A Dramaturgia e a Encenação

abril 15, 2016

O dramaturgo é um contador de histórias e, como qualquer escritor, materializa suas ideias numa folha de papel, mas, só que as faz, usando a carpintaria cênica. Sob seu ponto de vista, ele narra a sua história em busca da resolução dos conflitos em que vivem as suas personagens. A ideia, o desenvolvimento e o ponto final do texto, são seus, do começo ao fim do papel, ali sua história é soberana e é, justamente, o interesse de alguém em tirar essa sua história do papel e levá-la aos palcos, que dará vida à sua criação.

Aprendi com o meu Mestre, amigo e professor de Dramaturgia Nelson Albissú, que quando o autor dá o ponto final no seu texto, ele já não lhe pertence mais, pois quem o lê, já o enxergará sobre outros tantos pontos de vistas que o autor nem pensou enquanto contava a sua história. Sei que não é nada fácil se desapegar daquelas vidas que você criou, dos conflitos que você solucionou, confesso que já sofri muito com isso, mas é um sofrimento em vão, pois toda história toca alguém de um jeito e cada um terá um ponto de vista sobre ela.

O dramaturgo como o autor da história é dono daquele ponto de vista, daquela narrativa que está no papel, acontece que, quando a história sai do papel, não é sempre que a carpintaria que o dramaturgo usou para contar os conflitos de suas personagens se encaixa no ponto de vista de seu diretor encenador, não se trata de fragilidade da dramaturgia, nem da interferência do diretor encenador e sim, divergências naturais sobre o ponto de vista entre a narrativa no papel e a materialização da história.

Depois que superei essa questão do apego sobre o que escrevo, comecei a entender melhor as necessidades de interferências no texto quando da sua encenação. Às vezes, a dinâmica que está no papel não funciona cenicamente, pois, quando escrevo, o faço sobre um ponto de vista de montagem que orienta a narrativa da minha história, mas não posso exigir do diretor encenador que ele veja a minha história, do mesmo ponto de visto que vi quando eu a escrevi. É preciso estar aberto para um outro olhar sobre a nossa obra.

É claro que não posso concordar que uma encenação rasgue a minha narrativa de ponta a ponta, ao ponto de transformá-la em outra história, mas acredito que todo o texto pode ser melhorado a luz de uma encenação que venha se somar às questões da narrativa que, por ventura, ficaram obscuras ou situações de conflitos que não se tornaram viáveis quando da sua montagem. Quando se respeita a estrutura da narrativa e se preserva o arco dramático do meu texto, o diretor encenador tem a liberdade de sua criação, pois é através de seu ponto de vista que a minha história sairá do papel.

Sei que esse não é um assunto fácil e para mais de um artigo, mas, como toda dramaturgia só se torna teatro quando o texto sai do papel e ganha os palcos pelas mãos de um diretor encenador, aprendi que, para ter as minhas histórias materializadas, preciso contar com a sensibilidade do diretor encenador e manter um diálogo aberto para aproximar, ao máximo, os nossos pontos de vista e, assim, tornar possível a encenação mais fiel da história que escrevi.

Mas, uma coisa deve ficar bem clara, se não houver um consenso entre autor e diretor encenador, para que a história seja preservada ao máximo, o melhor é que o diretor encenador escreva a sua própria história.


A história ao alcance dos olhos

julho 24, 2015

Quando a história nos é ofertada apenas através das páginas de um livro, ou por um acervo de imagens, nem sempre ela é capaz de nos seduzir a ponto de despertar o nosso interesse, às vezes até nos causa desdém, mas quando ela está ali, ao alcance dos nossos olhos, o fascínio é imediato. Poder contemplar cada pedacinho de história, o quanto tudo aquilo contribuiu para a formação da identidade cultural do país, é impagável.

Pude ter o prazer de desfrutar desses momentos que ainda hoje estão em minhas retinas e perceber o quanto as pessoas do lugar estão envolvidas e comprometidas na divulgação das histórias de suas centenárias igrejas, de seus museus, de suas casas tombadas, suas ruas de pedras, suas ladeiras, suas festas carnavalescas, seus ritmos, suas tradições e de como toda aquela cultura ao céu aberto é importante para a sua cidade.

Há em cada segmento, desde o hoteleiro até o comércio de artesanatos, um comprometimento de fazer aquela roda não parar de alimentar riquezas para a cidade. É tudo voltado para fazer da história preservada do lugar, a mola propulsora para atrair cada vez mais turistas para lugar. Receptividade, disponibilidade, informações de cada pedaço da cidade na ponta da língua, tudo torna aquele banho de cultura, envolvente.

Eu, que já gosto muito de conhecer a cultura de cada lugar que visito, a cada rua, cada ladeira, cada igreja restaurada, aprendia mais e mais curiosidades e, as novas informações e explicações que recebia, deixavam-me ainda mais satisfeito por poder desfrutar daquela oportunidade de ver diante dos meus olhos, parte da história de nosso país. Poder estar onde a cultura e a história ainda são vivas e, reavivadas a cada dia, isso, realmente não tem preço.

É certo que muitos, talvez não deem a devida importância para isso tudo e jamais entenderão o que é poder ver a olhos nus, o que as páginas dos livros nem sempre retratam na sua fidelidade, ou ainda ver algumas daquelas imagens desbotadas em fotos, em seus formatos reais e palpáveis, ou ainda poder ouvir com riquezas de detalhes, cada fato histórico que contribuiu para a cultura daquela região, pois nem todos reconhecem o valor da cultura.

Olinda é assim, uma cidade que sabe da grandiosidade de sua história e de sua cultura, uma cidade que sabe da importância de receber bem o turista e lhe contar tudo sobre os segredos de suas igrejas restauradas, suas casas tombadas, suas ruas, suas ladeiras; uma cidade preocupada com seus jovens, a ponto de transformá-los em guias turísticos entusiasmados, que dão um banho de saber, fazendo de uma simples caminhada, uma grande aula.

Eu sei que tenho tudo isso bem ao alcance dos meus olhos, aqui mesmo no meu quintal; tenho tudo e muito mais e, minha curiosidade já me fez conhecer cada um dos detalhes das ruas, igrejas e ruínas que me cercam. O que lamento é que muito da história de nosso país está relegado ao interesse de poucos, sem que se dê o devido valor assim como faz Olinda. Quando uma cidade entende o quanto é importante valorizar a história que está ao alcance dos olhos de cada visitante, a viagem se tornar uma grande lição.


Quando a história não convence

dezembro 4, 2012

Como já foi dito por muitos, contar uma história não tem receita, não adianta conhecer os caminhos das pedras, já ter feito muitas histórias de sucesso, que não vai conseguir enganar ninguém com um arremedo de história. Não se pode querer contar uma história, apenas por contar, mesmo porque, a história quem conta é a própria personagem.

E personagem rasa, com história comum, não interessa a ninguém. Quem quer saber o dia-a-dia da vida do vizinho, se já sabemos que lá, tudo é sempre igual? É assim na dramaturgia. Sem um estado de transformação com necessidade de ser modificado, nenhuma história interessa. E não adianta o assunto abordado, por mais interessante que seja, se não tiver conflito e movimentação, não vai para frente.

Há novelistas que acham que, por fazerem parte de uma indústria, podem produzir em escalas, histórias de amor que vão encantar o telespectador. Ledo engano. O que aguça o Ser humano e o faz acompanhar uma novela, é uma história que o conquiste todos os dias e, que acima de tudo, tenha o básico de dramaturgia, um conflito a ser resolvido pela personagem em um estado necessitado de transformação.

Não se pode começar uma história pelo seu tema, por um assunto, ou por algo de grande relevância que se queira contar. Tudo isso é pano de fundo na vida da personagem que vive um dilema. Falar de violência, de tráfico, de doença, seja lá qual for o assunto, se não for através do drama de uma personagem, a história não convence. Ajudar a personagem a colocar sua vida no lugar, é o que impulsionada a vontade de acompanhar uma história.

É assim no livro, no teatro, no cinema e na televisão, dramaturgia não tem muito segredo, desde que você parta do drama de uma personagem para a história e não da história, para o drama de uma personagem. E outra coisa é muito importante em uma história, tudo que a movimente, tem que, necessariamente, desaguar na resolução do conflito da personagem.

A história tem de funcionar como um aro de bicicleta, onde esses aros, mesmo separados, convergem para um mesmo raio de uma mesma roda. Histórias, que não se movimentam tal qual uma roda de bicicleta acabam por derrubar a personagem, por serem tortas e disformes. Quando se quer contar uma história que convença, temos que expor o drama, o conflito e os caminhos que farão a personagem encontrar a sua redenção.

Portanto, ao começar escrever uma história, devemos pensar primeiro no conflito da personagem e não no assunto que queremos abordar, pois é através da busca da resolução do problema de nossa personagem, que contaremos a história, uma história que convença. Caso contrário, não haverá o que salva a sua história do fracasso.


O sangue, o suor e a lágrima da criação

julho 24, 2012

Diante de uma folha em branco e do desafio de criar mais uma história, o escritor, dramaturgo ou roteirista tem muitas vezes de chorar lágrimas de sangue para conseguir contar uma bela história. Por mais domínio que se tenha da arte de conduzir uma narrativa, nunca é fácil criar, ainda mais quando as histórias parecem ter sido todas contadas.

A impressão que dá é que não se vai conseguir escrever uma única linha sequer, pois, não é apenas escrever palavras, é preciso contar uma história e esta história tem que ter algo que seja interessante de ser contado, algo que alguém queira ler ou ver e é aí que se derrama sangue, suor e lágrima para se criar uma obra literária.

E essa dificuldade fica ainda maior quando nos lançam o desafio de desenvolver uma história em cima de um tema pré-determinado, aí parece que as idéias fogem, nada parece fazer sentido e não há uma única história que tenha um conflito razoável sobre o tema, uma única pontinha que desencadeie uma ação dramática que valha a pena ser contada. E então, o sangue escorre, o suor escorre, a lágrima escorre…

Engana-se quem pensa ser tarefa simples escrever uma história. Tirar a idéia da cabeça e colocá-la no papel, muitas vezes leva, dias e noites de, escreve e apaga na tela do computador. Ver a peça encenada, o filme em cartaz, ou ler o livro publicado, faz parecer fácil a arte de contar histórias, mas transpor emoções para o papel é trabalho duro.

Só que é esse trabalho duro que lapida a arte de um escritor, é ele que faz possível, criar ações dramáticas que se desencadeiam num elo de outras ações dramáticas, em busca das resoluções dos conflitos que justificam as histórias contadas. É esse trabalho duro que faz o escritor, dramaturgo ou roteirista fugir dos clichês e trabalhar sua criatividade para sempre surpreender.

É claro que nem sempre se consegue escrever uma obra literária de grande qualidade, pois, por mais que se tenha derramado sangue, suor e lágrima, para criar uma história, não se foi suficientemente capaz de desenvolver ações dramáticas que fugissem do convencional para que fizesse dela mais que uma história comum com conflitos comuns.

Mas, é assim: trabalhando duro, misturando inspiração, com sangue, suor e lágrima, que se vai ao encontro da criatividade, para aí sim, ir em busca de escrever uma grande história. Se ela vai surpreender? Sempre se espera que sim. Mas, como vai se saber? O importante de tudo é desenvolver sua arte com verdade, independente de sua história vir a ser um sucesso ou não.


UMA VIAGEM SEM SAIR DO LUGAR

fevereiro 6, 2009

Oi gente, quanto tempo, né?  Mas, não tinha jeito, o tio Paulo não deixava eu mexer na internet dele, muito menos entrar no blog. Tio Paulo anda cheio de trabalho, graças à Deus, né? Eu bem que tentei outras vezes, mas não tinha jeito, Tio Paulo tava usando o computador dia e noite, noite e dia. Eu até perguntava pra ele:

 

“Tio, você não fica cansado de tanto escrever?”

 

 

Ele só deu uma risada e disse que estava fazendo o que gostava.

 

Hoje, eu aproveitei que ele disse que ia tomar banho e jantar, e vim rapidinho aqui no blog dele. Vou ter que ser rápida,  senão, ele vai me dar a maior bronca!

 

Quero contar uma história pra vocês. Vocês não vão acreditar! Sabe, não sei se falei pra vocês, eu moro na cidade de Santos, aqui tem uma praia enorme. Mas, o que eu não sabia, era que a minha cidade tinha tanta coisa legal.

 

Nessas férias, fiz uma viagem sem sair do lugar. Foi uma aventura inesquecível. Mas, antes, fiz birra, disse que não ia.

 

“Quero fazer uma viagem de verdade!”

 

“Você vai gostar do passeio!” disse a minha mãe.

 

Pra começar, eu, o meu pai e a minha mãe, andamos de Bonde. Eu nunca tinha andado de bonde. Não sei muito bem explicar o que é um bonde, pois ele não é trem, mas anda em trilhos, não é ônibus, mas o moço explicou que todo mundo andava nele pra trabalhar. O que o posso dizer é que ele é muito legal. Ele anda bem devagarzinho, é todo aberto, a gente vai vendo a rua, as pessoas. Devia ser bom quando tinha bonde.

 

“Eu ainda cheguei a ver o bonde.” Disse meu pai.

 

Foi nesse passei de bonde que aprendi um monte de coisa. Tanta coisa que acho que nem vai dar pra contar tudo porque o tio Paulo já saiu do banho e já começou jantar.

 

Bem, mas foi tentar contar as coisas que eu conseguir lembrar. No bonde, tinha um moço, como é mesmo o nome? Guia… guia… Ah, não sei! O guia lá. Sempre que o bonde parava, ele falava alguma coisa.

 

“Estamos agora em frente a Casa da Frontaria Azulejada”

 

Eu olhava, olhava, mas não entendia por que uma casa sem telhado e sem portas, toda cheia de azulejo velho, era tão importante!

 

“Essa Casa data do século XIX e é toda revestida de azulejos portugeses, azuis e amarelos, todos feitos a mão.”

 

Depois ele parou numa igreja. Na verdade, achei ela um pouco velha.

 

“Agora estamos em frente a Igreja de Santo Antônio do Valongo. Ela foi construída em 1640”…

 

Puxa vida! Viu isso, pai?

 

É, filha! Vai prestando atenção que você vai aprender mais aqui do que no colégio”

 

O bonde continuou a sua viagem, bem devagarzinho, foi passando pelos velhos armazéns do porto, as casas antigas. Naquela altura, eu já estava achando tudo uma grande aventura.

 

De repente, a gente parou num lugar que parecia uma igreja, mas não era. Era a bolsa do café.

 

“Bolsa do café?” Não entendí

 

“Aqui, nesse prédio, funcionou a famosa Bolsa de Café de Santos, onde eram comercializadas a sacas de café no início do século XX. Todo café passava por aqui. Hoje isso ainda acontece, mas a forma de comercialização é outra.”

 

Enquanto o moço ia explicando, eu ficava olhando tudo. Não achava que tinha tanta coisa interessante pra se fazer sem sair da minha cidade.

 

O bonde seguiu lentamente e sem que eu percebesse ele parou de vez.

 

“Já acabou, pai? Que pena!”

 

“Viu só quanta coisa legal?” Disse minha mãe.

 

“Eu quero mais! Eu quero mais”

 

“Agora vamos andar pelas ruas. Você vai ver quanta coisa legal ainda tem por aqui” Disse meu pai.

 

E meu pai foi me mostrando tudo. O prédio da Prefeitura também é muito bonito. Parece um palácio!

 

Passei pelo um Teatro enorme, O Teatro Coliseu. Meu pai falou  que tudo que era artista importante, já passou por lá. Que agora ele está novinho, porque foi reformado. E ficou bem bonito.

Mas, o que eu achei mais legal, foi saber que fica aqui na minha cidade, a Fonte do Itororó! Não conhece? Daquela música…

 

“Eu fui no Itororó

Beber água e não achei,

Achei a bela Helena

Que no Itororó deixei” Cantou pra mim, a minha mãe.

 

E pra finalizar a nossa viagem, subimos de bondinho, o Monte Serrat. Lá fica a igreja da padroeira da cidade. E tem uma coisa que eu adorei. Lá, a gente pode ver a cidade toda. É tão bonito!

 

Bem, agora preciso ir, tio Paulo já passou por aqui e já ordenou que eu saia. E não quero que o tio Paulo brigue comigo.

 

Ah, espero que na cidade de vocês, tenha tanta coisa legal pra fazer que nem na minha.

 

To indo. Um beijão pra todo mundo! Espero que o tio Paulo não demore muito pra me deixe voltar por aqui.


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