Pobre torcedor


Mal começou a semana e Teodoro já andava à flor da pele. Aquela seria uma semana decisiva para ele, a semana que finalmente o seu time de coração poderia se sagrar, outra vez, campeão de um campeonato realmente importante. Embora o jogo fosse apenas na quarta-feira, Teodoro não falava de outra coisa, em casa, no trabalho, no boteco, tudo girava em torno da partida, que para ele, era muito especial.

Estava nervoso, suava pelas mãos, ansioso, mal conseguia dormir direito. No trabalho, estava disperso, só queria que quarta-feira chegasse logo, não via à hora de se juntar aos outros torcedores para empurrar seu time para a tão sonhada conquista. Nunca Teodoro havia ficado naquele estado, talvez pelo fato de seu time, há tempos, não chegar tão perto de uma grande conquista, e era só na conquista que Teodoro pensava.

Teodoro não suportava mais tanta gozação dos amigos, as piadas que ouvia sobre o seu time, depois daquele jogo, poderiam ficar todas para trás e Teodoro, então, poderia ir à forra de seus amigos e gozá-los com sua alegria. Embora todos achassem que a chegada no time de Teodoro à final fosse uma grande zebra, ele bradava que seu time não deixaria escapar essa grande oportunidade de ser novamente campeão.

Chegou a quarta-feira e a ansiedade de Teodoro só aumentou, os nervos o deixaram irritado, a tal ponto que já saiu de casa brigando com a mulher, arrumando confusão no ponto de ônibus e batendo boca com os colegas de trabalho. Aquele dia Teodoro não produziu nada. Pediu para o chefe para sair mais cedo dizendo que não estava bem, e realmente ele não estava. Nunca, ninguém tinha visto Teodoro alterar tanto seu comportamento por causa de uma partida de futebol.

Liberado do trabalho, Teodoro partiu direto para o estádio, queria entrar logo e arrumar um bom lugar na arquibancada. Foi o primeiro da fila e, enquanto o portão não abria, esfregava as mãos, fumava um cigarro atrás do outro, entoava cantos de guerras da torcida e gritava sem parar: É campeão! É campeão! Aos poucos a torcida foi chegando e os gritos de Teodoro ficaram ainda mais inflamados. Já no estádio, Teodoro não parava de cantar.

Os times entraram em campo e Teodoro, de tão nervoso e ansioso, não conseguia ficar parado. Pulava, gritava, xingava os adversários, queria que o jogo começasse logo. Assim que o árbitro autorizou o início da partida, Teodoro ficou ainda mais tenso, ficou mudou, estático, passou a roer as unhas e a balbuciar palavras como numa ladainha religiosa. Fazia figa, beijava a medalhinha no peito e torcia como quem pedia um milagre.

O jogo estava realmente muito tenso, o time de Teodoro não fazia uma boa partida, estava acuado, não conseguia sair da defesa, parecia não estar pronto para o desafio de enfrentar o seu adversário. A torcida empurrava, mas Teodoro tinha os olhos grudados no campo, não piscava, não falava com ninguém, às vezes, balançava a cabeça negativamente. O sufoco era grande que o time de Teodoro não resistiu a pressão e sofreu o primeiro gol.

Aquele gol sofrido por seu time foi como um choque em Teodoro, que passou a torcer mais entusiasmado, gritando, cantando, empurrando o seu time, mas o jogo continuava muito difícil. Com pouca criatividade e sem ofensividade, o time de Teodoro era presa fácil para o seu adversário e no fim do primeiro acaba levando mais um gol. Teodoro não assimilou o golpe e se sentou na arquibancada já desiludido a espera do milagre.

Começou o segundo tempo e Teodoro se juntou a torcida empurrando seu time. Ele ainda acreditava que era possível ver seu time campeão outra vez. Mas, o cenário não se alterou, o time de Teodoro continuava acuado, sem criatividade e, plantado na defesa, mostrava que não queria tomar mais gol, parecia que já estava satisfeito com o resultado. Para quem não chegava há tanto tempo a uma final, estar ali já dava a sensação de dever cumprido.

O tempo foi passando e Teodoro foi se desiludindo ainda mais, sentou-se de vez na arquibancada e, assistiu atônito, seu time ser envolvido pelo adversário. E saiu o terceiro e o quarto gol, e, na arquibancada, as lágrimas já escorriam pelo rosto de Teodoro que não acreditava que mais uma vez seu time fosse morrer na praia. Fim de jogo e, enquanto o adversário fazia à festa, Teodoro, com os olhos vermelhos, foi saindo cabisbaixo e a imagem do pobre torcedor de coração partido foi sumindo no meio da noite escura.

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