Depois do carnaval


A cidade, como sempre, estava tomada de gente e tinha gente de todos os lugares, inglês, francês, alemão, italiano, americano, dinamarquês, norueguês, até finlandês apareceu para curtir o carnaval na cidade. É sempre assim, todos os anos, uma multidão invade a cidade para se esbaldar durante os quatro dias do carnaval. Mas não pensem que o povo da cidade não gosta! Eles esperam o ano inteiro por esses quatro dias. Principalmente Berenice.

Berenice desce pelas ladeiras do morro com o seu requebrado de deixar os branquelos do velho continente, enrubescidos de tamanho calor, com a malemolência das cadeiras da negra vestida de plumas e purpurinas.

– Faz bonito hoje, hein Berenice? É o gritou que se ouve sair de uma das janelas dos barracos que se escoram pelo morro acima e pelo morra abaixo. Berenice só fez um aceno com a mão e, prossegue com o seu requebrado, até chegar ao pé do morro, onde o bloco carnavalesco já batuca seus primeiros acordes e ela é aguarda com ansiedade.

Ali, na frente daquela massa, ao som dos tambores daquela bateria, Berenice é a Rainha, a dona do asfalto, a dona da cidade, a que comanda as ações, a que disparas os corações dos homens desavisados, dos branquelos do velho continente. A negritude exalando sensualidade e samba no pé, contagia até que não gosta de carnaval.  Com um sorriso largo e dentes a mostra, Berenice é a imagem da felicidade.

Todos respeitam a Berenice e a aplaudem a cada requebrado, a cada rebolado, e nem se importam com a sua cor, com o seu cabelo, com o seu sorriso. Berenice é o carnaval e todos sempre se apaixonam por ela.

E por onde o bloco passa, a multidão vai aumentando o cordão e a Berenice ganhando, mais e mais admiradores. Não demora muito e os ingleses, os franceses, os italianos, os americanos, os dinamarqueses, os noruegueses e até o finlandês, torcem os pés desordenadamente, tentando acompanhar o ritmo alucinado de Berenice.

Ali, diante daquele povo, na frente daquela bateria, aos aplausos e o som dos sambas, Berenice desfile de cabeça erguida, tem dignidade, sabe da sua importância e se realiza. Ali, sua beleza encanta, seus cabelos são belos, seu corpo, sua cor, é a representação de um povo, é o retrato fiel de uma cultura, de um país. Todos tem orgulho de Berenice.

Mas, sempre chega quarta-feira, os tambores se silenciam, os branquelos voltam para o velho continente, o samba para, a festa acaba, Berenice agora desce as ladeiras do morro sem ser notada, possui o mesmo requebrado, exala a mesma sensualidade, mas não é mais a Rainha. Na rua, ninguém a conhece, não tem aplausos, não tem respeito, não tem dignidade, ninguém mais tem orgulho de BereniceEla é apenas uma negra, mais uma entre tantas, que tomam ônibus lotados, que dão um duro danado para sobreviver e que sente na pele negra, a verdade que os dias de carnaval, escondem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: