Os pés descalços


Lá se foi o tempo de infância difícil, dos pés descalços correndo atrás de uma velha bola, da vida simples, vivida em casa simples, em que a comida sempre mirrada era dividida em partes iguais para que todos sentissem a mesma fome. A pobreza fazia companhia, mas a dignidade de uma vida honesta era quem dava o tom e marcava o passo, mostrando o caminho de que, apesar de tudo, só havia uma direção.

E assim, regado a esses ensinamentos, Amadeu cresceu, aprendeu que mesmo com uma situação desfavorável, trabalho, dignidade, honestidade e as amizades, sempre seriam os patamares para um verdadeiro cidadão. Em tempos difíceis se aprende que mesquinharias não são boas companheiras e só fazem piorar o que já é tão ruim. E até hoje Amadeu é o mesmo daqueles tempos desesperançados.

Daquele tempo, Amadeu preserva os melhores amigos, aqueles que ele jamais perdeu de vista e que hoje compartilham ao seu lado os tempos de bonança. Já aqueles que a vida, por um motivo ou por outro, os separou, ele jamais se esquece de recordar. E tem um em especial: o Nono. Assim é como ele chamava Antenor, o seu grande parceiro daqueles tempos difíceis e pelo qual ele mais sente saudade.

Não que o Nono tivesse morrido, algo tão comum a muitos dos velhos amigos daquela época, que acabaram por enveredarem por um mundo ilusório de vitórias instantâneas, e que cobrava um preço muito alto a quem esperava por benefícios imediatos, quase sempre com a vida. Nono ficou rico e se esqueceu de onde veio e, até hoje, não faz questão nenhuma de rever os companheiros daquelas noites frias de barrigas vazias. 

Nono é um empresário bem sucedido, se formou engenheiro e hoje é um dos sócios de uma das mais importantes construtoras do país. Frequenta as altas rodas da sociedade e está presente quase que semanalmente nas colunas sociais do jornal da cidade. Nas festas regadas a vinho, champanhe e uísque na sua cinematográfica cobertura, os amigos daqueles tempos idos, jamais foram convidados.

Amadeu também virou um empresário de sucesso, possui uma rede de pequenos mercados que abastecem as periferias da região e mora numa confortável casa com piscina, onde faz questão, de todos os domingos, receber os amigos de sempre, para comerem churrasco, tomarem cerveja e jogarem conversa fora. Talvez Amadeu seja mais popular que Nono, mas os holofotes da alta sociedade seduziram Nono de tal forma, que não seria mais possível uma convivência entre os dois, muito embora Amadeu ainda ache isso bem provável.

E como a roda da vida é feita de surpresas, nesse sobe e desce, Amadeu sofreu um grande golpe, perdeu seu filho mais velho em um acidente automobilístico. As estruturas de Amadeu balançaram de tal forma que, se não fossem os velhos amigos, ele não suportaria tanta dor. Mas até mesmo no meio de tanto sofrimento ele ainda se lembrou do amigo e lamentou por Nono não ter ido lhe dar um abraço.

Os velhos amigos, companheiros de sempre, retrucavam com Amadeu por ele tanto se importar com o ingrato de Nono, mas ele não mal dizia do amigo, apenas lamentava pelo rumo que Nono deu a sua vida. Enquanto os outros clamavam para que Amadeu se esquecesse de Nono, Amadeu lhes dizia não poder se esquecer do seu amigo, pois sabia que um dia a vida os aproximaria outra vez.

E Amadeu estava certo, em mais uma das voltas que a vida dá, a vida golpeou alguém, e dessa vez foi Nono quem sofreu o revés. Um golpe não tão cortante quanto o que sofreu Amadeu, pois não há dor maior do que a perda de um filho, mas para Nono, foi um golpe devastador. Nono ficou sem chão, viu sua mulher lhe trair com o seu sócio e descobriu que seus amigos nunca foram seus amigos.

O mundo de Nono ruiu como um prédio mal construído e, o engenheiro, se viu completamente abandonado. A vida que construiu com dinheiro e conveniências era tão frágil que não resistiu a tão grande impacto. Nono sentiu sangrar na carne a dor de optar pela arrogância, a ganância e a soberba conquistadas pelo dinheiro e posição que possuía e que de nada lhe valeu. Então se lembrou daqueles tempos difíceis e do amigo Amadeu.

Amadeu já sabia de todo acontecido com Nono, pois a imprensa fez questão de levar a público, toda a lama social em que Nono estava envolvido e estava pronto para receber o velho amigo de braços abertos. Mas Nono ainda era orgulhoso demais, não podia admitir tamanha derrota, principalmente aos amigos de infância. A imagem de homem vencedor, construída ao logo da vida, precisava ser preservada.

Mas, como só o tempo é capaz de colocar a vida no lugar, Nono pôde sentir outra vez a energia que emana da terra quando colocou em contato os seus pés descalços com o chão. E isso só foi possível porque Amadeu, na sua imensa humildade, procurou Nono e lhe estendeu a mão. Nono percebeu o quanto os ensinamentos que aprendeu quando criança são os patamares de qualquer cidadão e redescobriu o valor de uma verdadeira amizade.

Agora, todos os domingos, quem cuida da churrasqueira na casa de Amadeu é Nono, que refeito do duro golpe que levou está recomeçando sua vida, ao lado de Isadora, a mesma Isadora que há tempos atrás ele trocou pela filha de um magnata, buscando ascender mais rápido o caminho do dinheiro e do poder. E entre um brinde e outro, Amadeu agora sorri por completo.

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