Ensaiando para morte


Dona Clotilde era uma daquelas velhinhas que todo mundo admira. Não tinha quem não gostasse dela. Nunca reclamava de nada, aliás, brigava com quem chegasse ao seu lado de mau humor. Simpática, extrovertida, de bem com a vida, estava sempre contando uma piada aqui, ou um caso engraçado ali. Só o que ela mais gostava de fazer, era de ficar ensaiando para morte.

Coitado do filho Luis Alfredo, vivia de sobressaltos com as brincadeiras que sua mão lhe aprontava. Pelo menos uma vez por semana tinha um ensaio realizado por Dona Clotilde. Outro dia ele simulou um ataque do coração, deixando todos da vizinhança em polvorosa e quando a ambulância entrou a toda pela rua com a sirene a mil, se colocou de pé, dizendo à todos que estava apenas ensaian-do a sua morte. A rua toda quase lhe matou de verdade.

Mas, era isso que fazia Dona Clotilde feliz. Cada nova brincadeira que ela aprontava, parecia lhe dar mais anos de vida. E como ela se divertia. Outro dia, estava em frente a mercearia, conversando alegremente, quando o menino que  entrega a água chegou com a moto. Ninguém viu nada, só se ouviu o grito de Dona Clotilde vindo do chão.

Alguém gritou: – A moto pegou a Dona Clotilde!

Dona Clotilde ali no chão, imóvel. Logo se formou uma enorme roda em sua volta. Um pedia para ninguém mexer, outro pedia para chamar o resgate. Atô-nito com a situação, o menino, sentado sobre a sua moto só dizia que não havia feito nada.

De repente Dona Clotilde começou a se mexer, a roda se abriu, e aos poucos um riso foi se transformando em uma enorme gargalhada, deixando todo mundo contrariado. Dona Clotilde se levantou com a cara mais lavada do mundo e disse:

-Esse ensaio ficou bom. Morrer atropelada deve ser mesmo emocionante!

Uns riram, mas a maioria não gostou nada daquela brincadeira, principalmente o menino da moto, que quase foi linchado pela população. Pronto, era mais um caso para Dona Clotilde contar nas rodas de amigos.

Mas um dia ela passou de todos os limites. Luis Alfredo quase lhe internou em uma clínica, pois achava que a ela tinha enlouquecido de vez. Estava ele no meio de uma reunião quando foi avisado que sua mãe havia falecido. Saiu voando, queimando todos os sinais vermelhos e todos os radares que encontrava pelo caminho.

Chegou em casa, abriu a porta e levou um baque. No meio da sala, um caixão e sua mãe dentro. Ele chegou perto, a sacudiu, e nada. Ele olhava e custava acreditar. Fazia carinhos no rosto da mãe, a sacudia, e nada. Ela vestia seu melhor vestido, estava maquiada como sempre. Só os algodões nas narinas causavam má impressão. Ao lado do caixão, várias de suas amigas choravam.

Não podia ser mais uma das brincadeiras de sua mãe, pensou Luis Alfredo. De repente, uma enorme gargalhada encheu a sala. Dona Clotilde, sentada no cai-xão, tirava os algodões das narinas e repetia:

-Excelente! Excelente!

Luis Alfredo perdeu a paciência, expulsou todos de casas e jurou ficar sem falar com sua mãe por uns longos tempos, até que ela parasse com essa mania de ficar brincando de morrer. Dona Clotilde retrucou com o filho, o chamou de mal-humorado e se trancou em seu quarto.

No dia seguinte, uma fina chuva caiu, o dia ficou bem mais cinzento que o habitual. Luis Alfredo, ainda zangado, saiu sem nem falar com a mãe. O pior é que nem teve tempo de se despedir, ou de perdoar as brincadeiras que a mãe fazia, pois de tanto ensaiar a morte, Dona Clotilde nos deixou em plena noite de sono.

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