Cuidado com a Internet


Parecia um ritual, todo dia sempre igual, marido e mulher chegavam do trabalho, faziam um lanche reforçado, cada qual tomava o seu banho e deitava cada qual do seu lado na cama do casal. Computador sobre as pernas, os dois ali, lado a lado, não se falavam. Horas e horas incomunicáveis. Volta e meia uma gargalhada, os dois se entreolhavam, riam e voltavam os olhos para seus computadores.

Ali, um ao lado do outro, como dois desconhecidos, eles trocavam palavras de amor em redes de relacionamento sem que um soubesse do outro. Ele, entusiasmado, trocava palavras com sua amante virtual e a esposa, tal e qual, desnudava suas insatisfações para o garanhão carinhoso, que, volta e meia a fazia suspirar. O marido olhava, mas não retrucava, pois precisa controlar seus impulsos sexuais derivadas de suas conversas quentes com a gata fogosa.

Noite após noite, os dois passavam ali, um ao lado do outro, trocando confidências, trocando elogios, contando segredos, contando meias verdades com seus amantes virtuais, mal tinham tempo para conversar sobre si mesmo. Já não pareciam ser um casal. Estranhos que dormiam na mesma cama e que vez e outra transavam. Talvez devido ao alto grau de excitação que ficam depois das conversas fogosas com seus amantes.

A distância entre os dois parecia um abismo, mesmo os dois estando tão próximos, mas, numa noite, diferente das habituais, eles chegaram apressados do trabalho, não fizeram o lanche noturno e disputaram quase aos tapas, quem tomaria banho primeiro. Os dois tinham enfim marcado um encontro com seus amantes virtuais. Ele usando de sua força, entrou primeiro no banheiro, contudo ela não perdeu tempo, aproveitou para escolher a melhor lingirie.

Os dois, indefectivelmente arrumados, asseados e perfumados, mentiram para cada qual sobre uma importante reunião de negócios. E saíram apressados para o elevador. Outra briga se formou na garagem, pois ele não abriu mão do carro, dizendo que precisava impressionar o cliente a respeito de sua posição. Ela não se fez de rogada, passou a mão no celular e tratou de chamar um táxi, pois seu garanhão carinhoso a esperava.

Ele chegou ao restaurante, solicitou ao maitre a mesa reservada, se sentou de costas para porta. Ela chegou, passou seus olhos em velocidade procurando alguém que tivesse a descrição que lhe fora dada. O maitre se aproximou, ela lhe cochichou algo, ele lhe apontou o homem de costas. Ela respirou fundo, enxugou o suor na testa, tinha em si que podia estar fazendo alguma besteira. Ao chegar atrás do homem, sussurrou em seu ouvido:

– Garanhão carinhoso?
– Gatinha fogosa?

Os dois se arrepiaram dos pés a cabeça ao ouvirem a voz um do outro, ele então se virou e os dois, espantados, repetiram ao mesmo tempo:

– Você?!

Então, ali, paralisados diante daquela situação constrangedora de uma traição mútua, envergonhados, frente a frente, se desenhou entre os dois, o fim de tudo ou um novo começo. Só o tempo responderá. O que ficou é que é preciso ter muito, mas muito cuidado com a internet.

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