A ACAREAÇÃO


CENÁRIO: SALA DE AUDIÊNCIA.

NA CABECEIRA DA MESA, O JUIZ; DE UM LADO, APENAS UMA MULHER DO OUTRO, UM HOMEM E UMA MULHER.

Juiz    – Estamos aqui para darmos andamento ao processo de acareação entre os réus e esclarecer às divergências apuradas durante todo o processo de investigação sobre o desvio de verbas em operações com o governo federal, bem como o envio de remessa de dinheiro irregularmente para o exterior. Dona Maria das Dores, no seu depoimento, a senhora afirmou não saber de nada. O que mais a senhora tem a dizer?

Maria  – Olha, senhor juiz, eu não sei nem porque eu to aqui, visse? Eu moro na Favela da Formiga da Bunda Grande, tenho seis filhos e trabalhava de empregada doméstica na casa do Seu Pedro e da Dona Helena há cinco anos até que…

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Protesto, Meritíssimo!!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher  – Não conhecemos essa mulher!

Maria  – Vixe! Como não? Ô, seu Pedro! Ô, dona Helena!… Sou eu, a Maria!

Juiz    – Os dois se manifestem apenas quando forem perguntados.

Homem – Perdão, Meritíssimo!

OS DOIS SENTAM.

Maria  – Mas, seu juiz, eu trabalhava pra eles!

Juiz    – Prossiga.

Maria  – Cês não lembra, não? Trabalhei até a polícia chegar e levar nós tudo! Foi assim, seu juiz: De repente a polícia baixou na casa deles, levo tudo, computador e até eu. Seu Pedro e dona Helena, se trancaram no quartinho dos fundos da casa e pediram pr’eu dizer que eles num tavam. Mas a polícia arrevirou tudo e acabou achando os dois escondidos. Aí, nós tudo fomos parar na delegacia. Cês alembram agora?

O HOMEM SE LEVANTA DE NOVO.

Juiz    – Queira se sentar?

O HOMEM SENTA.

Juiz    – Isso eu já sabemos, dona Maria. Precisamos de outros detalhes. E a empresa? A empresa que está em seu nome é de quem? A senhora assinou esses documentos? Ou falsificaram sua assinatura?

Maria  – Olha só, seu juiz: O negócio da firma foi o seguinte: Um dia, seu Pedro chegou em casa mais cedo… Dona Helena tinha ido pra casa de praia com as crianças. Seu Pedro chegou, começou a me acariciar… Eu até tentei escapar, mas vou dizê um negócio pro senhor, seu juiz. Sempre achei seu Pedro um tesão!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – Pedro Henrique!

Homem – Tudo mentira, Helena!

Juiz – A senhora queira se sentar, por favor?

Homem – Senta, Helena.

A MULHER SENTA.

Juiz – Prossiga, Dona Maria.

Maria – Eu não resiste, doutô! Ele me deu champanha, me beijou todinha me levou pra cama e creu! Aì que delícia!

Juiz – Sem muitos detalhes, dona Maria.

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Isso é mentira, Meritíssimo!

Juiz    – Sente!

Maria  – É verdade, doutô! Seu Pedro me deu um suador de louco! Aí, seu juiz, depois daquilo, se ele me pedisse para morrê, eu me matava. Foi assim que assinei toda aquela papelada que ele jogou na cama.

Homem – É mentira! É mentira!

A MULHER SE LEVANTA E DÁ UM TAPA NO ROSTO DO HOMEM.

Mulher – Seu safado! Eu mato você!

Homem – Olha aí, Meritíssimo, ela está me ameaçando.

Juiz – Os dois, sentados. Agora!

OS DOIS SENTAM.

Juiz – Então a senhora sabia da empresa?

Maria – Não, seu juiz. Eu só assinei aqueles papéis. Nem sabia pra quê que era! Nem o que era.

Mulher – (PARA O MARIDO) Você me paga, Pedro Henrique!

Homem – (PARA A MULHER) Essa mulher ta maluca, Helena!

Juiz – Sem conversas paralelas. Pois, bem Dona Maria. A senhora nunca movimentou a empresa, certo? E as contas nos bancos?

Maria – Ih, seu juiz, não tenho conta no banco, não. Seu Pedro e Dona Helena sempre me pagaram em dinheiro vivo.

Juiz – E os dólares?

Maria – Dona Helena escondia no cofre.

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – Mentira, Meritíssimo!

Juiz – Sente!

A MULHER SENTA.

Maria – De vez em quando ela pegava um pouquinho no cofre pra pagar os meninos que iam deitar com ela. Eu sempre achei uma injustiça com o seu Pedro. Tão bonito! Por que dona Helena passava as tardes com uns meninos no quarto? Eram uns três por tarde.

O HOMEM SE LEVANTA E ARRANCA A MULHER DA CADEIRA.

Homem – Sua vagabunda!!

O HOMEM LHE DÁ UM TAPA E A EMPURRA NO CHÃO.

Mulher – Seu corno!

Homem – Sua vaca!

A MARIA SE LEVANTA.

Maria – Eita! Como eles se amam!

Juiz – Parem com isso. Os dois se comportem!

Maria  – Se amavam tanto!!

OS DOIS SE XINGAM. O JUIZ SE LEVANTA, PEGA OS DOIS PELOS BRAÇOS E OS LEVA PARA FORA.

Juiz    – Guarda! Pode recolher esses dois!   

O JUIZ VOLTA E SE SENTA EM SEU LUGAR.

Juiz    – Bem, Dona Maria das Dores, suas informações foram muito importante e deixou tudo muito claro. Diante de tudo que presenciei e do que a senhora relatou nessa sala, posso afirmar que a senhora é inocente e foi usada por aqueles dois malfeitores, que fizeram uso de sua confiança para dar golpes. Vou expedir imediatamente o seu alvará de soltura. A senhora está livre.

Maria – Aff!! Graças a Deus! Posso ir mesmo, senhor juiz?

Juiz – Claro que sim!

Maria – Posso fazer uma ligação?

Juiz – Não se demore!

O JUIZ ARRUMA OS SEUS PAPÉIS E SAI DE CENA. MARIA PEGA O CELULAR.

Maria – ((ENQUANTO SAI) Zé, tudo resolvido! Acabei com aqueles dois safados que queriam passar a perna em nós! Agora é tudo nosso! Pode arrumá as malas que amanhã nos ta é na Suíça! Beijos.

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           – FIM –

Uma resposta para A ACAREAÇÃO

  1. mariel disse:

    Bom, em algum lugar eles não são usados. Adorei os diálogos

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