O Batuqueiro


Quem conhece uma comunidade de perto, por certo, sabe muito bem do costume de se colocar as cadeiras na porta de casa nas noites quentes e ficar ali sob a luz da lua, proseando e prosear era o passatempo preferido de Seu Dodô, um senhor negro, de rosto bem marcado, mãos calejadas e cabelos brancos feitos flocos de algodão, que, todas as noites, sentando num pequeno banquinho, não se cansava de contar histórias de outros carnavais.

Conversar com o Seu Dodô sempre era uma delícia, de uma memória privilegiada no alto dos seus mais de noventa anos, ele narrava detalhes riquíssimos sobre o que ela chamava de: “os bão tempo do carnaval”

– Naquela época é que se tinha carnaval de verdade, meu fio! Era o que não cansava de repetir Seu Dodô quando terminava de contar uma das tantas histórias que tinha de cor na memória.

E ele realmente podia falar do assunto com propriedade, pois, Seu Dodô, ou melhor, o “Lorde Brigadeiro”, tinha muitos carnavais. Mesmo que, às vezes, as histórias fossem repetidas, nunca eram contadas do mesmo jeito. Por conta da idade avançada, um detalhe aqui e outro ali, sempre acabava deixando as histórias com sabor de novidade.

Adorava quando ele contava do início das escolas de samba, onde o samba no pé e o batuque saído dos instrumentos eram os verdadeiros protagonistas.

– Num é como hoje, não, meu fio! A gente saia batucando e sambando pelas rua e o povo vinha tudo atrás de nós! E a polícia também! Ririririri!!!

E no final de cada história contada, Seu Dodô sempre deixava escapar um riso tímido que aos poucos se transformava numa enorme gargalhada gostosa, que quem estivesse passando, parava para escutar a prosa na hora. E toda a noite era assim, Seu Dodô sentado no velho banquinho e um amontoado de pessoas sentadas em sua volta para se deliciar com as peripécias do velho “Lorde Brigadeiro”. A lembrança das fugas da polícia que não deixava que ele e seus amigos batucassem nas esquinas até alta madrugada sempre o fazia rir.

– O carnaval tá diferente, cada ano que passa, parece que fica pió. Num se toca mais samba, não! Isso é samba só pras nega deles! É uma barulhada que inté dói os ouvido!

O ano passado, a comunidade mal teve carnaval, pois, Seu Dodô morreu bem no Domingo de carnaval, minutos antes de entrar na passarela para desfilar na sua escola do coração, a qual ajudou a fundar há mais de cinquenta anos. Todos os componentes saíram da avenida, direto para o velório do “Lorde Brigadeiro”, como uma procissão, ao som da marcação de velho surdo.

Neste carnaval resolvi passar em frente á casa de Seu Dodô e me bateu um aperto no peito, senti saudades das noites em que ficava ouvindo suas prosas e suas histórias sobre o carnaval e o samba. Cheguei até a ouvir suas largas gargalhadas. O velho batuqueiro deixou saudade em todos, mas a comunidade, este ano, o tornou enredo da escola, da sua escola. Lá de cima, com certeza, o “Lorde Brigadeiro” está bem mais feliz!

É, seu Dodô, o senhor sempre esteve certo! Não se fazem mais carnavais como os de outrora, além do mais, a violência, agora também veste a fantasia e sai às ruas disposta a acabar com a paz de quem quer apenas curtir os dias de folia. Acabaram-se as batalhas de confetes, os corsos, os blocos e as escolas de samba?… bem, essas, o senhor sabe muito bem como ficaram, não é mesmo?

Agora, o que fica, é a sorte de quem, como eu, pode levar para sempre na lembrança, as suas inesquecíveis histórias sobre os velhos carnavais e a sua imensa alegria para falar de samba.

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