Um barco sem rumo e sem Capitão

setembro 22, 2017

O quê é o Brasil hoje? Um barco sem rumo e sem Capitão, totalmente à deriva em um mar de ondas gigantescas, prestes a bater em um enorme rochedo, sua tripulação e seus passageiros não falam a mesma língua e cada qual quer tomar o leme do barco à força, motins estouram a todo o momento e não parece haver perspectiva que alguém coloque o barco no prumo e a sensação é que vamos nos despedaçar a qualquer momento.

Já enfrentamos mares violentos, que avariou e muito, o casco do nosso barco, mas havia dentro dele, uma amistosa amizade entre a tripulação e seus passageiros, que buscavam respeitar opiniões e pontos de vistas e, mesmo discordando sobre alguns pontos, aceitavam, pacificamente, os caminhos pelos quais o barco seguia, de acordo com o Capitão escolhido e que estava conduzindo a embarcação em determinado momento.

Acontece que o mar que parecia ser de calmaria virou uma tormenta quando se descobriu que o barco estava sendo conduzido por piratas saqueadores, que não se importavam com o destino da embarcação, apenas com as possibilidades de se apoderarem de todo o ouro que havia nos porões do barco. Foi, então, que os passageiros se rebelaram e descobriram que tanto o Capitão, como toda a tripulação, estavam envolvidos na roubalheira.

O Barco ficou desgovernado e a paz acabou de vez dentro da embarcação. Há brigas de todos os lados, o respeito acabou e agora o quê conta é cada um defender o seu lado do barco. O barco balança em alto mar, pois ora pende para um lado, ora pende para o outro, no leme, não há um Capitão a quem se confiar e dentre os passageiros do barco não há ninguém que possa assumir o timão da embarcação e nos levar até um porto seguro.

Às vezes, até parece que o barco entrou no rumo, mas é apenas a calmaria do mar que leve o nosso barco ao sabor do vento, mas, não demora, logo estoura outro motim, uma nova denúncia, uma tentativa de censura, alguém querendo impor a sua lei e o barco parece um paiol de pólvora pronto para explodir. Não há mais nenhum pensamento que não esteja sendo vigiado em nosso barco, todos os passageiros querem cercear a todos impondo suas opiniões e suas vontades.

Não há mais paz dentro do nosso barco, ofensas, xingamentos, disputas de poder, autoritarismo, mentiras, injustiças, intolerância, tentativas de livrar a tripulação corrupta dos escândalos e de inocentar os Piratas e todos os seus Capitães que saquearam o nosso barco e nos deixaram à deriva, agora todos querem que haja uma única verdade e uma única atitude certa, não pode haver discordância e o nosso barco balança cada vez mais, prestes a virar.

O quê nos resta? Rezar que uma forte onda nos leve até a alguma praia e nos deixe encalhados por algum tempo, pois, talvez assim, em terra firme, seja mais fácil para encontrarmos uma saída e um novo Capitão que possa colocar outra vez o nosso barco no mar da tranquilidade. Caso isso não aconteça, e logo, espatifaremos todos em um rochedo, pois, com os passageiros divididos, querendo, cada qual, conduzir o barco de um jeito, um lado achando que sabe o caminho e o outro como chegar. Afundaremos todos!

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A ÚLTIMA CHANCE

agosto 18, 2017

Sai

Deixei a cama desfeita

A janela fechada

Vesti-me enquanto corria

Roupa amassada

Tênis desamarrado

 

Ganhei a rua

O Sol já ardia a pino

O suor corria pelo rosto

Gosto de sal

Atravessei o sinal

Entre carros que iam e viam

Era a última chance

 

Cabelos grisalhos

Barba mal feita

Corpo cansado

Um riso no canto da boca

Enganava o passado

Que passava pelos olhos

Que só queriam o futuro

 

Um pequeno lampejo

A ilusão de um desejo

A vida apressada

O tudo por nada

Coração descompassado

Uma esperança

A alma clamava

Uma última chance

 

O longe de ontem

Não mais tão distante

Ainda é longo o caminho

Às vezes, sozinho

O medo tenta tomar a frente

Não desta vez

 

Punhos cerrados

Mordida afiada

Não há desistência

É preciso coragem

Busco o equilíbrio

Inspiro, aspiro, respiro

Tomo fôlego, persisto

Se ainda há vida

Há uma última chance


O poder encantador da natureza

julho 21, 2017

Quem se atreveria, em plena viagem de férias, acordar antes das cinco horas da manhã e embarcar em um micro-ônibus, em que mal cabiam as pernas entre os bancos, sem banheiro, para percorrer um trajeto de mais de cinco horas de viagem, contando só o percurso de ida, atravessando, do litoral até o fim do sertão nordestino alagoano, apenas para visitar uma beleza natural? Eu fiz isso. E como é encantador o poder da natureza.

Ainda sonolento entrei no micro-ônibus numa escuridão só, me ajeitei no banco, guardei os braços encostados ao corpo para não incomodar minha esposa que viajava ao meu lado, encolhi o máximo que pude as pernas, para que elas não ficassem roçando no encosto no banco da frente, recostei minha cabeça no encosto do banco e puxei uma soneca, pois a viagem seria longa e eu nem sabia se valeria à pena. Mas como valeu.

Já próximo ao destino final da viagem, a natureza já nos brindaria com seu belo cartão de visita, até o sertão estava verde, como há tempos não se via por aquelas bandas, os mandacarus em flor, serviam de “guardrail” para a estrada pequena de mão dupla e logo nos foi possível avistar as águas do São Francisco com toda a sua imensidão. Até mesmo a intervenção do homem, que instalou ali uma hidro elétrica, deixou tudo ainda mais bonito.

Mas, o melhor de tudo ainda estava por vir, àquela altura já não mais me arrependera de madrugar em plenas férias para fazer um passeio tão longo, o poder encantador da natureza já tinha me tomado, os olhos riam mais do que os lábios, admirando tudo o que estava em minha volta. Confesso que fui surpreendido, não esperava tamanha beleza encravada entre o sertão sergipano e o alagoano. Mas fui, e como fui!

E não fui só eu, mas, algumas centenas de pessoas, que também acordaram antes do sol nascer, em plenas férias, estavam ansiosas para poder visitar aquele lugar. Mas, aquilo que já me parecia ser tão lindo, ganhou ares de maravilhoso, quando embarcamos todos em um catamarã, que atracou em uma das encostas de um grande lago, que se formou quando o Rio São Francisco fora represado pela construção da hidro elétrica. E tudo se revelou.

Aos poucos, o catamarã foi se afastando da margem e adentrando nas águas tranquilas do rio, que na verdade, mais parecia um mar de tão grande, e o quê já havia se tornado maravilhoso se tornou encantador, quando o barco começou a cortar as águas de forma sinuosa, desvendando de uma vez por todas, os “cânions” do Rio São Francisco, com aqueles imensos paredões, desenhados por conta e obra da natureza, tudo aquilo simplesmente me calou.

Ainda estava ali, embasbacado com toda aquela beleza natural, que nem mais me importei de ter levantado tão cedo, nem mesmo me preocupei como o cansaço que viria por ter de viajar novamente, com as pernas encolhidas, em um micro-ônibus sem banheiro, por mais de cinco horas. Ainda bem que concordei com a minha esposa em fazer aquele passeio, senão, jamais ter conhecido, assim de perto, o poder encantador da natureza.


O TEMPO

junho 23, 2017

Queremos dominar o tempo

Ser o seu senhor supremo

Dizer em que tempo tudo acontece

Dizer em que tempo se merece

Queremos no nosso tempo

Queremos tudo no agora

Como o tempo fosse à nossa hora

Queremos tudo sem demora

Reclamamos se o tempo passa

E nos deixa no mesmo lugar

Como o tempo nos impedisse de andar

Como o tempo fosse sempre o culpado

Culpamos o tempo por tudo

Queremos parar o tempo

Eternizá-lo apenas em um momento

Mas o tempo é pensamento

Ele nunca para

Não para por nada

Nem que todo o mundo queira

Nem por qualquer besteira

Nem mesmo por nossa vontade

O tempo nos traz a idade

E com ela toda a sabedoria

O tempo é o melhor conselheiro

Talvez só encontre a felicidade

Aquele que o entenda primeiro.


Vida malvada

maio 19, 2017

A vida nunca foi fácil, mas para algumas pessoas a vida sempre foi mais difícil de que para outras. Getúlia chegou a cidade de São Paulo para trabalhar como empregada doméstica na casa dos patrões de seu tio, o motorista da casa. Menina ainda chegou cheia de timidez e recato, tinha medo até de abrir a boca. Com o tempo ela foi se soltando e já se mostrava feliz e agradecida por ter fugido da seca nordestina que levou embora quatro de seus irmãos.

Só que o destino, como sempre cheio de armadilhas que não conhecemos, virou a vida de Getúlia de cabeça para baixo, em um acidente automobilístico, ela perdeu de uma só vez o tio, os patrões e o emprego e se viu sozinha no meio daquela desgraça toda que, só não foi maior, porque àquela altura, Getúlia já namorava com Otávio, que a acolheu e a consolou nas horas mais difíceis que passou.

Otávio trabalhava como zelador em um edifício vizinho da casa em que Getúlia trabalhava, de conversa em conversa foram se conhecendo e acabaram por namorar e no momento de maior desespero e desesperança de Getúlia, Otávio a pediu em casamento e os dois foram morar no pequeno apartamento que Otávio morava na cobertura do edifício em que trabalhava. A vida começava a sorrir novamente para Getúlia.

Mas, Getúlia veio para essa vida para sofrer, nada era tranquilo na vida da coitada, que até já vivia uma vida feliz com Otávio, já tinha conseguido trabalho, (fazia algumas faxinas nos apartamentos do edifício em que morava) tudo aquilo já deixava Getúlia olhar para vida com olhos de felicidade, até que seu marido Otávio é demitido. E naquela hora ficaram os dois ali, sem trabalho, sem moradia, sem dinheiro, sem esperança.

Otávio não se desesperou como Getúlia e tratou logo de tomar as rédeas da situação, com o pouco dinheiro que recebeu e as poucas faxinas que Getúlia ainda conseguia fazer, arrumou um quartinho para alugar e lá se foram os dois tentar arrumar a vida novamente. Como a situação do país piorou, Getúlia foi perdendo uma a uma as suas faxinas e Otávio, esse já estava há mais de um ano sem conseguir trabalho. Pronto, sem dinheiro, acabaram por ser despejados.

Ali, outra vez na rua, perdidos, Getúlia e Otávio só tinham um ao outro para atravessar aquele vendaval. Mais uma vez sem esperanças e com a certeza de não conseguir nenhum trabalho na cidade, Otávio foi com a mulher Getúlia se juntar ao Movimento dos Sem Terra na tentativa de conseguir um pedacinho de chão para recomeçar a vida. No assentamento, apesar de muita pobreza, aos poucos as coisas foram se encaixando, ainda que não tivessem empregos, nem salários, as doações que recebiam e um canto para dormir já bastavam.

Foram anos e anos caminhando por esse país afora, na esperança de encontrar um lugar para fincar pé. Otávio persistia, Getúlia ainda mantinha a fé e no meio daquilo tudo, Getúlia acabou ficando grávida. Um sopro de felicidade no meio daquela vida sofrida, pois uma criança sempre traz o prenúncio de boas novas. Otávio tratou de se chegar mais perto dos chefes do movimento, na tentativa de agilizar a possibilidade de encontrarem logo um pedacinho de terra para ficarem em paz.

Como a vida de Getúlia nunca foi realmente fácil, uma nova reviravolta a deixou de vez sem esperança. Justo naquela hora que estava tudo resolvido pelo líder do movimento, na nova invasão, Otávio e Getúlia iriam ganhar seu pedaço de chão e deixariam de vez o movimento para trás. Começariam uma vida nova, pai, mãe, filho e um pedaço de terra para serem feliz.

Mas, quis o destino, que bem na hora da invasão, Getúlia entrasse em trabalho de parto e viesse a parir o filho, sozinha, e, na naquele momento sublime de felicidade em que vivia, no instante em que a vida parecia querer lhe fazer feliz, ela, com o filho nos braços, vê o marido Otávio voltar cambaleante para cair aos seus pés, ferido de morte.


Rei Amigo!?

abril 20, 2017

Havia um reino não muito distante, em que as belezas naturais encantavam, seu povo era alegre e festeiro e que era governado por um Rei Fanfarrão, que gostava de contar vantagens, falar bravatas, tomar umas cachaças e fazia questão de demonstrar que, como nascera plebeu, mantinha-se como um plebeu, mesmo apesar da posição que ocupava. Uma parte do povo sempre torceu o nariz para ele, mas a maior o idolatrava. Era o Rei Amigo!

Um dia, o Rei saiu do poder, pois naquele lugar os Reis não eram eternos, mas, popular com nenhum outro, conseguiu colocar em seu lugar, uma companheira de batalhas. No começo, ainda que ressabiado, o povo a acolheu e ela governava com certa paz. Só que surgiram boatos e conversas nos corredores dos porões do palácio do envolvimento do antigo Rei em atos ilícitos, de que o Rei não passava de um bom vivant e que cobrava benesses de apoiadores do governo.

O clima ficou muito tenso naquele reino e o então Grão Vizir, até aquele momento aliado da companheira do antigo Rei, tratou de tirá-la do poder e assumir o posto de Rei, na tentativa de abafar os escândalos que respingavam em todos daquele governo. O reino ficou abalado e o povo dividido, uma parte apostava que o antigo Rei era o chefe daquela roubalheira, já a outra parte, o apoiava, incondicionalmente. A prisão dos investidores do reino, trouxer à tona, toda farsa.

E a toda hora chegavam mais informações de quanto aquele reino estava empesteado de corrupção em todos os seus poderes. Com as denúncias e as prisões dos responsáveis pela empresa que financiava as falcatruas, o cerco foi se fechando em torno do antigo Rei e todos os companheiros que formaram os seus governos. O Rei amigo havia se tornado o inimigo número um de uma boa parte do povo daquele reino.

Mas, fanfarrão como ele só, o antigo Rei se esquivava das acusações de envolvimento de enriquecimento ilícito e de comandar a corrupção daquele reino, argumentando que entrou no poder sem nada e saiu sem nada; que a casa em que habitava, era de um amigo, a estância em que buscava refúgio, era de um amigo, o chatô à beira mar, era de um amigo e, com isso, o velho Rei tentava iludir o povo, uns tinha a certeza absoluta de sua culpa, enquanto outros não duvidavam das palavras de seu Rei.

O tempo foi passando e os juízes daquele reino conseguiram fazer com que os empresários corruptos que compraram o reino, resolvessem abrir a boca e entregar provas do esquema de corrupção, em troca do abrandamento de suas penas. Entre as provas e os testemunhos, surgiu uma lista com alcunhas que escondiam os seus verdadeiros donos e uma delas, em especial, cuja denominação era amigo, era apontada como a usada para identificar o antigo Rei.

Era mesmo um fanfarrão aquele Rei, usava a própria alcunha com a qual era chamado pelos seus parceiros de corrupção, para se safar das acusações de crimes e da pena de não poder jamais retornar ao poder daquele reino. Uma parte do povo não tinha mais dúvidas que o antigo Rei não passava de um larápio da pior espécie, um enganador que se dizia plebeu, mas que enriqueceu de forma ilegal, mas, uma outra parte acreditava que tudo não passava de uma perseguição desleal contra aquele que fora o maior Rei daquele lugar.

Mas, a única certeza que todos tinham naquele lugar, que o antigo Rei era de fato o amigo, para uns, um velho amigo do peito, mas para a maioria, um verdadeiro amigo da onça.


O Amor e a Paz

abril 13, 2017

A raiva e o ódio uniram forças

E de tanto infernizarem

Contaminaram as almas para guerra

E agora, sobre a Terra

Só se vê violência

Nem mesmo a inocência da criança

É capaz de sair ilesa

E assim, sem defesa

Agarramo-nos em oração

Espero que nada nos aconteça

Torcendo para que a esperança

Em uma nova alvorada, amanheça

Sob as bênçãos do amor e da paz


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