Quem quer correr risco?


Aquele lhe parecia ser o seu maior desafio, algo que muitos em sã consciência, nem ousariam cogitar, mas ele estava determinado a correr o risco, a inércia da zona de conforto já não lhe trazia entusiasmo, nem tão pouco o estimulava o suficiente para continuar mantendo acesa a pequena chamada que ainda queimava. Sentia-se um burocrata que passa os dias a bater carimbos em documentos de forma metódica e mecânica.

Mas não pensem vocês que foi assim tão fácil para que ele tomasse a decisão de correr o risco. Muito embora seus anseios fossem outros e nada mais ali lhe parecia fazer sentido, fazendo-lhe parecer um peixe fora d’água, outros pormenores precisavam e necessitavam serem resolvidos e contornados para que o salto fosse arriscado, mas não fosse fatal.

Talvez a tarefa mais difícil após a tomada de decisão. Ponderar prós e contras, optar pelo que seria descartado, o que deveria ser considerado relevante, o que realmente lhe faria de fato muita falta. Haviam sentimentos envolvidos. Como mensurar a sofreguidão de quem ficaria para trás, talvez sem nem mesmo um adeus? A vontade de correr o risco trazia junto algumas implicações.

Ponderou, relutou, pensou, pediu ajuda aos céus, refez, desfez, até que anunciou que não tinha como retardar mais, pois já corria o risco de não mais querer arriscar. O medo sempre assombra nessas horas de indecisão. Mas ele estava determinado, disposto a não desperdiçar aquela que para ele, se mostrava ser a última oportunidade de realmente fazer algo diferente, algo que estivesse ligado com a sua alma, com o seu coração.

Traçou o plano, tentou projetar o que viria mais na frente, como resolveria o presente, como lidaria com o que ficasse para trás, e fez a sua primeira tentativa. Quando parecia que já seria inevitável o salto, algo lhe fez repassar o passo. Não porque achasse que não fosse a hora certa, não se sentiu seguro em se arriscar em um salto que não lhe pareceu ser tão seguro. Correr o risco não se subentende se atirar no escuro.

Depois que refugou, respirou fundo como quem precisasse armazenar todo o ar da atmosfera, fechou os olhos, fez uma última oração e se jogou de corpo e alma naquele que seria o seu mais corajoso salto. Deixou para trás uma vida duramente construída para apostar em algo que até então, ainda se mostrava inatingível. Mas ele foi, determinado e certo de que teria feito a escolha certa, mesmo sem saber direito se tudo daria certo.

Depois do salto, turbulento e com muitas dificuldades, pois nem tudo se desprendeu de suas amarras e muita coisa ainda se mantém presa sobre ele, sem que ele consiga se desvencilhar do peso extra, ele parece ter se recuperado do susto. Agora, ele vem tentando se deixar levar ao sabor do vento, pois maior do que correr o risco de um salto às escuras, é não encontrar o local certo para um pouso seguro.

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