureza, o quase fiz naufragar. Ainda bem que está dando para remendar! Sei que tudo que está ficando, um dia vi virar história para contar.

Com tempos difíceis, a gente aprende mais, isso tive a certeza. Pude aprender a calcular as rotas, a planejar viagens, a realizar pequenos sonhos e a valorizar a grandiosidade das pequenas vitórias. Descobri que estar sozinho nem sempre significa estar na solidão, muito pelo contrário, foi na solidão de algumas noites que encontrei várias vezes aquele que sou de verdade, aquele que eu fui um dia e aquele que ainda posso ser.

Nunca é vazio quanto nos encontramos dentro de nós mesmos depois de uma grande tempestade que vira a nossa vida de ponta à cabeça, mas é muito mais saudável que se possa supor. Reler, rever, relembrar, reaprender a tirar proveito de tudo que deu errado, pois, se tem algo que tem que ser aproveitado ao máximo, são os nossos erros. São eles que nos trazem a consciência de como pode ser diferente e ainda melhor.

Até mesmo toda essa a confusão que está instaurada em nossas vidas, que nos deixa sem saber direito o quê vai acontecer com o país e como tudo isso vai afetar nossas vidas dia após dia, tudo isso, serviu para acentuar ainda mais o aprendizado, enxergar pessoas, discursos, pensamentos, opiniões, pesar prós e contras e ter a certeza de buscar o caminho no meio entre o céu e o inferno que estão colocando o país.

Como sempre foi um ano que também trouxe tristezas, um grave acidente de avião que comoveu a todos e, principalmente a partida do meu Mestre Nelson Albissú. Mas, mesmo com toda a tristeza da perda sempre é possível tirar grandes ensinamentos, e foi mais outra grande oportunidade de aprender como enxergar melhor o outro, a vida, o que é importante, o que se descarta e ter a certeza que nada do quê temos é maior daquilo que a gente pode ser.

Que eu tenha a chance de colocar em prática no próximo ano, todas as lições que aprendi neste duro ano que está por se encerrar. Que eu já tenha caminhado o bastante para encontrar o que tanto almejo, mas, que, se por acaso, o meu aprendizado ainda não tenha sido suficiente para isso, que eu possa ter a paciência para continuar aprendendo e buscando me tornar uma pessoa melhor a cada dia.


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