NO REINO DOS EMERGENTES, O QUE FALTA É SER GENTE!?


CENÁRIO: UM REINO QUALQUER. NO CENTRO, UM TRONO.

Ao abrir as cortinas, um homem está em cena, ele veste roupas simples e tem uma mala ao seu lado. Entra uma mulher vestida de rainha, ela fala ao celular.

Rainha – Já falei, comigo é assim! Eu gasto mesmo! Eu quero festa! Eu quero tudo pra mim! Eu posso, né nega? Afinal de contas, eu estou no poder. Quem diria que um dia, a Classe Média ia virar rainha, hein?

ELA PARA DE FALAR NO CELULAR.

Rainha – Que mala é essa?

Homem – Eu vou embora.

ELA VOLTA A FALAR NO CELULAR.

Rainha – Depois a gente fala, te com problema por aqui! Depois te conto!

A RAINHA DESLIGA O CELULAR E O GUARDA ENTRE OS SEIOS.

Rainha – Que história é essa de me deixar?

Homem – Não aguento mais!

Rainha – Não aguenta? Quer dizer que a vida comigo é ruim?

Homem – Você acabou comigo!

Rainha – Eu acabei com você?

Homem – Você só que saber de futilidades, coisas materiais…

Rainha – E você, não? Me quis tanto e agora da me desdenhando? Você é um ingrato! Eu te dei um mundo maravilhoso!

Homem – Pra quê?

Rainha – Pra ser feliz! Vai dizer que você não foi feliz pelo menos um pouquinho?

Homem – Mas, você mudou muito.

Rainha – Você também! Você lembra de quando você chegou? Um sujeito com auto estima lá no pé! Eu até pensei comigo: como um troço desse conseguiu chegar no meu reino?

Homem – Você não queria nem me deixar entrar.

Rainha – Eu juro que não queria me render a você! Mas você me conquistou!

Homem – Você não imagina o quanto eu tive que caminhar até chegar até aqui.

Rainha – Imagino sim! Muitos já fizeram esse mesmo caminho.

Homem  – Mas, não posso mais.

Rainha – Por quê?

Homem – O teu poder.

Rainha – O que tem o meu poder?

Homem – Quanto mais o tempo foi passando, mais o poder foi subindo a sua cabeça.

Rainha – Imagina!

Homem – Verdade!

O CELULAR TOCA. A RAINHA O TIRA DOS SEIOS.

Rainha – Quem é? Oi minha amiga! Trouxe minha lembrancinha de Nova York?… Não? Que malvada! E gastou muito?… Não acredito!

O HOMEM PEGA A MALA E COMEÇA A SAIR. A RAINHA INTERROMPE A LIGAÇÃO.

Rainha – Espera!

Homem – Não tenho mais tempo.

Rainha – Só um minuto.

A RAINHA VOLTA A FALAR NO CELULAR.

Rainha – Amiga, preciso desligar, depois quero saber de tudo, hein?… No salão?… Pode ser! Tô precisando mesmo fazer uma escova! Sabe como é, né?  Festas… viagens… tenho que tá sempre linda! Um beijo! Depois te ligo!

A RAINHA DESLIGA O CELULAR E VOLTA A GUARDÁ-LO ENTRE OS SEIOS. O HOMEM JÁ ESTÁ QUASE FORA DE CENA.

Rainha – Volta! Vamos conversar, vai? Não vai embora.

O HOMEM LARGA A MALA E VOLTA.

Homem – Olha só você! Não era isso o que eu queria quando te busquei tanto! Eu sonhei tanto com tudo e agora o que eu vejo? Futilidades, consumismo e uma vida vazia. Você e esse seu poder! Você acha que pode tudo?

Rainha – O que você quer? Eu posso mesmo! Eu posso tudo! Hoje eu quero, vou lá e compro! Tá reclamando do quê? Já esqueceu que o meu poder trouxe pra você?

Homem – Não, não esqueci! E sabe o que eu tenho hoje? Nada! Você se perdeu e está se afogando nessa sede de poder!

A RAINHA SE SENTA NO TRONO.

Rainha – Eu não entendo você! Eu te fiz tanto bem e o que eu recebo em troca? Rancor, ofensas, desaforos. Todo o meu poder é porque eu nunca pude. Você não conhece aquele ditado: pobre que não vê melado, quando come se lambuza? No meu reino, todo mundo se lambuza!

O HOMEM VAI ATÉ A MALA E A TRAZ PRO CENTRO DA CENA. A ABRE E TIRA DE DENTRO UM MONTE DE CONTAS E CARNÊS.

Homem – Olha só isso! Olha só!

JOGA AS CONTAS E OS CARNÊS PELA CENA. A RAINHA SE LEVANTA DO TRONO.

Homem – Isso é o que teu reino me deu. Contas, contas e contas!

Rainha – Contas todo mundo tem! Todo mundo precisa fazer umas comprinhas de vez em quando.

Homem – Mas, aqui, só vale comprar, comprar e comprar. E você o que faz? Faz todo mundo comprar, comprar e comprar ainda mais.

Rainha – E não é bom comprar?

Homem – Só que um reino não se faz só de coisas superficiais. Você não quer saber das pessoas! Neste seu reino, todo mundo perdeu o respeito, se acha dono da verdade, acha que pode tudo, não se importa com ninguém! É cada um por si e resto que se foda!

Rainha – Não é verdade!

Homem – Você criou um reino sem sentimento, onde o que interessa é gastar, ter, ser o melhor, possuir!

Rainha – Como você é ingrato!

Homem – Ingrato, eu?

Rainha – Quando você chegou aqui, todo maltrapilho, com aquela de pobre, mal sabendo falar direito, fui eu que te mostrou o caminho. Tô mentindo?

Homem – Por que eu quis!

Rainha – No meu reino, tem oportunidade pra tudo e para todos e aqui, cada um se lambuza como quer! Você foi se instruir, mas outros querem se divertir, ter, possuir, consumir, e daí, qual o problema?

Homem – O problema é que cada um quer ser melhor do que o outro, e com isso, tudo mundo vai se endividando e você ao invés de ajudar, faz é mais todo mundo gastar, gastar e gastar ainda mais.

Rainha – Olha, meu querido! Você está comendo no prato que comeu! Eu sempre apostei em você, mas se você quer ir, o que eu posso fazer?

Homem – Agora você se faz de coitada! Me leva do inferno ao céu e depois me devolve ao inferno e ainda diz que a culpa é minha?

Rainha – E não é?

Homem – Não!

Rainha – Quer que eu te prove?

Homem – Então prova!

TOCA O CELULAR DA RAINHA. ELA O TIRA DE ENTRE OS SEIOS.

Rainha – (PARA O HOMEM) Um minuto!

Homem – Não sei o que ainda estou fazendo aqui!

Rainha – Quem é?… Da onde?… Lar das crianças desamparadas?…  Posso sim!… Dez! Isso!… Pode mandar passar amanha. Até logo.

A RAINHA DESLIGA O CELULAR E O COLOCA ENTRE OS SEIOS.

Rainha – Onde a gente tava?

Homem – É impressionante!… Fazendo filantropia?…

Rainha – Ajudar faz bem!

Homem – Alivia o remorso, né?

Rainha – Escuta aqui: Aqui não se tem remorso, aqui se busca ser feliz. Se você esqueceu de como se faz pra ser feliz, problema seu! A porta do meu reino está sempre aberta. Tanto para entrar, quanto pra sair.

Homem – Eu vou mesmo!

Rainha – Então vai!

O HOMEM COMEÇA A RECOLHER AS CONTAS E OS CARNÊS ESPALHADOS EM CENA E VAI OS GUARDANDO NA MALA.

Rainha – Uma pena que você esqueceu de ser feliz!

Homem – Uma pena que você esqueceu os valores!

Rainha – Esqueceu que as minhas festa são recompensas do teu trabalho!

Homem – Esqueceu que ser é muito melhor que ter!

Rainha – Nem se lembra mais que te realizei os sonhos!

Homem – Nem se lembra mais o que é solidariedade!

Rainha – Esqueceu que a vida melhorou!

Homem – Esqueceu o que é humildade!

Rainha – Uma pena!

Homem – Uma pena!

O HOMEM FECHA A MALA. A RAINHA SE SENTA NO TRONO. O HOMEM VAI SAINDO.

Rainha – Fica!

Homem – Não posso!

Rainha – Por quê?

Homem – Eu não soube viver com você.

Rainha – Vai ver a culpa é mesmo minha!

Homem – A culpa é minha. Eu já assumi meus erros.

A RAINHA SE LEVANTA, VAI NA DIREÇÃO DO HOMEM E PEGA SUA MALA.

Rainha – Fica? Vem? Eu posso te ajudar.

Homem – Não pode!

Rainha – Deixa de ser orgulhoso.

Homem – Não é orgulho. Abusei de mais de tudo, que não tenho como ficar.

Rainha – Vai pra onde?

Homem – Não sei ainda?

Rainha – Deixa de bobagem! Aqui é o seu lugar.

Homem – Já não tenho mais certeza.

Rainha – Eu sei que viver no meu reino não é uma tarefa simples. São muitas tentações, que muita gente se perde. Mas uma coisa você tem que concordar comigo. Não existe um lugar onde viver seja uma festa, como aqui neste meu reino. Diz que não?

Homem – Claro que não!

Rainha – Esquece essa história.

Homem – Não dá!

Rainha – O que é melhor? Um jantar dançante no reino dos grã-finos ou pagodão aqui no nosso quintal?

Homem – Um pagodão, é claro!

Rainha – Então, tira essa ideia de ir embora da cabeça.   Sábado tem uma feijoada com pagode para comemorar a chegada de mais habitantes aqui no meu reino. Você vai perder?

Homem – Não sei se tenho condições de continuar.

Rainha – Você não gosta daqui?

Homem – Gosto!

Rainha – Então não se fala mais nisso! Leva essa mala pra dentro e vai cuidar da vida que é a Rainha Classe Média que está mandando.

O HOMEM PEGA SUA MALA. A RAINHA SE SENTA NO TRONO.

Homem – Posso lhe fazer um pedido?

Rainha – O que você quiser! Esqueceu que eu sou a Rainha e eu posso tudo?

Homem – Olha a soberba da classe média aí, gente!

Rainha – Quem pode, pode!

Homem – E como eu sei que não posso, só queria lhe fazer um último pedido, posso?

Rainha – Manda aí, o teu pedido!

Homem – Neste reino dos emergentes, o que falta é ser gente! Por quê você não cuida disso?

A RAINHA SE LEVANTA DO TRONO.

Rainha – Aí você está ofendendo. Aqui só tem gente de bem.

Homem – Bem endividada! Bem individualista! Bem cara de pau! Bem sem respeito! Bem cheia de razão! Bem consumista! Bem gorda! Bem metida!

Rainha – Eu não admito esses insultos no meu reino!

Homem – É isso que você faz!

Rainha – Fora do meu reino!

Homem – A verdade dói, né?

Rainha – Não é a verdade! É a ingratidão!

Homem – Ingratidão?

Rainha – Ingratidão, sim!

Homem – A gente não vê a hora de conhecer a Classe Média, mas, quando conhece, se decepciona.

Rainha – Eu não devia ter deixado você entrar!

Homem – Eu que não deveria ter vindo!

Rainha – Vai, vai que eu não te quero aqui!

Homem – Eu vou porque eu quero! Essa vida Classe Média é ilusão!

Rainha – Vai, mas depois não vai chorar pelo que perdeu!

Homem – O que eu tinha de perder, perdi aqui! Adeus, dona classe média!

Rainha – Dona, não! Rainha! Rainha!

O HOMEM PEGA A MALA E SAI DE CENA.

Rainha – É sempre assim, sempre tem alguém que fica insatisfeito! Mas, ninguém tem como negar, que hoje em dia, não tem um pobre que não queira entrar no meu reino.

TOCA O CELULAR DA RAINHA. ELA ATENDE.

Rainha – Alô!… Se eu posso falar? Posso sim!… O que foi?… Nem te conto!… É a ingratidão, nêga, ingratidão!… As pessoas entram no meu reino, se fartam de gastar, depois ainda colocam a culpa em mim… Mas é a vida!… Se eu quero ir pro shopping?… Só se for agora!… A gente se encontra. Tchau!

A RAINHA DESLIGA O TELEFONE E O GUARDA ENTRE OS SEIOS.

Rainha – Bom, agora eu vou as compras, porque agora eu sou classe média e posso tudo!

A RAINHA SAI DE CENA DANÇANDO E CANTANDO UMA MÚSICA POPULAR.

APAGAM-SE AS LUZES E FECHAS AS CORTINAS.

FIM

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2 Responses to NO REINO DOS EMERGENTES, O QUE FALTA É SER GENTE!?

  1. O papo megera ficou mais na boca da rainha. Mas onde tem rainha tem rei, hum?

  2. O papo megera ficou por conta da rainha. Mas onde tem rainha, tem rei, hum?

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