Flor de lótus


É, é difícil a gente se olhar no espelho a certa altura da nossa vida, viu? Olhar aquela imagem ali, refletida, e não ver mais a beleza que outrora encantava e, que sempre foi o nosso principal atributo, não é tarefa fácil! O tempo é mesmo muito cruel, escancara o quanto a gente se prende a valores tão superficiais e passa a vida idolatrando e endeusando o exterior. E ser a mulher fatal era o meu principal esporte.

Nada me interessava mais na vida do que ser e estar bonita e bela.  A vaidade sempre foi minha grande companheira, e meu esporte preferido; academia, cremes, roupas, sapatos e, assim, graças a minha beleza, fui ganhando vários concursos de beleza, me tornei modelo, saia sempre com alguém famoso; ator, jogador, cantor, adorava me exibir. Ah, como eu me sentia poderosa dentro de um vestido colado sobre um salto alto!

A vida para mim se resumia a manter o meu corpo e minha beleza, pois eram eles que me davam passe livre em festas, em viagens, em jantares e até noites e noites de amor. E como foram tantas! Mas, nunca me envolvi com ninguém, meu interesse com o homem, dependia do quê de benefício ele iria me trazer, afinal de contas, não era qualquer um que podia desfilar por aí de braços dado com a minha beleza!

Mas, o senhor tempo, nos come pelas beiradas e, sem nem a gente dar conta, percebe que precisa de mais e mais dinheiro para manter o mesmo padrão de beleza e continuar sedutora e interessante. Aí é que tudo piora, a gente se vê obrigada a fazer certas coisas que depois, ficam martelando nossa cabeça para sempre. Olha para o lado é percebe que está sozinha, sem amigos, sem amor, sem família, e sem a mesma beleza de antes.

E quanto mais o tempo passa, pior as coisas ficam, sem poder manter a beleza, o tempo faz o seu serviço, os peitos caem, a bunda cai, a musculatura de todo corpo vira uma grande geleia e as rugas se mostram impiedosamente no nosso rosto. A beleza se foi, pena que eu percebi isso um pouco tarde, deixei a vida passar achando que o quê tinha por fora era o meu grande patrimônio. Quanta ilusão!

Mas o tempo, só o tempo nos ensina. É como diz aquele velho ditado, filho: “se a gente não aprende pelo amor, aprende pela dor” Um dia eu quis ser a mais bela rosa no jardim, que ingenuidade a minha! Mas, hoje, me sinto muito bem como flor de lótus.

Agora chega! Isso era tudo o que eu tinha pra falar.

– Enfermeira! Enfermeira! Pode me levar que já cansei dessa bagunça toda.

E assim, aquela senhorinha, falante, lúcida, mas ao mesmo tempo, frágil, de olhar triste, traços marcantes e sem nenhum resquício de vaidade, que encheu minha tarde de histórias, foi levada com a ajuda de uma enfermeira para as alas dos quartos daquele asilo de inválidos, um universo sempre esquecido, mas, com certeza, cheio de outras histórias de vida para serem contadas.

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