MÁSCARAS

novembro 10, 2017

Quem é você?

Quem sou eu na multidão?

Somos rostos que passam

Passos apressados

Imagens que ficam

Aquilo que os olhos veem

Mas, jamais enxergarão

O quê se quer mostrar.

Todo mundo se esconde

Até onde a farsa é possível?

É impossível fingir?

Ninguém revela quem é

Ninguém fala o quê quer

Teu racismo, meu racismo

O cinismo que está por fora.

Ninguém tem preconceito

Ninguém tem defeitos

Teu direito, meu direito

A intolerância que aflora.

Ninguém se conhece a fundo

Somente no fundo do espelho

Talvez se ache o caminho

Mas quem tem coragem?

Todo mundo é covarde

Teu medo, meu medo

A vida feita de hipocrisia.

Todo mundo tem receio

Para quê se revelar?

Mostrar o quê há em si?

Se hoje o que importa

Não é o que há por trás da porta.

Meu pensamento, teu pensamento

Neste momento, neste instante

Toda ideia ofende

Todo mundo ataca

Todo mundo ofende

As máscaras nos protegem

Pois, a verdade de cada um

Nem sempre é a verdade comum

E quando uma máscara cai

Mostra sempre aquilo que mais dói.

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O ódio venceu

novembro 3, 2017

Ainda na cama, deu para ouvir aquele grito seco, mas de desespero, que entoou por toda a cidade, espantei-me, mas preferi aproveitar alguns poucos segundos de sono antes de me levantar. Depois de passado o minuto de preguiça, com o celular na mão, uma enxurrada de mensagens me informavam que algo de muito sério estava acontecendo. Sai sem nem mesmo tomar meu café, não por curiosidade, mas porque custava acreditar nas notícias que me chegavam pelas redes sociais.

Nas ruas, muito engarrafamento, as pessoas caminhavam apressadas pelas, de cara fechada, ninguém falava com ninguém, todos rumavam para uma mesma direção, marchavam em silêncio. Não demorou muito e avistei a praça, que já se enchia de gente tentando saber o que tinha acontecido de fato, um empurra-empurra, mal se conseguia enxergar direito, tamanho o tumulto. E entre cotovelas, juntei-me aos que queriam saber se tudo que circulava pelas redes sociais era mesmo verdadeiro, ou apenas mais um novo factóide.

A imprensa estava toda por lá, tinha até helicóptero sobrevoando a praça, a polícia procurava a todo custo isolar a área, mas a aglomeração encurtava cada vez mais o cerco, tentando chegar ao centro da praça. Era preciso saber se aquilo era mesmo verdade. De repente se formou um grande tumulto. A polícia lançou mão de gases lacrimogêneos e tentou afastar a população na base da força, muitos se revoltaram e houve revide com pedras e xingamentos.

Não demorou muito para aquele lugar virar uma verdadeira praça de guerra, pessoas atacando pessoas, polícias atacando pessoas, pessoas atacando polícias, muita correria, quebradeira e muita destruição. A maioria que estava ali parecia que havia se esquecido do motivo que os levaram até aquela praça, todos estavam ali para saber se o quê circulava pelas redes sociais era mesmo verdade, mas a violência foi tamanha e tão generalizada, que ficou claro que o quê levou alguns até ali, havia sido apenas  uma mera curiosidade.

Na certa, muitos não estavam preocupados com a notícia de fato, queriam mesmo tirar algumas “selfies” para postarem em seus perfis e ganhar não sei quantas curtidas. Diante daquele misto de festa com passeata regada a hostilidades e violência descabidas, comecei a achar que a notícia era mesmo verdadeira, pois aquilo tudo que se transformou aquela aglomeração, deixava bem claro que, infelizmente, o que circulou mais cedo pelas redes sociais, era a mais pura verdade.

Depois que toda aquela confusão se desfez, a praça ficou quase vazia, apenas algumas pessoas permaneceram por lá para terem a certeza de que nada mais teria jeito. Sem aquela aglomeração, foi fácil ver estirado no chão, bem no meio da praça, em volta de uma poça de sangue, o Amor; algumas pessoas ao avistarem caído, se ajoelharam ao seu redor, cada um rezou na sua religião, algumas pessoas que traziam flores nas mãos, as deixaram a sua volta, choravam um choro contido. Deixei a praça com uma dor no peito, um tristeza nos olhos e a certeza de que o ódio venceu.


Sexta-Feira 13

outubro 13, 2017

Pense em uma pessoa supersticiosa. Pensou? Mas, duvido que seja tão ou mais supersticiosa que o Beto. A menos que você tenha pensado no Beto. Ô sujeito mais supersticioso! Só sai de casa com o pé direito, e também só entra de volta em casa, com o pé direito, jamais passa por debaixo de uma escada. Gato preto, então! Se ele pudesse, exterminava todos. Mas, o pior mesmo é quando é sexta-feira treze. Aí, ele se supera.

Dia de sexta-feira treze pode esquecer o Beto, nesses dias ele se tranca em casa e não sai nem da cama com medo que alguma coisa de ruim lhe aconteça. Quando está trabalhando, arruma sempre uma doença repentina para não sair de casa. Neste dia não aceita compromisso de jeito nenhum. A superstição do Beto é algo que precisa ser estuda, pois não pode ser normal alguém que abdica da vida por conta de uma sexta-feira treze.

Beto é uma pessoa esclarecida, pós-graduada, que gosta de escrever contos e poemas. Aliás, o seu maior sonho é se tornar um escritor famoso, e, quer saber, ele até merece, pois escreve muito bem. Talvez, escrever seja a única coisa que compete com pé de igualdades com a superstição que o Beto tem. Ele diz que quando for um escritor famoso, não vai ter ninguém que o obrigue a sair da sua cama nos dias de sexta-feira treze. Não vai ter mais medo do azar.

Outro encontrei o Beto e ele me contou o que a superstição dele fez com o maior sonho da vida dele. Uns dias atrás ele recebeu um e-mail o chamando para uma reunião, aliás, não era uma simples reunião, ele estava sendo convocado para uma entrevista em uma editora que estava interessado em publicar todos os escritos dele e distribuir os livros em todo o Brasil e até em alguns países de língua portuguesa.

No dia anterior à reunião, Beto foi dormir cedo, colocou o celular para despertar às seis e meia da manhã, rezou e se benzeu como faz todos os dias e tentou dormir. Custou a pegar no sono, pois a ansiedade lhe consumiu a noite toda. Até que toca o celular. Uma, duas, três vezes. Beto abre os olhos e está lá no visor: 6:32 – sexta-feira – 13… Beto desligou o celular e se enviou embaixo das cobertas. Não podia ser possível!

Beto, rolando na cama, sem acreditar que não se deu conta que a reunião mais importante da sua vida tivesse sido marcada para uma sexta-feira treze. Não teve forças para se levantar, sua superstição parecia estar vencendo o seu grande sonho de se tornar escritor. Não teve jeito, Beto pegou o telefone, ligou para a editora e inventou uma doença qualquer. Fim do sonho de Beto. Agora ele vive dizendo que é uma pessoa que não tem sorte na vida. Só que ninguém acredita.


REFUGIADO

setembro 29, 2017

Já não tenho nada
Só minhas lembranças…
A bagunça em meu quarto
O velho porta retrato
A goteira pingando
A janela aberta
Um quintal pra correr
Minha casa…
Meu refúgio…
Não tenho nada
As paredes no chão
O telhado no chão
Os sonhos no chão
Bombas, bombas…
Hoje só tenho o relento
Um lamento
Uma vida de tormento
Perdi meu pai
Perdi minha mãe
Perdi minha casa
Perdi minha infância
Não tenho nada
Nem mesmo um refúgio


Um barco sem rumo e sem Capitão

setembro 22, 2017

O quê é o Brasil hoje? Um barco sem rumo e sem Capitão, totalmente à deriva em um mar de ondas gigantescas, prestes a bater em um enorme rochedo, sua tripulação e seus passageiros não falam a mesma língua e cada qual quer tomar o leme do barco à força, motins estouram a todo o momento e não parece haver perspectiva que alguém coloque o barco no prumo e a sensação é que vamos nos despedaçar a qualquer momento.

Já enfrentamos mares violentos, que avariou e muito, o casco do nosso barco, mas havia dentro dele, uma amistosa amizade entre a tripulação e seus passageiros, que buscavam respeitar opiniões e pontos de vistas e, mesmo discordando sobre alguns pontos, aceitavam, pacificamente, os caminhos pelos quais o barco seguia, de acordo com o Capitão escolhido e que estava conduzindo a embarcação em determinado momento.

Acontece que o mar que parecia ser de calmaria virou uma tormenta quando se descobriu que o barco estava sendo conduzido por piratas saqueadores, que não se importavam com o destino da embarcação, apenas com as possibilidades de se apoderarem de todo o ouro que havia nos porões do barco. Foi, então, que os passageiros se rebelaram e descobriram que tanto o Capitão, como toda a tripulação, estavam envolvidos na roubalheira.

O Barco ficou desgovernado e a paz acabou de vez dentro da embarcação. Há brigas de todos os lados, o respeito acabou e agora o quê conta é cada um defender o seu lado do barco. O barco balança em alto mar, pois ora pende para um lado, ora pende para o outro, no leme, não há um Capitão a quem se confiar e dentre os passageiros do barco não há ninguém que possa assumir o timão da embarcação e nos levar até um porto seguro.

Às vezes, até parece que o barco entrou no rumo, mas é apenas a calmaria do mar que leve o nosso barco ao sabor do vento, mas, não demora, logo estoura outro motim, uma nova denúncia, uma tentativa de censura, alguém querendo impor a sua lei e o barco parece um paiol de pólvora pronto para explodir. Não há mais nenhum pensamento que não esteja sendo vigiado em nosso barco, todos os passageiros querem cercear a todos impondo suas opiniões e suas vontades.

Não há mais paz dentro do nosso barco, ofensas, xingamentos, disputas de poder, autoritarismo, mentiras, injustiças, intolerância, tentativas de livrar a tripulação corrupta dos escândalos e de inocentar os Piratas e todos os seus Capitães que saquearam o nosso barco e nos deixaram à deriva, agora todos querem que haja uma única verdade e uma única atitude certa, não pode haver discordância e o nosso barco balança cada vez mais, prestes a virar.

O quê nos resta? Rezar que uma forte onda nos leve até a alguma praia e nos deixe encalhados por algum tempo, pois, talvez assim, em terra firme, seja mais fácil para encontrarmos uma saída e um novo Capitão que possa colocar outra vez o nosso barco no mar da tranquilidade. Caso isso não aconteça, e logo, espatifaremos todos em um rochedo, pois, com os passageiros divididos, querendo, cada qual, conduzir o barco de um jeito, um lado achando que sabe o caminho e o outro como chegar. Afundaremos todos!


A ÚLTIMA CHANCE

agosto 18, 2017

Sai

Deixei a cama desfeita

A janela fechada

Vesti-me enquanto corria

Roupa amassada

Tênis desamarrado

 

Ganhei a rua

O Sol já ardia a pino

O suor corria pelo rosto

Gosto de sal

Atravessei o sinal

Entre carros que iam e viam

Era a última chance

 

Cabelos grisalhos

Barba mal feita

Corpo cansado

Um riso no canto da boca

Enganava o passado

Que passava pelos olhos

Que só queriam o futuro

 

Um pequeno lampejo

A ilusão de um desejo

A vida apressada

O tudo por nada

Coração descompassado

Uma esperança

A alma clamava

Uma última chance

 

O longe de ontem

Não mais tão distante

Ainda é longo o caminho

Às vezes, sozinho

O medo tenta tomar a frente

Não desta vez

 

Punhos cerrados

Mordida afiada

Não há desistência

É preciso coragem

Busco o equilíbrio

Inspiro, aspiro, respiro

Tomo fôlego, persisto

Se ainda há vida

Há uma última chance


O poder encantador da natureza

julho 21, 2017

Quem se atreveria, em plena viagem de férias, acordar antes das cinco horas da manhã e embarcar em um micro-ônibus, em que mal cabiam as pernas entre os bancos, sem banheiro, para percorrer um trajeto de mais de cinco horas de viagem, contando só o percurso de ida, atravessando, do litoral até o fim do sertão nordestino alagoano, apenas para visitar uma beleza natural? Eu fiz isso. E como é encantador o poder da natureza.

Ainda sonolento entrei no micro-ônibus numa escuridão só, me ajeitei no banco, guardei os braços encostados ao corpo para não incomodar minha esposa que viajava ao meu lado, encolhi o máximo que pude as pernas, para que elas não ficassem roçando no encosto no banco da frente, recostei minha cabeça no encosto do banco e puxei uma soneca, pois a viagem seria longa e eu nem sabia se valeria à pena. Mas como valeu.

Já próximo ao destino final da viagem, a natureza já nos brindaria com seu belo cartão de visita, até o sertão estava verde, como há tempos não se via por aquelas bandas, os mandacarus em flor, serviam de “guardrail” para a estrada pequena de mão dupla e logo nos foi possível avistar as águas do São Francisco com toda a sua imensidão. Até mesmo a intervenção do homem, que instalou ali uma hidro elétrica, deixou tudo ainda mais bonito.

Mas, o melhor de tudo ainda estava por vir, àquela altura já não mais me arrependera de madrugar em plenas férias para fazer um passeio tão longo, o poder encantador da natureza já tinha me tomado, os olhos riam mais do que os lábios, admirando tudo o que estava em minha volta. Confesso que fui surpreendido, não esperava tamanha beleza encravada entre o sertão sergipano e o alagoano. Mas fui, e como fui!

E não fui só eu, mas, algumas centenas de pessoas, que também acordaram antes do sol nascer, em plenas férias, estavam ansiosas para poder visitar aquele lugar. Mas, aquilo que já me parecia ser tão lindo, ganhou ares de maravilhoso, quando embarcamos todos em um catamarã, que atracou em uma das encostas de um grande lago, que se formou quando o Rio São Francisco fora represado pela construção da hidro elétrica. E tudo se revelou.

Aos poucos, o catamarã foi se afastando da margem e adentrando nas águas tranquilas do rio, que na verdade, mais parecia um mar de tão grande, e o quê já havia se tornado maravilhoso se tornou encantador, quando o barco começou a cortar as águas de forma sinuosa, desvendando de uma vez por todas, os “cânions” do Rio São Francisco, com aqueles imensos paredões, desenhados por conta e obra da natureza, tudo aquilo simplesmente me calou.

Ainda estava ali, embasbacado com toda aquela beleza natural, que nem mais me importei de ter levantado tão cedo, nem mesmo me preocupei como o cansaço que viria por ter de viajar novamente, com as pernas encolhidas, em um micro-ônibus sem banheiro, por mais de cinco horas. Ainda bem que concordei com a minha esposa em fazer aquele passeio, senão, jamais ter conhecido, assim de perto, o poder encantador da natureza.


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