A arte longe dos incentivos fiscais

maio 20, 2016

Sem querer entrar no mérito de quem tem razão, até porque a reivindicação daquilo que se acredita, é legítimo e deve ser manifestado plenamente em um regime democrático, o anúncio da extinção do Ministério da Cultura fez os artistas levantarem a voz, acabando assim por dividir opiniões, trazendo à superfície a questão do uso da renúncia fiscal para projetos artísticos. Mas distante disso tudo, a arte se faz presente sem o benefício desses e de tantos outros incentivos.

Lá, nos rincões do Brasil, onde fazer cultura é um ato de heroísmo, o artista quer é colocar a sua arte para o povo e não se prende apenas na possibilidade de conseguir ou não algum incentivo fiscal para custear o seu projeto, é preciso colocar a mão na massa para que o trabalho aconteça. O artista é o artesão de sua a arte e fazê-la, independe de ter ou não condições viáveis para isso, ás vezes, se faz sem nenhuma.

É assim, principalmente se formos falar nas artes cênicas. Quantos e quantos grupos amadores espalhados pelos quatro cantos do país são custeados por seus próprios integrantes? E quantos projetos são realizados em suas escolas, levando o Teatro aos jovens e incentivando a cultura? O artista faz a cultura acontecer, de uma forma ou de outra, uma pena que as coisas chegaram nesse pé, mas quem nunca teve a ajuda de incentivos, continuará se virando para levar a sua arte.

E não é porque o governo, através de uma canetada, decidiu que ter um órgão que represente a cultura não é mais prioridade para o país, que a cultura deixará de ser manifestada pelos seus artistas. É claro que tudo ficará um pouco mais complicado, mas, quando foi assim tão fácil? O artista continuará exercendo o seu ofício, pois o “fazer arte” está nele e não em nenhum órgão que lhe represente. Levar cultura ao povo é o que move o artista.

A arte, sempre habitou o senso comum como entretenimento e não como objeto de absorção do saber, agora, mais do que nunca, cabe a cada artista mostrar ao povo, como é duro o trabalho e a real importância da cultura, ainda que se esteja sem um órgão que a fomente, pois, independente disso, o povo, ainda que não saiba, necessita de arte e cultura para desenvolver a sua vida e tem que ter bem claro na mente que a arte é o que alimenta a alma do seu corpo cansado.

O que fica disso tudo é um sentimento de muita tristeza, pois, mais uma vez, a Cultura não recebeu do governo o respeito e a prioridade que merece.  Acerca de todas as nossas necessidades que poderiam ser supridas com outros cortes em gastos de outras pastas, se optou por cortar as despesas daquilo que não traria uma economia irrelevante às contas públicas. Uma economia porca que ajudou a piorar ainda mais aquilo que já estava ruim.

Mas, apesar de tudo, façamos a arte acontecer do jeito que sempre nos foi possível, sem recursos, sem apoios, sem a valorização devida e cumpramos a nossa missão de artista, que é levar a cultura para mais gente possível, pois a extinção de uma repartição não é o fim para quem sempre fez arte longe dos incentivos fiscais.


A Arte faz bem para a Educação

julho 6, 2013

Já faz tempo que o olhar da Arte sobre as coisas, revela muito mais do que os olhos humanos pode ver, por isso, já está mais do que na hora da Educação se servir da Arte para mostrar outros olhares para seus aprendizes. É momento de quebrar velhos paradigmas de ensino e atualizar velhas metodologias já ultrapassadas e que não fazem mais sentido nos dias de hoje.

A Educação no seu conceito primário de transmitir conteúdos parece não ter mais fôlego para estimular e seduzir seus aprendizes. É preciso encontrar novos caminhos que levem a retomada para um novo despertar do interesse em obter conhecimentos e, ninguém melhor do que a Arte para servir de ponte para alcançar esse objetivo.

Mas, quando falo de Arte, falo da Arte em toda a sua grandeza e de todas as suas formas de expressão e não apenas e tão somente de uma mera disciplina fragmentada, descontextualizada e que, invariavelmente, não é levada a série como disciplina capaz de transmitir conhecimento. A arte que faz parte nas grades curriculares não cumpre o papel de ser uma ponte entre o aprendiz e o conhecimento.

Com os conceitos educacionais apontando na direção de que é preciso levar em conta o conhecimento de mundo do aprendiz, insistir em modelos que visam apenas repassar conteúdos didáticos, só faz aumentar o desinteresse pela aprendizagem e desestimula a busca por mais conhecimento. É preciso olhar com outros olhos para buscar novas soluções. Mas como?

Através da Arte isso pode ser modificado, desde que dermos à Arte, a mesma importância que damos à Educação. É preciso desmistificar o conceito de que arte não passa de simples entretenimento, temos que lançar mão de todo o poderio que a Arte dispõe, seja no Teatro, na Dança, na Música, na Pintura, na Literatura, para que possamos enxergar o jeito de ensinar de outra forma.

Não se pode deixar de usar esse grande instrumento de educação que é a Arte, por não ter uma opinião formada a esse respeito. Experiências já nos mostram que quando a Arte é usada como ponte de outras disciplinas surgem resultados surpreendentes e inesperados, até mesmo quando falamos em termos disciplinar do aprendiz e não apenas na obtenção do conhecimento.

A Arte estimula, encoraja, revela, educa, ensina, mostra caminhos e nos faz lançar nosso olhar sobre a vida com outra perspectiva. Faz com que encontremos sentido onde a lógica não encontrava o caminho, nos mostra que obter conhecimento pode ser algo muito mais prazeroso de que reproduzir conteúdos e nos revela o quanto o Mundo pode ser melhor se tivermos uma boa Educação.


Fazer arte é o meu trabalho

janeiro 4, 2013

Quando se pensa em arte, a primeira coisa que nos vem à cabeça é que arte é uma opção de diversão, correto? Arte, acima de tudo, é entretenimento, é o que nos ajuda a relaxar, o que nos alivia a tensão, o que nos faz esquecer dos problemas, mas, antes de qualquer coisa, arte é um trabalho e um trabalho duro. Tão duro como qualquer outro.

A diferença é que esse trabalho duro é realizado, quase sempre, nas horas de folga de outros tantos trabalhos duros. É na hora do descanso de uns, que os artistas mostram o seu trabalho. Acontece que esses trabalhadores que se divertem, não enxergam a arte como fruto de um trabalho, apenas o resultado da diversão que os alimenta. Ora, fazer arte é o meu trabalho!

Enquanto alguns estão batendo ponto nas repartições, o cartão nas indústrias, nos bancos, nos escritórios, atendendo o público nas lojas, nas feiras, nas padarias, nós, artistas, também estamos trabalhando. Do mesmo jeito que produzem em seus empregos, o artista está lá, no palco, ensaiando sua peça, no estúdio, gravado sua canção, no quarto, escrevendo o seu texto, o seu livro.

Outra coisa muito engraçada é quando perguntam ao artista que não trabalha na televisão o que é que ele faz. Ora, fazer arte é o meu trabalho! Não estar nas TVs, não significa que não seja artista. O artista não vive só de televisão, fazer arte é o seu trabalho e, para isso, não é preciso estar apenas na TV, ou batendo ponto, cumprindo jornada de trabalho ou qualquer coisa que o valha.

Não encare o artista como um desocupado, pois essa é uma visão distorcida e até preconceituosa da parte de alguns. É bom lembrar que é o artista que produz o alimento que sacia a fome da alma de todos. O que cada artista apresenta é o resultado de horas e horas de muito trabalho, que precisa ser executado sem ordem de ninguém, com muita disciplina e sem jornada a cumprir.

Fazer arte não é viver a vida sem compromisso, muito pelo contrário, para fazer arte se necessita muito mais do que compromisso, é preciso dedicação, quase sempre não reconhecida. Fazer arte não é viver a vida sem responsabilidade, muito pelo contrário, para fazer arte se necessita muito mais do que responsabilidade, é preciso se entregar sem saber se será valorizado.

Portanto, não pensem que fazer arte é a mais pura diversão, pois, não é! Arte até pode ser diversão quando do seu resultado final, mas, antes que ela se torne uma diversão para todos, é o meu trabalho, digno, honesto e tão duro quanto qualquer um.   


A cultura precisa ser descentralizada

agosto 8, 2012

Nos rincões do Brasil há muito que fazer, falta educação, falta condição para uma vida digna, falta tratar o brasileiro como filho da terra e acima de tudo, falta levar esperança a quem quer uma razão pra viver. E como fazer isso? Levando arte e cultura para cada canto deste país. Arte e cultura não podem ser privilégios dos grandes centros.

Mais e mais o povo está sedento por arte e cultura, mas elas quase não chegam aos pequenos lugares, ou quando chegam são apenas momentos de entretenimento. É preciso mais. A cultura precisa ser descentralizada e incentivada, pois muitos “dons quixotes” lutam diariamente contra moinhos de ventos tentando em vão, levar um pouco de cultura.

Como seria mais fácil se os incentivos chegassem até esses “dons quixotes”, mas a cultura é centralizada, os recursos são centralizados e o povo que mais precisa, fica lá, esquecido, vivendo numa ignorância cultural, sem esperanças e sem conhecer possibilidades que permitam alçar grandes vôos. Um país só será inteiro se todos tiverem as mesmas opções.

Parece até um contrassenso, mas onde haveria de ter mais incentivo para divulgar e transmitir cultura e arte é aonde se chega menos verbas. Não se pode tratar como iguais, regiões com tantas diferenças, é uma deslealdade. Incentivar manifestações culturais em regiões menos favorecidas, devia fazer parte de um projeto específico.

É claro que algumas iniciativas, até já foram tomadas e ainda são tomadas aqui e ali, mas descentralizar a cultura do jeito que surta algum resultado á médio prazo, ainda está longe de acontecer. Essas poucas iniciativas são pequenos sopros que balançam os pequenos moinhos de ventos com os quais lutam todo dia, esses tantos “dons quixotes’

A arte e a cultura não vão resolver a vida dos habitantes dos rincões de país, nem melhorar as condições de suas vidas, pois a dignidade de uma pessoa custa bem mais do que isso, mas levar arte e cultura vai fazer com que o povo perceba que existem outros caminhos para se trilhar. A cultura e arte engrandecem o cidadão, mesmo que ele nem se dê conta disso.

Portanto, a luta para descentralizar a cultura e a arte, deve ser uma bandeira, não de guerra, mas de unificação, isso mesmo, unificação por um povo culto, que forme de fato, uma grande nação. Talvez isso seja utopia e eu nem tenha percebido que apenas sou um “dom quixote” lutando contra moinhos de vento.


Quando se cai no gosto popular

fevereiro 26, 2012

Sem querer discutir a essência do que seja arte ou até mesmo questionar a qualidade artística de qualquer artista, o que fica claro nos dias de hoje é que quando o artista cai nas graças do público, não há quem o segure. Tudo o que ele faz passa ser maravilhoso, e não adianta argumentar, parece que quando mais se fala mal, mas as pessoas gostam.

É claro que a mídia tem papel fundamental no surgimento, crescimento e consagração de cada artística, pois é ela, e não há como se negar, que é a grande responsável por fenômenos de venda como esses que acompanhamos nos dias de hoje, principalmente na chamada nova música sertaneja universitária. Para mídia, pouco importar a arte ou a qualidade artística que é oferecida ao público.

E não é só na música que encontramos isso, também no teatro, no cinema, e mais visivelmente na televisão, fenômenos de audiência são declarados por muitos como programas de mau gosto, de baixa qualidade artística, disso, daquilo, mas a mídia ofereceu, o público elegeu, está eleito e não se discute. São coisas que confesso, não consigo entender.

Dizer que o povo é “Maria vai com as outras”, que não tem opinião própria, que é influenciado, que não tem gosto próprio, que aceita qualquer coisa que o  oferece, etc, etc, etc, pode até justificar que tal artista caia no gosto popular, mas será que a culpa é só da mídia que empurra tudo e do público que aceita qualquer coisa?

Na verdade o que alguns querem, inclusive eu, é que a qualidade artística, a expressão verdadeira da arte seja oferecida ao público, para que ele tenha como comparar o que lhe é agradável ou não. A massificação de programas, músicas e outras “cositas” mais, de comprovada baixa qualidade artística, faz com que o povo eleja sem ter com o que comparar.

Entregar como cultura, uma arte de tão baixa qualidade artística é contribuir pa-ra uma desinformação popular, que embora produza fenômenos artísticos não acrescenta nada ao cidadão. Quem sabe se oferecêssemos algo com um verdadeiro valor artístico, não produziríamos artistas que também caíssem nas graças do povo, porque quando algo ou alguém cai no gosto popular, não há o que e quem o segure.


A difícil arte de viver de Arte

dezembro 11, 2011

A sensibilidade apurada, a visão crítica sobre a vida humana e a capacidade de emprestar a alma e o corpo para uma personagem sempre foram características que fizeram um artista ser conhecido e respeitado, mas hoje em dia ser artista anda tão difícil! Sabe o que é? A concorrência está brava, eu diria até, um pouco desleal, pois o que tem de gente se achando e se dizendo artista, é uma coisa de louco!

Está cheio de gente na mídia que se diz artista, artista de quê? Do silicone da hora? Qual a arte que eles fazem? Posar nua à beira mar agora também é arte? E desfilar bíceps e abdomens torneados, é arte do quê? O que eu não entendo é porque a mídia despende tanto tempo e importância à esse tipo de celebridade, os tratam como se fossem artistas consagrados. Coitado é do artista de verdade que estuda e se aprimora para viver de sua arte.

Antes o artista tinha o seu valor, sua arte era a sustentação da sua carreira, era a sua arte que fazia a diferença, agora, o artista de verdade, aquele que construiu a história do cinema, do teatro, da televisão brasileira e que hoje está no esquecimento, quiçá até em dificuldades financeiras, nem sequer é lembrado por essa mídia, interessada apenas na vulgaridade, na futilidade, na banalidade de gente que usa o nome de artista, eles não são ninguém!

Batalhar de sol a sol a sua carreira, seja de músico, de ator, de diretor, de cantor, de bailarino, de palhaço é tarefa dura como a de qualquer outro trabalhador, pois viver de arte, nunca foi fácil e hoje, ainda mais difícil. A grandeza de um artista que encantava aos olhos das pessoas comuns, anda espezinhada e jogada no mesmo balaio de gatos dessa gente que vive na mídia, se diz artista, mas não faz arte nenhuma.

Não sei onde isso vai parar, nem sei se um dia isso vai parar, mas a verdade é que para ser artista está cada vez mais complicado, o espaço quase sempre escasso, hoje em dia é quase nenhum e a valorização de quem tem uma arte para mostrar é cada vez menor, pois parece que a arte nem é tão importante assim, basta um par de seios, um escândalo, ou um babado qualquer, ai sim tudo fica mais fácil.

Que cada um tem o direito de ganhar a vida como bem quer, isso não se discute, o que deve ficar bem claro é que essa gente que circula nas revistas, nos portais de internet, que plantam notícias, vivem de fofocas, da exposição de seus corpos e desfilam suas futilidades aos quatro cantos, podem ser o que elas quiserem ser, mas por favor, parem de dizer que são artista, ok? A vida de artista é muito dura para vocês, vai tomar demais o tempo precioso de suas vidas e vai lhes dar muito, mas muito trabalho.


Onde está o sucesso?

novembro 4, 2011

Engraçado, quando algum artista desaparece da grande mídia, dizem que ele caiu em desgraça, que não faz mais sucesso, que isso, que aquilo. Só que muitas vezes é a grande mídia que some com ele, e alguns, realmente desaparecem, ao ponto de não se ter mais notícias deles. Mas, será que um artista que está afastado ou que sumiu da grande mídia pode se considerar um fracassado? Será que ele não tem mais sucesso?

Quantos e quantos artistas espalhados pelo país afora, tem seu público cativo e são capazes de se sustentarem com a sua arte? Músicos, atores, cantores dos quatro cantos do país levam a sua arte, conquistam o sucesso, tem seus talentos reconhecidos, mas não estão ou nem chegam a grande mídia e passam longe do eixo Rio-São Paulo, por isso eles não tem sucesso?

É certo que a concentração populacional no eixo Rio-São Paulo contribui para que essa impressão seja altamente divulgada, mas, acontece que o Brasil não é só Rio ou São Paulo, um país de dimensões continentais como o nosso não pode medir o sucesso de um artista apenas por ele estar ou não no circuito Rio-São Paulo. Há vida artística em outros centros e rincões nesta nossa terrinha, sabiam?

É óbvio que a exposição de um artista na grande mídia e a sua circulação nos eventos culturais que acontecem no eixo Rio-São Paulo, dão um enorme impulso em suas carreiras, pois a divulgação para uma massa populacional de alto poder aquisitivo e de grande influência na cultura no país, o projetam a um enorme sucesso, ás vezes até, os levando a uma fama inesperada. Mas, será que só assim o artista tem sucesso?

Talvez o grande equívoco e o que provoque certa confusão seja a questão do que venha a ser fama e do que venha a ser sucesso. Ter popularidade, nem sempre significa ser bem sucedido na sua arte ou em qualquer profissão que seja, pois o que tem de celebridade instantânea que pipoca na grande mídia a custa de barracos, fofocas e de um corpo bonito, que não é artista, mas vive ocupando espaço de quem é, é um absurdo!

O sucesso não está na grande mídia e nem circula exclusivamente no eixo Rio-São Paulo. O sucesso de um artista também não se mede pelo espaço que ele tem na grande mídia, ou na sua exposição em programa x ou y, principalmente nos dias de hoje, com o evento da internet, muitos sucessos conquistados pela rede acabam pinçados do submundo das artes para uma divulgação em rede nacional.  

Portanto, ter chegado a grande mídia, ter alcançado a fama, ver amplificado o seu talento e se sentir recompensado por todo o seu esforço, não significa que enfim o artista conquistou o sucesso, pois o sucesso já foi conquistado lá trás, a custa de muito trabalho e dedicação. O artista que acredita no seu talento sabe que o verdadeiro sucesso está no reconhecimento do seu trabalho e que nem sempre popularidade é sinônimo de sucesso.


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