A Dramaturgia e a Encenação


O dramaturgo é um contador de histórias e, como qualquer escritor, materializa suas ideias numa folha de papel, mas, só que as faz, usando a carpintaria cênica. Sob seu ponto de vista, ele narra a sua história em busca da resolução dos conflitos em que vivem as suas personagens. A ideia, o desenvolvimento e o ponto final do texto, são seus, do começo ao fim do papel, ali sua história é soberana e é, justamente, o interesse de alguém em tirar essa sua história do papel e levá-la aos palcos, que dará vida à sua criação.

Aprendi com o meu Mestre, amigo e professor de Dramaturgia Nelson Albissú, que quando o autor dá o ponto final no seu texto, ele já não lhe pertence mais, pois quem o lê, já o enxergará sobre outros tantos pontos de vistas que o autor nem pensou enquanto contava a sua história. Sei que não é nada fácil se desapegar daquelas vidas que você criou, dos conflitos que você solucionou, confesso que já sofri muito com isso, mas é um sofrimento em vão, pois toda história toca alguém de um jeito e cada um terá um ponto de vista sobre ela.

O dramaturgo como o autor da história é dono daquele ponto de vista, daquela narrativa que está no papel, acontece que, quando a história sai do papel, não é sempre que a carpintaria que o dramaturgo usou para contar os conflitos de suas personagens se encaixa no ponto de vista de seu diretor encenador, não se trata de fragilidade da dramaturgia, nem da interferência do diretor encenador e sim, divergências naturais sobre o ponto de vista entre a narrativa no papel e a materialização da história.

Depois que superei essa questão do apego sobre o que escrevo, comecei a entender melhor as necessidades de interferências no texto quando da sua encenação. Às vezes, a dinâmica que está no papel não funciona cenicamente, pois, quando escrevo, o faço sobre um ponto de vista de montagem que orienta a narrativa da minha história, mas não posso exigir do diretor encenador que ele veja a minha história, do mesmo ponto de visto que vi quando eu a escrevi. É preciso estar aberto para um outro olhar sobre a nossa obra.

É claro que não posso concordar que uma encenação rasgue a minha narrativa de ponta a ponta, ao ponto de transformá-la em outra história, mas acredito que todo o texto pode ser melhorado a luz de uma encenação que venha se somar às questões da narrativa que, por ventura, ficaram obscuras ou situações de conflitos que não se tornaram viáveis quando da sua montagem. Quando se respeita a estrutura da narrativa e se preserva o arco dramático do meu texto, o diretor encenador tem a liberdade de sua criação, pois é através de seu ponto de vista que a minha história sairá do papel.

Sei que esse não é um assunto fácil e para mais de um artigo, mas, como toda dramaturgia só se torna teatro quando o texto sai do papel e ganha os palcos pelas mãos de um diretor encenador, aprendi que, para ter as minhas histórias materializadas, preciso contar com a sensibilidade do diretor encenador e manter um diálogo aberto para aproximar, ao máximo, os nossos pontos de vista e, assim, tornar possível a encenação mais fiel da história que escrevi.

Mas, uma coisa deve ficar bem clara, se não houver um consenso entre autor e diretor encenador, para que a história seja preservada ao máximo, o melhor é que o diretor encenador escreva a sua própria história.

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