O que temos deveria nos bastar

agosto 25, 2017

Às vezes, se é muito ingrato com a vida que se tem, esbravejamos ao menor sinal de termos a nossa vida jogada para fora da nossa zona de conforto, nunca estamos plenamente satisfeitos. Se o dia amanhece ensolarado e quente, já é motivo para esbravejarmos com a vida, se ele amanhece chuvoso e friorento, pronto, lá estamos nós, destilando o nosso descontentamento com a vida, se aparece um problema pela frente, a vida não presta, se não conseguimos o quê queremos, a vida não nos trata bem. Nada nos basta.

E não há ninguém que possa se colocar à margem dessa situação e dizer que nunca reclamou da vida, todo mundo, em algum momento, esbravejou com a vida que tem. Eu já fiz isso tantas vezes! E se não controlo os pensamentos, volta e meia me pego no meio da insatisfação, achando que podia ter uma vida melhor, aliás, quem não quer? Mas depois de algum tempo se aprende que é preciso, em primeiro lugar, estar satisfeito com o quê se tem, para, depois, poder buscar aquilo que ainda lhe faz falta. Talvez seja apenas viver a vida.

Na vida, todo mundo tem algum tipo de problema que lhe causa ou causará um desequilíbrio, a ponto de, no momento de raiva, provocar um profundo descontentamento com a vida que se leva. Por que isso acontece comigo? A minha vida é uma droga! Por pior que seja o problema, não é só na sua vida que está o problema, pois, tenha certeza, sempre haverá alguém com um problema mais grave que o seu. E é está nossa infinita incapacidade de aceitar os problemas da vida, que nos faz achar que temos pouco, quando, na verdade, temos sempre o suficiente.

Talvez a nossa incapacidade de se colocar no lugar do outro nos momentos difíceis da vida, também contribua para que mostremos a insatisfação com a vida que temos. Queremos, todos, ter a vida boa do outro, que na verdade, nem sabemos se ela é realmente boa. Quantos problemas estão escondidos atrás de um sorriso? Quanta gente leva uma vida de aparência, demonstrando uma coisa que não é? Vivendo uma vida que não vive? Precisamos primeiro cuidar do nosso jardim, antes de admirar o jardim do vizinho.

Reclamos por isso e por aquilo e não somos capazes de imaginar o quão duro dever ser a vida de quem luta por uma doença, sua ou de alguém tão querido, que quer apenas ficar ou vê-lo vivo para desfrutar da vida, simplesmente, sem cobranças. É isso, nos cobramos de mais por uma vida que imaginamos e vivemos de menos a vida que temos. A dor, a dificuldade financeira, a doença fazem parte da vida de todo mundo, uma hora ou outra, alguma coisa nos afligirá e nada adiantará esbravejarmos, só desnudaremos nossa ingratidão.

É um exercício diário, difícil, corpo e mente, pois, às vezes, parece que o mundo vai ruir e não vamos conseguir deixar nossa vida de pé, e, nesta hora, não tem como não esbravejar com a vida, mas tem que ser um jogar para fora, para, logo em seguida, olharmos ao nosso redor e praticarmos, mesmo que em silêncio, a gratidão, pelo nosso trabalho, pela nossa casa, pelas nossas roupas, pela nossa família, pela nossa oportunidade diária de recomeçar e correr atrás do que não está do nosso agrado. Viver não é uma tarefa fácil e não estamos por aqui a passeio.

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O TEMPO

junho 23, 2017

Queremos dominar o tempo

Ser o seu senhor supremo

Dizer em que tempo tudo acontece

Dizer em que tempo se merece

Queremos no nosso tempo

Queremos tudo no agora

Como o tempo fosse à nossa hora

Queremos tudo sem demora

Reclamamos se o tempo passa

E nos deixa no mesmo lugar

Como o tempo nos impedisse de andar

Como o tempo fosse sempre o culpado

Culpamos o tempo por tudo

Queremos parar o tempo

Eternizá-lo apenas em um momento

Mas o tempo é pensamento

Ele nunca para

Não para por nada

Nem que todo o mundo queira

Nem por qualquer besteira

Nem mesmo por nossa vontade

O tempo nos traz a idade

E com ela toda a sabedoria

O tempo é o melhor conselheiro

Talvez só encontre a felicidade

Aquele que o entenda primeiro.


Vida malvada

maio 19, 2017

A vida nunca foi fácil, mas para algumas pessoas a vida sempre foi mais difícil de que para outras. Getúlia chegou a cidade de São Paulo para trabalhar como empregada doméstica na casa dos patrões de seu tio, o motorista da casa. Menina ainda chegou cheia de timidez e recato, tinha medo até de abrir a boca. Com o tempo ela foi se soltando e já se mostrava feliz e agradecida por ter fugido da seca nordestina que levou embora quatro de seus irmãos.

Só que o destino, como sempre cheio de armadilhas que não conhecemos, virou a vida de Getúlia de cabeça para baixo, em um acidente automobilístico, ela perdeu de uma só vez o tio, os patrões e o emprego e se viu sozinha no meio daquela desgraça toda que, só não foi maior, porque àquela altura, Getúlia já namorava com Otávio, que a acolheu e a consolou nas horas mais difíceis que passou.

Otávio trabalhava como zelador em um edifício vizinho da casa em que Getúlia trabalhava, de conversa em conversa foram se conhecendo e acabaram por namorar e no momento de maior desespero e desesperança de Getúlia, Otávio a pediu em casamento e os dois foram morar no pequeno apartamento que Otávio morava na cobertura do edifício em que trabalhava. A vida começava a sorrir novamente para Getúlia.

Mas, Getúlia veio para essa vida para sofrer, nada era tranquilo na vida da coitada, que até já vivia uma vida feliz com Otávio, já tinha conseguido trabalho, (fazia algumas faxinas nos apartamentos do edifício em que morava) tudo aquilo já deixava Getúlia olhar para vida com olhos de felicidade, até que seu marido Otávio é demitido. E naquela hora ficaram os dois ali, sem trabalho, sem moradia, sem dinheiro, sem esperança.

Otávio não se desesperou como Getúlia e tratou logo de tomar as rédeas da situação, com o pouco dinheiro que recebeu e as poucas faxinas que Getúlia ainda conseguia fazer, arrumou um quartinho para alugar e lá se foram os dois tentar arrumar a vida novamente. Como a situação do país piorou, Getúlia foi perdendo uma a uma as suas faxinas e Otávio, esse já estava há mais de um ano sem conseguir trabalho. Pronto, sem dinheiro, acabaram por ser despejados.

Ali, outra vez na rua, perdidos, Getúlia e Otávio só tinham um ao outro para atravessar aquele vendaval. Mais uma vez sem esperanças e com a certeza de não conseguir nenhum trabalho na cidade, Otávio foi com a mulher Getúlia se juntar ao Movimento dos Sem Terra na tentativa de conseguir um pedacinho de chão para recomeçar a vida. No assentamento, apesar de muita pobreza, aos poucos as coisas foram se encaixando, ainda que não tivessem empregos, nem salários, as doações que recebiam e um canto para dormir já bastavam.

Foram anos e anos caminhando por esse país afora, na esperança de encontrar um lugar para fincar pé. Otávio persistia, Getúlia ainda mantinha a fé e no meio daquilo tudo, Getúlia acabou ficando grávida. Um sopro de felicidade no meio daquela vida sofrida, pois uma criança sempre traz o prenúncio de boas novas. Otávio tratou de se chegar mais perto dos chefes do movimento, na tentativa de agilizar a possibilidade de encontrarem logo um pedacinho de terra para ficarem em paz.

Como a vida de Getúlia nunca foi realmente fácil, uma nova reviravolta a deixou de vez sem esperança. Justo naquela hora que estava tudo resolvido pelo líder do movimento, na nova invasão, Otávio e Getúlia iriam ganhar seu pedaço de chão e deixariam de vez o movimento para trás. Começariam uma vida nova, pai, mãe, filho e um pedaço de terra para serem feliz.

Mas, quis o destino, que bem na hora da invasão, Getúlia entrasse em trabalho de parto e viesse a parir o filho, sozinha, e, na naquele momento sublime de felicidade em que vivia, no instante em que a vida parecia querer lhe fazer feliz, ela, com o filho nos braços, vê o marido Otávio voltar cambaleante para cair aos seus pés, ferido de morte.


A paz que não temos

maio 5, 2017

Lá se vai ao longe, o tempo em que a paz se fazia presente entre nós, já não se pode mais ter a calmaria de uma rede a balançar no final de uma tarde preguiçosa, sem nem se preocupar com o amanhã, pois, a violência que ainda ontem apenas nos espreitava em esquinas mal iluminadas de noites escuras, hoje já nos ataca em plena luz do dia, sem medo das conseqüências, sem piedade da nossa alma, sem se importar se destroçará uma família, sem dó!

Lá se vai ao longe, o tempo das cadeiras nas calçadas em noites abafadas de tantos verões, ninguém tem mais coragem de se debruçar sobre o muro, apenas para ver o movimento do vai e vem das pessoas, pois todos passam apressados a passos largos em direção às suas casas, com o medo estampado no rosto e o coração palpitando dentro do peito, pedindo proteção a todos os santos para que nenhuma bala perdida lhe cruze o caminho.

Lá se vai ao longe, o tempo de crianças brincando inocente pelas ruas até a chegada da noite, já não há mais vidraças quebradas por bolas chutadas em peladas de pernas de pau, não há mais pega-pega, não há mais esconde-esconde, o que há ainda, é polícia e ladrão, só que não mais a brincadeira inocente de outra, agora a caçada real e violenta, uma guerra urbana que aumenta a cada dia e que parece não ter fim.

Lá se vai ao longe, já quase não se vê a paz, hoje a intolerância travestiu o ser humano e passou a dar as cartas pelos quatro cantos do mundo, não há um único lugar seguro, não há espaço nem mesmo para esperança, pois o ódio invadiu os corações de pessoas que não se importam com a vida, nem mesmo as próprias, pois são capazes de explodirem pelos ares com artefatos bélicos enrolados no próprio corpo, arrastando quem tiver no caminho.

Lá se vai ao longe, o tempo em que se podia viver sem que o medo levanta-se conosco todas as manhãs e nos acompanhasse por todo dia, até nos trazer de voltar para o nosso lar, para que assistamos em nossas TVs, a violência encurralando a paz em plena luz do dia, tingindo as ruas de sangue, matando pouco a pouco a esperança, nos fazendo querer desligar do mundo real para encontrar em um canto qualquer, nem que seja um pouquinho da paz.

Lá se vai ao longe a paz, e parece ir cada vez mais longe, tão longe que cada vez fica mais difícil correr para alcançá-la, pois quanto mais nos trancamos atrás das grades das nossas prisões, mais a violência aumenta o seu tamanho, se agiganta, de tal forma, que nos falta coragem de arriscarmos as nossas vidas com medo da morte por um assalto a mão armada, por um seqüestro relâmpago, por um estupro, por uma bala perdida e cada dia ficamos mais sem saída, mais sem vida, mais longe da paz.


O Amor e a Paz

abril 13, 2017

A raiva e o ódio uniram forças

E de tanto infernizarem

Contaminaram as almas para guerra

E agora, sobre a Terra

Só se vê violência

Nem mesmo a inocência da criança

É capaz de sair ilesa

E assim, sem defesa

Agarramo-nos em oração

Espero que nada nos aconteça

Torcendo para que a esperança

Em uma nova alvorada, amanheça

Sob as bênçãos do amor e da paz


A difícil tarefa de subir a nossa escada

março 3, 2017

Às vezes, penso que não vou conseguir, na cabeça, um turbilhão de pensamentos positivos e negativos, se digladiam em uma luta feroz; os olhos buscam o fim da escada, mas só vejo degraus e mais degraus para serem subidos; o corpo, mais envelhecido, já dá sinais que a tarefa está cada vez mais difícil. Mas, aquilo que alimenta o coração, ainda continua a despejar o combustível que me faz resistir ao cansaço e seguir o meu caminho.

É preciso prosseguir, até porque, ninguém conhece os mistérios da vida e, talvez, uma escada tão grande, seja necessária para oxigenar as buscas efêmeras que nos desviam daquilo que realmente nos trouxe aqui. Muitas vezes, nos perdemos por querer o objetivo como troféu, como um prêmio por nossa persistência, quando, na verdade, o alcance dos objetivos é a consequência de todo o esforço usado na subida de nossa escada.

Muitas vezes sonhamos em ter asas para chegar mais rápido no pico mais alto que queremos alcançar, outras tantas, buscamos subir as escadas, correndo, ou pulando vários degraus de uma só vez, pensando em atingir os nossos objetivos e, enfim, poder descansar da caminhada difícil. Mas, como querer descansar se o quê se quer só vai realmente começar de fato, quando chegarmos ao nosso objetivo?

Não foram poucas às vezes que sai correndo escada acima, pulando vários degraus, no afã de chegar mais rápido, mas isso me resultou em vários tombos que, com certeza, atrasaram ainda mais a minha escalada. Muitos me falaram para subir com calma, que de nada adiantava a pressa, mas para mim, o mais importante era me livrar logo da minha escada. Hoje sei que de nada adiantou a minha pressa.

Perdi muita coisa na minha escala, pois tive que parar minha subida para tratar dos meus hematomas e até recuperar o fôlego para retomar a caminhada, foram dias e noites de muito sentimento de culpa. Aos poucos, entendi que devagar também se vai ao longe e reaprendi que só se sobe degrau por degrau. Agora tenho certeza que voltei firme a minha subida e sei que estou cada vez mais perto do quero para mim.

Assim, apesar da dificuldade da subida, sei que não há problema nenhum fazer paradas estratégicas e até mesmo descer uns degraus para ganhar novo impulso, pois, o mais importante é continuar a minha subida, pacientemente, deixando que os mistérios da vida sem encarreguem de abreviar ou não a minha subida em direção aos meus objetivos. Sei que tem dias que o cansaço vai tentar me impedir, mas a convicção daquilo que está no coração, me empurra para cima, todos os dias.


Amanhã eu faço

janeiro 20, 2017

Amanhã eu faço diferente,

Vou ter mais coragem,

Vou sair na minha zona de conforto

Vou arriscar tudo pelo sonho

 

Amanhã eu faço diferente

Vou dizer o quanto amo

Vou buscar ter tolerância

Vou encontrar tempo pra tudo

 

Amanhã eu faço diferente

Vou pedir todas as desculpas

Vou mostrar arrependimentos

Vou agradecer por tudo

 

Amanhã eu faço diferente

Vou mudar meu comportamento

Vou jogar o que não me serve

Vou tratar de cuidar do que me faz feliz

 

Amanhã eu faço diferente

Amanhã vai ser como sonhei

Amanhã sempre passa

E eu nada faço nada

Mas, amanhã eu vou fazer tudo,

Sem falta!


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