Golpe Baixo


Amadeu sempre foi considerado um homem honesto, um exemplo entre os seus amigos. Bom pai, bom marido, bom chefe. Há anos trabalhando na mesma empresa, sempre foi considerado um profissional competente. Líder nato, estava sempre disposto a ajudar quando algum colaborador lhe pedisse uma ajuda, ainda que não pudesse, ele sempre buscava encontrar uma solução. Mas a crise pegou Amadeu de jeito. Aquele emprego de anos, já não existe mais e ele passou a figurar como número nas estatísticas de desempregados.

Aquela então, inabalável segurança que sustentava um padrão de vida elevado, ruiu da noite para o dia. Planos de viagens, carro novo, nova casa e todos os sonhos, lhe escaparam por entre seus dedos ali, diante do gerente de recursos humanos que lhe comunicava sua demissão. Sem chão, Amadeu não sabia como contar à família, aliás, não sabia o que faria da vida. A idade avançada e a acomodação pelos anos exercendo as mesmas funções na mesma empresa, por certo o prejudicariam.

Como o que não tem remédio, remediado está, Amadeu, abalado, abriu o jogo para família que o apoiou e o incentivou a procurar uma nova atividade. Quem sabe abrir o próprio negócio? Anos e anos a fio administrando a empresa dos outros, com certeza lhe teriam dado a experiência necessária para encarar um novo desafio. Mas, fazer pesquisas, estudar negócios, ouvir sugestões da família, dos amigos? Não! Amadeu estava muito desnorteado. Buscar outro emprego e depois de tanto tempo dedicado perder tudo quase no fim da vida? Ser empresário e depois ser obrigado a fazer com alguém o que fizeram com ele?

Não! Amadeu não queria nada. Agora o que lhe acalmava era a sensação de liberdade, de passar os dias sem fazer nada, depois de anos de escravidão capitalista. Só que a inércia de Amadeu já comprometia suas economias e ele acaba tomando uma iniciativa inusitada para angariar novos recursos. E como diz o velho ditado: “mente vazia, oficina do diabo”, Amadeu pensou logo em um negócio que lhe desse muito dinheiro em pouco tempo e lhe deixasse curtir a sua nova boa vida de passar os dias sem ter nada para fazer, nem compromissos a cumprir.

Com a certeza dos amadores e muito longe de seu juízo perfeito, Amadeu contratou três homens com a promessa de grandes ganhos e lucro fácil para lhe ajudarem na sua empreitada. Passou a madrugada acordado, planejando, analisando e se convencendo de que estava fazendo o negócio certo. Antes mesmo no dia amanhecer, deu um beijo em sua esposa que ainda dormia, pegou o seu carro e junto com seus três contratados estacionou na frente do banco em que tinha conta. Assim que seu gerente chegou, eles o renderam e adentraram na agência.

Enquanto Amadeu mantinha o seu gerente sobre a mira de um revolver de brinquedo que ele havia pegado no quarto de seu filho, os três contratados enchiam as sacolas de dinheiro. A ação não demorou muito mais do que trinta minutos, mas antes mesmo de Amadeu e seus comparsas deixarem o banco, a polícia já cercava a agência e a imprensa já noticiava o assalto mais amador da história. É, realmente Amadeu não consegui assimilar o que para ele foi o maior golpe baixo que levou da vida e acabou deixando pior ou que já estava ruim.

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