O Teatro é social

agosto 20, 2010

Houve um tempo em que o palco era o único lugar para dar vazão às idéias reprimidas e sufocadas pela censura. Estar no palco era ter a certeza de levar ao público, a voz calada e amordaçada pelo um regime autoritário. É certo que alguns espetáculos eram por demais panfletários e retratavam unicamente pontos de vistas de uma política que hoje em dia não faz sentido. Mas, ao menos, o teatro era a voz que satisfazia os anseios de quem não podia falar.

Com o tempo e com a bendita democracia, certos textos perderam força e não houve mais interesse em retratar no palco, histórias que não precisavam de uma voz, pois já eram gritadas em uníssono por toda a população. E o teatro deixou de lado o conteúdo contestador para se derramar em comédias. Acho até justo, depois de anos de agruras e dissabores. Mesmo porque, falar de política não é lá um assunto que dê público, muito embora devesse.

Hoje, o teatro, partiu para novos e outros campos, a busca é pela conquista do público, procurando firmar o teatro como uma grande opção de entretenimento, produzindo espetáculos mais leves, que mais diverte do que questiona ou faz pensar. Parece que o Teatro perdeu o interesse de ser a voz de um povo oprimido. Povo este que agora sofre pela periferia e que tal e qual aos que viveram os anos de chumbo, está sem voz, amordaçado pela indiferença de uma sociedade.

É muito bonito e louvável levar a arte aos menos favorecidos, criando projetos, oficinas, apresentando um mundo cheio de esperança que o teatro é capaz de mostrar. Não deixa de ser uma grande bandeira, esta de incluir os excluídos através da arte do Teatro, mesmo que seja em doses homeopáticas. Quantos já não tiveram suas vidas transformadas pelo Teatro? Mas, podia ser muito mais.

Pena que tudo isso é levado por poucos, loucos que sabem da força transformadora que o Teatro possui. Mas não basta diante do abismo que separa os que sonham, dos que não tem nem este direito. Quem sabe não seja a hora de levar aos palcos um pouco dessas histórias que não podem ser ouvidas? Fazer ecoar nos palcos o grito de igualdade pode ser o caminho par encurtar a distância para a verdadeira justiça social.

O Teatro precisa participar desta revolução, pois tal e qual a censura que calou milhares de vozes, a injustiça social também tem um efeito devastador, pois distancia cada vez mais, emudecendo a voz de quem não tem para quem gritar. Levantar o problema, discutir a situação, questionar as políticas, repercutir, tudo isso é função do Teatro, por isso, quanto mais espetáculos desnudando este quadro, forem montados, mais alto a voz dos excluídos será ouvida.

Já passou da hora de sacudir a cena do país, revirando as entranhas e jogando na cara destes que dizem não se importar com tal situação, que enquanto o abismo for imenso, jamais se viverá em paz. O Teatro é mais que diversão, o Teatro pode ser a verdadeira revolução.


O Teatro é pop, ou não é?

janeiro 21, 2010

Nos cadernos de cultura de todo jornal, nos noticiários da televisão, ou pelas ondas curtas do rádio, falar de teatro não deve dar IBOPE nenhum. Pelo menos é o que parece, pois sempre quando se fala de teatro a notícia é quase sempre dada assim: de “an passam”. Mas como explicar tamanho interesse pelo fazer teatral? E não venham me dizer que não!

Diariamente aqui em meu blog posso constatar as inúmeras buscas por textos teatrais, teatro adulto, comédias, monólogos, etc, etc e etc. Isso é um claro sinal que a arte do teatro é vivíssima na vida das pessoas, não é preciso estar da mídia para seduzir, o teatro por si só, já seduz. Então, não me venham dizer que o Teatro não é pop. É pop, sim senhor!

Cada vez fica mais claro que o teatro não precisa de exposição na mídia, de notícias de meia página, ou espaços em rádios. O caminho que o teatro optou, ou melhor, o caminho por onde ele foi levado, tem germinado bem mais frutos. Bendita seja a hora em que alguém resolveu levar o teatro aos bancos escolares, às periferias, ao povo.

Mesmo com a complexidade dos clássicos, com a invariável insanidade dramatúrgicas de algumas histórias absurdas, com as metáforas e as ironias, e até com espetáculos de difícil compreensão pelo grande o público, que por vezes, fazem às salas de teatro, ficarem vazias, o teatro vai entrelaçando as suas mãos sedutoras e conquistando mais e mais pessoas.

Hoje, o Teatro que sempre foi uma arte marginal e marginalizada, corre solto pelas cidades do interior, pelas periferias, pelas escolas e, cada vez mais popu-lar. Em qualquer cidade, por menor que ela seja, lá está o teatro, popularizando o seu “fazer”. Está certo, que por vezes, com risos fáceis, com histórias rasas e repertórios muito aquém dos adoráveis clássicos gregos. Mas, a arte de representar está ali, da forma mais pop.

Pouco importa as campanhas de popularização do teatro, com ou sem elas, o teatro vai se fazer presente sempre. A arte de representar está na alma deste povo, já vem de berço. Não interessa se a mídia vai dar espaço ou não, o teatro vai lá e conquista seu espaço na marra. Mesmo porque, qual novela não quer ter um bom ator representando um papel em sua tela? Isso é ou não é ser pop?


Marginal ou Popular?

setembro 20, 2009

O teatro sempre foi considerado uma arte marginal. Um ambiente freqüentado por desocupados, prostitutas, homossexuais e ébrios boêmios, onde, aos filhos de uma sociedade, não lhes era permitido freqüentar. E, por muito tempo, fazer parte de um grupo de teatro, dava este rótulo para quem o fazia.

Passava longe das cabeças de uma sociedade pequeno burguesa, que teatro fosse algo maior, algo que engrandecesse o ser humano como pessoa, e que a arte de interpretar podia ser algo desfrutada por todos. E na esteira deste rótulo de marginalidade, o teatro seguiu e, resistente como ele só, aos poucos, foi vencendo as barreiras do preconceito.

Hoje em dia, é certo que, muito por conta do sucesso das telenovelas, essa imagem do teatro deixou de ser assim, tão marginal, pois, interessados no sucesso como futuras celebridades de uma próxima novela, pais incentivam os seus filhos a freqüentarem o ambiente do teatro, dando-lhe então, um caráter cada vez mais popular.

Mas, a essência marginal permanece nos arredores de alguns poucos grupos, que ainda preferem que seu teatro seja reconhecido pela sociedade, como uma arte marginal, mesmo que entre os seus freqüentadores, não circulem mais, nenhum dos estereótipos de outrora, pois a idéia de fazer um teatro popular acaba indo de encontro a alguma de suas convicções.

Pontos de vista diferentes para uma mesma arte, marginal ou popular, o que  deve sim ser deixado de lado, é essa coisa preconceituosa de que teatro de verdade tem que ser marginal. A arte de interpretar tem que ser o “x” da questão, a forma pela qual cada um vai se dispor a passar sua mensagem, pouco importa.

Nos tempos de agora, burgueses e marginais, cada qual sabe muito bem, o quão o teatro é importante como instrumento enriquecedor da alma humana, e não cabe tratar com desdém, nem o lado “A”, nem o lado “B” de uma mesma arte, pois já bastou todo o preconceito enfrentado por aqueles que encararam os olhares tortos de uma sociedade, para fazerem do teatro, uma arte realmente popular, na verdadeira concepção da palavra.

O teatro é a arte do povo, seja ele marginal ou não, pois, em cima do palco, pouco importa a origem do ator.


O popular também pode ser arte

março 14, 2009

Não é de hoje que a discussão entre o erudito e o popular toma conta da cena cultural. Prega-se sempre que o sofisticado e o rebuscado, são atributos que representam genuinamente a arte, seja ela, literatura, pintura, música, teatro. Mas, como fica a arte feita para o povo?

Muitos podem atém dizer que não se faz arte verdadeira para o povo, coisa que até concordo. A arte que é entregue ao povo, não passa de arremedo, de engodo, puro entretenimento, e há de convir que a música, representa muito bem esse quadro de falta de qualidade artística, basta ouvir o que toca nas rádios.

Mas, partindo do princípio de que tudo que é fruto da criação é a manifestação pura da arte, o que deve ser discutido é se ela é de bom ou mau gosto. Acho que o resto faz parte de uma discussão infindável. A única coisa que não é e nem pode ser considerada arte, é foto de mulher pelada em revista masculina (mesmo que de vez em quando valha a pena dar uma espiadinha! Por pura curiosidade, não me levem a mal!) Mas, chamar a exposição da anatomia feminina revisada por photoshop de nu artístico, chega a ser um acinte à todos os pintores que nos presentearam com as imperfeições dos corpos femininos em óleo sobre tela. Bem, só que isso é assunto para outra hora. A questão é se a arte pode ou não ser popular.

Analisando bem o quadro, pode se notar que o popular pode ser arte, tanto quanto o erudito pode se tornar uma arte feita para o povo, mas é claro que tudo depende de interesses mercadológicos. Se for lucrativo levar a orquestra à favela ou levar o funk para as festas da alta roda (coisa que já acontece), tudo se acerta através do preço que se paga.

Falando em funk, está aí a demonstração de que o popular pode virar arte desde que interesses mercadológicos sejam satisfeitos. Tanto que até já se cogita transformar o funk em patrimônio cultural. Pode?

É isso aí, meus amigos, não vale a pena arrancar os cabelos em busca de fazer a verdadeira arte, aos olhos do povo e aos interesses da mídia, isso não tem lá muito importância. Se a mídia quiser fazer do ballet clássico, do teatro, algo realmente popular, isso acontecerá, enquanto isso, apure bem os seus sentidos e não se aborreça tanto, pois o popular também pode ser arte, mesmo que seja através de interesses mercadológicos e não agrade quem vê a arte de outra maneira.

Ah, e antes que me atirem pedras, quero deixar claro que esse popular não tem nada a ver com a cultura popular, que a manifestação artística de um povo, onde a arte encontra refúgio para se realizar plenamente e o artista se sente completo. Mas essa, coitada, não é assim tão popular, a não ser uma ou outra festa que atende os tais interesses mercadológicos.


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