Sangue, batom e poesia


Ela já não desfrutava mais da beleza da juventude, aqueles lindos cabelos sedosos de antes, já traziam sinais que não suportavam tantas idas e vindas da mesma tintura, o rosto perfeito que encantava já se mostrava cheios de imperfeições, que nem mesmo a excessiva maquiagem era capaz de esconder, o olhar triste se deixava se perder ouvindo aquela música brega, que repetidamente ela colocava para tocar na velha máquina de música.

Sentada solitária em uma mesa escondida no fundo do bar, parecia fugir dos olhares curiosos de homens que circulavam atrás de saciarem seus instintos. No cinzeiro, os cigarros cheios de batom se acumulavam na mesma velocidade que as lágrimas desciam do seu rosto. O copo nunca chegava a se esvaziar e, entre longas goladas e muitos soluços, ela se levantava e se arriscava em dar alguns rodopios pelo salão, já quase vazio.

E no meio dos rodopios costumeiros nas altas madrugadas embriagadas e com a cabeça que rodava mais do que um carrossel, ela, cambaleante, quase nunca conseguia sustentar o corpo e como sempre, terminava as noites solitárias, beijando o chão do lugar e recitando a mesma poesia:

Homem não sente amor

Mulher ama demais

Não importa a nossa dor

Ele quer sempre mais

Se vai ao fim da madrugada

Satisfeito e feliz

E não nos deixa nada

Só a sina de meretriz

Ela sempre dava o mesmo trabalho no final de cada expediente e acabava sendo inevitavelmente enxotada do prostíbulo pelo truculento cafetão e dono do lugar. Ele só a deixava frequentar o local, por pura piedade, pois, quem quereria uma noite de amor com uma velha prostituta?

Quase todos os dias ela era acordada pelas lambidas de um vira-lata e pelos versos recitados por um morador de rua que a protegia da possibilidade de sofrer qualquer abuso ou ato de violência. Não, permitiria ele, que alguém fizesse mal ao seu grande amor. E ele lhe dizia ao pé do ouvido, enquanto ela ainda estava deitada sobre o chão sujo da calçada.

Deixa eu ser teu bem

Seja feliz ao meu lado

Chega de tanto sangrar

A gente não é ninguém

Apenas pobres coitados

Vamos nos amar

Mas, como fazia todos os dias, ela se levantava ainda embriagada, efeito de mais uma madrugada de bebedeira, afastava o seu iminente pretendente com um empurrão e tentava se erguer. Sem sucesso. De joelhos, se colocou de costas para ele, tirou da sua bolsa um velho batom vermelho e com as mãos trêmulas, borrou toda sua boca, na tentativa de realçar a sua já distante beleza.

E naquele dia, justamente naquele dia, numa nova tentativa de se levantar, um desequilíbrio a pôs nos braços de seu protetor e por um momento, ela não reagiu, sentiu o conforto de ser amada de verdade por alguém. Olhos nos olhos durante alguns instantes, uma aproximar de lábios e, subitamente ela se descolou dele e saiu em disparada pela rua.

De repente, uma batida forte. Um grito seco ecoou da calçada.

– Não!

O morador de rua correu desesperadamente por entre os carros que tentavam desviar do corpo daquela mulher, esparramado no chão sobre uma poça de sangue. Não havia mais nada o quê fazer. O velho vira-lata a rodeou e, cabeça baixa, se deitou silenciosamente ao lado do corpo, enquanto ele apanhou o batom vermelho na bolsa que ainda se encontrava pendurado no pescoço da mulher, pintou-lhe os lábios e a beijou, apaixonadamente.

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