QUEM TEM MEDO DA SOLIDÃO!?


CENÁRIO: PALCO VAZIO.

“Os diálogos não serão falados pelos atores, apenas mostrados em um telão ao fundo do palco como se fosse uma tela de celular. Os atores falarão seus monólogos individuais que não serão mostrados no telão.”

UMA ATRIZ ENTRA EM CENA PELA PLATÉIA TECLANDO EM SEU CELULAR.

Ana    – Clara, já saí do fórum, a gente se vê na balada.

ENTRA UM ATOR TAMBÉM PELA PLATÉIA

Pedro – Ana, to saindo do banco, a gente se vê na balada.

ENTRA UMA ATRIZ POR UMA DAS COXIAS.

Clara  – João, saí do escritório e te encontro lá!.

ENTRA UM ATOR POR UMA DAS COXIAS.

João   – Pedro, não dei aula hoje. Já to saindo.

OS QUATRO SE ENCONTRAM NO PALCO. COMEÇA UMA BALADA E ELES SE COMUNICAM APENAS PELOS CELULARES.

João   – Hoje vou me acabar!!

Pedro – Pega leve, hein João?

Ana    – To adorando!

Clara  – Eu também.

Pedro – Olha aquilo, João!

João   – Ishauishauishau

Ana    – KKKKKK

Clara  – kkk

João   – Adoro essa música!!

Ana    – Se joga, João!!

Clara  – Maravilha!

Pedro – Você ta linda, Ana!

Ana    – Obrigada!

Clara  – O que é aquilo, Ana?

Ana    – Socorro!!

Pedro – KKKKKK

João   – Que foi, Pedro?

Pedro – Essa tua dança…!

Ana    – Liga, não João!

Clara  – rs

João   – Se solta, Pedro!

A MÚSICA É CORTADA. PEDRO SE DESCOLA DO GRUPO. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. FOCO EM PEDRO NO PROSCÊNIO.

Pedro – Às vezes não me entendo

              Me misturo

              Me apuro

              Mas tudo parece escuro

              Tudo é tão vazio

              No meio da multidão

              Falo tanto

              Falo nada

              Só sinto a solidão

A MÚSICA VOLTA. AS MENSAGENS VOLTAM A SER TROCADAS NO TELÃO. PEDRO SE JUNTA AO GRUPO.

Ana    – O q foi, Pedro?

João   – Tá apaixonado!

Clara  – Jura?

Pedro – sqn

João   – Tá sim, Ana!

Clara  – Ai q lindo!

Pedro – Deixa eu dançar!

Ana    – Pedro, S2

João   – kkkkk

JOÃO VAI DANÇAR AO LADO DO PEDRO.

Clara  – Deixa o Pedro, João!

Ana    – Deixa!

João   – Arrasa, Pedro!

Clara  – KKKKKK

Pedro – Larga de mim, João

Clara  – Ishuaishauishau

Ana    – kkkkk

João   – rsrsrsrs

Pedro – Vai colar na Clara, João!

Ana    – João? Na Clara? Sqn!

João   – A Clara sabe qual é a minha!

A MÚSICA É CORTADA. CLARA SE DESCOLA DO GRUPO. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. FOCO EM CLARA NO PROSCÊNIO.

Clara  – O barulho não abafa

              Eu só quero alegria

              A voz que não é ouvida

              O eco da risada

              Diz, mas não fala nada

              A dor da alma

              Não acalma

              E não tira a calma

              Nem esconde a solidão

A MÚSICA VOLTA. AS MENSAGENS VOLTAM A SER TROCADAS NO TELÃO. CLARA SE JUNTA AO GRUPO.

Pedro – O q foi, Clara?

Clara  – Acho q vou embora.

Ana    – Ah, não!

João   – Clara S2.

Pedro – Ainda é cedo!

Clara  – Fiquei baixo astral!

João   – Vc?

Pedro – KKKKK

Clara  – Ih, não posso ficar mal?

Ana    – Vamos dançar, vem!

ANA PUXA CLARA PARA DANÇAR. JOÃO E PEDRO SE JUNTAM À ELAS.

João   – Amo vcs!

Pedro – Idem!

Clara  – S2

Ana    – S2 tb

Pedro – Vc viu o vídeo, João?

João   – Que vídeo?

Clara  – Maior babado!

Ana    – Aquele?

João   – Quero ver.

Clara  – Vou postar.

Ana    – Posta, não, Clara?

Pedro – Posta, sim!

Ana    – Nada a ver!

João   – Do quê que é?

Clara  – Não tem mais aqui.

Pedro – Deixa que o posto.

Ana    – Não faz isso!

João   – Então me fala.

Pedro – Não tenho aqui!

Ana    – É bobeira, João.

Clara  – Sqn

João   – Fiquei na vontade?

Pedro – Depois te passo.

Ana    – KKK

João   – rs

Clara  – kkkkkkkk

Pedro – rsrsrs

A MÚSICA É CORTADA. JOÃO SE DESCOLA DO GRUPO. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. FOCO EM JOÃO NO PROSCÊNIO.

João   – Olhos vêem muito

              Não enxergam o que vê

              O que importa, não basta

              E a vida se gasta

              Tudo de real, escapa

              A gente anda

              Se cansa

              Caminhando cada vez mais só

A MÚSICA VOLTA. AS MENSAGENS VOLTAM A SER TROCADAS NO TELÃO. JOÃO SE JUNTA AO GRUPO.

Clara  – Sumiu, João?

Pedro – Saiu por quê?

Ana    – Pra mim não sumiu.

João   – Minha conexão caiu.

Clara  – Se a minha cai, eu morro!

Pedro – E eu?

Ana    – Eu é que não morro.

João   – Não?

Clara  – Sqn.

Pedro – kkkkkk

Ana    – Verdade!

João   – Ishuaishuaishua

Ana    – Eu que não morro mesmo!

Clara  – S2

João   – Bjs, bjs, bjs…

Pedro – Hoje em dia, todo mundo morre!

Clara  – Eu morro!

João   – Eu também!

Ana    – Mas, eu não!

Pedro – Sqn.

A MÚSICA É CORTADA. ANA SE DESCOLA DO GRUPO. LUZ CAI EM RESITÊNCIA. FOCO EM ANA NO PROSCÊNIO.

Ana    – Me faltam abraços

              Os laços abraçados

              Que me escutem

              E ouçam o meu coração

              Eu falo por medo

              Mas calo segredos

              Ecos de desespero

              Da minha solidão.

A MÚSICA VOLTA. AS MENSAGENS VOLTAM A SEREM TROCADAS NO TELÃO. ANA SE JUNTA AO GRUPO.

Clara  – Que foi, Ana?

Ana    – Eu vou embora.

Pedro – Eu te levo.

João   – Fico deprê?

Ana    – Preciso ir

Clara  – O q foi?

Pedro – Ainda é cedo!

Ana    – Amanhã eu tenho médico.

Clara  – E daí, eu tb!

João   – Nem me fale, aturar mais uma sessão!

Pedro – Vc tb faz terapia?

Ana    – Faço.

João   – E quem não faz?

Clara  – kkkkkk

Pedro – rsrsrs

Ana    – !!!

João   – Ishauishauishau

Clara  – Hoje todo mundo é pirado!

Ana    – Pirada é vc!

João   – Ishauishauishau

Clara  – kkkkk

Pedro – Então deixa acabar essa música.

Ana    – Tudo bem!

Clara  – Ai a gente vai junto!

Pedro – Ta certo.

João   – Então vamos se jogar na pista!

Clara  – Seus lindos S2

Ana    – linda!

Pedro – S2

OS QUATRO DANÇAM COMO SE O MUNDO FOSSE ACABAR. BLACKOUT.

FOCO NOS QUATRO, NO PROSCÊNIO.

Pedro – Às vezes a rotina me sufoca, é muita pressão, horários, compromissos, chefes, problemas, uma angústia… Olho e não vejo ninguém! Acho que não tenho amigos de verdade. Será que alguém tem? Às vezes faço coisas que não queria, coisas que não gosto, só para não ficar sozinho. Às vezes eu tenho medo. Às vezes eu sinto culpa. Às vezes eu me sinto só!

Clara  – Eu me acho alegre. Eu sou alegre! Não tenho dificuldade para lidar com as pessoas, acho que elas é que tem dificuldades de lidar comigo. Sei que tem gente que me acha maluca. E quem não é? Não sou uma pessoa fácil, eu sei disso. É difícil ter muitos amigos em quem confiar, mas eu tenho alguns. E tenho sempre muitas companhias para os momentos de tristeza.

João   – Não me mostro pra todo mundo. Eu tenho um segredo. Eu gosto de meninos, mas tenho medo de me abrir. Tenho medo de que as pessoas façam chorar. Meus poucos amigos sabem. Uns me provocam, eu não ligo! É claro que eu gosto de alegria, gosto de dançar, mas lá no fundo, me sento muito triste. Acho que tenho vergonha. Não tenho coragem. Às vezes fico tão apavorado que… deixa pra lá!

Ana    – Eu me acho bem sucedida, bem resolvida. Apesar dos meus vinte e poucos anos. sei o que quero para minha vida e, por isso, não brinco com os meus sentimentos. Sou eu que vou sofrer. Não abro a minha guarda pra ninguém. Eu até finjo que deixo, mas na hora h, me fecho e não tem que me tire do meu casulo. Na verdade, tenho muito medo de ficar sozinha!…

Pedro – Tem dias que eu gosto de curtir com as meninas, quero curtir com a galera, sair, cair na bebedeira, farrear, ter muita gente comigo… Não, eu não tenho frustrações, pelo menos elas nunca se manifestarem dentro de mim. O problema é que às vezes, deitado na cama, olhando o teto, nas noites que não se tem o quê fazer, passa tanta bobagem pela cabeça que dá até medo.

Clara  – Na verdade eu gosto mesmo é de ficar rodeada de gente, mas, às vezes eu curto ficar sozinha com os meus pensamentos. Parece estranho, mas isso que eu sinto. Me ajuda a organizar as idéias. Gosto do silêncio da solidão, de não dar satisfações pra ninguém. Odeio que fiquem me dizendo o que devo e que não devo fazer. Tem hora que prefiro mesmo a solidão.

João   – Muitas vezes pensei sair de casa, morar sozinho, viver a minha vida, mas gosto no aconchego da casa dos meus pais, gosto do carinho deles. Não tenho motivos pra isso. Já quis falar para eles sobre mim, mas eles dizem que cada um é o que é. Eu fico confuso. Não sei se eles me aceitam, ou se não. Na verdade queria poder fazer confidências. Mas na verdade sou sozinho.

Ana    – Tenho pensado muito na solidão, embora eu acho que não me sinta muito só. Às vezes. Na verdade, me sinto só todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Eu preciso de gente. Falo sempre da boca pra fora. Sofro calada. Eu preciso falar com as pessoas, preciso ouvir elogios, preciso me sentir amada, mas tenho medo de abrir minha intimidade e me machucar.

Pedro – Tenho procurado equilibrar meus pensamentos, meus sentimentos, buscar pessoas, conversar, até gosto de uma pessoa. Gosto mais do que devia, pois ela não me deixa entrar. Me estimula, me atiça, eu finjo que vou, ela finge que quer, mas fico com medo de sofrer. Acho que não. Não sei se o que sinto por ela é amor. Tenho medo que seja apenas um jeito de fugir de uma possível solidão.

Clara  – Eu vejo meus amigos, acho que eles não têm problemas de solidão. Todo mundo sempre animado. A gente sai, se diverte, conversa o dia todo. Eu é que às vezes prefiro ficar no meu canto. Ando pensado demais na solidão. Não sei se isso é bom, ou se isso é mal. Gosto de pessoas, mas tenho namorado muito com a solidão. Às vezes, isso me assusta. Será que estou ficando maluca? Eu e a solidão? Acho que não!

João   – Sei que as pessoas me olham, uns até me acham esquisito. Tem gente que tem medo de se aproximar de mim. Prefiro que fiquem longe mesmo. Não tenho doença contagiosa! Na verdade, acho que a culpa é minha. Tem dia que caio de cabeça, me jogo numa aventura. Sei que não vai dar em nada, mas tem dia que a solidão parece que quer me engolir. Dá vontade de pular do alto de um prédio, de tirar a vida. Tenho medo da solidão!

Ana    – Tem um carinha que quer ficar comigo, eu também quero ficar com ela, mas não sei, eu tenho medo. Acho que a gente se combina. Talvez eu precise me jogar de cabeça, abrir um pouco a minha intimidade, meus sentimentos, contar meus segredos, escutar os segredos dele. Quem sabe não é isso? Não tenho motivos para tanta angústia. A gente se dá bem, somos independentes. Podemos fugir da solidão. Eu tenho medo da solidão!

Pedro – Não sei, mas acho que estou com medo da solidão.

Clara  – Quem não tem medo da solidão? Eu acho eu não!

João   – Eu tenho sentindo tanto medo da solidão!!

LUZ GERAL. OS QUATROS ANDAM PELO PALCO, OLHARES PERDIDOS.

Pedro – Preciso me declarar de verdade para Ana. Eu sei que gosto dela. Se não der certo, vai ter valido à pena. Mas tenho que falar isso olhando nos olhos dela. Pra ela saber que é verdade.

Clara  – Tenho que conversar mais como os meus amigos. Mas conversa e menos festa. Eles são meus amigos. Temos que conversar olho no olho. Ficar mais juntos. Mostrar o que a gente sente de verdade.

João   – Só tem um jeito de fugir da solidão, conseguir abrigo nos braços das pessoas que gostam da gente de verdade. A gente não precisa ficar com medo de mostrar o que a gente sente. Pior que sofrer por se entregar e viver só, fugindo da solidão.

Ana    – Vou falar com o Pedro que eu gosto de dele. Mas ali, olho no olho. Deixar que ele me abrace e sinta o meu coração batendo acelerado. A gente precisa se dar essa chance. Amor pode até fazer sofrer, mas não mata como a solidão.

OS QUATRO SE COMUNICAM PELOS CELULARES.

Pedro – Ana, quero te ver.

Ana    – Preciso falar contigo

Clara  – Pessoal, amo vocês!

João   – Tenho um segredo pra contar.

Pedro – Qual será o segredo, hein?

João   – Amo vc, seu lindo!

Pedro – Ana, me responde.

Ana    – Depois do trabalho, Pedro.

Clara  – Demorô!

João   – Lindos!!

Pedro – Pedro S2 Ana

Clara  – Agora a coisa pega fogo!

Ana    – Para que eu fico tensa!

OS QUATRO SAEM PELOS MESMOS LUGARES QUE ENTRARAM.

Pedro – S2

João   – Faz brigadeiro, Ana!

Clara  – Mas me chama, hein?

Ana    – Vou comer a lata de leite condensado inteira.

Pedro – Ana, te amo!!

Clara  – Ih, Ana, o babado é forte!

João   – Ah, o amor!…

Ana    – kkkkkk

Clara  – KKKK

João   – ishauisahuisahui

Pedro – rsrsrsrs

Ana    – Pedro, S2

APAGAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

– FIM –

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