O jovem revolucionário


Pedrinho era o típico jovem de classe média que nunca teve do que reclamar da vida, um adolescente despreocupado que passava os dias na casa da avó jogando vídeo game on-line com seus amigos virtuais, pois, seus pais trabalhavam demais para sustentar as benesses que ele desfrutava e nem dava à mínima. A alienação era o seu sobrenome e a preguiça a sua companheira.

Certo dia, Pedrinho conheceu uma galerinha nas redes sociais que lhe convidou para um evento, resolveu acompanhá-los na sua primeira manifestação política. Aquilo para ele pareceu ser uma grande festa. Muitas meninas bonitas, uma enxurrada de curtidas nas fotos de seu perfil, Pedrinho gostou muito de toda aquela popularidade. Virou um manifestante oficial.

Aos poucos, aquilo que parecia ser uma brincadeira de jovens de classe média querendo se rebelar contra o capitalismo de quem pagava as suas contas, foi ganhando outros contornos na cabeça de Pedrinho. Aquilo era mais sério do que ele imaginou na primeira vez que saiu para curtir uma manifestação como quem sai para curtir uma balada.

Pedrinho era um jovem que, apesar de desdenhar do conforto que desfrutava, foi capaz de absorver o que o dinheiro dos seus pais pode lhe comprar. Estudante de escola particular, Pedrinho já falava inglês e espanhol fluentemente e não demorou muito para chamar a atenção com suas ideias. Os amigos da primeira vez deixaram as passeatas assim que começaram a tomar as primeiras borrachadas da polícia. As coisas na rua não são brincadeira de criança.

Pedrinho tinha virado um revolucionário, discutia com seus pais conceitos de políticas e de regimes de governo, economia e desigualdade social, mas não criticava os pais, que, para ele, haviam se tornado escravos do capitalismo, o mesmo capitalismo que ainda sustentava os seus quereres de pequeno burguês. Mas como viver sem o Capital? Pedrinho começou a viver um conflito de identidade muito grande. Queria a mudança, mas como fazê-la?

Pedrinho, que a essa altura já era conhecido como Pedrinho Caviar pelos seus amigos, tinha certeza que uma mudança de verdade, que refletisse em justiça social, passava por uma transformação que ia muito mais além dos protestos com quebra-quebra de bens públicos, ou com a truculência e violência de uma desobediência civil. Aliás, para ele, alguns revolucionários que se enfileiravam ao seu lado nas manifestações, não passavam de jovens mimados, querendo que as coisas mudassem simplesmente porque que eles queriam que elas mudassem.

Aos poucos, Pedrinho foi se afastando das ruas, não havia nascido para tomar borrachadas e nem receber borrifadas de spray de pimenta. Manifestações chamam a atenção, mais de fato, mudam muito pouco na vida das pessoas. Percebeu que muitas pessoas de baixo poder aquisitivo, são avessas a essas badernas. Percebeu também que o trabalhador não respeita o manifestante que fecha o caminho do seu trabalho. A revolução teria de vir de outro lugar.

Protestar não pode ser apenas um ato de sair às ruas pedindo por mudanças, precisa ser algo mais profundo, tem que revolucionar a pessoa, tem que vir de dentro para fora e não ao contrário. Ninguém muda só porque o outro quer que ele mude, é preciso convencer de como mudar pode ser bom. Palavras de ordem causam mais desordem que conversas ao pé do ouvido, que são capazes de abalar estruturas internas de qualquer pessoa.

Pedrinho então decidiu pegar firme nos livros, deixou o engajamento partidário com que namorava desde os tempos das ruas, doou o seu vídeo game para a comunidade que se avizinha ao prédio de sua avó, e agora se prepara diariamente para entrar na faculdade. Ainda está em dúvida que carreira seguir, relações internacionais, sociologia ou jornalismo, mas a única certeza que Pedrinho tem, é que é um revolucionário e vai buscar a justiça social e igualdade com as melhores armas que ele puder arrumar.

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