A vida é um presente


Se tinha alguém que não podia reclamar da vida que tinha, esse alguém era Agenor. Ainda que tivesse pouca idade, já era um profissional bem sucedido, morava numa bela e confortável casa, tinha uma mulher maravilhosa e dois filhos saudáveis, lindos e inteligentes, um menino e uma menina. Quem os via, logo pensava na imagem daquela família do comercial de margarina, em que a felicidade exala por todos os poros.

Dinheiro? Não lhe faltava. Saúde? A família tinha para dar e vender, ainda que um ou outro filho tivesse um resfriado vez por outra, coisa de qualquer criança que vive exposta as mudanças climáticas. Tudo o que representava um padrão de estabilidade, Agenor tinha. Ele realmente não tinha do que se queixar. Mas, ainda assim, Agenor invejava a vida das pessoas. Sempre achava que a sua vida tinha muitas dificuldades e que a vida dos outros é que era melhor. 

Mas, por que comparar sua vida com a dos outros se aos olhos de todo mundo era a sua que causava inveja? Mas, ele comparava sua vida com a vida de todos, até mesmo dos amigos que os rodeavam. E de tanto analisar a vida das pessoas que o cercavam, tinha a absoluta certeza de que faltava algo em sua vida. Tinha a certeza que a vida dos outros era muito melhor do que a dele, mesmo porque, ninguém o achava assim tão especial.

Na verdade ele não estava preocupado com nada, ele queria apenas ser o centro das atenções, queria que as pessoas se comovessem com seus pequenos problemas cotidianos. Mas, quem está preocupado em viver a vida, aprende a superar os problemas do cotidiano e segue em frente. Só que isso incomodava demais Agenor. Era só estarem todos reunidos que ele começava a chorar suas mazelas. Vivia um contra senso, tinha tudo, mas queria provar que não tinha nada. 

Certa vez, Agenor saiu para pensar na vida, sentia-se entediado com a vida que vivia. Talvez pelo motivo de não ter  de fato com o quê se preocupar, pois, realmente, não havia nada, absolutamente nada, que demonstrasse que a vida de Agenor não era uma boa vida para se viver. Problemas graves, todos sabiam que ele não tinha. Sua mulher o amava até debaixo d’água. Inimaginável qualquer problema conjugal. Só que Agenor se achava uma pessoa infeliz, ainda assim, achava que merecia mais.

Pensativo, Agenor buscou a praia, na tentativa de encontrar uma saída para movimentar a sua vida que ele achava muito ruim. Queria que todos dessem uma maior importância para ele. O grande problema de Agenor era um enorme complexo de inferioridade. Apesar de tudo que a vida lhe dera de presente, família, trabalho, dinheiro, amigos, tudo isso lhe parecia muito pouco e Agenor queria mais, tinha uma necessidade quase perene de se perceber importante para as pessoas que o cercava. 

Andando pela beirada do mar, nem notou quando a água lhe molhou a barra de sua calça de grife e só parou quando tropeçou em uma garrafa que o mar cuspira na areia. Abaixou e a pegou, curioso. No primeiro momento a achou estranha, embaçada, velha e, num ato quase mecânico, a esfregou com sua camisa, na tentativa de enxergar o que havia dentro. Foi então que de dentro da garrafa, surgiu uma fumaça esquisita, que foi aumentando, aumentando e que inebriou sua visão.

Agenor esfregou seus olhos, esfregou tanto que chegou ao ponto de fazê-los lacrimejarem. Ainda com a vista embaçada, conseguiu ver um sujeito esquisito que se colocou ao seu lado e balbuciou algo que ele não conseguiu entender. Ao ver aquele homem, de cabelos cumpridos amarrados em um rabo de cavalo, peito nu e uma calça estranha, ele esfregou novamente os olhos, mas pode ouvir quando o homem lhe disse: 

– Obrigado por me tirar da garrafa. Agora você é o meu amo e senhor, e tem direito a um pedido.

Agenor cutucou o ouvido, balançou a cabeça negativamente, olhou para trás, mas estava só naquela praia. Sozinho não, estava ele e aquele sujeito que surgiu ao seu lado o chamando de amo e lhe ofertando um único desejo. Agenor pensou que estivesse tendo um surto, não seria possível o que lhe estava acontecendo, mas depois pensou que podia ser a chance de mudar a sua vida tão infeliz. 

Parado em sua frente, o sujeito, com os braços cruzados, esperava que Agenor lhe fizesse o pedido. Agenor examinou, olhou, buscou encontrar alguém e, não vendo ninguém, resolveu aproveitar e apostar na oportunidade de tornar a sua vida diferente e então, travou um diálogo com o sujeito.

– Então eu tenho direito a um pedido?

– Perfeitamente.

– Quer dizer que você é o gênio da garrafa?

– Perfeitamente.

– Eu posso pedir o que quiser?

– Perfeitamente.

– Tudo?

– Perfeitamente.

– Mas, tudo mesmo?

– Perfeitamente. 

Agenor então coçou a cabeça, fechou os olhos, pensou no que havia lhe levado até ali e pediu de supetão:

– Eu quero ser especial, que todos dependam exclusivamente de mim.

– Perfeitamente. 

Depois da resposta, uma espessa fumaça surgiu, Agenor esfregou e esfregou os olhos e quando conseguiu abri-los, não viu mais ninguém. Olhou para todos os lados e não viu nada. Riu do que lhe tinha acontecido, riu como quem ri de algo que não acreditara. Seguiu beira mar, ainda sorrindo do que lhe houvera acontecido, achando aquilo um grande absurdo.

No dia seguinte, enquanto Agenor e sua família feliz repetiam o ritual de todos os dias, em que se reuniam para compartilhar um café da manhã farto e trocavam carinhos verdadeiros um com os outros, a esposa de Agenor se queixou de dores em seu baixo ventre e as crianças se queixaram de dores por todo o corpo, mas, Agenor estava só interessado e contar-lhes o encontro com o tal sujeito misterioso, para qual fez um pedido. 

Aquele seria o primeiro momento da grande reviravolta que a vida de Agenor daria. Ele que recebera uma vida de presente e queixava-se sem motivos aparentes, teve enfim o seu pedido atendido. Soube então o real sentido das palavras que proferiu quando do seu pedido e se viu diante de problemas de fato e não daquelas picuinhas que bradava, reclamando que sua vida não era perfeita.

De uma hora para a outra, Agenor teve que reestruturar a sua vida feliz e normal, mas que ele tanto desdenhava. Sua esposa foi diagnosticada com um câncer de ovário, teve que retirar todos os órgãos e hoje sofre grandes efeitos colaterais com as sessões de quimioterapia. Seus dois filhos tiveram problemas ainda mais sérios, a menina foi acometida por uma meningite viral e sobrevive com ajuda de aparelhos na UTI de um hospital e o menino, vítima de um acidente, ainda aguarda os resultados de exames para saber se ficou ou não paralítico. 

Agenor custou a entender o que lhe aconteceu, até que se lembrou do sujeito que saiu da garrafa na beira do mar e se lembrou do pedido que o fez: “que todos dependessem dele”. Pensou em se matar por ter jogado fora a vida feliz que ele vivia, e se sentiu de fato arrependido do que fez. Só que agora não podia recuar, pois as pessoas que o faziam feliz precisavam realmente dele e ele tinha se tornado de fato, um ser especial para sua família.

Da última vez que se teve notícias do Agenor, ele estava cumprindo sua dura jornada de casa, trabalho e hospital. Estava bem mais velho do que da última vez, a barba para fazer, cabelos cumpridos, olheiras profundas, mas, pela primeira vez, não se ouviu Agenor reclamar de uma vida infeliz, foi até possível enxergar no fundo de seu olhar, o brilho de quem sabe que a vida é um grande presente e que nos permite pequenos momentos de felicidade e não a felicidade plena.

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