Deu Zebra!


O jogo é uma coisa fascinante, ainda mais quando se ganha. É, mas nem sempre se ganha no jogo, aliás, mais se perde do que se ganha. Só que não é todo mundo que consegue separar onde começa o jogo pela diversão, do jogo pela compulsão. E assim, sem conseguir separar diversão de compulsão, que Arthur viu sua vida ruir. Deu Zebra!

Arthur nunca teve dificuldades para se colocar no mercado de trabalho, ainda adolescente entrou como estagiário em um banco e chegou até o posto de gerente geral. A estabilidade o levou a um casamento com Clara, que conheceu nos tempos da universidade e com teve dois filhos, Arthur Júnior e Maria Clara.

A maior diversão de Arthur era fazer apostas em jogos. Do jogo do bicho às loterias oficiais do governo, ele apostava em tudo, umas vezes, ganhava, outras, não. Mas nunca ganhou nenhuma bolada em suas apostas. Aos poucos, sem nem perceber, Arthur foi desenvolvendo uma forte compulsão por jogos, que só as apostas diárias, não o satisfazia.

Tudo para Arthur já havia virado aposta, apostava em tudo, desde rifas até as rinhas de galos, até descobrir um cassino clandestino. Toda noite saia do banco e partia direto para jogatina. Ganhava, perdia, perdia, perdia, ganhava, perdia e perdia de novo, a mulher e os filhos já na tinham espaço em sua vida, até mesmo o seu rendimento no trabalho deixou de ser o mesmo.

Arthur entrou em uma roda viva em não e deu conto e não demorou muito para que os seus rendimentos já não fossem suficientes para bancar sua família e a sua diversão. Arthur não admitia que lhe chamassem de viciado. A compulsão virou vício e Arthur na percebeu, nem se incomodou quando a mulher e os filhos deixaram a casa. Ele já mal parava lá mesmo.

Arthur começou a faltar no trabalho, já não ligava para aparência e a posição conquistada pelos anos de trabalho, ele fez ruir. Atolado em dívidas e sofrendo ameaças de mortes, Arthur deu um grande desfalque no banco. Uma ação tão amadora, que no dia seguinte ele já estava na rua. Sem emprego e sem família e agora fugindo da polícia, Arthur sumiu no mundo.

Outro dia parei o carro em uma ruazinha tranquila para ir à praia e vi, no meio de um grupo de moradores de rua, que compartilhavam uma cachaça e um cigarro, um rosto familiar. Aparentava bem mais idade, talvez pelos longos cabelos brancos e pela espessa barba branca, mas tinha certeza, era Arthur, o conheci pela tatuagem no braço.

No primeiro minuto, receie me aproximar, mas precisava ajudar aquele que um dia foi o meu herói, o meu melhor amigo, o meu pai, que sumiu no mundo de vergonha pelo que fez com a nossa vida e com a vida dele. Cheguei cumprimentando a todos, só o meu pai, de cabeça baixa, não me respondeu. Dirigi-me a ele, que se levantou e ainda tentou se esquivar do meu olhar. Estendi-lhe os braços. Ele levantou os olhos, me olhou, me reconheceu, aceitou o meu abraço e chorou.

Logo em seguida, minha irmã e minha mãe, desceram do carro e estranharam me ver ali, abraçado a um morador de rua. Chamei-as, mostrei a tatuagem no braço do meu pai, incrédulas, vieram se juntar a nós. Meu pai tentou fugir, mas, minha mãe lhe estendeu os braços, ele a abraçou e chorou.

Muito ainda há para se fazer daqui para frente, pois, desde que a nossa vida deu zebra, tudo ficou de ponta cabeça, muita dor, muito sofrimento, muito ressentimento, muita decepção, mas sempre se pode mudar o jogo da vida. E se a vida, com seus mistérios e surpresas, nos colocou, outra vez, juntos, então, temos que arriscar virar de novo esse jogo.

Uma resposta para Deu Zebra!

  1. mariel disse:

    Se de fato quiser, consegue. Os jogos e a vida são feitos de viradas espetaculares

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