O respeito pela interpretação

maio 27, 2016

Não há tempo, nas estradas dos palcos da vida, que assegure a qualquer ator, o direito de desdenhar de quaisquer personagens. Seja ele protagonista, ou um figurante com fala, o mínimo que a arte pede é uma interpretação honesta, ainda que lhe falte talento para isso. Entrar em cena, travestido de uma caricatura de interpretação, fazendo caras e bocas, e repetindo velhos trejeitos, chega a ser um afronte aos Deuses do Teatro.

Quando um ator recebe a missão de dar vida a uma personagem, cabe a ele transformar palavras escritas pelo dramaturgo, em ações que justifique a sua história e convença o público de seus conflitos. A arte do Teatro, é a da interpretação, não é a da caricatura, muito menos a da imitação; é tornar uma vida imaginária, em uma vida real, verossímil. Teatro não é, nunca foi e jamais será a arte do faz de conta.

O problema é que, o quê se vê, principalmente nas telenovelas, são alguns atores usando de caricaturas, imitações, do faz de conta, deixando a personagem inverossímil e sem conseguir conquistar empatia do público, pois não é possível se enxergar ali, uma interpretação que faça daquela personagem uma pessoa normal. Só técnica não sustenta uma interpretação, até porque, toda personagem tem uma alma a ser mostrada.

É certo que sempre vão dizer que em televisão é tudo muito rápido, principalmente em telenovelas, que não há espaço para criar, essas coisas todas que já estamos acostumados a ouvir. Mas, se há espaço para colocar em cena uma caricatura da personagem, porque não há espaço para interpretá-la? Entrar em cena no piloto automático e fazer o mais do menos, como se fosse um, cumprir tabela, acaba sendo um desrespeito a arte.

O bonito de se ver em cena, é a troca de grandes interpretações, quando os atores se dispõem a dar vida às suas personagens com as verdades que elas merecem. Quando o público não vê a dedicação do ator à sua personagem, é quase certo que aquele trabalho está fadado ao fracasso. Os atores que apoiam suas interpretações em caricaturas e ainda acham que fazem grande trabalho, de duas, uma: Ou se acham gênios, ou nunca souberam interpretar.

Ninguém precisa ser um grande ator, mesmo porque, isso é missão para poucos, mas, o mínimo que um ator deve fazer em cena, ainda que lhe falte talento para tanto, é ter respeito pela interpretação. O ator que se mostre em evolução, buscando elementos para uma boa interpretação, sempre será bem mais respeitado, do que aquele ator, que se acha um mestre na arte da interpretação, mas que só cria personagens caricatos.

Por isso, quem optar pelo Teatro, tem de ter em mente que viverá uma vida de estudos, principalmente da alma humana, pois, talvez, a sua próxima personagem possa exigir de você, um pedaço de cada pessoa que você cruzou pela sua vida e você terá que estar preparado para juntar tudo isso na sua interpretação, para fazer daquela personagem, alguém que valha conhecer e não, uma caricatura de gente.


No teatro não se fala só pela boca

julho 1, 2011

Muitos que chegam ao teatro, ávidos pela hora de subir ao palco, mal sabem de quão árdua será a tarefa até que se possa chegar ao tão sonhado ponto. Muitos e muitos exercícios são necessários, muitas e muitas leituras são necessárias e algo, que talvez nem lhes tenha passado pela cabeça, se mostrará quase que como fundamental: No teatro não se fala só pela boca.

O que ao primeiro momento pode causar espanto, ou até mesmo acreditar-se ser algo simples de entender, com o tempo vai se mostrar algo que pode por muito trabalho a perder. E eu lhes pergunto: O que fazer com as mãos quando se está em cena, hein? É um problema, não é mesmo? Este é o primeiro sinal que não se fala só com a boca.

O domínio do corpo em cena não é algo tão fácil de se alcançar e é resultado de muitos anos de estudo e dedicação do fazer teatral. Aprender que a voz nem sempre é importante em cena e que cada movimento representa algo, demanda muita prática. Quantas vezes um simples olhar nos faz entender toda a cena?

Não adianta decorar o texto, falar articulado, ter a voz impostada, e não saber como se movimentar em cena, ou não saber onde colocar as mãos. Estar em cena, embora pareça brincadeira de faz de conta, não tem nada de brincadeira, por isso, quanto maior for á preparação, maior domínio do corpo se terá em cena. A voz é apenas mais um elemento que vai compor a sua personagem.

Não tenha pressa em querer subir em um palco, pois, uma subida antes da hora, pode vir a ser algo muito desastroso e deixar grandes seqüelas em suas lembranças. O gostar ou não gostar é inerente a todo o Ser humano, não se pode agradar à todos, mas podemos estar bem preparados para enfrentar a negação daqueles que não gostarem do nosso trabalho.

Então, lembre-se que só a voz não sustenta a sua interpretação, é preciso muito mais. É preciso saber como é o olhar, como é o andar, o que fazer com as mãos, e até mesmo saber como impostar a voz corretamente. E como se faz para conseguir isso? Exercícios, exercícios e exercícios. Depois disso, talvez você esteja preparado para subir em um palco de verdade.

Eu sei como o teatro é encantador e nos apaixona ao ponto de não percebermos o quanto temos que melhorar, mas a busca pela perfeição tem de ser o objetivo. E, para matar a vontade de subir em um palco, sugiro que o faça primeiro durante os seus árduos exercícios ou em pequenas apresentações que sirvam como aprendizado do fazer teatral. A princípio, pode parecer pouco, mas tenha certeza que será de grande importância.

E para finalizar, vou deixar uma coisa pra se pensar: E se por um acaso, a sua personagem for muda, hein?


Em teatro não tem figuração

junho 17, 2011

Já vi e ouvi muita gente dizer que não faria uma peça porque o papel que lhe fora dado não tinha fala nenhuma. E daí que não tem? Já vi muitos textos onde a personagem sem fala é na verdade, a resolução do conflito. Quando se está em cena, tudo é importante, pois no teatro não há espaços para objetos, falas ou personagens soltos, tudo tem um ligação precisa. No teatro não tem figuração.

Engana-se aquele que acredita que, só se protagonizar um espetáculo é que terá o merecido reconhecimento. Este é um pensamento errado, pois, não é porque é o protagonista que tem uma importância maior. Pode ter maior evidência, isso sim, mas já vi grandes atores roubarem a cena do protagonista, fazendo papéis ditos sem importância.

Para um ator, a grandeza da personagem é o que interessa de fato e muitos até preferem personagens menores na importância, mas enormes na sua capacidade de permitir o exercício pleno da interpretação. No teatro, um olhar, um gesto, uma respiração, tem o mesmo peso do que um diálogo de uma lauda inteira.

Não se deve se sentir diminuído quando se é convidado para fazer algum papel que julgue pequeno, é preciso enxergar dentro da pequenez do papel, a magnitude das possibilidades interpretativas que aquela personagem irá lhe proporcionar. Invista, investigue, esmiúce a personagem e dê à ela a importância de um protagonista.

O teatro permite tantas possibilidades que é ingenuidade pensar que se faz em cena, uma simples figuração. Figuração é algo para o cinema, para a televisão, onde elementos estranhos à cena não fazem realmente importância. Tanto faz se é um homem ou uma mulher que atravessa a rua quando o carro do vilão atropela a mocinha na tela do cinema ou da televisão, mas no teatro isso pode resolver o conflito.

É assim, o ator é sempre protagonista quando pisa em cena, não importa se ele vai falar sem parar, ou se vai se plantar feito estátua em um canto da cena, pois em dramaturgia, tudo que está em cena tem uma relação e um motivo de ser, portanto, o estar calado, pode ser de fato o verdadeiro motivo daquela montagem.

Portanto, não se envergonhe e nem se aborreça por conta de papéis pequenos, pois no teatro eles não existem, recusá-los pode representar o desperdício de uma grande oportunidade de mostrar o quão grande é o seu talento.


A arte de se reinventar

outubro 8, 2010

Quantos e quantos de vocês já não se depararam com este dilema? Ainda com os olhos debruçados na primeira leitura do texto, entre as primeiras idéias sobre a nova montagem e até mesmo sem saber direito de que jeito colocar aquela história em cima de um palco, se você é ator de verdade, uma certeza se fez presente e você repetiu para sim mesmo: terei de me reinventar mais uma vez como ator.

É, meus amigos, para quem pensava que atuar era só está em cima do palco falando meia dúzia de palavras decoradas, eis mais um pequeno detalhe que faz uma tremenda diferença na vida de qualquer ator: a capacidade de se reinventar em cena. A reinvenção de uma interpretação é o diferencial que mostra a real capacidade que um ator tem para entregar sua vida a tantos e tantos papéis.

Pois está sobre um palco, dando vida a tantos personagens, é muito mais complexo do que se possa parecer. Vai muito além de ser alguém talentoso, ou de ser alguém deveras aplicado nas teorias e práticas da interpretação. Tudo isso junto e misturado com a criatividade é o que dá a capacidade para que um ator se reinvente sempre que decide dar vida a um personagem.

É assim, a vida do ator é uma eterna reinvenção e quanto maior a capacidade que o ator tem para se reinventar, mais admirado ele é. Pois não é fácil, principalmente para quem está há anos na profissão, dando vida a tantos personagens, interpretar um novo papel sem que este, de uma maneira ou de outra, lembre algo que o ator já fez em outro trabalho.

Só vale a pena levar adiante uma montagem, se o ator estiver disposto a se reinventar, tantas e tantas vezes forem necessárias. As mil facetas de um ator, seus infindáveis recursos de interpretação e sua enorme capacidade de se reinventar em cena, são como um verdadeiro colírio para o público sedento por um bom espetáculo.

Há tempos deixei para trás esta coisa de ser ator, pois além de não ter nenhum talento para o ofício, ter de me reinventar como ator a cada nova interpretação, me fez mudar de idéia e me ajudou a optar para apenas contar histórias e não mais interpretá-las. Ser ator é muito difícil, pois dar vida ao que o dramaturgo imaginou merece uma capacidade de se reinventar e isso, sempre julguei não ter.

Para mim, talvez por ser a minha real aptidão, bem mais simples do que me reinventar em cena, é me reinventar para contar sempre uma mesma história de uma forma diferente. Contribuir com um belo personagem para que o ator tenha a oportunidade de se reinventar, é o que me dá satisfação. Por isso, quando vejo a displicência de um ator diante de um papel, não entendo porque ele optou em fazer algo de tanta complexidade e que demanda tamanha dedicação.


A preparação do ator

setembro 2, 2010

Não existe nada mais desagradável, pelo menos para mim, do que assistir um espetáculo e perceber aquele ator bem canastrão em cena. Caras e bocas, trejeitos e sei lá o que, tudo para dar o tom certo ao personagem, mas nada adianta, nem mesmo o tal talento que o ator pretensiosamente acha ter, é capaz de nos convencer, pois fica nítido que faltou algo: A preparação do ator.

Não falo apenas dos ensaios necessários para a composição do personagem, da marcação de cena, da luz e da concepção geral do espetáculo. Falo da voz, da expressão facial e corporal, das emoções e de todas as técnicas de interpretação necessárias para o ofício de ator. Pois, é tudo isso que vai lapidar um precioso talento ainda em estado bruto.

Achar que decorar o texto, saber as marcações e fazer caretas em cena é o suficiente para estar sobre um palco, não leva ninguém a lugar nenhum, só o coloca na alça de mira. Teatro é a arte de iludir e não a de enganar. Aliás, engane-se aquele que pensa ser um ator agindo desta maneira. A preparação do ator é de fundamental importância para o sucesso do espetáculo. E esse tem de ser um compromisso que o ator deve ter com o público.

Não sei se é uma impressão minha, mas tenho sentido a falta de um cuidado maior na preparação do ator, parece que trabalhar o ator passou a ser algo “démodé”. Ensinam meia dúzia de teorias, obrigam a ler meia dúzia de textos e deixam para o ator que tiver talento e uma força de vontade a mais do que os outros, fazer a diferença. Só que não é todo ator que tem talento e força de vontade para tanto. E o resultado, ás vezes é desastroso.

A idéia do espetáculo como um todo tem prevalecido, pelo menos é o que percebo nas apresentações que tenho visto. Fica claro uma preocupação, ás vezes até exacerbada com o resultado do espetáculo, e até as questões de cenário e figurino ganham uma importância maior do que o trabalho de ator. Sempre o que vem em primeiro plano é o espetáculo em si. Difícil ter notícias de alguém dizer: – Estou me preparando para fazer tal papel. O usual é dizer que se está ensaiando uma peça.

É claro que não se pode generalizar, pois deve haver em algum canto, seja em um grupo amador, em escola de teatro, na obstinação de algum diretor, ou sei lá aonde, alguém mais preocupado com o ator do que com o espetáculo. Apenas acho uma pena que isso não seja o exemplo e sim a exceção. Pois de nada adianta ter um bom texto, um bom figurino, um bom cenário, uma boa concepção de espetáculo, se o ator em cena não passa de um canastrão.

Só a formação do ator com bases em exercícios e teorias não basta, para que uma interpretação seja realmente um sucesso, além de toda base necessária, há de se ter a preocupação de uma preparação específica para cada papel que se vai interpretar, pois, afinal de contas, um bom e velho diretor de ator não faz mal a ninguém.


O peso de uma interpretação

janeiro 27, 2010

Ao abrir as cortinas do palco, nem sempre a surpresa é agradável, pois não é sempre que temos a felicidade de nos deliciarmos com a magnitude de uma boa interpretação. Sendo o teatro a arte do ator, o peso de uma interpretação é tudo.

Pouco importa o excelente figurino, o cenário deslumbrante, um texto primoroso, o que interessa é ver a entrega do ator em cena. E também, pouco importa se o espetáculo é um drama, uma comédia, ou um espetáculo infantil. O ator tem de ser pleno e absoluto em cena.

O ator tem de se entregar de corpo e alma, ser visceral, buscar nas entranhas a melhor parte que a personagem solicitar. Não bastam caras e bocas, jeitos e gestos estereotípicos e micagem em cima do palco, nada disso convence e põe a perder qualquer excelente produção.

A interpretação é a parte mais importante dentro de um espetáculo, pois é ele que conta a história, que sente a história, que vive a história, por isso, precisa mergulhar até o fim do poço a fim de conhecer o seu personagem. O ator deve e tem de colocar o seu peso na interpretação, assim é que se conhece um bom ator.

Tudo tem de ser meticulosamente cuidado, a voz, o andar, o falar, o jeito de se vestir… tudo isso, junto e misturado, vai construir a personagem que sustentará qualquer história, mesmo aquelas rasas e sem pretensões. E isso vale para qualquer ator que esteja em cena.

Não cabe a justificativa pífia de que por ter apenas duas ou três falas em cena, não é preciso todo esse empenho, muito pelo contrário. Há situações que essas duas ou três falas fazem á diferença de uma história. E imagine você: A grande chance de mostrar o seu potencial está em duas ou três falas, e você, talvez por se achar mais do que seja, desperdiça?

O ator é uma profissão que precisa ser levada a sério, até mesmo nos ensaios, aliás, é nos ensaios que um ator precisa se dedicar e caminhar em busca da melhor interpretação, pois, é nos ensaios que ele vai conhecendo pouco a pouco, o quanto peso ele terá no espetáculo. Para aí sim, quando se der o abrir das cortinas, faça da sua interpretação um motivo de admiração.


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