A tristeza que ninguém quer mostrar

outubro 20, 2017

Ah, como seria lindo se a vida fosse igual às páginas das redes sociais, com um sol sempre nos dando bom dia feliz e com um sorriso largo. Ah, como seria incrível se a vida fosse igual às fotos publicadas nas redes sociais, de festas alegres, com pessoas divertidas, exalando felicidade pelas telas. Ah, como seria ideal se a vida fosse o mar de rosas que inunda as redes sociais com mensagens positivas que nos empurram para enfrentar a vida de cabeça erguida. Mas, não é. Não é mesmo?

Quanta tristeza há por detrás de um sorriso alegre nas fotos publicadas nas redes sociais? Quanta dor e sofrimento escondidos em um bom dia feliz? Quanta dificuldade de vida há por detrás de mensagens de otimismo? Quanto nos custa bancar uma felicidade artificial? Se a vida é uma eterna busca da felicidade, não podemos estar a todo o momento, felizes. Todo mundo em algum momento é triste, mas, todo mundo prefere esconder a sua tristeza nas publicações das redes sociais.

E o quê nós vemos hoje de verdade? Relacionamentos superficiais, frustrações mal resolvidas, vidas paralelas de gente que pensamos conhecer muito bem. Tanto, que volta e meia somos surpreendidos com tragédias cometidas por pessoas que jamais imaginaríamos que elas fossem capazes, tamanha união, amor e felicidade estampada em publicações nas redes sociais. As redes sociais nos deram a opção de esconder a nossa vida, mas a tristeza verdadeira não sai de nós e, por isso, tantas vezes a verdade vem à tona.

É claro que cada qual se comporta e se defende da vida como pode, mas o fato é que essa busca desenfreada por uma vida de felicidade plena tem nos feito muito mal como seres humanos, não sabemos mais como lidar com opiniões contrárias as nossas, perdemos a medida do diálogo, vivemos mais tempo na vida de mentira que criamos nas redes sociais, do quê buscando o real motivo de viver e de como encontrar o caminho para que a vida seja mais alegre do que era antes.

Estamos ansiosos por um futuro que não chega nunca, e criamos expectativas que se tornam cada vez mais inatingíveis. Estamos conectados a todo tempo, na mesma medida que estamos só. A solidão nos assola cada vez mais. Buscamos falar incansavelmente pelas redes sociais com medo que ninguém mais nos ouça. Necessitamos sempre estarmos alegres, pois, a tristeza que está sempre à espreita, nos apavora e tememos encará-la de frente todos os dias ao amanhecer.

Assim, vamos vendo o tempo passar cada vez mais rápido, estamos cada vez mais distante de um abraço apertado, de um ombro para chorar, de um colo, de um ouvido que escute a nossa dor, não temos mais espaços para as tristezas da vida, mas, estamos tristes, os olhos das pessoas nas ruas, nos dizem isso, basta olhar bem dentro de cada um. Penso que nos faria um bem enorme mostrar um pouco de nossa tristeza, talvez, os momentos felizes nos deixariam, realmente felizes e não seriam apenas fotos com muitas curtidas.

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A Bruxa do fim da rua

fevereiro 10, 2017

Sabe gente, é muito triste ficar velha. Andei pensando e acho que não quero ficar velha não! Não é porque eu sou uma criança que não posso pensar nisso. Posso sim! Ainda mais depois que o descobri uma história com uma pessoa bem velhinha. Vou contar tudo pra vocês.

No fim da rua da casa da Joana, tem um casarão. Bem grande mesmo! Ele é cheio de mato, tem os portões enferrujados, nem dá pra ver quem mora lá dentro. Só é bom porque tem uma árvore de acerola que cai pro lado da calçada e dá pra gente pegar umas de vez em quando. A Joana não gosta de acerola, mas, eu? Adoro!

Os meninos falam que lá é casa de uma Bruxa. O Paulinho mesmo já confirmou.

– Cuidado, porque lá mora uma Bruxa!

– Mora nada, Paulinho!

– Não sei não, Helena. Mas eu tenho medo de entrar naquela casa.

– É verdade! Um dia entrei lá para pegar a bola que caiu no quintal e vi dois olhos me olhando pelo vidro quebrado da janela. Sai correndo.

– Logo você, Paulinho! O corajoso!

– Com Bruxa eu não brinco não!

– Quer saber? Eu vou lá visitar essa Bruxa!

– Não faz isso, Helena!

– Deixa ela, Joana! Quero ver essa branquela sair da casa da Bruxa, mais branca ainda.

Não dei bola pro que o Paulinho falou e fui decidida a conversar com a tal Bruxa do fim da rua. Paulinho e a Joana foram juntos comigo.

No portão, eles não quiseram entrar. Abri o portão bem devagar, mas não adiantou, fez um barulho igual aqueles que fazem quando abre uma porta nos filmes de Terror. Tava com medo, mas entrei.

Fui andando bem devagar, olhava para todos os lados, o meu medo aumentava. Vi dois olhos me olhando pelo vidro quebrado da janela. Tomei mais coragem e cheguei até a varanda.

– Sai daí, Helena! A Bruxa vai te pegar!

– Volta, Helena!

O Paulinho e a Joana ficavam me chamando de fora do portão, mas eu precisava ver se ali morava mesmo uma Bruxa.

– Será que a porta está aberta?

Coloquei a mão na maçaneta e abri a porta bem devagar.

– Quem está aí? Uma voz bem fininha falou.

– É a Helena. Você é mesmo uma Bruxa?

De repente veio de dentro da cozinha da, uma velhinha, com um lenço na cabeça, um avental amarrado na cintura, óculos e deu um grande sorriso pra mim.

– Oi, Helena, seja bem-vinda!

– A senhora não é uma Bruxa?

– Sabe que eu não sei. Acho que sou sim.

– Então é melhor eu ir embora.

– Não, Helena. Fica!

– É que eu…

– Não tenha medo. Não sou nenhuma Bruxa. Foi só uma brincadeira.

Sentei no sofá e logo vieram uns três gatos pulando em cima de mim, mas a velhinha expulsou todo. Naquela hora eu já estava com muito medo.

– Espera um pouquinho que eu já volto.

Assim que a velhinha entrou, eu levante e comecei a andar devagar para fugir o mais rápido de lá. Quando cheguei na porta…

– Não vai, Helena! Faz companhia pra mim. Sou tão sozinha!

Então voltei ao sofá, com medo, juro! A velhinha passava a mão nos meus cabelos, me fazia carinho. Começou a me contar que ela tinha dois filhos, tinha quatro netos, mas que eles nunca vinham fazer uma visita para ela. Ela era muito triste. Coitada! Eu morro de saudade da minha avó que morreu. Será que os netos dela não sentem saudades dela?

Só sei que fiz muito bem em entrar naquele casarão. Dona Arminda, fez café com bolinho de chuva, com a minha avó fazia pra mim quando ia a casa dela. Passei a tarde toda ouvindo um monte de histórias legais que ela me contou.

Quando vi, já estava noite.

– Preciso ir, Dona Arminda! Obrigada pelo lanchinho!

– Você volta?

– Com certeza.

Ainda corri e dei um abraço bem apertado nela.

Quando saí, o Paulinho e a Joana ainda estavam me esperando no portão.

– Caramba, Helena! Como você demorou?

– Pensei que a Bruxa tinha te comido!

– Foi quase, Paulinho! Ainda bem que eu consegui fugir do caldeirão.

Fechei o portão e quando olhei para dentro, vi dois olhos sorrindo para mim pelo vidro da janela.

É, acho que ganhei uma nova avó! Ganhei, sim! Falando nisso, faz um tempão que não visitar a Dona Arminda. Quem sabe a Joana e o Paulinho não queiram ir comigo desta vez?


Primeiro Eu

novembro 4, 2016

O grande mal dos dias de hoje é o egoísmo, aliás, talvez seja o grande mal da humanidade desde sempre. Acontece que hoje em dia a coisa parece ter ganhado uma dimensão ainda maior, pois todo mundo está individualista demais, primeiro eu, depois eu, depois eu, depois eu, e se sobrar alguma coisa, eu de novo. Vivemos em uma sociedade, que pouco nos interessa o quê passa com o outro, do outro, só nos interessa as mazelas, as fofocas, a decadência, coitado do outro se for mais feliz que nós.

Vivemos uma vida de discursos coletivos e de atitudes individuais, onde buscamos projetar uma imagem para sociedade, mas nos fechamos cada vez mais na realização de nossos desejos. Enquanto o outro não atrapalhar a organização das nossas vidas, não interferir na conquista solitário de satisfazer as nossas vontades, fingimos até ajudá-lo, mas se o ato de ajudar o outro, atrapalhar os nossos desejos individuais, o outro é que se lasque, pois, nessa hora, o nosso egoísmo nos cega.

Queremos que respeitem sempre as nossas vontades, mas somos incapazes de aceitar as vontades do outro. Achamos sempre os nossos problemas maiores do que o do outro, muito embora, mal temos a noção exata do tamanho do problema do outro. Temos sempre uma crítica na ponta da língua para apontar os defeitos alheios, mas achamos um tremendo desaforo se alguém aponta o dedo nas nossas feridas. A nós, só nos importa as nossas alegrias e as nossas tristezas.

É, vivemos em uma sociedade, mas não gostamos de socializar, de procurar o porquê que algumas pessoas tomam certas atitudes, ou o porquê nós mesmos tomamos certas atitudes. Falamos horas a fio através de redes sociais, mas somos vazios diante de qualquer conversa que não seja de algo do nosso interesse. Dizemos ser solidários, mas preferimos a solidão. A verdade é que não admitidos que ninguém ouse invadir nossa individualidade, nosso egoísmo não permite.

Toda intolerância que nos ronda, que faz a vida ser mais violenta, tem uma origem no egoísmo individual de quem só tem olhos e ações para si, por mais que a vida esteja difícil, pois ela está para todo mundo, ainda que para uns, mais do que para outros, quando deixamos o nosso egoísmo falar mais alto, acabamos criando um combustível a mais para perder a paciência e usar a ofensa como a nossa defesa. Quanto mais pensamos primeiro no “Eu”, ficamos mais distante resolver as coisas do “Nós”

Se, a cada dia que passa, ficarmos ainda mais egoístas, mais individualistas, mais solitários, com certeza, nos tornaremos mais infelizes, pois a alegria de viver, o que traz a felicidade para as nossas vidas, é a satisfação de poder ver o outro tão feliz quanto nós; é poder ajudar o outro a ter as mesmas oportunidades de realizar os mesmos sonhos que temos. Precisamos fazer uma reflexão, mas, se ainda assim preferirmos ficar com o nosso egoísmo, melhor seria não atrapalhar, não criticar, nem tão pouco julgar a vida do outro.


Perdidos em meio a um temporal

junho 3, 2016

Não sabemos bem ao certo em que ponto de nossas vidas, este temporal que está varrendo nossa capacidade de entender os acontecimentos da vida, nos surpreendeu pelo caminho. Estamos cada vez mais perdidos no meio disso tudo. Às vezes, emoção demais, às vezes razão demais, às vezes uma profunda indiferença, às vezes uma enorme indignação, não sabemos mais o que é certo ou errado, o que é justo ou injusto.

A sensatez tirou o seu time de campo, pois hoje em dia, só há espaço para discussões calorosas, para insultos, ofensas e golpes de violência, sejam elas, físicas ou morais; fomentamos todos os dias, um sentimento de guerra que vai acabar nos matando sem nem mesmo sabermos disso. A confusão virou guia dos nossos passos, é tudo tão confuso, tão problemático, que ninguém busca mais a solução através da conciliação.

Todo mundo quer ter a razão, todo mundo quer ter direitos, todo mundo quer só o seu quinhão de tudo. Parece que esquecemos em alguma esquina, o respeito, a solidariedade, a capacidade de nos comover com certas situações. Uns ainda até conseguem, mas, dois passos mais adiante, aquilo que nos emocionou e nos fez rever conceitos e pensamentos, acaba se perdendo por um algo novo que jogou tudo o quê passamos, fora.

Achamos que estamos vinte e quatro horas felizes, quando na verdade não vemos à hora da tempestade passar e nos trazer os raios do Sol de um novo tempo. Fugimos da solidão, mas nos encontramos cada vez mais solitários, querendo que as coisas se resolvam, mas não sabendo como fazer para resolver as nossas coisas. Temos medo da reação alheia, da nossa reação, nos sentimos perseguidos, estamos na verdade perdidos.

Estamos sempre prontos para condenar. Se não está de acordo com aquilo que acreditamos: – Culpados! Não existem mais a presunção da inocência, a culpa é de todos! Não sabemos bem culpados de quê, mas não vemos mais inocentes entre nós, nada mais é ponderado, atira-se a pedra para depois ver se machucou. O temporal só nos deixa ver um lado de toda a situação e parece que preferimos sempre ver o pior. Estamos todos muito perdidos em meio a todo esse temporal.

E enquanto não conseguirmos nos livrar dessa tormenta, as coisas só tendem a piorar, pois deixamos de cultivar o bem pelo bem. Não vamos conseguir encontrar a paz através da guerra, mas também não sabemos direito como encontrá-la, estamos tão confusos, obscuros e descrentes no nosso semelhante, perdemos a capacidade da convivência, optamos por viver relações virtuais e não sabemos mais como enfrentar os conflitos que nos cercam. Tomara que este temporal logo passe.


A morte do Rei Momo

novembro 19, 2015

Quem vê João agora, não diz que um dia a alegria foi sua grande companheira e com ela, ele desfilava simpatia e felicidade de viver. Hoje, sentando em sua cadeira de rodas, após sofrer um acidente vascular cerebral que lhe deixou algumas sequelas, como a perda dos movimentos das pernas e a dificuldade da fala. João, solitário, passa os dias olhando o infinito pela janela. Há tempos ninguém vem lhe fazer uma visita, logo ele que era tão popular, principalmente no carnaval, sim, por anos, João foi Rei Momo da folia.

Como saber o quê seus os olhos buscam no infinito? Quantas recordações ainda hão de povoar sua mente desde o tempo em que era o dono da folia? Por certo, muitas, pois as lágrimas que, volta e meia, escorrem desobedientes pelo seu rosto, entregam que a tristeza tomou o seu olhar que, todos os dias, procura encontrar algo no infinito, quem sabe a sua antiga alegria. João vive esquecido, só deve ter mesmo as suas lembranças de um tempo, em que o tempo, fez questão de enterrar.

João era auxiliar de enfermagem, cuidar das pessoas também era sua grande alegria, só não era maior que sua paixão pelo carnaval, tanto que, em todos os hospitais em que trabalhava, as suas férias, eram tiradas, sempre, de acordo com o calendário do carnaval, e isso já era acertado no dia de sua contratação. Na época da folia, nada de doentes e nem de hospitais, o que ele queria era desfilar pelas ruas e passarelas, a sua alegria e seu samba no pé desengonçado, que lhe dava ainda mais simpatia.

E como João era admirado! Batizado no mundo do samba com o nome de “Lord Doutor”, por andar sempre de branco, não apenas pela sua profissão de auxiliar de enfermagem, mas também por conta de sua crença nos orixás, o Rei Momo João tinha amigos em todas as escolas de samba e na época do carnaval era matéria de capa em todos os jornais e revistas da cidade. Quantas e quantas reportagens; quantas e quantas fotos; quantos e quantos abraços e sorrisos; tantos carnavais. Talvez, seja um pouco disso tudo, que os olhos de João buscam no infinito.

No fundo, João buscava aceitar tudo que lhe tinha acontecido, logo ele que era cercado pela alegria, que era querido, que cuidava das pessoas, que não podia ver ninguém triste, se ver ali, inválido, solitário, adoecido, esquecido, tendo que viver buscando na memória sua boas recordações para vencer cada novo dia, não era nada fácil, nem mesmo quando as batidas dos surdos e tamborins passavam embaixo de sua janela, João desviava o seu olhar do infinito. Nada restou de tantos carnavais.

O fato é que o Rei Momo morreu, e com sua morte, os seus amigos sumiram, a sua fama acabou, nem mesmo nos carnavais, João recebe qualquer visita, às vezes, ouve falar de seu nome em alguma reportagem da televisão, volta e meia alguém se lembra de seu nome, uns até perguntam notícias sobre ele, outros ainda afirmam com a certeza absoluta que ele já morreu. Descartado como retalhos de cetim esquecido no fundo do barracão, João sofre a dor do abandono e do esquecimento. João está morto.


Uma Rosa em meu jardim

agosto 28, 2015

Aqueles olhos perdidos no horizonte, azuis como o céu, ainda enfeitavam um rosto enrugado pelo tempo. Mãos trançadas sobre as pernas franzinas, dobradas uma sobre a outra, deixava claro, uma fragilidade de dar dó. Um entre e sai de móveis e equipamentos, e Pedro com seu olhar perdido sentado em uma velha poltrona, parecia não entender todo aquele movimento. No portão aberto, uma placa: “Clínica de Repouso Lar Feliz” ao lado, um cartaz de papel: Aluga-se – Vende-se.

Aquele era o último dia de funcionamento do lar de Pedro nos últimos dez anos. Já não havia mais ninguém por lá, apenas funcionários que terminavam de encaixotar alguns envelopes, enquanto os homens da empresa de mudança terminavam de tirar os últimos móveis. Na mão de Pedro, um envelope amassado que ele manuseava quase que mecanicamente, como quem não tivesse coragem de abri-lo. O que seria de Pedro? Para onde ele iria assim que toda mudança acabasse?

Pedro sempre foi uma pessoa ativa, quando jovem lutou por liberdade e justiça e, por isso, acabou tendo que viver alguns anos na clandestinidade. Abriu mão dos amigos e o pior de tudo, de seu grande amor, aquele com quem ele fazia planos e sonhava formar família, ter uma casinha e viver junto até o fim dos tempos. Mas, o amor não era recipocro. Assim que pode, voltou correndo para o seu amor, mas a encontrou nos braços de outro e com um filho no colo.

Ali a vida deu o primeiro grande golpe em Pedro e ele, então, decidiu que dedicaria sua vida às suas causas e que  nunca mais se envolveria com mulher nenhuma. A dor da solidão do isolamento de anos havia golpeado o coração de Pedro duramente, o petrificando. Ainda sem chão, Pedro refez sua vida e se entregou de corpo e alma a fazer do mundo um lugar melhor para se viver. Nunca mais viu o seu grande amor depois daquele dia.

Solitário e de poucos amigos, Pedro viveu uma vida simples, de poucas alegrias. Não havia com quem compartilhar suas vitórias. Depois da cicatriz, Pedro até se arriscou em novas aventuras amorosas, que realmente nunca passaram de pequenas aventuras. A solidão sempre se mostrou ser a sua grande companheira e, com ela, ele decidiu viver em um clima de grande cumplicidade.

Mas, vem a vida e dá um outro golpe em Pedro. Um derrame lhe deixa grandes sequelas e, se ninguém por perto para lhe aparar nessa hora, Pedro se viu  obrigado a buscar em uma clínica de repouso. Naquele momento, até mesmo a sua companheira solidão não podia lhe ajudar. Ficou alguns anos em silêncio, até que um dia se recuperou, mas preferiu continuar na clínica, não havia na vida, nada mais que ele pudesse buscar.

E agora ele estava ali, olhos perdidos, conversando com a sua solidão, talvez remoendo as idéias atrás de uma solução. Agora já estava velho demais para sair sozinho pelas ruas. A solidão agora lhe pesa. Os últimos móveis já deixavam a casa, apenas a velha poltrona, onde Pedro estava ainda estava no local. A enfermeira chega com ma cadeira de rodas e troca Pedro de lugar. Ele então parece ganhar coragem para abrir o envelope.

Mãos trêmulas, Pedro tirou do envelope uma carta manuscrita e começou a lê-la: “Procurei você por longos anos, desde que mamãe morreu e me contou toda a verdade. Demorou mais te encontrei aí. Você não deve saber de mim. Mamãe guardou esse segredo por toda a vida. Quero muito te conhecer. Sei das tuas lutas e das tuas vitórias. Espero que ainda dê tempo para sermos uma família. Um beijo. Sua filha Rosa”.

Antes mesmo das lágrimas que escorriam pelo rosto de Pedro molharem o papel, uma voz doce chamou pelo seu nome:

– Seu Pedro? Papai, vim te buscar!

Foi a primeira vez depois daquela primeira decepção há anos atrás, que Pedro colocou em seu rosto, um sorriso de Felicidade.


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