A poesia não é mais aquela, olha a cara dela!


Num tempo não muito distante, nada era tão ou mais excitante quanto ela. Não importava como ou de que jeito ela vinha, em versos de quatro linhas, ou numa folha escrita a mão, enfeitada com desenhos de coração. Ás vezes ela vinha em forma de canção, travestida de um romantismo sem igual, declarando aos quatro ventos o amor que se tinha medo de confessar.

O amor sempre foi o seu assunto preferido e não havia amor perdido ou esquecido que não se rendesse aos seus versos. E quantos corações palpitaram acelerados ao recebê-las de forma secreta? Meninas suspiravam quando as recebiam, enquanto os meninos fingiam que nada tinham escrito, mas estava descrito em cada linha o que se tentava em vão esconder.

Ah, aqueles versos de poucas estrofes, aqueles sonetos… Hoje quem sofre, não quer mais ter a sua companhia para consolar as noites vazias dos corações solitários cheios de amores platônicos. Dizem que ela ficou careta, que está fora de moda e que mostrar fragilidade nos dias de hoje não faz mais nenhum sentido e, por isso, muitos dizem não precisar assim tanto dela?

É… Os amores de hoje em dia estão diferentes, não se dança de rosto colado, aliás, não se dança. O tempo é de ficar só por uma noite, baladas e bebedeiras. Algumas mulheres já acham até besteira um homem romântico. Elas até sonham com o príncipe encantado entre suas quatro paredes, mas só! Assim, qual o homem teria coragem de enviar em poucos versos ao seu amor secreto?

A poesia não é mais aquela, olha a cara dela! Vermelha de vergonha, pálida de susto, anda escondida em contra capas de cadernos de jovens adolescentes que sonham com o primeiro amor, mas, que as esconde ao primeiro aproximar de qualquer amiga que seja, arranca-lhe do caderno e a despeja no primeiro lixo encontrado. Poesia, quem ainda te quer?

Estais perdendo mesmo espaço nesses tempos modernos e no compasso que o mundo anda, tu, que outrora permeava o romantismo natural dos que são apaixonados, cairá de vez no esquecimento e o sentimento que o coração quer tanto colocar para fora, a partir de agora ficará sem voz e só nos restará a dor de sofrer por não ter para quem te enviar-te.

Ah… A poesia não é mais aquela, mas ainda está viva no coração dos poetas, que, volta e meia, os seus versos empresta, àquele que não tem a coragem de escrevê-la, não tem a coragem de lê-la, nem tem a coragem de dizê-la. E a cara dela, ainda é aquela que mais lhe couber, pode ser a cara do amor, da dor, da flor, do beijo, do desejo, da alma, da calma, do medo, do segredo, do sonho, da alegria, da vida, é assim a cara da poesia.

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One Response to A poesia não é mais aquela, olha a cara dela!

  1. Maria Lucia Baptista disse:

    Como sempre um ótimo texto, nos mostrando que a poesia esqueceu que é feita de sentimentos do mais puro amor, em todos os sentidos…..

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