A paz que não temos


Lá se vai ao longe, o tempo em que a paz se fazia presente entre nós, já não se pode mais ter a calmaria de uma rede a balançar no final de uma tarde preguiçosa, sem nem se preocupar com o amanhã, pois, a violência que ainda ontem apenas nos espreitava em esquinas mal iluminadas de noites escuras, hoje já nos ataca em plena luz do dia, sem medo das conseqüências, sem piedade da nossa alma, sem se importar se destroçará uma família, sem dó!

Lá se vai ao longe, o tempo das cadeiras nas calçadas em noites abafadas de tantos verões, ninguém tem mais coragem de se debruçar sobre o muro, apenas para ver o movimento do vai e vem das pessoas, pois todos passam apressados a passos largos em direção às suas casas, com o medo estampado no rosto e o coração palpitando dentro do peito, pedindo proteção a todos os santos para que nenhuma bala perdida lhe cruze o caminho.

Lá se vai ao longe, o tempo de crianças brincando inocente pelas ruas até a chegada da noite, já não há mais vidraças quebradas por bolas chutadas em peladas de pernas de pau, não há mais pega-pega, não há mais esconde-esconde, o que há ainda, é polícia e ladrão, só que não mais a brincadeira inocente de outra, agora a caçada real e violenta, uma guerra urbana que aumenta a cada dia e que parece não ter fim.

Lá se vai ao longe, já quase não se vê a paz, hoje a intolerância travestiu o ser humano e passou a dar as cartas pelos quatro cantos do mundo, não há um único lugar seguro, não há espaço nem mesmo para esperança, pois o ódio invadiu os corações de pessoas que não se importam com a vida, nem mesmo as próprias, pois são capazes de explodirem pelos ares com artefatos bélicos enrolados no próprio corpo, arrastando quem tiver no caminho.

Lá se vai ao longe, o tempo em que se podia viver sem que o medo levanta-se conosco todas as manhãs e nos acompanhasse por todo dia, até nos trazer de voltar para o nosso lar, para que assistamos em nossas TVs, a violência encurralando a paz em plena luz do dia, tingindo as ruas de sangue, matando pouco a pouco a esperança, nos fazendo querer desligar do mundo real para encontrar em um canto qualquer, nem que seja um pouquinho da paz.

Lá se vai ao longe a paz, e parece ir cada vez mais longe, tão longe que cada vez fica mais difícil correr para alcançá-la, pois quanto mais nos trancamos atrás das grades das nossas prisões, mais a violência aumenta o seu tamanho, se agiganta, de tal forma, que nos falta coragem de arriscarmos as nossas vidas com medo da morte por um assalto a mão armada, por um seqüestro relâmpago, por um estupro, por uma bala perdida e cada dia ficamos mais sem saída, mais sem vida, mais longe da paz.

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2 Responses to A paz que não temos

  1. mariel disse:

    Longe, longe, longe. É assim que caminha a humanidade

  2. Paradoxalmente, esse “longe” foi vivido durante a restrição a nossa liberdade!

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