NEM TUDO SÃO FLORES


CENÁRIO: UMA DELEGACIA.

EM CENA, O DELEGADO E DONA LEONOR.

Delegado   – Então, Dona Leonor, a senhora vai entregar seus comparsas, ou não?

Da.Leonor  – Eu não sei , doutor, eu não sei!

O DELEGADO BATE NA MESA E SE LEVANTA.

Delegado    – (RESPIRANDO FUNDO) Dona Leonor, a senhora foi presa em flagrante. Como a senhora me diz que não sabe nada? Eu tô tendo a maior paciência do mundo porque a senhora podia ser minha mãe, mas já estou com ela por um fio!

Da.Leonor  – Mas, seu delegado, eu já disse tudo que eu sabia. Eu conhecia a Lorena da internet e aí a gente ficou amigas. Ela era tão carinhosa comigo! Aí, ela me convidou para um chá e eu pensei: Por que não?  Ela foi até a minha casa pra me pegar de carro!

Delegado     – Dona Leonor, Dona Leonor!…

Da.Leonor  – É verdade, seu delegado! O que aconteceu foi que antes da gente tomar o chá, ela pediu que fosse com ela no banco Que mal podia haver nisso? E quando chegamos no banco, ela se encontrou com três amigos lá dentro e quando eu percebi aconteceu o assalto, ela e os amigos saíram correndo e chegou a polícia e me prendeu.

Delegado     – A senhora ainda quer que eu acredita nessa história?

Da.Leonor   – E por que não? O senhor acha que estou mentindo?

MARIA CLARA ENTRA EM CENA.

Maria Clara  – Mamãe! Mamãe! Que a senhora aprontou dessa vez?

Da.Leonor   – Eu não fiz nada, minha filha! Eu só fui tomar um chá com uma amiga!

Delegado      – A senhora participou de um assalto à banco, Dona Leonor!

Maria Clara  – Assalta à banco, mamãe?

Da.Leonor    – Eu já disse que não assaltei banco nenhum.

Delegado     – Vamos fazer o seguinte, Dona Leonor: Vou tomar um café e vou deixar a senhora com a sua filha. Mas, acho bom que quando eu voltar, eu saiba de toda a verdade, entendido?

Da.Leonor    – Mas, eu já falei a verdade, seu delegado!

Maria Clara  – Quer me explicar essa história direito, mamãe?

Delegado       – Converse com sua filha. Eu vou tomar um café e já volto.

O DELEGADO SAI DE CENA.

Maria Clara  – O que aconteceu, mamãe?

Da.Leonor     – Lembrou que tem mãe!

Maria Clara   – Sem drama, mamãe, sem drama!

Da.Leonor     – Só aparece pra me vê quando acontece alguma coisa, né?

Maria Clara  – E nos últimos tempos a senhora tem me dado muitos motivos para aparecer, não é mesmo?

Da.Leonor     – Não sei o que você está falando.

Maria Clara – É melhor deixar pra lá, que hoje a senhora já passou do limite.

Da.Leonor     – Mas, eu não fiz nada! Eu não fiz nada!

Maria Clara   – Então, será que dá pra me explicar?

Da.Leonor      – Só que para de brigar comigo que já tô nervosa!

Maria Clara  – Tudo bem, mamãe! Agora me conta: como a senhora veio parar aqui.

Da.Leonor     – Sabe aquela minha amiga da internet?

Maria Clara   – Amiga da internet? Que amiga?

Da.Leonor    – Eu já te falei! Aquela bonitinha que eu te mostrei aquele dia que você foi lá em casa.

Maria Clara   – Que bonitinha, mamãe?

Da.Leonor     – Você não se lembra que eu te mostrei as fotos daquele passei lá de Águas de Lindóia?

Maria Clara   – Aquele passeio não foi do grupo da melhor idade, mamãe?

Da.Leonor     – Mas eu convidei ela e ela foi comigo.

Mara Clara    – Mamãe, mamãe!

Da.Leonor     – Todo mundo perguntava se ela era minha filha! Como ela era carinhosa comigo! Não me deixou sozinha uma única vez!

Maria Clara   – E como é o nome dessa bonitinha?

Da.Leonor     – O nome dela é Lorena.

Maria Clara   – Mas como a senhora conheceu ela?

Da.Leonor     – Ela pediu pra ser minha amiga na internet e aí eu aceitei.

Maria Clara   – Mamãe, mamãe!

Da.Leonor     – Todo dia ela me mandava uma mensagem bonita!

Maria Clara   – E a senhora não sabe onde ela mora?

Da.Leonor     – Não, não sei!

Maria Clara   – Quantas vezes eu lhe avisei para ter cuidado na internet.

Da.Leonor     – O que é quem tem fazer amigos na internet?

Maria Clara   – O que dá? Dá nisso, ó! A senhora aqui, na delegacia, acusada de um crime!

Da.Leonor      – Mas eu já disse que não fiz nada!

Maria Clara   – Quero ver convencer o delegado disso?

Da.Leonor     – (CHORANDO) Como eu ia saber? Isso é culpa sua!

Maria Clara   – Culpa minha?

Da.Leonor     – Você ás vezes esquece que tem mãe.

Maria Clara   – Ora, mamãe, faça-me um favor!

Da.Leonor     – (ENXUGANDO AS LÁGRIMAS) É verdade!

Maria Clara  – A senhora sabe o sacrifício que tenho que fazer depois que me separei de Otávio! Dou aula em duas escolas e ainda tenho meus três filhos pra cuidar. E sempre quero levar a senhora para ficar com a gente lá em casa, mas a senhora quase nunca vai.

Da.Leonor  – Eu tenho casa, sabia? Tenho minhas coisas! Gosto de conversar com os meus amigos.

Maria Clara   – Amigos como essa Lorena? Tô vendo!

Da.Leonor    – São meus amigos, sim! Quando eu estou triste, eles estão lá pra me alegrar! Quando eu estou me sentindo sozinha, é com eles que desabafo! Quando a depressão ataca, é com eles que me recupero. Eles são meus amigos, sim! Eles gostam mais de mim do que você!

Maria Clara   – Que absurdo, mamãe!

Da.Leonor   – A gente fica velha e os filhos fogem da gente, é isso que acontece!

Maria Clara   – Olha, mamãe, vou fazer de conta que não ouvi nada disso!

Da.Leonor     – Mas é a mais pura verdade! Você só lembra da mãe, quando precisa de dinheiro! Quando quer comprar alguma coisa no cartão! Você nunca fez uma visita sem interesse.

Maria Clara   – Que absurdo, mamãe!

Da.Leonor  – E não quero mais falar com você. Seu delegado! Seu delegado!

Maria Clara   – Acho melhor a senhora se controlar. Olha a pressão!

Da.Leonor     – Seu delegado!

Maria Clara   – Para com isso, mamãe!

Da.Leonor     – Seu delegado! Seu delegado!

MARIA CLARA PEGA DONA LEONOR PELO BRAÇO.

Da.Leonor     – Me solta!

MARIA CLARA LARGA DONA LEONOR.

Maria Clara   – Senta que vou pegar um copo d’água pra senhora.

DONA LEONOR SE SENTA E COMEÇA A CHORAR. MARIA CLARA PEGA UM COPO D’ÁGUA NA MESINHA AO LADO DA MESA DO DELEGADO E DÁ PARA DONA LEONOR.

Maria Clara   – Toma, mamãe! Agora fica calma que a gente vai dar um jeito nisso.

DONA LEONOR, COM AS MÃOS TREMULAS, BEBE A ÁGUA. O DELEGADO ENTRA.

Delegado        – E então, Da.Leonor, vai entregar seus comparsas, ou não!

DONA LEONOR NÃO LEVANTA A CABEÇA, CONTINUA A BEBER A ÁGUA.

Maria Clara   – Seu delegado! O que aconteceu foi que a minha mãe acabou sendo vítima de uma bandida! Ela não teve nada com o assalto.

Delegado        – Só que ela não tem como provar. Tem, Dona Leonor?

Da.Leonor  – No meu facebook! Lá tem todas as mensagens que ela mandou. Tem as fotos… O senhor pode entrar no perfil dela também.

Delegado        – Facebook? Então me mostra.

O DELEGADO FAZ DONA LEONOR SENTAR EM SEU LUGAR E A DEIXA MEXER NO COMPUTADOR QUE ESTÁ SOBRE SUA MESA.

Da.Leonor      – Aqui o senhor vai ver que eu não tenho nada com isso.

Maria Clara     – Vai, mamãe!

Da.Leonor      – Tem alguma coisa errada!

Delegado        – É, dona Leonor! Assim vai ficar difícil!

Maria Clara    – O que foi, mamãe?

Da.Leonor      – É a senha! Não consigo entrar.

Maria Clara    – Calma mamãe, calma!

Delegado        – Vamos lá, Dona Leonor! Devagar!

Da.Leonor     – Não lembro a minha senha!

Maria Clara   – Quer que eu tente?

Da.Leonor     – Tenta, minha filha!

DONA LEONOR SE LEVANTA E MARIA CLARA VAI PARA O SEU LUGAR.

Maria Clara   – E qual a senha, mamãe?

Da.Leonor     – Peraí! É…

Delegado        – É o seu nascimento? Data do casamento?

Maria Clara    – Diz, mamãe!

Da.Leonor      – Tenta… vinte e quatro, onze, setenta e cinco.

Maria Clara    – Pronto! Entrou!

Delegado        – Agora vamos ver se a gente resolve isso de vez.

Da.Leonor      – Agora clica em amigos. Cadê?… Ela sumiu do meu perfil!

Delegado      – É dona Leonor, assim vou ter que indiciar a senhora! Acho bom a senhora chamar um advogado.

Da.Leonor     – Eu não fiz nada. O senhor acha que eu sou bandida?

Delegado     – Eu não acho nada! O que eu acho é o que todo mundo viu. Que a senhora entrou no banco de braços dados com a tal da Lorena e quando já estava dentro do banco, anunciaram o assalto. Eles fugiram e a senhora acabou ficando pra trás.

Da.Leonor      – Por favor, seu delegado! Acredita em mim!

DONA LEONOR SE SENTA E COMEÇA A CHORAR. MARIA CLARA TENTA ACALMÁ-LA.

Maria Clara   – Calma, mamãe! Vou ligar por meu advogado pra ver se ele pode vir aqui.

Delegado      – Vou deixar a senhora à vontade. Faz sua ligação que eu já volto.

O DELEGADO SAI.

Maria Clara   – Eu vou ligar por doutor Heitor, não sei se ele cuida dessas coisas. Ele está cuidando do meu processo de pensão alimentícia contra o Otávio.

MARIA CLARA LIGA.

Maria Clara     – Está ocupado!… Calma, mamãe!

MARIA CLARA PEGA MAIS UM COPO D’ÁGUA PARA DONA LEONOR.

Maria Clara     – Toma a água, mamãe!

DONA LEONOR PEGA O COPO. TEM AS MÃOS TREMULAS.

Da Leonor      – Eu não sabia, minha filha, eu não sabia que ela era bandida. Era tão boazinha!

Maria Clara     – A gente vai dar um jeito nisso.

MARIA CLARA TENTA DE NOVO COM O TELEFONE.

Maria Clara  – Alô!… É do escritório do doutor Heitor?… Ele está?… Não?… Ele volta?… Viajando?… Obrigado… Não, não precisa! Depois eu ligo! Até logo!

MARIA CLARA DESLIGA O TELEFONE.

Maria Clara     – Doutor Heitor está viajando! E agora?

Da. Leonor     – Será que eu vou ficar presa?

Maria Clara    – Não sei mamãe, não sei!

Da.Leonor      – Tenta o Otávio! Ele sempre gostou de mim. Aposto que vem me ajudar.

Maria Clara    – O Otávio? Nem morta! Com aquele ali e só falo na frente do juiz.

Da.Leonor      – É, acho melhor eu me acostumar com a ideia de dormir por aqui.

Maria Clara   – Agora vai fazer chantagem, mamãe? Eu devia lhe internar num asilo.

Da.Leonor      – Nem morta! Faz isso eu te deserdo!… Dá esse telefone que eu falo com ele.

DONA LEONOR PEGA O TELEFONE DA MÃO DE MARIA CLARA. O DELEGADO ENTRA. DONA LEONOR LIGA.

Da.Leonor      – Você não tem jeito mesmo, hein? Telefone sem crédito.

Maria Clara – Mas tinha, a senhora não viu que eu liguei para o meu advogado?

Delegado        – E então? Falou com o advogado?

Maria Clara   – Meu advogado está viajando.

Delegado        – Vou ter que deixar a senhora essa noite aqui, dona Leonor!

Da.Leonor   – Será que eu posso usar o telefone para falar com o meu genro?

Maria Clara    – Ex, mamãe, ex!

Delegado        – Claro que pode!

Da.Leonor     – Por isso que está sozinha, só pensa em você!

Maria Clara   – Não vou discutir com a senhora, mamãe!

Da.Leonor     – Dá licença.

DONA LEONOR PUXA O TELEFONE E FAZ A LIGAÇÃO.

Da.Leonor    – É pra celular, não faz mal?

Delegado       – Não, dona Leonor!

Maria Clara  – A pessoa envelhece e parece que vira criança, só dá trabalho, só dá trabalho!

Da.Leonor     – Está chamando!

Maria Clara   – Ainda vai me fazer passar vergonha com o Otávio!

Da.Leonor   – Alô!… Eduardo? Não, não é o Eduardo, não!… Não é o Otávio que está falando?… Otávio!… Aqui é a Dona Leonor!… O que eu estou fazendo na delegacia? Como você sabe que eu estou na delegacia?… O delegado?… Você quer falar com ele? (ELA TAMPA O FONE) Ele que falar com o senhor?… Espera aí, Otávio, estou passando o telefone pra ele.

DONA LEONOR PASSA O TELEFONE AO DELEGADO.

Delegado        – Pronto!… Doutor Eduardo falando!

Maria Clara     – O que ele falou?

Da.Leonor      – Falou que queria falar com o delegado.

Delegado        – É você Otávio?

Maria Clara     – Como ele sabia?

Da.Leonor      – Não sei!

Delegado        – Não acredito! Você é o ex-genro da Dona Leonor?… É meu amigo, ela se meteu em uma confusão aqui…Entrou no banco de braços dados com uma assaltante… Eu sei, Otávio, mas você tem que entender minha posição… Você se compromete com isso?… Olha lá, hein?… Não devia fazer isso!… Você sabe, né? Vou fazer isso em sua consideração… Então tá certo!… Prepara a carnê e põe a cerveja pra gelar, que mais tarde estou por aí…. Abração!

O DELEGADO DESLIGA O TELEFONE.

Delegado        – É, dona Leonor, a senhora está com sorte!

Maria Clara   – O que meu ex-marido lhe falou.

Da.Leonor     – Ele vai me ajudar?

Delegado        – Ele já ajudou.

Maria Clara   – Vai mandar um advogado?

Delegado        – Olha só, dona…

Maria Clara   – Maria Clara.

Delegado    – Então, dona Maria Clara, espero que a senhora não fique brava comigo.

Maria Clara   – Eu?

Da.Leonor     – O Otávio vai me ajudar mesmo? Tá vendo, Maria Clara?

Delegado      – Sabe o que é, dona Maria Clara, a feliz coincidência é que o Otávio, seu ex-marido, é o marido da minha irmã.

Maria Clara   – (PARA PLATEIA) Ai que ódio! Mamãe, a senhora me paga!

Da.Leonor      – Não fala nada, Maria Clara, não fala nada!

Delegado       – E em consideração á ele, vou liberar a senhora, Dona Leonor. Não devia, mas vou fazer!

Da.Leonor     – Obrigado, doutor, obrigado!

Delegado        – A senhora deve agradecer ao destino e ao seu ex-genro.

Maria Clara   – Que vergonha, mamãe! Com que cara eu vou olhar o Otávio agora?

Da.Leonor      – Com essa sua cara de sempre, ora!

Delegado        – Mas presta atenção, Dona Leonor: Assim que a gente colocar a mão nessa tal de Lorena, quero a senhora para esclarecer esse caso, ouviu?

Maria Clara    – Pode deixar, senhor delegado, eu me encarrego disso.

Da.Leonor      – Eu não preciso. Sei muito bem cuidar da minha vida!

Maria Clara   – Eu vi mamãe, eu vi! Agora vamos pra casa!

MARIA CLARA TENTA SEGURAR DONA LEONOR PELO BRAÇO.

Da.Leonor     – E me larga que eu vou sozinha!

Maria Clara  – E a senhora para com essa mal criação, senão interno mesmo a senhora num asilo!

Da.Leonor     – Até logo, seu delegado!

O DELEGADO CUMPRIMENTA DONA LEONOR E MARIA CLARA.

Delegado       – E vê se agora toma cuidado com essas amizades da internet, hein?

Da.Leonor   – Pode deixar, seu delegado. Prometo que vou tomar mais cuidado.

MARIA CLARA PEGA NOVAMENTE A MÃE PELO BRAÇO.

Da.Leonor      – E eu já falei, me solta que eu sei andar sozinha.

Maria Clara   – Mamãe, mamãe!

AS DUAS VÃO SAINDO DE CENA, DISCUTINDO.

APAGAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

– FIM –

(ESTE TEXTO FOI SELECIONADO NO 2º.MODELO DO PROJETO “DRAMATURGIAS URGENTES” REALIZADO PELO CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL DE SÃO PAULO EM 2012)

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