O que fica é o amor


Sabe uma pessoa que nunca havia passava perrengues com dinheiro? Esse alguém era o Jura. Para Jurandyr, dinheiro era somente o que ele ganhava fazendo bicos para poder sobreviver. Nos dias em que estava com dinheiro, pagava rodada de cerveja pra todo mundo no bar, nos dias que estava sem uma moeda no bolso, vendia o almoço para poder comprar a janta. Assim, Jura se sentia feliz, pois, sua camaradagem sempre o livrava de certas dificuldades.

Sorriso largo sempre no rosto, malemolência no andar e uma simplicidade de viver a vida, essa era a marca registrada de Jura. Nunca se aborrecia quando não tinha dinheiro e, quando a coisa apertava, também não se furtava de executar qualquer trabalho. Para Jura, a vida era muito simples, as pessoas que complicavam tudo, querendo sempre conquistar aquilo que não podiam e não tinham condições. Dizia que era tudo olho grande.

Aquela noite, depois de trabalhar a semana toda como servente de pedreiro enchendo laje, Jura pegou o dinheiro da semana, comprou uma “beca’ nova, encheu os bolsos e saiu para curtir o samba. Cerveja pra todo mundo, como era de costume quando estava com dinheiro no bolso e muita alegria. A noite prometia. E tudo ficou ainda melhor quando ele avistou Nêga Lia. Uma Deusa de Ébano! O coração dele disparou, era a primeira vez que uma nêga lhe tirara do prumo. Tinha certeza que ficaria com ela para sempre.

Cheio de atitude, Jura chegou junto à Nêga Lia e, papo vem, papo vai, rolou. Jura foi correspondido. E os dois acabaram passando uma linda noite de amor. Ali, o malandro Jura, teve a certeza que tinha arriado os quatro pneus pela nêga. Foi o começo da transformação daquela vida simples e descompromis-sada que Jura levava. A partir daquela noite, tudo ganhou outro sentido na vida de Jurandyr, agora, cuidar de Nêga Lia, sua Deusa de Ébano era o seu com-promisso de vida.

A paixão que arrebatou os dois naquela feliz noite de samba mudou realmente Jura, aliás, Jurandyr, que, pela primeira vez na vida arrumou um emprego fixo e deixou o quartinho de pensão para alugar uma casinha e levar a sua Nêga Léa para morar junto com ele. Ainda que ela nunca lhe cobrasse nada, o peso da responsabilidade fez Jurandyr abandonar aquela vida descompromissada que vivia e formar de fato uma família com Nêga Lia. E ele se sentia feliz com isso, ainda mais agora que sua deusa lhe daria uma princesa.

Aquela vida quase irresponsável de antes já não fazia mais sentindo para Jurandyr, e ele sentia que sua família precisava de mais e não se furtou a isso. Buscou um emprego melhor, financiou uma casa maior, adquiriu seu primeiro carro zero e fez pela primeira vez um empréstimo no banco para cobrir as despesas que o seu salário já não dava mais conta. Mas, a falta de habilidade em lidar com dinheiro fez Jura ir se enrolando cada vez mais, até sofrer uma síncope nervosa que quase matou Nêga Lia de susto.

Depois do susto, Jurandyr entendeu que o tal olho gordo que ele tanto criticava nas pessoas podia ser muito bem a falta de habilidade em lidar com dinheiro que, enfim, ele reconhece que tinha também e percebeu que, às vezes, a vida toma outra direção, outras coisas ganham importância, outras ganham outro sentido, outras levam para outras situações, que levam a outra e a outra, que, não significa, necessariamente, que a pessoa teve ou tem olho grande e, sim, que não teve habilidade para transformar sonhos em realidade.

Hoje, Jura está organizando a vida, pagando os empréstimos que contraiu e recuperando a velha forma, pois, depois de tudo que viveu, ele aprendeu e entendeu que o dinheiro não suporta nenhum tipo de desaforo, que não se deve ganhar e gastar tudo na mesma hora, nem muito menos gastar mais do que pode ganhar. Há de se encontrar o equilíbrio entre a simplicidade de levar a vida e aquilo que de fato nos faz feliz.

E para quem pensa que Jurandyr, aliás, Jura, não é feliz como antes, engana-se. Ele e sua Nêga Lia vivem sim, muito felizes, pois, apesar de tudo que viveu na vida, naquela noite de samba, existia mesmo um amor de verdade e que durou uma vida inteira. E já prometeu a Nêga Lia que, assim que as coisas melhorarem e, com o devido planejamento, os dois viajarão em uma nova lua de mel, pois, o amor deles, merece.

Uma resposta para O que fica é o amor

  1. Um conto gostoso de ler. Um tanto moralista e opinativo de um tipo de crença, mas muito bom de se estar

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