MEMÓRIAS


Naquele tempo eu ainda era uma criança, minha diversão era a rua. Passava o dia inteiro jogando bola. A mãe ficava louca atrás de mim, não parava de me chamar para almoçar, para tomar banho, mas a bola era a minha maior companheira. Naquele tempo ainda sonhava em ser jogador de futebol, até que levava jeito, só que não estava no meu destino viver da bola.

Mas foi justamente nessa época que a minha vocação pelas letras começava a se mostrar. Escrever poesias era o meu grande passatempo e a única coisa que me afastava da bola. Tudo eu transformava em poesia e, mais tarde, através dos acordes do violão de um amigo, algumas até viraram canções que nunca soaram muito além de minhas fronteiras.

O tempo foi passando e a bola foi ficando cada vez mais para trás, pois aquela altura, a adolescência efervescente já me convidava a escrever mais e mais poemas. O mundo se revelava diante de meus olhos e tudo aquilo que me cercava era assunto para ser passado para o papel. A pobreza, a injustiça, a desigualdade, a indignação, passaram a dividir o espaço com o amor, a esperança, a saudade e a vida ganhava outro sentido.

Aquela altura, como todo adolescente, eu achava que podia mudar o mundo e tudo aquilo que eu escrevia tinha um destino certo: a injustiça social. Não que eu me sentisse injustiçado, muito embora fosse pobre perante alguns colegas, não me lembro de passar grandes dificuldades. Talvez não pudesse ter tudo o que eu queria, mas naquela altura, isso não me incomodava.

E o que já era latente dentro de mim, ganhou mais força no momento em que conheci o Teatro. A própria característica das artes cênicas que impõem uma condição de provocação, aguçou ainda mais as minhas convicções e minhas primeiras aventuras pelo mundo da dramaturgia, deixava clara a minha veia de contestador.

Embora os resquícios da ditadura cobrava vez e outra uma atitude mais enérgica da população, nunca fui de ir à luta, nem às ruas, confesso que até duvidava de algumas manifestações, mas sempre acreditei na força das palavras. Foi nessa época que entendi o poder das palavras e a importância do conhecimento, e de como ele podia ser, como foi, o grande transformador da minha vida.

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One Response to MEMÓRIAS

  1. É uma boa história. Só não esqueça de algo importante: quem escreve não pode correr o risco de ficar só na palavra, hum?

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