Vida malvada

maio 19, 2017

A vida nunca foi fácil, mas para algumas pessoas a vida sempre foi mais difícil de que para outras. Getúlia chegou a cidade de São Paulo para trabalhar como empregada doméstica na casa dos patrões de seu tio, o motorista da casa. Menina ainda chegou cheia de timidez e recato, tinha medo até de abrir a boca. Com o tempo ela foi se soltando e já se mostrava feliz e agradecida por ter fugido da seca nordestina que levou embora quatro de seus irmãos.

Só que o destino, como sempre cheio de armadilhas que não conhecemos, virou a vida de Getúlia de cabeça para baixo, em um acidente automobilístico, ela perdeu de uma só vez o tio, os patrões e o emprego e se viu sozinha no meio daquela desgraça toda que, só não foi maior, porque àquela altura, Getúlia já namorava com Otávio, que a acolheu e a consolou nas horas mais difíceis que passou.

Otávio trabalhava como zelador em um edifício vizinho da casa em que Getúlia trabalhava, de conversa em conversa foram se conhecendo e acabaram por namorar e no momento de maior desespero e desesperança de Getúlia, Otávio a pediu em casamento e os dois foram morar no pequeno apartamento que Otávio morava na cobertura do edifício em que trabalhava. A vida começava a sorrir novamente para Getúlia.

Mas, Getúlia veio para essa vida para sofrer, nada era tranquilo na vida da coitada, que até já vivia uma vida feliz com Otávio, já tinha conseguido trabalho, (fazia algumas faxinas nos apartamentos do edifício em que morava) tudo aquilo já deixava Getúlia olhar para vida com olhos de felicidade, até que seu marido Otávio é demitido. E naquela hora ficaram os dois ali, sem trabalho, sem moradia, sem dinheiro, sem esperança.

Otávio não se desesperou como Getúlia e tratou logo de tomar as rédeas da situação, com o pouco dinheiro que recebeu e as poucas faxinas que Getúlia ainda conseguia fazer, arrumou um quartinho para alugar e lá se foram os dois tentar arrumar a vida novamente. Como a situação do país piorou, Getúlia foi perdendo uma a uma as suas faxinas e Otávio, esse já estava há mais de um ano sem conseguir trabalho. Pronto, sem dinheiro, acabaram por ser despejados.

Ali, outra vez na rua, perdidos, Getúlia e Otávio só tinham um ao outro para atravessar aquele vendaval. Mais uma vez sem esperanças e com a certeza de não conseguir nenhum trabalho na cidade, Otávio foi com a mulher Getúlia se juntar ao Movimento dos Sem Terra na tentativa de conseguir um pedacinho de chão para recomeçar a vida. No assentamento, apesar de muita pobreza, aos poucos as coisas foram se encaixando, ainda que não tivessem empregos, nem salários, as doações que recebiam e um canto para dormir já bastavam.

Foram anos e anos caminhando por esse país afora, na esperança de encontrar um lugar para fincar pé. Otávio persistia, Getúlia ainda mantinha a fé e no meio daquilo tudo, Getúlia acabou ficando grávida. Um sopro de felicidade no meio daquela vida sofrida, pois uma criança sempre traz o prenúncio de boas novas. Otávio tratou de se chegar mais perto dos chefes do movimento, na tentativa de agilizar a possibilidade de encontrarem logo um pedacinho de terra para ficarem em paz.

Como a vida de Getúlia nunca foi realmente fácil, uma nova reviravolta a deixou de vez sem esperança. Justo naquela hora que estava tudo resolvido pelo líder do movimento, na nova invasão, Otávio e Getúlia iriam ganhar seu pedaço de chão e deixariam de vez o movimento para trás. Começariam uma vida nova, pai, mãe, filho e um pedaço de terra para serem feliz.

Mas, quis o destino, que bem na hora da invasão, Getúlia entrasse em trabalho de parto e viesse a parir o filho, sozinha, e, na naquele momento sublime de felicidade em que vivia, no instante em que a vida parecia querer lhe fazer feliz, ela, com o filho nos braços, vê o marido Otávio voltar cambaleante para cair aos seus pés, ferido de morte.


Rei Amigo!?

abril 20, 2017

Havia um reino não muito distante, em que as belezas naturais encantavam, seu povo era alegre e festeiro e que era governado por um Rei Fanfarrão, que gostava de contar vantagens, falar bravatas, tomar umas cachaças e fazia questão de demonstrar que, como nascera plebeu, mantinha-se como um plebeu, mesmo apesar da posição que ocupava. Uma parte do povo sempre torceu o nariz para ele, mas a maior o idolatrava. Era o Rei Amigo!

Um dia, o Rei saiu do poder, pois naquele lugar os Reis não eram eternos, mas, popular com nenhum outro, conseguiu colocar em seu lugar, uma companheira de batalhas. No começo, ainda que ressabiado, o povo a acolheu e ela governava com certa paz. Só que surgiram boatos e conversas nos corredores dos porões do palácio do envolvimento do antigo Rei em atos ilícitos, de que o Rei não passava de um bom vivant e que cobrava benesses de apoiadores do governo.

O clima ficou muito tenso naquele reino e o então Grão Vizir, até aquele momento aliado da companheira do antigo Rei, tratou de tirá-la do poder e assumir o posto de Rei, na tentativa de abafar os escândalos que respingavam em todos daquele governo. O reino ficou abalado e o povo dividido, uma parte apostava que o antigo Rei era o chefe daquela roubalheira, já a outra parte, o apoiava, incondicionalmente. A prisão dos investidores do reino, trouxer à tona, toda farsa.

E a toda hora chegavam mais informações de quanto aquele reino estava empesteado de corrupção em todos os seus poderes. Com as denúncias e as prisões dos responsáveis pela empresa que financiava as falcatruas, o cerco foi se fechando em torno do antigo Rei e todos os companheiros que formaram os seus governos. O Rei amigo havia se tornado o inimigo número um de uma boa parte do povo daquele reino.

Mas, fanfarrão como ele só, o antigo Rei se esquivava das acusações de envolvimento de enriquecimento ilícito e de comandar a corrupção daquele reino, argumentando que entrou no poder sem nada e saiu sem nada; que a casa em que habitava, era de um amigo, a estância em que buscava refúgio, era de um amigo, o chatô à beira mar, era de um amigo e, com isso, o velho Rei tentava iludir o povo, uns tinha a certeza absoluta de sua culpa, enquanto outros não duvidavam das palavras de seu Rei.

O tempo foi passando e os juízes daquele reino conseguiram fazer com que os empresários corruptos que compraram o reino, resolvessem abrir a boca e entregar provas do esquema de corrupção, em troca do abrandamento de suas penas. Entre as provas e os testemunhos, surgiu uma lista com alcunhas que escondiam os seus verdadeiros donos e uma delas, em especial, cuja denominação era amigo, era apontada como a usada para identificar o antigo Rei.

Era mesmo um fanfarrão aquele Rei, usava a própria alcunha com a qual era chamado pelos seus parceiros de corrupção, para se safar das acusações de crimes e da pena de não poder jamais retornar ao poder daquele reino. Uma parte do povo não tinha mais dúvidas que o antigo Rei não passava de um larápio da pior espécie, um enganador que se dizia plebeu, mas que enriqueceu de forma ilegal, mas, uma outra parte acreditava que tudo não passava de uma perseguição desleal contra aquele que fora o maior Rei daquele lugar.

Mas, a única certeza que todos tinham naquele lugar, que o antigo Rei era de fato o amigo, para uns, um velho amigo do peito, mas para a maioria, um verdadeiro amigo da onça.


O amor riscado a faca

fevereiro 17, 2017

Romeu, o filho caçula de Dona Ernestina era a última esperança de conquista de uma vida melhor, deixou sua cidade, Cafundó dos Judas, no agreste nordestino, para tentar a sorte no Sudeste. Tímido, se espantou quando desceu do ônibus na rodoviária e não demorou muito para conhecer como é viver em uma cidade grande. Romeu teve sua mala levada sem nem ver por quem.

Romeu está determinado e isso não lhe foi empecilho, saiu a caça de uma emprego e um lugar para ficar, conseguiu na construção de um enorme Shopping Center que estava sendo erguido bem em frente da Favela do Mangue. Teve sorte, pois na obra tinha alojamento e ele teve um lugar para ficar.

Romeu trabalha de sol a sol, era pau para toda obra e logo o Mestre de obra da construção, lhe elevou da condição de servente, para condição de pedreiro. Com isso, o dinheiro aumentou e Romeu se animou ainda mais em trabalhar sem parar. Tinha vindo com um único objetivo, enriquecer para dar uma velhice confortável para sua mãe.

Mas, a vida tem suas surpresas e ainda que a gente saiba direitinho aquilo que se quer, não conseguimos colocar em prática do jeito que a gente planejou. A vida tem seus mistérios e nunca saberemos o que nos vai acontecer enquanto estivermos por aqui. E os planos de Romeu começaram a mudar de rumo.

Julieta era a filha mais velha de Dona Umbelinda, que criava os cinco filhos com as diárias das faxinas que fazia nos escritórios comerciais da redondeza, fazia de todo para fazer de Julieta uma doutora. Provocante e maliciosa, mal sabia a mãe que sua filha era a alegria dos homens da favela. Gostava de funk e já era conhecida como Julieta Maçaneta.

Julieta gostava daquilo, gostava de se entregar para os homens e de tudo que aquilo lhe proporcionava, muito presentinhos caros, muita bebida importada, muita ostentação. Sua mãe estranhava tanta roupa nova, tanto perfume caro, mas Julieta lhe contava que era presente que ela ganhava de seus fãs nos bailes funks que se apresentava.

Julieta ganhou logo fama e sua disposição para o sexo e ostentação, chegou logo aos ouvidos do “Patrão” da favela, que fez dele a sua favorita. Deixou de se deitar com qualquer, mas, por outro lado viu o luxo entrar de vez na sua vida. Julieta tinha o que queria com o “Patrão”.

Mas, a vida tem suas surpresas, não é mesmo? Parece que o nosso destino já está traçado e mesmo que a gente se perca no meio do caminho, a vida se encarrega de nos colocar novamente no trilho, ainda que a gente não saiba até onde a estrada vai nos levar. E a vida de Julieta começou a mudar de rumo.

Em um dos raros momentos em que se permitia uma distração, Romeu resolveu ir até o baile funk da Favela do Mangue em frente à obra que trabalhava. Pediu logo uma garrafa de uísque e ficou com os olhos vidrados naquela mulher com jeito de menina que rebola e descia até o chão, provocante. E, o mais excitante é que aquela mulher descia e rebolava olhando para ele. Julieta sabia seduzir.

Passado mais de uma semana e Julieta não conseguia tirar da sua cabeça a imagem daquele homem que seus olhos grudaram no último baile funk. Julieta ficou estranha, começou a evitar as investidas do “Patrão” que, para se satisfazer, começou a lhe estuprar noite sim, noite não. Julieta só chorava.

Romeu quase sofreu um acidente na obra, imaginando aquela mulher com jeito de menina, rebolando para ele, nua, em sua cama. Decidiu ir à favela atrás daquela menina mulher que não sai de sua cabeça. Quando chegou à frente da entrada da favela, não conseguiu entrar, a polícia estava invadindo, muito tiroteio, muita correria, e ele preferiu voltar para obra.

A vida então deu uma mão para Romeu e Julieta. Ao entrar na favela, a polícia matou o “patrão”, com isso, Julieta pode se livrar das ameaças e dos estupros que estava sofrendo e voltou para casa de sua mãe. Voltou decidida a mudar de vida e falou para sua mãe que voltaria estudar. Que felicidade, Dona Umbelinda sentiu naquele momento.

Romeu não acreditou quando viu aquela mulher com jeito de menina em frente à oba esperando o ônibus, esqueceu a timidez e o trabalho e foi ao seu encontro. Não foi precisou nenhuma palavra, os dois se beijaram ali mesmo e à noite, Julieta já estava na cama de Romeu. Romeu viveu uma noite de sonhos.

Os dois não desgrudavam mais, dia e noite, noite e dia, Romeu e Julieta juntos. Ela estudando de verdade, ele trabalhando mais ainda, já faziam planos de casar e ter um monte de filhos. Julieta deixou o funk e apagava o seu fogo em noites quentes com Romeu. Romeu era uma felicidade só, Julieta, então, nunca se sentiu tão feliz. Romeu lhe cobria de presentes e mimos.

Só que o quê está destinado a nós, chega até nós de qualquer maneira. E em uma noite de festa para comemorar o fim da construção do Shopping, as vidas de Romeu e Julieta encontraram o seu destino. Muita bebida e não demorou muito para Julieta, de pileque, dançar maliciosamente provocante, um funk, deixando os homens da obra todos excitados. Romeu tentou impedir Julieta, que não lhe deu ouvido. Romeu, desiludido, caiu na bebedeira.

A festa rolava, Romeu bebia e Julieta, no alojamento, transava com cada um daqueles homens. Já amanhecia quando o último homem deixou o alojamento. Julieta, exausta, nua, dormia de cansada. Romeu entrou no alojamento, tirou da bainha uma faca e cravou no peito de Julieta, depois ainda cortou os bicos de seus seios, riscou o seu rosto e rasgou sua vagina.

Romeu deitou-se ao lado de Julieta e dormiu.


A primeira namorada

outubro 7, 2016

Naquele dia resolvi não ir almoçar em casa, pois tinha um trabalho urgente para terminar no escritório. Combinei comigo mesmo que assim que terminasse, descia para comer alguma coisa. Concentrado, tinha uma história para contar e um prazo para entregá-la e coloquei minhas mãos à obra.

De repente uma gritaria invadiu a sala pela janela do oitavo andar vinda da rua, não dei importância, pois era costumeiro ouvir gritos dos viciados em crack que perambulavam pelos arredores do prédio em que trabalho. De manhã, de tarde e até a hora de deixar o trabalho, homens e mulheres ficam embaixo das marquises das lojas, fumando seus cachimbos.

A gritaria continuava e eu ali, tentando me concentrar para terminar aquele texto, uma tarefa árdua naquela altura, e que o estômago também já se manifestava.

– Mas, vamos lá! Concentração. Concentração.

Levantei, dei aquela espreguiçada, virei o pescoço para um lado, virei o pescoço para outro, na tentativa de relaxar, fui até a janela verificar a gritaria e vi uma multidão que circulava dois homens e uma mulher que discutiam no meio da rua. Um dos homens ameaçava matar o casal com uma faca e a multidão gritava urros de incentivos.

– Que absurdo!

Tomei um copo d’água e voltei a me concentrar no que eu tinha que fazer e, enfim, consegui dar um ponto final no texto. Foi no exato momento que um grito de dor vindo da rua, entrou pela minha janela. Corri até a janela e ainda vi um dos homens virando a esquina, enquanto o outro segurava a mulher que havia sido esfaqueada.

Quando cheguei embaixo, algumas pessoas ainda lamentavam o ocorrido, me aproximei tão curioso quanto os demais que circulavam aquele casal e que assistiam ao homem pedir por socorro.

Olhei no rosto daquela mulher que sangrava, os olhos me fitaram me pedindo perdão. Mas, porque uma mulher viciada em crack, à beira da morte, precisava que a perdoasse? Encarei-a, olho no olho, e realmente ela me parecia ser familiar.

– Não pode ser!

Eu ali, inerte diante daqueles olhos que me fitavam, com o pensamento perdido em algum lugar, buscando na memória, até que me vieram às primeiras imagens. Lembrei! Não, não podia acreditar que ela tivesse um destino tão cruel.

Aqueles olhos que me pediam perdão eram daquela criatura doce que sentava ao meu lado na sala de aula, que me ensinava matemática, física e química, aquela que um dia tive coragem de lhe roubar um beijo, mal sabia eu, que era isso que ela esperava tanto de mim. A minha primeira namorada!

A cada imagem que vinha na minha cabeça, uma lágrima escorria pelo meu rosto, um aperto no peito exprimia o coração, dos olhos dela, escorriam lágrimas que desaguavam no sangue que ensopava seu peito. Eu ali, incrédulo, vendo a minha primeira namorada virar atração do meio dia.

Abri caminho, me ajoelhe diante dela, segurei sua mão, ela me olhou, nunca, ninguém apertou tão forte a minha mão.

– Fica calma! Vou te ajudar!

Não deu tempo nem de pegar o telefone, sua mão desgrudou da minha, seus olhos me fitaram pela última vez e ela se foi.

A multidão se dissipou assim que o resgate encostou. Eu ainda fiquei ali por mais alguns minutos, até o resgate constatar a sua morte. Fiz uma oração silenciosa e pedi que sua alma descansasse em paz.


O jovem revolucionário

agosto 12, 2016

Pedrinho era o típico jovem de classe média que nunca teve do que reclamar da vida, um adolescente despreocupado que passava os dias na casa da avó jogando vídeo game on-line com seus amigos virtuais, pois, seus pais trabalhavam demais para sustentar as benesses que ele desfrutava e nem dava à mínima. A alienação era o seu sobrenome e a preguiça a sua companheira.

Certo dia, Pedrinho conheceu uma galerinha nas redes sociais que lhe convidou para um evento, resolveu acompanhá-los na sua primeira manifestação política. Aquilo para ele pareceu ser uma grande festa. Muitas meninas bonitas, uma enxurrada de curtidas nas fotos de seu perfil, Pedrinho gostou muito de toda aquela popularidade. Virou um manifestante oficial.

Aos poucos, aquilo que parecia ser uma brincadeira de jovens de classe média querendo se rebelar contra o capitalismo de quem pagava as suas contas, foi ganhando outros contornos na cabeça de Pedrinho. Aquilo era mais sério do que ele imaginou na primeira vez que saiu para curtir uma manifestação como quem sai para curtir uma balada.

Pedrinho era um jovem que, apesar de desdenhar do conforto que desfrutava, foi capaz de absorver o que o dinheiro dos seus pais pode lhe comprar. Estudante de escola particular, Pedrinho já falava inglês e espanhol fluentemente e não demorou muito para chamar a atenção com suas ideias. Os amigos da primeira vez deixaram as passeatas assim que começaram a tomar as primeiras borrachadas da polícia. As coisas na rua não são brincadeira de criança.

Pedrinho tinha virado um revolucionário, discutia com seus pais conceitos de políticas e de regimes de governo, economia e desigualdade social, mas não criticava os pais, que, para ele, haviam se tornado escravos do capitalismo, o mesmo capitalismo que ainda sustentava os seus quereres de pequeno burguês. Mas como viver sem o Capital? Pedrinho começou a viver um conflito de identidade muito grande. Queria a mudança, mas como fazê-la?

Pedrinho, que a essa altura já era conhecido como Pedrinho Caviar pelos seus amigos, tinha certeza que uma mudança de verdade, que refletisse em justiça social, passava por uma transformação que ia muito mais além dos protestos com quebra-quebra de bens públicos, ou com a truculência e violência de uma desobediência civil. Aliás, para ele, alguns revolucionários que se enfileiravam ao seu lado nas manifestações, não passavam de jovens mimados, querendo que as coisas mudassem simplesmente porque que eles queriam que elas mudassem.

Aos poucos, Pedrinho foi se afastando das ruas, não havia nascido para tomar borrachadas e nem receber borrifadas de spray de pimenta. Manifestações chamam a atenção, mais de fato, mudam muito pouco na vida das pessoas. Percebeu que muitas pessoas de baixo poder aquisitivo, são avessas a essas badernas. Percebeu também que o trabalhador não respeita o manifestante que fecha o caminho do seu trabalho. A revolução teria de vir de outro lugar.

Protestar não pode ser apenas um ato de sair às ruas pedindo por mudanças, precisa ser algo mais profundo, tem que revolucionar a pessoa, tem que vir de dentro para fora e não ao contrário. Ninguém muda só porque o outro quer que ele mude, é preciso convencer de como mudar pode ser bom. Palavras de ordem causam mais desordem que conversas ao pé do ouvido, que são capazes de abalar estruturas internas de qualquer pessoa.

Pedrinho então decidiu pegar firme nos livros, deixou o engajamento partidário com que namorava desde os tempos das ruas, doou o seu vídeo game para a comunidade que se avizinha ao prédio de sua avó, e agora se prepara diariamente para entrar na faculdade. Ainda está em dúvida que carreira seguir, relações internacionais, sociologia ou jornalismo, mas a única certeza que Pedrinho tem, é que é um revolucionário e vai buscar a justiça social e igualdade com as melhores armas que ele puder arrumar.


O Gênio da lâmpada

julho 22, 2016

Gente, essa história eu tinha que contar pra vocês. Uma história que nem aquelas dos livros, e de verdade! Eu sei que tem gente que vai achar que foi tudo mentira, mas eu juro que aconteceu tudo isso mesmo. Assim, do jeito que eu vou contar pra vocês.

Na semana passada, eu, a Joana, o Paulinho e Talita, fomos da praia com a mãe da Joana. Uma praia um pouco longe de casa, nem tinha muita gente por lá. O Paulinho como sempre, chutava aquela bola dela sobre os nossos castelinhos de areia.

– Você é muito chato, Paulinho! Falou a Talita

– Deixa a gente, vai Paulinho. Disse a Joana

A Talita, que é esquentada, jogou logo um monte de areia no Paulinho quanto ele desmanchou o castelinho que ela estava fazendo. Eu e a Joana que tivemos que separar, senão eles iam brigar de verdade.

Talita, com raiva, foi sentar lá na beira d’água, tava com uma tromba desse tamanho. O Paulinho foi pra a água levando a sua bola. Também depois da bronca que a mãe da Joana deu em todo mundo, cada um quis ficar quieto no seu canto.

– Vem brincar com a gente, Talita! Disse a Joana

– Deixa, Joana, se ela não quer vir, deixa ela lá!

– A Talita é muito esquentada.

– E o Paulinho também só sabe provocar.

Continuei com a Joana a fazer os nossos castelinhos, de repente, a gente olhou para o mar, na frente da Talita surgiu uma fumaça que foi crescendo, crescendo, crescendo, que nem dava mais para ver o mar. Sai correndo para água. Ninguém enxergava nada.

Quando a gente chegou aonde a Talita tava, tomou um grande susto. A fumaça não parava de sair de dentro de uma garrafa que a Talita achou enterrada na areia.

– Que isso, Talita?

– Não sei, Helena! Eu tava cavando aqui, de repente achei essa garrafa, comecei a esfregar, esfregar, ai começou a sair uma fumaça que não para.

O Paulinho, que também viu a fumaça lá da água, veio de pressa para ver o que era.

– Que fumaça é aquela?

– Tá saindo daquela garrafa que a Talita achou na areia. Disse a Joana.

– Será que o gênio da lâmpada? Vibrou o Paulinho.

– Que gênio da lâmpada! Só um cabeça oca que nem o Paulinho para achar que é um gênio da lâmpada.

Não demorou e a Talita e o Paulinho já estava se provocando. Toda vez é assim. Nunca vi gente pra brigar tanto um com outro como a Talita e o Paulinho.

Enquanto os dois ficavam se provocando, a fumaça baixou e na nossa frente apareceu um homem alto, magro, com um turbante na cabeça, uma calça de palhaço e uma camisa sem manga. Tinha uma voz de trovão.

– Quem foi que me libertou?

A gente olhou um para o outro, a Joana, como sempre, queria sair correndo, mas eu segurei ela.

– Olha aí, não falei? É um gênio da lâmpada.

– Você é mesmo um gênio da lâmpada? Perguntei para ele.

– Se ele é um gênio que tem direito a fazer os pedidos sou eu. Gritou a Talita.

– Ei, vamos deixar o moço falar. Disse a Joana.

E não era que aquele homem era mesmo um gênio? Só que não tava em nenhuma lâmpada, tava era numa garrafa bem velha, viu? A Talita já foi logo empurrando todo mundo para fazer os pedidos para o gênio.

– Fui que tirei o senhor da garrafa, fui eu! Disse a Talita.

– A ama tem direito a três pedidos. Mas só a três pedidos e nada mais.

– E agora, nós somos quatro! Eu falei.

Mas quem disse que a Talita estava pensando na gente. Ela acabou é nos arrumando foi muita confusão, isso sim.

– Pede sorvete, Talita! Um monte! Disse o Paulinho.

– Senhor gênio, eu quero… Eu quero… Eu quero….

– Pede logo o sorvete, Talita! Repetiu o Paulinho.

– Eu quero que o senhor gênio suma com esse menino chato!

Puft! O gênio estalou o dedo e o Paulinho sumiu na nossa frente.

– Pronto, um a menos para dividir os pedidos. Disse a Talita.

– Caramba, o Paulinho sumiu! Disse a Joana.

– Por que você fez isso, Talita!

– Aquele menino é muito chato.

– Eu quero o meu primo de volta. Disse a Joana.

E o gênio repetiu para Talita.

– Minha ama tem mais dois pedidos.

– Pede para o gênio trazer meu primo de volta.

Que nada, a Talita tava lá se sentindo a poderosa, e pediu para o gênio um monte de sorvete. Mas a gente não queria saber de sorvete. A gente queria o Paulinho de volta. A Talita, nem aí. Sentou e começou a tomar os sorvetes todos.

O pior foi quando a mãe da Joana chamou a gente para ir embora. Eu olhei pra Joana, a Joana olhou pra mim. A gente ficou paralisada.

– Joana, manda o Paulinho sair da água! Pediu a mãe da Joana.

Como a gente ia fazer isso, se o gênio tinha sumido com o Paulinho. Foi então que a gente foi conversar com o gênio para ele trazer o Paulinho de volta. Mas quem disse que o gênio escutava a gente. Parecia surdo. Fica ali, no lado da Talita, abanando ela com uma pena grande.

– Aonde esse gênio arrumou essa pena? Fiquei eu pensando.

A gente pedia para Talita pedir par o gênio devolver o Paulinho e ela nem aí, enquanto não acabou com todo o sorvete que pediu, ela nem olhou pra gente.

– Joana! Helena! Talita! Paulinho! Chamou a mãe da Joana.

– Olha aí, Talita, minha mãe ta chamada a gente pra ir embora.

– Pede para esse gênio trazer o Paulinho.

– Tudo bem! Mas vocês vão ter de pedir para ele namorar comigo.

Eu e a Joana olhamos uma para outra e não entendemos nada. Acho que muito sorvete congelou o cérebro da Talita. Os dois vivem brigando. Mas, se é só isso que ela quer para trazer o Paulinho de volta! Só que eu duvido que o Paulinho vai querer namorar com Talita. Duvido! Mas a gente deu a nossa palavra e então a Talita pediu ao gênio que, com estalar de dedos, trouxe o Paulinho de volta.

Depois que o Paulinho apareceu, surgiu uma fumaça que foi aumentando, aumentando, aumentando, e, de repente, sumiu, junto com gênio. Corri para ver se achava a garrafa para fazer os meus pedidos, mas que nada, o mar já tinha levado a garrafa embora.

Já o Paulinho e a Talita, estão namorando sim, ninguém sabe disso, mas eles não param de brigar nenhum instante. Eles devem se gostar mesmo, de verdade, pois minha mãe falou que quanto mais a pessoa briga, mais a pessoa gosta. E eu acho que isso é verdade, viu? Porque minha mãe gosta tanto de mim, que briga comigo a todo o momento. “Helena, arruma o quarto!”… Helena, vai escovar os dentes!”… “Helena, vou te deixar de castigo!”… Eu amo muito a minha mãe.


O mistério da biblioteca

abril 8, 2016

Oi, gente, hoje tenho uma aventura muito diferente pra contar, acho até que tem gente que não vai acreditar. Mas aconteceu, mesmo! Foi de verdade!  A Joana está aí para provar que eu não to inventando nada. Vou contar tudo pra vocês.

Eu tava muito mal em Matemática, então, a Joana, que é muito fera em Matemática, se ofereceu pra me ajudar a entender os exercícios. Tinha coisa que não entrava na minha cabeça. A professora explicava, explicava, quando eu achava que tinha entendido tudo, vinha à prova e, eu… nota baixa! Minha mãe tava muito preocupada, e eu também!

– Matemática é exercício, Helena, você vai aprender a fazer. Depois, é só praticar!

– Falando assim, até parece fácil.

– É fácil sim!

– Duvido.

Depois da aula, eu e a Joana marcamos de ficar uma hora na biblioteca para ela me explicar os exercícios de Matemática. A Tereza, que ficava na biblioteca, deixou a gente ficar sozinha lá enquanto ela saiu pra almoçar.

– Presta atenção, Helena!

– Olha só, Joana! Cada livro desse deve ter um monte de aventura legal!

– Só que hoje é dia de Matemática, lembra?

– Deixa eu dar só uma olhadinha.

Nem esperei a resposta da Joana, e sai lendo os nomes dos livros na estante. Só que quando puxei um livro para ler, descobri uma coisa muita estranha.

– Olha isso, Joana!

– O quê, Helena?

– O livro!

– O que é que tem?

– As letras sumiram!

– O quê?

Verdade! O livro tava lá, mas dentro, não tinha nada escrito. Comecei a olhar um por um, e nada! Todos os livros estavam em branco. Alguém tinha roubado as letras dos livros. Mas quem?

A Joana deixou os exercícios de Matemática pra me ajudar a encontrar as letras dos livros. A gente não acreditava naquilo. Não podia ser possível, as palavras escritas nos livros, sumirem assim, de um hora para outra! De uma hora para outra era o fim de todas as histórias, não podia!

Tentei sair da biblioteca, mas a porta estava trancada.

– E agora, Joana? Fecharam a porta!

– Não acredito que a Tereza deixou a gente aqui trancada!

A Joana começou a chamar as inspetoras, mas ninguém aparecia.

– Não adianta, Joana, ninguém escuta!

– Então deixa isso pra lá, Helena, vamos estudar Matemática, quando a Tereza chegar a gente conta pra ela.

– Nada disso! Não sossego enquanto não resolver esse mistério.

Tinha que ter alguma explicação, mas qual? Não dá para apagar as palavras dos livros com uma borracha, alguém fez alguma coisa.

– Helena, você acha que tem alguém aqui?

– Já vai começar, Joana?

– É sério! Pode ser perigoso!

Comecei a procurar por toda a biblioteca, a Joana, mesmo com medo, também começou a procurar, mas a biblioteca não era assim tão grande que desse para alguém se esconder tão escondido assim.

De repente eu ouvi um assobio.

– Ouviu, Joana?

– Ouvi! De onde veio?

– Acho que veio de debaixo na mesa da Tereza.

– Eu não vou lá!

Claro que a Joana não foi. Ela é a minha melhor amiga, mas como é medrosa, viu? Mas, eu fui, bem devagarzinho e não acreditei quando eu me abaixei para ver quem tinha assobiado e vi quem estava escondido dentro do cesto de lixo.

– Pequeno Polegar?

– Quem, Helena?

Era o pequeno polegar! Ele mesmo, em carne e osso e miniatura!

– O que você está fazendo fora da sua história?

– Eu tive que fugir do meu livro para buscar ajuda.

– Ajuda pra quê? Disse a Joana.

– Estão roubando as palavras dos livros! Disse o Pequeno Polegar.

É, parecia que alguém não queria que mais ninguém lesse mais nada. Alguém não queria mais palavras no mundo. Foi então que o Pequeno Polegar contou porque fugiu do livro e porque ele fugiu.

Vocês não vão acreditar! Mas foi verdade, juro pela minha mãe! Mas sabe quem sumiu com as palavras dos livros? Os números! É! O 1, o 2, o 3, o 4, o 5, o 6, o 7, o 8 e o 9, saíram dos livros de Matemática e resolveram sumir com as letras dos livros, porque as pessoas gostavam mais das palavras do que deles.

– E onde estão esses números de uma figa?

– Não sei! A última vez que os vi, eles estavam indo para o lado da estante das poesias.

– Deixa que eu vou falar com eles. Disse a Joana.

Se tinha alguém melhor para falar com os números, era a Joana. Não tinha, na escola, ninguém que soubesse mais Matemática do que ela. Não sei o que ela falou para os números, ela nunca me contou isso, mas, não demorou muito e todas as palavras começaram a aparecer nos livros. Não deu nem tempo de me despedir do Pequeno Polegar.

– Pô, Joana, os números gostam mesmo de você, hein?

– É porque eu também gosto muito deles, Helena!

Eu vou confessar uma coisa. Prefiro muito mais as letras, do quê os números, ainda mais depois de tudo o que eles fizeram com as letras. Tudo inveja!

Eu não sei se vocês gostam de Matemática, mas, eu acho que vai ser mesmo muito difícil que um dia eu saiba Matemática assim como a Joana sabe. Acho que nunca!

Mas, tomara que mais gente goste dos números, assim, eles não vão tentar roubar, outra vez, as palavras de livro nenhum!


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