A primeira namorada


Naquele dia resolvi não ir almoçar em casa, pois tinha um trabalho urgente para terminar no escritório. Combinei comigo mesmo que assim que terminasse, descia para comer alguma coisa. Concentrado, tinha uma história para contar e um prazo para entregá-la e coloquei minhas mãos à obra.

De repente uma gritaria invadiu a sala pela janela do oitavo andar vinda da rua, não dei importância, pois era costumeiro ouvir gritos dos viciados em crack que perambulavam pelos arredores do prédio em que trabalho. De manhã, de tarde e até a hora de deixar o trabalho, homens e mulheres ficam embaixo das marquises das lojas, fumando seus cachimbos.

A gritaria continuava e eu ali, tentando me concentrar para terminar aquele texto, uma tarefa árdua naquela altura, e que o estômago também já se manifestava.

– Mas, vamos lá! Concentração. Concentração.

Levantei, dei aquela espreguiçada, virei o pescoço para um lado, virei o pescoço para outro, na tentativa de relaxar, fui até a janela verificar a gritaria e vi uma multidão que circulava dois homens e uma mulher que discutiam no meio da rua. Um dos homens ameaçava matar o casal com uma faca e a multidão gritava urros de incentivos.

– Que absurdo!

Tomei um copo d’água e voltei a me concentrar no que eu tinha que fazer e, enfim, consegui dar um ponto final no texto. Foi no exato momento que um grito de dor vindo da rua, entrou pela minha janela. Corri até a janela e ainda vi um dos homens virando a esquina, enquanto o outro segurava a mulher que havia sido esfaqueada.

Quando cheguei embaixo, algumas pessoas ainda lamentavam o ocorrido, me aproximei tão curioso quanto os demais que circulavam aquele casal e que assistiam ao homem pedir por socorro.

Olhei no rosto daquela mulher que sangrava, os olhos me fitaram me pedindo perdão. Mas, porque uma mulher viciada em crack, à beira da morte, precisava que a perdoasse? Encarei-a, olho no olho, e realmente ela me parecia ser familiar.

– Não pode ser!

Eu ali, inerte diante daqueles olhos que me fitavam, com o pensamento perdido em algum lugar, buscando na memória, até que me vieram às primeiras imagens. Lembrei! Não, não podia acreditar que ela tivesse um destino tão cruel.

Aqueles olhos que me pediam perdão eram daquela criatura doce que sentava ao meu lado na sala de aula, que me ensinava matemática, física e química, aquela que um dia tive coragem de lhe roubar um beijo, mal sabia eu, que era isso que ela esperava tanto de mim. A minha primeira namorada!

A cada imagem que vinha na minha cabeça, uma lágrima escorria pelo meu rosto, um aperto no peito exprimia o coração, dos olhos dela, escorriam lágrimas que desaguavam no sangue que ensopava seu peito. Eu ali, incrédulo, vendo a minha primeira namorada virar atração do meio dia.

Abri caminho, me ajoelhe diante dela, segurei sua mão, ela me olhou, nunca, ninguém apertou tão forte a minha mão.

– Fica calma! Vou te ajudar!

Não deu tempo nem de pegar o telefone, sua mão desgrudou da minha, seus olhos me fitaram pela última vez e ela se foi.

A multidão se dissipou assim que o resgate encostou. Eu ainda fiquei ali por mais alguns minutos, até o resgate constatar a sua morte. Fiz uma oração silenciosa e pedi que sua alma descansasse em paz.

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