E a criança, como fica nesta história?

maio 27, 2011

Hoje não está nada fácil escrever um texto infantil, se já não bastasse toda a complexidade que é contar uma história para os pequenos, um outro problema vem contribuindo para essa dificuldade, a questão do politicamente correto. Mas, qual o politicamente correto? O meu, o seu, ou o da criança? Será que a criança não direito de enfrentar as situações adversas? Alguém perguntou para criança o que ela acha tudo isso?

Esse zelo exacerbado que chega às raias da neurose, está tornando o ofício de escrever histórias para crianças algo quase mecânico, pois nada pode. A inocência da criança que brinca com as situações que ela vivencia, está sendo fortemente vigiada. E, se já não bastasse toda a violência urbana que acabou empurrando as crianças para dentro das casas, querem decidir o que a criança pode ou não pode assistir.

A onda do “bom-mocismo” que tomou conta do país acabou extrapolando e tornando situações que outrora eram naturais, quase proibitivas. O que seria de Maurício de Souza se tivesse criado nos dias de hoje, “A Turma da Mônica”? Chamar um menino de “Cebolinha”, um outro de “Cascão” e uma menina de “Gorducha” e “Dentuça”, lhe decretaria o fracasso, jamais se tornaria o sucesso que é nos dias de hoje. Como tudo na vida, o excesso de preocupação, acabou criando um monstro, e querem que fechemos as crianças em redomas de vidros, distantes de todo e qualquer mal.

Será que tal atitude está fazendo bem para as crianças? Como elas poderão discernir o que é certo ou errado? E como elas vão saber se isso ou aquilo é certo ou não, se estão limitadas a aceitar apenas o que lhes é imposto como politicamente correto diante dos olhos de alguns? A sociedade está escrevendo um texto infantil com uma lição de moral no final. Algo muito ruim para criação do cidadão de amanhã.

Quando penso em escrever algum texto, contar alguma história infantil, sinto até um frio na espinha, pois sei que certamente enfrentarei muitos problemas, porque pra mim, criança é criança e tem de ser respeitada como um consumi-dor da minha literatura e do meu teatro e sempre falarei para ela, olhando nos olhos dela, e usando a sua linguagem. A única coisa que faço questão é de que a criança tenha a sua impressão sobre o que escrevi. Ela que vai dizer o que é certo ou errado, e não eu! Eu apenas lhe mostrei as situações.

Preocupações com a violência, com a educação, com as drogas e com tudo mais que cerca o universo infantil nos dias de hoje, eu também tenho, pois sou pai. Mas não posso querer esconder das minhas filhas, algo que a vida por certo lhes mostrará. E pintar o mundo de cor-de-rosa, querendo que só o bem faça parte, é utopia. A vida é feita do bem e do mal.

Por que será que os vilões fazem tanto sucesso? Porque os vilões é que tornam os heróis, exemplos para criançada. Impedir, esconder, disfarçar todo mal que há no mundo, não vai livrar a criança dos problemas. O melhor é deixar que os autores, usem a sua criatividade, abusem do lúdico e falem a língua da criança, colocando no papel, as situações comuns às crianças. Ou será que as crianças de hoje não tem mais apelidos?


O CRAVO E A ROSA

agosto 25, 2010

CENÁRIO: UM JARDIM

ABREM-SE AS CORTINAS, A ROSA ESTÁ EM CENA. LINDA, VERMELHA. QUASE UMA PRINCESA.

ROSA            – Bom dia, dia! Bom dia, Sol! Que lindo dia para encontrar um belo namorado. Tomara que aquele Lírio lindo passe por aqui hoje! Tenho certeza que hoje ele vai me notar, pois estou mais bonita do que os outros dias. E se ele olhar pra mim… Aaaaaaiiii… acho que vou desmaiar de emoção!

ENTRA EM CENA O CRAVO. SIMPLES, SEM GRAÇA, UM CAIPIRA. TRAZ UM VIOLÃO.

CRAVO         – Bão dia, minha princesa!

ROSA            – Estava um bom dia… Até você aparecer por aqui.

CRAVO         – Mas, ocê tá uma belezura hoje, hein?

ROSA            – Você não tem outro lugar pra ir não?

CRAVO         – Que lugar desse jardim todo eu vô achá uma Rosa mais linda que ocê?

ROSA            – Larga do meu pé, chulé!

CRAVO         – Só largo do seu pé quando ocê aceitá namorá com eu?

ROSA            – Não é: namorar com eu! É namorar comigo!

CRAVO         – Inton, ocê aceita?

ROSA            – Claro que não! Já falei que não quero nada com você. Se você quiser, posso até ser sua amiga. Mas, só!

CRAVO         – Fiz até uma moda pr’ocê. Iscuita só!

CRAVO DEDILHA UM ACORDO SERTANEJO NO VIOLÃO.

ROSA            – Pode parar, pode parar, pode parar! Eu odeio a sua cantoria. Agora me dá licença que está quase na hora do meu futuro namorado passar por aqui.

CRAVO         – Mas, o seu namorado já táqui. Oia só!

FAZ POSE DE FORTÃO E ESBOÇA UM OLHAR SEDUTOR.

CRAVO         – Não sou uma beleza?

ROSA            – Você é um chato, isso sim! Agora vai procurar a Margarida, vai! Quem sabe ela não te dá bola? Pois o meu negócio é com o Lírio! Ele sim, é lindo, elegante, perfumado.

CRAVO         – Ih, tá me chamando de fedido?

O CRAVO SE CHEIRA. FAZ MENÇÃO DE SE SENTIR FEDIDO.

ROSA            – (RINDO) Viu só! Até você não agüenta o seu cheiro.

CRAVO         – Oia aqui, sua… sua… Qué sabê de uma coisa? Eu num quero mais sabe de ocê. E fica aí mesmo esperando aquele almofadinha do Lírio, fica!

ROSA            – Fico mesmo, ta?

CRAVO         – Vai ficá esperando e vai até cansá!

ROSA            – Quem disse que eu vou cansar?

CRAVO         – Quem disse que o Lírio vai te bola?

ROSA            – Eu sou a Rosa, a mais bela do jardim!

CRAVO         – Seu eu fosse ocê, aceitava logo namorá com eu!

ROSA            – Já falei que não é com eu! É comigo! É comigo! E o Lírio, vai sim querer namorar comigo, ta?

CRAVO         – Intão ta bão! Quero vê quando ocê ficá véia, feia, murcha, sozinha e toda despetalada? Aí, nem adianta vim me procurá, viu?

ROSA            – Seu horroroso. Eu é que nunca vou namorar com você! Você é um grosso! Fora daqui!

A ROSA ATIRA UM VASO EM CRAVO. ELE TENTA SE PROTEGER E DEIXA O VIOLÃO NO CHÃO. O CRAVO SE ESCONDE E FICA OBSERVANDO ROSA.

ROSA            – Esse Cravo é um insuportável! O pior é que ele não larga do meu pé! Eu vou lhe mostrar uma coisa. Volta aqui!

ROSA VAI ATÉ O CENTRO DO PALCO E PROCURA POR CRAVO.

ROSA            – Cravo, cadê você! Seu sem graça! Aparece. Agora!

ROSA PÁRA NO CENTRO DO PALCO, OLHA E NÃO VÊ NINGUÉM.

ROSA            – Será? Será que o Cravo tem razão? Será que o Lírio não vai querer namorar comigo? E eu vou ficar sozinha? Não! Não posso ficar sozinha! Velha, feia, murcha e despetalada? Aí que medo! Ei, Cravo, volta aqui. Você está certo! Não quero mais saber de esperar o Lírio. Eu aceito namorar com você!

A ROSA VOLTA A PROCURA POR CRAVO.

ROSA            – (CHOROSA) Cravo! Cravo! Cadê você?

O CRAVO SAI DO ESCONDERIJO COM UM LENÇO SUJO DE VERMELHO AMARRADO NA CABEÇA.

CRAVO         – Ai! Ai minha cabeça!

ROSA            – O que aconteceu?

CRAVO         – Ocê num alembra? O vaso que ocê jogou ni mim?

ROSA            – Desculpa, Cravo. Não queria te machucar!

CRAVO         – Mas, machucô!

ROSA            – Deixa eu ver isso!

CRAVO         – Não! Meio ocê nem mexe!

ROSA            – Então vamos fazer as pazes!

CRAVO         – Tá bem! Eu aceito suas desculpas!

ROSA            – Você gosta mesmo de mim?

CRAVO         – Craro que gosto! Ocê sabe que sim. Mas se ocê prefere o Lírio, ocê precisava sabê que vai ficá véia, feia, murcha, despetalada e sozinha pra sempre!

ROSA AMEAÇA BATER EM CRAVO.

CRAVO         – Ai!… Tô vendo tudo escuro! Acho que vô desm…

O CRAVO DESABA NO CHÃO, DESMAIADO.

ROSA            – (DESESPERADA) Ai, Desculpa! Eu não ia fazer nada em você! Socorro! Eu aceito até namorar com você! Alguém me ajude, por favor! Será  que eu matei o Cravo? Agora que estou perdida mesmo. Vou ficar velha, feia, murcha, sozinha, despetalada e passar o resto da minha vida na cadeia.

A ROSA CORRE PELO PALCO. O CRAVO LEVANTA A CABEÇA E RI DO DESESPERO DA ROSA. ELA VOLTA ATÉ ELE E ELE SE DEITA DE NOVO.

ROSA            – (CHORANDO) Cravo! Meu amigo Cravinho! Fala com a sua Rosa! Eu pensei melhor. Eu aceito namorar com você. Me dá um sinal.

ROSA SE AJOELHA E APOIA A CABEÇA DE CRAVO EM SEUS BRAÇOS. O CRAVO ABRE O OLHO E DÁ UM GEMIDO.

ROSA            – Cravo! Você está bem?

CRAVO         – Quem é ocê?

ROSA            – Sou eu! A sua Rosa. Lembra?

CRAVO         – Que Rosa?

ROSA            – A sua namorada!

CRAVO         – Eu num tenho namorada.

ROSA            – Agora tem! Eu aceito namorar com você!

O CRAVO DÁ UM PULO E FICA DE PÉ.

CRAVO         – Jura? Sabia que ocê gostava de eu!

ROSA            – Não é gostava de eu! É, gostava de mim! E você não passa de um mentiroso! Eu vou acabar com você! Onde já se viu enganar  os  outros. Eu

toda preocupada e você aí, fingindo! Seu grosso!

ROSA AMEAÇA BATER NO CRAVO.

CRAVO         – Ai, minha cabeça!

ROSA            – (COM RAIVA) Como você pôde fazer isso comigo? Assim que você gosta de mim? Eu não quero mais saber de você. Nunca mais! Nem que eu fique velha, feia, murcha, toda despetalada e sozinha!

ROSA DÁ UM EMPURRÃO NO CRAVO

ROSA            – E sai da minha frente!

ROSA SAI DE CENA FURIOSA.

CRAVO         – Espera por mim, minha belezura! Num faz assim com eu! Eu gosto de ocê de verdade! Foi só uma brincadeira! Eu sabia que ocê gosta de eu! Eu sabia!

O CRAVO SAI ATRÁS DE ROSA. ENQUANTO ELE SAI, TOCA A MÚSICA: O CRAVO E A ROSA.   

APAGAM-SE AS LUZES. FECHAM-AS CORTINAS.              

– FIM –


A importância do texto infantil

outubro 18, 2009

Muito mais do que conter e contar fábulas, um texto infantil para teatro, tem uma função ainda pouco explorada, ou pelo menos, não se vê muita divulgação de sua utilização para esse fim: o de servir como um forte instrumento de apoio pedagógico, auxiliando na educação da criança.

Enfatizar apenas o lado lúdico que o teatro, com toda sua magia, é capaz de passar, é muito pouco para um texto infantil de teatro. Ele pode ser muito melhor explorado, do que ser apenas uma parte de um espetáculo infantil oferecido à criança como passeios em datas festivas.

Utilizar o texto infantil de teatro na sala de aula, servindo-se de suas histórias para trabalhar de maneira mais lúdica, assuntos por vezes difíceis de lidar, até mesmo pela complexidade do tema, a princípio pode parecer que não, mas é sim, um diferencial para a educação infantil.

A pedagogia precisa se ater a esse detalhe, pois o teatro como arte pura e o seu texto infantil utilizados como instrumentos multiplicadores de idéias e, acima de tudo, como facilitadores para trabalhar ações e sentimentos, só tem a acrescentar na melhoria da educação, seja ela de forma informal, ou de forma didática.

Mais e mais fica claro, que não bastam apenas os métodos ortodoxos de educação para ensinar a criança dos dias de hoje, e cada vez mais é preciso se buscar um diferencial para estimular a criança á aprender. E a utilização do texto infantil de um espetáculo teatral caminha neste sentido.

É claro que não é sempre que se pode se utilizar de textos infantis, mesmo porque, ainda são raros, ou de pouco conhecimento, textos que possam servir de fato, como apoio pedagógico. E também, não se deve incorrer no mesmo erro de outrora, forçando a criança a ler vários textos infantis, assim como se fez, e se faz com a literatura, pois assim, corre-se o risco de se obter o efeito contrário.

O texto infantil se faz importante quando ele é usado na medida certa entre o que é lúdico e o que é didático, servindo de estimulo, instigando a investigação, apoiando a pedagogia no dia-a-dia e trazendo para sala de aula, a magia existente no teatro de uma forma natural, para que todos possam usufruir de cada pedacinho da história.


Texto Infantil não é textinho

abril 5, 2009

Acho que existe um grande  equívoco  quando  se  fala  em  texto para teatro infantil. Ás vezes pode ser que nem seja de forma pejorativa, mas as pessoas acabam sempre classificando os textos infantis como se estes fossem algo menor. Texto para teatro infantil não é textinho.

Talvez, escrever um texto infantil não seja muito mais trabalhoso do que escrever um texto para o público adulto deve pensar um leigo. Ele não tem é idéia! Escrever texto infantil é muito mais do que trabalhoso, pois não basta escrever e contar uma boa história faz-se necessário muito mais. Tem-se que acima de tudo, ter o cuidado de respeitar a criança como um espectador.

No afã de se montar um espetáculo de teatro, muitos recorrem aos textos de teatro infantil como se eles fossem mais simplistas, e essa forma de encarar os textos infantis é que me causa profundo descontentamento. Por que esse descaso com o teatro infantil?

Todo esse desrespeito, que começa com o texto, acaba desaguando nas montagens de espetáculos infantis, que são tratadas, na maioria das vezes, não como parte de uma arte, mas apenas como “teatrinho”. Quantas vezes você já ouviu: “Vamos ao teatrinho?” Isso é o fim da picada, tanto para quem escreve, quanto para quem atua com o teatro infantil.

Se não bastasse tudo isso e todo o preconceito que ronda o trabalho do teatro infantil muitas das pessoas que fazem teatro acabam por desmerecer o texto para o teatro infantil e todo o seu processo. Como dizia Tatiana Belinky: “Pecinha é a vovózinha!” É certo que as pessoas querem montar espetáculos infantis, mas respeitem os textos, por favor!

Espero que um dia, os textos para o teatro infantil tenham o mesmo reconhecimento que os textos para o público adulto, e que as pessoas, quando forem montar espetáculos infantis, comecem, no momento da escolha do texto, dando-lhe o devido respeito.

Então, você que acredita no teatro infantil, lembre-se que texto para o público infantil é algo muito sério. Ah, e também não esqueça: Texto Infantil não é textinho. E assim, sempre que for escolher um texto infantil, lhe dê o respeito que todo texto merece, combinado?

 

 

 

 

 


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