Meninos bandidos


Ainda era madrugada quando Estela terminou de preparar o almoço que deixaria para os filhos comerem mais tarde. Separou um pouco de arroz, feijão e do molho do frango ensopado que fez de mistura (só tinham dois pedaços) e para deixar para os meninos sem, ela lambuzou o fundo da marmita e depois jogou o arroz e o feijão por cima. Abaixou e beijou a testa de cada um dos filhos que dormiam no colchão ao lado do seu. Saiu pé ante pé para não fazer barulho e não acordar os filhos.

Todo dia era uma viagem para Estela chegar ao trabalho. Primeiro pegava a van que passava no final da sua rua e chegava ao terminal, onde ela apanhava o ônibus que a levava até a estação do metrô. Depois de seis estações, Estela descia e andava oito quarteirões até chegar ao hospital em que trabalhava com ajudante de serviços gerais. Era uma jornada cansativa para quem acordava as quatro da manhã e chegava em casa só as dez da noite. Mas, Estela fazia isso para e pelos filhos.

Edgar e Edmar, dezessete e dezesseis anos, já não frequentam a escola desde os doze anos, a mãe coitada, nem desconfia, pois eles sempre lhe apresentavam boletins falsos, sempre com boas notas o que ainda a enchia de orgulho. Mal sabia ela da vida bandida dos filhos. Todo mundo nos arredores da casa de Estela tinha medo dos irmãos metralhas, era assim que eles eram conhecidos. Os dois tinham o mal no olhar e por medo o que eles pudessem fazer, Estela nunca soube por vizinhos da vida dos filhos.

Os irmãos acordam as onze da mãe, comiam a comida que a mão passou a madrugada fazendo e partiam para rua praticar seus crimes. Eram assaltos a pequenos comércios, assalto a jovens distraídos. Sempre usando de muita violência, os irmãos praticavam seus delitos, depois pegavam os produtos dos roubos, faziam dinheiro, compravam drogas, sempre muita, e passavam a tarde e noite, cheirando tudo. Quando Estela chegava, os dois já dormiam de tanto cheirarem pó.

Estela, coitada, fazia de tudo para dar uma vida digna para os filhos, mas eles não estavam nem aí para o duro que a mãe dava. Às vezes Edgar e Edmar ainda desdenhavam da vida sofrida e jogavam na cara da mãe que aquilo não era vida para eles. Diziam sempre que seriam poderosos e que teriam muito dinheiro e, que se a mãe quisesse, nem precisaria mais trabalhar. E, Estela, na sua imensa ingenuidade, sonhava: Dr. Edgar, advogado e Dr. Edmar, Médico.

Mas, a vida e suas voltas, reservaram uma surpresa nada agradável para Estela. Como ela fazia diariamente, acordou ainda de madrugada, preparou o almoço dos filhos, arrumou sua marmita, pegou suas conduções e chegou para mais um dia de trabalho. Na hora do seu almoço, esquentou sua marmita e foi comer no refeitório onde uma televisão ligada, mostrava a reportagem de um assalto com refém. Ela fez o sinal da cruz a agradeceu pelos filhos bons.

De repente, Estela passou os olhos na televisão e se deparou com Edgar com uma arma na mãe e Edmar com uma faca no pescoço de uma jovem. Aquilo não podia ser verdade, seus meninos, bandidos? Ela largou a comida e saiu em disparada até o local do assalto. Ela chorava e rezava, tremia e pedia explicação para Deus. Como que seus meninos estudiosos podiam estar naquela televisão fazendo aquela coisa horrível?

Estela chegou desesperada ao local, furou o cerco e gritava sem parar:

– Edgar! Edmar! O que aconteceu com vocês, meus filhos?

Edgar respondeu:

– Nós é bandido!

Estela não acreditou no que ouviu. Aquela confissão desmoronou seu mundo. De repente, um tiro. A polícia invadiu a farmácia. Outro tiro. Estela se ajoelhou e pediu perdão por ter deixado os filhos sozinhos para trabalhar. Só que Estela não tinha culpa dos seus meninos serem bandidos.

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