A morte do Rei Momo


Quem vê João agora, não diz que um dia a alegria foi sua grande companheira e com ela, ele desfilava simpatia e felicidade de viver. Hoje, sentando em sua cadeira de rodas, após sofrer um acidente vascular cerebral que lhe deixou algumas sequelas, como a perda dos movimentos das pernas e a dificuldade da fala. João, solitário, passa os dias olhando o infinito pela janela. Há tempos ninguém vem lhe fazer uma visita, logo ele que era tão popular, principalmente no carnaval, sim, por anos, João foi Rei Momo da folia.

Como saber o quê seus os olhos buscam no infinito? Quantas recordações ainda hão de povoar sua mente desde o tempo em que era o dono da folia? Por certo, muitas, pois as lágrimas que, volta e meia, escorrem desobedientes pelo seu rosto, entregam que a tristeza tomou o seu olhar que, todos os dias, procura encontrar algo no infinito, quem sabe a sua antiga alegria. João vive esquecido, só deve ter mesmo as suas lembranças de um tempo, em que o tempo, fez questão de enterrar.

João era auxiliar de enfermagem, cuidar das pessoas também era sua grande alegria, só não era maior que sua paixão pelo carnaval, tanto que, em todos os hospitais em que trabalhava, as suas férias, eram tiradas, sempre, de acordo com o calendário do carnaval, e isso já era acertado no dia de sua contratação. Na época da folia, nada de doentes e nem de hospitais, o que ele queria era desfilar pelas ruas e passarelas, a sua alegria e seu samba no pé desengonçado, que lhe dava ainda mais simpatia.

E como João era admirado! Batizado no mundo do samba com o nome de “Lord Doutor”, por andar sempre de branco, não apenas pela sua profissão de auxiliar de enfermagem, mas também por conta de sua crença nos orixás, o Rei Momo João tinha amigos em todas as escolas de samba e na época do carnaval era matéria de capa em todos os jornais e revistas da cidade. Quantas e quantas reportagens; quantas e quantas fotos; quantos e quantos abraços e sorrisos; tantos carnavais. Talvez, seja um pouco disso tudo, que os olhos de João buscam no infinito.

No fundo, João buscava aceitar tudo que lhe tinha acontecido, logo ele que era cercado pela alegria, que era querido, que cuidava das pessoas, que não podia ver ninguém triste, se ver ali, inválido, solitário, adoecido, esquecido, tendo que viver buscando na memória sua boas recordações para vencer cada novo dia, não era nada fácil, nem mesmo quando as batidas dos surdos e tamborins passavam embaixo de sua janela, João desviava o seu olhar do infinito. Nada restou de tantos carnavais.

O fato é que o Rei Momo morreu, e com sua morte, os seus amigos sumiram, a sua fama acabou, nem mesmo nos carnavais, João recebe qualquer visita, às vezes, ouve falar de seu nome em alguma reportagem da televisão, volta e meia alguém se lembra de seu nome, uns até perguntam notícias sobre ele, outros ainda afirmam com a certeza absoluta que ele já morreu. Descartado como retalhos de cetim esquecido no fundo do barracão, João sofre a dor do abandono e do esquecimento. João está morto.

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