DEPOIS DAQUELA CANÇÃO


DEPOIS DAQUELA CANÇÃO

TEXTO ADULTO DE CURTA DURAÇÃO

AUTOR: PAULO SACALDASSY

PERSONAGENS

HEITOR

JULIA

CENÁRIO: UMA CAMA DE CASAL NO CENTRO DO PALCO, DE UM LADO, UMA CÔMODA, E DO OUTRO UM GUARDA-ROUPA. DE UM DOS LADOS, A PORTA DO QUARTO.

AO ABRIR AS CORTINAS, O PALCO ESTÁ ESCURO, APENAS UM FOCO DE LUZ SOBRE O CASAL QUE ESTÁ SENTADO NO CHÃO, AOS PÉS DA CAMA, UM COM AS COSTAS ENCOSTADAS NO OUTRO. ELE VESTE APENAS CUECA E ELA, CALCINHA E SUTIÃ. AOS POUCOS A LUZ VAI ABRINDO ATÉ LUZ GERAL.

Julia               – Acho que a gente exagerou um pouco no vinho!

Heitor             – Só um pouquinho!… Mas, foi bom, não foi?

Julia               – Sabe há quanto tempo a gente não faz isso?

Heitor             – Ah!… Sei lá!… No casamento da tua irmã?

Julia               – É!… No casamento na minha irmã! Sabe quanto tempo faz isso?

Heitor             – Dois anos?

Julia               – Cinco!… Cinco anos!

Heitor             – O tempo tá voando mesmo!

Julia               – Sabe o que isso significa?

Heitor             – Já falei!… O tempo tá voando!

Julia               – Nada disso! Isso significa que as coisas não são mais como antes.

Heitor             – Como não?

Julia               – Se lembra quando a gente se conheceu?

Heitor             – Claro! Timtim por timtim! Lembro até a roupa que você estava?

Julia               – Taí, quero ver!

Heitor             – Você estava de vestido vermelho, sapatos de salto alto…

Julia               – Pára, Heitor!

Heitor             – Não era essa?

Julia               – Claro que não!

Heitor             – E qual era?

Julia               – Calça Jeans e camiseta!

Heitor             – Jura?

Julia               – Claro!

Heitor             – Acho que você tá fazendo confusão por causa do vinho!

Julia               – Não vou nem discutir!

Heitor             – Quer ver como vou te provar que eu tô certo?

Julia               – Duvido!

Heitor             – A gente se conheceu na fila do cinema!

Julia               – Errado!

Heitor             – Como errado?

Julia               – Foi na fila do banco!

Heitor             – Olha aí! Não falei que foi na fila?

Julia               – Tenho saudades daqueles tempos!

Heitor             – Eu também!

Julia               – Se lembra que você me prometeu as estrelas?

Heitor             – Te levei as alturas várias vezes! Você não pegou porque não quis!

Julia               – Sem graça!

Heitor             – Você lembra daquela música?

Julia               – Como eu ia esquecer?

HEITOR LEVANTA-SE, PEGA JULIA E COMEÇA A CANTAR UMA MÚSICA RO-MÂNTICA (A ESCOLHA). OS DOIS DANÇAM AGARRADINHOS PELO PALCO.

Heitor             – Eu me lembro de tudo!

Julia               – Eu também!

Heitor             – Sua boca!…

Julia               – Seus olhos!…

Heitor             – Seu olhar!…

Julia               – Seu beijo!

OS DOIS BEIJAM-SE APAIXONADOS, ENQUANTO VÃO DANÇANDO.

Julia               – Espera, Heitor!… Tô vendo tudo rodar!

Heitor             – Fecha os olhos!

Julia               – Pára, Heitor!

Heitor             – Tá bom!

OS DOIS PARAM. JULIA SENTA-SE NA CAMA.

Julia               – Acho que por hoje chega!… Amanhã vou ter um dia duro!

Heitor             – Esquece amanhã!

Julia               – Não posso!

Heitor             – Só hoje!

Julia               – Agora chega, Heitor!… Tô cansada! Vou deitar!

Heitor             – Só mais um pouquinho!

Julia               – Vem, vamos deitar, vai!

Heitor             – Julia!

Julia               – Fala, Heitor!

Heitor             – Sabe, a Helena?

JULIA SE LEVANTA DA CAMA.

Julia               – Não acredito que você vai terminar nossa noite com essa mulher!

Heitor             – É que tenho uma coisa importante pra falar!

Julia               – Essa mulher é uma fantasma em nossa vida!

Heitor             – Nunca foi um fantasma!

Julia               – Não se faça de mal entendido!

Heitor             – Tudo bem!… Deixa pra lá!

Julia               – Agora que já estragou a noite, fala!

Heitor             – Hoje a gente bebeu demais! É melhor, não!

Julia               – Ela não foi morar fora do país?

Heitor             – Foi! Você não lembra?

Julia               – Como é que eu ia esquecer? Você não deixa, não é mesmo?

Heitor             – Quem escuta pensa que eu falo nela todo dia!

Julia               – É, mas é só beber um pouquinho a mais, que lá vem você e essa Helena! Às vezes acho que você só ficou comigo porque ela foi embora!

Heitor             – Uma coisa não tem nada a ver com a outra!

Julia               – Na certa, quando tava comigo, pensava na outra! Ah, como teria si-do com ela?

Heitor             – Não fala isso! Você sabe que isso não é verdade!

Julia               – Mas, desembucha! O que é que foi com a Helena? Morreu?

Heitor             – Vamos dormir!… Você tem razão, a gente exagerou no vinho!

HEITOR SE DEITA NA CAMA. JULIA ANDA PELA CENA.

Julia               – Eu não acredito! Uma noite maravilhosa dessa, e você tinha que to-car no nome daquela mulher!

Heitor             – Chega, Julia!

Julia               – Diz, Heitor, diz! O que é que tem a Helena?

HEITOR SENTA-SE NA CAMA.

Heitor             – A Helena voltou!

Julia               – E o que é que tem?

Heitor             – Ela me procurou!

Julia               – Que vagabunda!

Heitor             – A gente conversou!

Julia               – Bem que eu estava desconfiada nesta noite especial!

Heitor             – A gente tinha muito que conversar!

Julia               – Deviam ter, mesmo!

Heitor             – Assim vai ficar difícil!

Julia               – Tantos anos longe, não é mesmo?

Heitor             – A gente resolveu…

Julia               – Só espero que você não tenha feito nenhuma besteira!

Heitor             – A gente vai se dar uma chance!

JULIA DESABA SOBRE A CAMA.

Heitor             – Eu tava indeciso, mas… Olha!… Julia!… Eu não queria!…

Julia               – Eu não acredito!

Heitor             – Eu quero que você entenda! Não foi uma coisa pensada!

Julia               – Eu sempre esperei por isso! Sabia que mais cedo ou mais tarde, is-so ia acontecer!

Heitor             – Não era a minha intenção! Juro!

JULIA LEVANTA-SE.

Julia               – Todos esses anos, e você brincando de casinha comigo, não é?

Heitor             – Não!… Eu sempre fiz tudo por você!

Julia               – Eu sei muito bem, o tudo que você fez!

Heitor             – A gente foi feliz!

Julia               – Só se for na fotografia!

Heitor             – Não fala assim!

Julia               – Tudo que abri mão por você!

Heitor             – Eu também tive que fazer isso!

Julia               – As coisas que eu fiz por você!

Heitor             – Eu não pedi nada!

Julia               – Eu fiz por amor! Por amor! Mas, você não sabe o que é isso!

Heitor             – Eu não queria te magoar!

Julia               – Não quero tua piedade!

Heitor             – Amanhã mesmo eu vou embora!

Julia               – Some da minha frente! Não quero ver mais essa sua cara deslava-da!

Heitor             – Não faz assim, Julia! A gente sempre foi amigo!

Julia               – Sabe o que você faz com essa amizade?

Heitor             – Assim você está deixando as coisas mais difíceis!

Julia               – Ah! Você achava que seria tudo fácil? Você chegava e dizia assim: Olha, Julia, sabe da Helena? É, a Helena! Encontrei com ela e a gente resolveu que vai ficar juntos! Aí então, eu virava pra você e dizia: Claro, Heitor! Pode ir com ela, eu não me importo!… Vai à merda, Heitor! Vai à merda!

Heitor             – Eu sabia que não seria fácil, mas você tá complicando ainda mais!

Julia               – Ah! Quer dizer que pra você, um casamento de dez anos acaba as-sim… feito poeira! Você vem e me assopra pra fora da tua vida!

Heitor             – Você sabe que não é nada disso!

Julia               – Olha, Heitor! Melhor você sair desse quarto, senão!…

Heitor             – Senão o quê?

Julia               – Não me obrigue a falar coisas que não quero falar!

Heitor             – Por que você está tornando tudo tão difícil?

Julia               – Quem te falou que eu queria me separar de você?

Heitor             – Não se trata disso!

Julia               – Ah! Esquecí que você quem toma a decisão! Eu só digo:sim senhor!

Heitor             – Não estava nos meus planos!

Julia               – Você nunca esqueceu essa vagabunda! Ficou comigo por conveni-ência!

Heitor             – Isso é mentira!

Julia               – Tinha levado um pé na bunda, e como tinha uma trouxa te dando bola, você foi lá, e eu, caí feito uma patinha!

Heitor             – Eu fui verdadeiro com você! Eu senti cada momento de prazer!

Julia               – Eu sei! Sei tanto, que até acreditei que você jamais teria coragem de fazer o que está fazendo hoje!

Heitor             – Você acha que eu passei a minha vida inteira fazendo planos para o dia que eu fosse me separar de você?

Julia               – Some da minha frente!

Heitor             – Eu devia ter feito isso antes!

Julia               – Eu vou acabar com você!

Heitor             – Você está me fazendo arrepender de cada momento que eu passei com você!

Julia               – Eu já me arrependi disso, faz tempo!

HEITOR ABRE O GUARDA-ROUPA E COMEÇA APANHAR SUAS ROUPAS.

Heitor             – Pensei que pudesse ficar com você essa noite pra que a gente se entendesse!

JULIA VAI ATÉ A CÔMODA, ABRE AS GAVETAS E COMEÇA ATIRAR ROUPAS EM CIMA DE HEITOR. HEITOR SE VESTE.

Julia               – Como você é bonzinho!

Heitor             – Chega de ironia!

Julia               – Ah, o moço não quer ironia?

Heitor             – Não me tire do sério!

Julia               – Por quê? Vai me matar?

Heitor             – Não me obrigue a fazer o que eu não quero!

Julia               – Você pode me obrigar a fazer o que eu não quero, né? Engraçado!

Heitor             – Acho que nesse caso, não é questão de obrigar ninguém a nada!

Julia               – Ah! Tem razão, você apenas fez uma comunicação!

Heitor             – Não achei que seria assim?

Julia               – E é melhor a gente parar por aqui!

Heitor             – É melhor mesmo!

HEITOR COMEÇA A AJEITAR SUAS ROUPAS DENTRO DA MALA. JULIA VAI, DEITA-SE NA CAMA DE COSTAS PARA HEITOR. SILÊNCIO.

Heitor             – Olha, Julia! Não foi por mal!

Julia               – Tá bom, Heitor, já entendi!

Heitor             – Eu preferia que não tivesse sido assim!

Julia               – Tudo bem, Heitor, tudo bem!

Heitor             – Então, eu vou embora!

Julia               – Tchau!

Heitor             – Desculpe, Julia!

Julia               – Espera Heitor!

Heitor             – Fala!

Julia               – Você tem certeza do que está fazendo?

Heitor             – Certeza eu não tenho!

Julia               – Mas, vai fazer assim mesmo?

Heitor             – Só quero que você saiba que não foi nada com você!

Julia               – Pode até ser!

Heitor             – Preciso resolver isso comigo! Aqui dentro!

Julia               – Heitor!

HEITOR ESTÁ PRÓXIMA DA PORTA DO QUARTO.

Heitor             – Fala!

Julia               – Preciso te falar uma coisa!

Heitor             – Pode falar!

Julia               – Eu tenho outra pessoa!

HEITOR SOLTA A MALA NO CHÃO.

Heitor             – O quê?

Julia               – Nós estamos juntos há um ano!

Heitor             – Não acredito!

Julia               – Mas, eu precisava te contar!

JULIA DEITA-SE NA CAMA.

Heitor             – Não pode ser!

Julia               – Quando sair, apaga luz, tá?

Heitor             – Como você pode?

Julia               – É que amanhã tenho um compromisso!

Heitor             – Sua descarada!

Julia               – Vou ser feliz!

Heitor             – Você não podia ter feito isso!

Julia               – Boa sorte com a sua Helena!… Não esquece de apagar a luz, hein?

JULIA VIRA DE COSTAS PARA HEITOR. HEITOR VEM EM DIREÇÃO A CAMA E SACODE JULIA SEM PARAR, QUE NÃO REAGE, APENAS RI.

Heitor             – Por quê você fez isso? Por quê?

BLACK OUT. JÚLIA DÁ GARGALHADAS. AS GARGALHADAS VÃO SUMINDO AOS POUCOS, DANDO LUGAR A GEMIDOS DESESPERADOS. LUZ GERAL. JULIA ESTÁ ESTIRADA NA CAMA COM O TRAVESSEIRO SOBRE O SEU ROSTO. HEITOR PEGA SUA MALA E SAI.

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           – FIM –

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