João e a Seleção


João é um cidadão comum como tantos outros brasileiros, de temperamento tranquilo, é amigo para qualquer hora. Morador da periferia, João é professor de Ciências nas escolas do Estado e um fanático por futebol. Decidiu que assistiria aos jogos da Copa do Mundo sempre no centro da cidade, no meio da multidão, gosta daquela áurea de felicidade que exala pelos poros de todos quando a seleção está em campo.

E lá foi João, camisa do Brasil, muita animação e confiança na vitória, se juntar com a multidão no centro da cidade para assistir a estréia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Uma cerveja aqui, outra cerveja ali e a empolgação em um instante, tomou conta de João e de todos que gritavam sem parar: Brasil! Brasil! A certeza de que a Seleção faria uma grande partida era a opinião de todos por ali.

Mas, no meio de toda aquela alegria e empolgação, apareceu no telão de alta definição instalado na praça para que as pessoas acompanhassem a partida, a imagem da Presidente do País, e João, não pensou duas vezes, puxou uma enorme vaia, seguida de um coro de xingamentos contra a Presidente, em pouco tempo, todos gritavam palavras de baixo calão contra a representante mor do País. E gritos de: Brasil! Brasil! se misturavam com os xingamentos, no estádio e na praça.

Fim da partida, vitória sofrida do Brasil e João seguiu o caminho de casa feliz, só não esperava a repercussão dos xingamentos à Presidente puxados por ele, na praça. Criou-se uma celeuma diante dos fatos ocorridos no estádio e na praça. João se viu acusado de incitar a multidão, foi taxado de vendido, de fazer parte de uma elite branca imperialista e insatisfeita, mas João é do povo e naquele momento, apenas colocou para fora todo o seu descontentamento.

Aquele momento se tornou um ápice para João descarregar sua ira contra todo seu sofrimento diário, ver o rosto da Presidente do telão, atiçou seu instinto e o fez colocar para fora toda a sua indignação, o desrespeito que ele e seus amigos da periferia sofrem, tendo que pegar três conduções por dia, sem conforto e sem respeito, de não ter direito à saúde, das condições de trabalho, das três escolas que tem de lecionar para poder sobreviver.

João só colocou para fora a injustiça que sofre diariamente, dos impostos que paga na fonte sem direito a reclamar, a raiva de ver tanto dinheiro gasto, quando a sua volta lhe falta tudo, de ver tanta impunidade. Como poderia aqueles xingamentos, ser reflexo apenas de uma elite branca descontente? Será que o povo trabalhador tratado com desrespeito também não pode ficar descontente e desabafar? João só colocou para fora o que certamente muitos trabalhadores, em suas casas, também queriam tirar da garganta.

Depois de tanta repercussão dos xingamentos, João decidiu não mais assistir aos jogos da Seleção Brasileira na praça, no meio da multidão, preferiu ficar em casa, pois ali, em seu território, sem ser acusado de nada, poderia extravasar sua raiva, seu descontentamento, sua sede de justiça, vaiar e xingar a Presidente quantas vezes achasse necessário, até que se sentisse plenamente aliviado para vibrar com a Seleção e gritar feliz: Brasil! Brasil!

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