Uma Rosa em meu jardim


Aqueles olhos perdidos no horizonte, azuis como o céu, ainda enfeitavam um rosto enrugado pelo tempo. Mãos trançadas sobre as pernas franzinas, dobradas uma sobre a outra, deixava claro, uma fragilidade de dar dó. Um entre e sai de móveis e equipamentos, e Pedro com seu olhar perdido sentado em uma velha poltrona, parecia não entender todo aquele movimento. No portão aberto, uma placa: “Clínica de Repouso Lar Feliz” ao lado, um cartaz de papel: Aluga-se – Vende-se.

Aquele era o último dia de funcionamento do lar de Pedro nos últimos dez anos. Já não havia mais ninguém por lá, apenas funcionários que terminavam de encaixotar alguns envelopes, enquanto os homens da empresa de mudança terminavam de tirar os últimos móveis. Na mão de Pedro, um envelope amassado que ele manuseava quase que mecanicamente, como quem não tivesse coragem de abri-lo. O que seria de Pedro? Para onde ele iria assim que toda mudança acabasse?

Pedro sempre foi uma pessoa ativa, quando jovem lutou por liberdade e justiça e, por isso, acabou tendo que viver alguns anos na clandestinidade. Abriu mão dos amigos e o pior de tudo, de seu grande amor, aquele com quem ele fazia planos e sonhava formar família, ter uma casinha e viver junto até o fim dos tempos. Mas, o amor não era recipocro. Assim que pode, voltou correndo para o seu amor, mas a encontrou nos braços de outro e com um filho no colo.

Ali a vida deu o primeiro grande golpe em Pedro e ele, então, decidiu que dedicaria sua vida às suas causas e que  nunca mais se envolveria com mulher nenhuma. A dor da solidão do isolamento de anos havia golpeado o coração de Pedro duramente, o petrificando. Ainda sem chão, Pedro refez sua vida e se entregou de corpo e alma a fazer do mundo um lugar melhor para se viver. Nunca mais viu o seu grande amor depois daquele dia.

Solitário e de poucos amigos, Pedro viveu uma vida simples, de poucas alegrias. Não havia com quem compartilhar suas vitórias. Depois da cicatriz, Pedro até se arriscou em novas aventuras amorosas, que realmente nunca passaram de pequenas aventuras. A solidão sempre se mostrou ser a sua grande companheira e, com ela, ele decidiu viver em um clima de grande cumplicidade.

Mas, vem a vida e dá um outro golpe em Pedro. Um derrame lhe deixa grandes sequelas e, se ninguém por perto para lhe aparar nessa hora, Pedro se viu  obrigado a buscar em uma clínica de repouso. Naquele momento, até mesmo a sua companheira solidão não podia lhe ajudar. Ficou alguns anos em silêncio, até que um dia se recuperou, mas preferiu continuar na clínica, não havia na vida, nada mais que ele pudesse buscar.

E agora ele estava ali, olhos perdidos, conversando com a sua solidão, talvez remoendo as idéias atrás de uma solução. Agora já estava velho demais para sair sozinho pelas ruas. A solidão agora lhe pesa. Os últimos móveis já deixavam a casa, apenas a velha poltrona, onde Pedro estava ainda estava no local. A enfermeira chega com ma cadeira de rodas e troca Pedro de lugar. Ele então parece ganhar coragem para abrir o envelope.

Mãos trêmulas, Pedro tirou do envelope uma carta manuscrita e começou a lê-la: “Procurei você por longos anos, desde que mamãe morreu e me contou toda a verdade. Demorou mais te encontrei aí. Você não deve saber de mim. Mamãe guardou esse segredo por toda a vida. Quero muito te conhecer. Sei das tuas lutas e das tuas vitórias. Espero que ainda dê tempo para sermos uma família. Um beijo. Sua filha Rosa”.

Antes mesmo das lágrimas que escorriam pelo rosto de Pedro molharem o papel, uma voz doce chamou pelo seu nome:

– Seu Pedro? Papai, vim te buscar!

Foi a primeira vez depois daquela primeira decepção há anos atrás, que Pedro colocou em seu rosto, um sorriso de Felicidade.

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