O vendedor de campas


Vanderlei sempre foi um craque em vendas, não importava em qual ramo que trabalhasse que, em dois tempos se tornava campeão de vendas e ganhava todos os prêmios. Já trabalhou desde vendedor de livros de porta em porta até vendedor de suco de groselha. Mas, nem toda sua habilidade com vendas foi capaz de lhe garantia no seu último emprego, pois, a empresa em que trabalhava não aguentou a crise e abriu falência.

Desiludido, Vanderlei a princípio sentiu o golpe, mas não entregou os pontos, pois sempre foi um excelente vendedor, capaz de vender qualquer tipo de mercadoria. Tinha uma lábia que convencia até o mais cético dos mortais. Saiu em busca de um novo emprego, mas a crise não estava brincadeira e mesmo com toda sua experiência e sua boa conversa de vendedor, Vanderlei não encontrava uma única vaga sequer.

Depois de tanto gastar sola de sapato embaixo de chuva e de sol, surgiu uma oportunidade inusitada para Vanderlei, na verdade, um grande desafio, algo que ele ainda não havia explorado em toda sua extensa carreira de vendedor, ele teria que vender lóculo de um cemitério vertical. Isso mesmo, Vanderlei teria que convencer as pessoas da necessidade de se comprar uma cova no cemitério. A última morada dos mortais.

Assistiu atentamente à palestra de seu supervisor sobre o produto,  como fazer a abordagem e de como oferecer o novo produto, conheceu a sua meta de vendas e sua área de atuação. Pegou sua pasta, colocou os panfletos, folhetos, recibos e planos de venda e saiu para o seu primeiro dia de sua nova aventura de vendedor de campa de cemitério. Chegou à sua área de atuação, entrou na padaria, pediu um café e fez sua primeira sondagem.

Vanderlei, conversador como ele só, saiu logo puxando assunto com dois senhores que estavam tomando uma cerveja encostados no balcão, só banalidades, terminou o café e desceu a rua ao lado da padaria, decidiu que começaria pela última (ou a primeira) casa da rua. Chegou enfrente aquele sobrado com aspecto de abandonado, com árvores grandes, janelas quebradas e sem campainha. Bateu palmas.

Vanderlei esticou o pescoço por cima do muro procurando encontrar alguém quando foi surpreendido por um senhorzinho de sorriso cativante que surgiu de trás da árvore que ficava no centro de um jardim mal cuidado.

– Pois, não?

– Boa tarde! O senhor teria um minutinho?

– Meu filho, eu tenho a eternidade.

– O senhor me permite?

Vanderlei então abriu o velho portão de ferro que rangeu um barulho medonho. Foi convidado pelo senhorzinho a se sentar numa cadeira de ferro enferrujado ao lado do jardim. A cadeira fazia parte de um conjunto de mesas e cadeiras de jardins, todos em avançado estado de deterioração. Vanderlei abriu sua pasta e sacou de dentro todas as tabelas e começa e dissertar sobre o produto.

Com o mesmo sorriso no rosto, o simpático senhorzinho escutava pacientemente a explanação de Vanderlei que, relatava as mil e uma possibilidades para aquisição dessa novidade. Um lóculo em qualquer um dos andares do novo cemitério vertical que será instalada na cidade. Vanderlei falava sem parar e foi surpreendido por uma simpática senhorazinha que chegou lhe trazendo um copo de suco.

– Tome um pouco, meu rapaz! Hoje o dia está quente.

– Puxa vida, muito obrigado! Realmente está muito quente!.

Vanderlei pegou o copo e bebeu o suco de uma vez só. Os simpáticos senhorzinhos se afastaram e cochichavam olhando para o Vanderlei e riam sem parar. Às vezes até gargalhavam e depois voltavam a cochichar. Depois os dois se sentaram junto a Vanderlei.

– Então, vamos fazer a compra?

– Você chegou tarde, meu rapaz!

– Agora não precisamos mais.

– Já passaram por aqui antes? Quem? Mas eu vou descobrir quem atravessou a minha área.

Vanderlei se levantou muito nervoso, pois sempre foi pavio curto e uma coisa que ele não admitia é que atravessassem as suas vendas. Cumprimentou cordialmente os dois senhorzinhos e saiu pisando nos cascos. No portão, os dois senhorzinhos acenavam alegremente para Vanderlei que, antes de pegar o carro parou na padaria para comprar cigarros.

– O que foi, homem? Tá nervoso?

– Essa raça de traíra é fogo!

– Que raça?

– De vendedores. O senhor acredita que fui naquela casinha no final da rua e um outro vendedor já tinha passado por lá pra vender o eu produto?

O dono da padaria arregalou os olhos de espanto, fez o sinal da cruz e disparou.

– Naquela casa não mora ninguém. O casal de velhinhos morreu o mês passado.

– O senhor tem certeza?

– Não pode ser!

– Pode perguntar para todo mundo aqui no bairro.

Vanderlei abriu o maço, tirou um cigarro, acendeu, caminhou até o carro, olhou para o final da rua e viu o casal de senhores acenando para ele, sorridentes. Vanderlei fez o sinal da cruz, entrou no carro e saiu em disparada disposto a pedir as contas desse negócio de se vendedor de campas.

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