A crise de ética e a impunidade


Os gritos vindos das ruas deixam claros que a paciência da população contra a corrupção chegou ao limite do suportável. Ninguém mais aguenta ver e ouvir escândalos de desvios de dinheiro sendo desmentidos. É propina de um lado, desculpas esfarrapas do outro, recursos jurídicos, desfaçatez, descaramento e nada de uma punição concreta. Até presos condenados em outros escândalos, já gozam de liberdade, aumentando ainda mais a sensação de impunidade.

Por outro lado, nunca se viu uma crise de ética tão grande na população, pois a mesma população que saiu às ruas e gritou: “Abaixo a corrupção!” também é capaz de cometer pequenos atos de corrupção ou, até mesmo, de infrações à lei. Quantos ainda bebem e depois dirigem o próprio carro? Quantos roubam o sinal da TV a cabo? Quantos ainda cobram produtos piratas? Quantos, quando se é possível, sonegam informações para o imposto de renda? Quantos não forjam a demissão para receber o seguro desemprego?

Só que cada cidadão tem o discurso pronto na ponta da língua: “A polícia devia colocar todos esses políticos na cadeia, isso sim, pois, são eles quem roubam o nosso dinheiro, e tem mais, se não for dando um jeitinho aqui, um jeitinho ali, não tem condições de se viver, não!”. A incongruência entre o que pensa o cidadão e a forma de como ele age no seu dia a dia, deixa bem claro que é preciso muito mais do que simplesmente acabar com a impunidade.

A cultura de se levar vantagem em tudo, arraigada por anos,  e tão difundida entre a população, acabou criando uma certa elasticidade de caráter no cidadão, ao ponto dele tolerar até certos desvios de comportamento. Basta pegar o exemplo da última novela das nove da Rede Globo: O protagonista enriqueceu através do contrabando de pedras preciosas, tinha dinheiro fora do país, forjou a morte para fugir da prisão e, mesmo assim, houve comoção por sua morte no final.

Se levarmos em conta essa condescendência com o comportamento do personagem da novela e, somarmos os gritos das ruas pedindo punição aos corruptos, vemos uma fotografia bem nítida da incongruência que move a população brasileira nesse momento, pois, ao mesmo tempo em que ela se revolta contra a roubalheira descarada dos políticos, é capaz de praticar pequenos desvios cotidianos com a naturalidade de quem faz tudo dentro da lei.

Realmente estamos vivendo o velho dilema: Estamos mergulhados nessa crise de ética por falta da impunidade? Ou a impunidade acabou gerando uma crise de ética na população? O que ficou claro depois das manifestações é que estamos em uma encruzilhada, pois, como podemos pedir a punição para os políticos e seus comparsas, se não somos capazes de considerar as possíveis punições que estamos expostos pelas práticas dos nossos pequenos desvios?

Acredito que para realizarmos as mudanças que todos ansiamos, temos, necessariamente que rever nossos valores e conceitos e repensar nossa conduta pessoal, pois, só revendo nossos pontos de vistas sobre o certo e errado, é que poderemos ter discernimento para enfrentar certas situações pelas quais somos submetidos em nosso dia a dia e, quem sabe assim, ainda que a justiça insista em colaborar pela permanência da impunidade, possamos criar um novo país.

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