Uísques e Caraminholas


Naquela noite ele saiu do escritório a fim de descarregar seu estresse. O dia não tinha sido muito fácil, havia brigado com o chefe e mal sabia se no dia seguinte ainda teria o seu emprego ou não. Já passava das dez da noite quando ele deixou o estacionamento com o seu carro, no rádio, o som nas alturas, tocava muito rock n’ roll para aliviar a sua tensão. Ele olhava pela janela procurando algum lugar aberto em que pudesse tomar uma bebida, pois não queria descarregar toda aquela raiva que sentia, na mulher e nos filhos.

A situação com mulher já estava nada boa, há tempos ela se queixava das atitudes descompassadas que ele sempre tomava. Ele tinha a consciência que era nitroglicerina pura e, no estado em que deixou o escritório, ir direto para casa poderia representar de vez o fim de seu casamento que andava mesmo por um fio. Depois de procurar e não encontrar nada aberto decidiu que voltaria para casa, mas, que procuraria controlar o máximo o seu estado de estresse.

Entrou com o carro na garagem, subiu respirando e contando até dez, pedindo para que todos já estivessem dormindo. Com cuidado, abriu a porta e em silêncio caminhou até o sofá, jogou a pasta e o paletó sobre ele, afrouxou o nó da gravata e resolveu tomar uma dose de uísque antes de se deitar. Ele achava que a bebida lhe acalmava, mas o simples fato de desacelerar o pensamento, já o deixava em um breve equilíbrio. E como entrou bem aquele uísque!

E lá foi a primeira, a segunda, a terceira e madrugada adentro a garrafa foi sendo esvaziada. A certa altura ele já falava sozinho, ria alta, segurava o riso, brigava com ele mesmo para não fazer barulho e já não raciocinava coisa com coisa. Na cabeça, muito uísque e muitas caraminholas. Ele realmente já não estava em seu estado normal e começou a imaginar como seria se ele tivesse uma amante. Pensou primeiro quem seria ela? E especulou:

– Com a vizinha da direita, ou da esquerda? A de baixo, ou a de cima? A secretária, ou a chefe do RH? Na sua cabeça as imagens se misturavam e ele delirava como um adolescente febril.

E ficou ali, fantasiando com cada uma delas. E ria, sussurrava, falava bobagens, se acariciava, se excitava, chegou até a esboçar um strip-tease, mas caiu estatelado no sofá. De repente, começou a ver imagens de sua mulher lhe traído. Ora com o seu chefe, ora com os amigos da pelada de toda semana. E suava frio, se debatia no sofá, mas não tinha voz para gritar. Tentou se levantar outra vez e mais uma vez caiu estatelado no sofá. Começou a se ver sendo apontado na rua.

– Olha lá o corno! Corno! Corno!

Sua cabeça começou a girar e a girar, na mesa, a segunda garrafa de uísque já estava com apenas dois dedos para terminar, e a sua cabeça mal se sustentava sobre seu pescoço, seus olhos, aquela altura, só viam cenas de sua mulher fazendo amor com outro homem. Ele ali, alucinado, sentindo um desespero incontrolável só de imaginar aquela situação.

Esfregou os olhos e quando os abriu se viu num harém, cercado de belas virgens que lhe acariciavam o corpo, lhe davam comida na boca e abriu um malicioso sorriso. Fecho os olhos para curtir ao máximo aquela cena, mas quando os abriu, viu à sua frente, um Sheik barbudo, com uma arma apontada na sua direção. Virou o resto de uísque no copo e bebeu em uma talagada só. Apagou de vez.

Assim ele terminou aquele dia estressante, só de cueca, dormindo no sofá. Na cabeça, depois de muito uísque e inúmeras caraminholas, lhe restava em seu inconsciente, a certeza de que o dia seguinte lhe guardava uma ressaca interminável.

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One Response to Uísques e Caraminholas

  1. Achei que a parte da mulher era verdadeira. Mas pode ter sido uma dose a mais.

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