A passividade artística adquirida


Está decretado desde sei lá quando, que os artistas ficarão passivos diante de qualquer situação. Não caberá mais ao artista, ser a voz de protesto, a voz da indignação, a voz da discórdia, a voz da provocação. Não será permitido ao artista, que ele mostre ao povo o que acontece nos porões do poder, que ele fale em escândalos, corrupções ou favorecimentos. A arte deve ser entretenimento, e só!

Está decretado desde sei lá quando, que os artistas só poderão usar o humor como forma de manifestação, e mesmo assim, com certas ressalvas. Não caberá mais ao artista, simular, mesmo que de forma humorística, falcatruas, negociatas, dinheiros em meias, cuecas, sutiãs e demais peças íntimas femininas e masculinas. A arte tem de falar de arte, e só!

Está decretada desde sei lá quando, que os artistas não poderão mais ter idéias sobre qualquer assunto ligado aos porões do poder. Não será permitido ao artista, músicas de protestos, músicas que incitem a população e que denigram a ilibada e imaculada figura dos homens e mulheres públicos deste país. Música, apenas jingles de campanhas, e só!

Está decretada desde sei lá quando, que a passividade dos artistas ora instituída, se tornará condição fundamental para se militar nas áreas da cultura. Só caberá ao artista, sob pena de grave censura e demais penalidades, contar histórias de amor sem cunho político, histórias de humor sem cunho político, qualquer história que for, mas sem nenhum cunho político.

Está decretada desde sei lá quando, que os artistas, sejam eles da literatura, da pintura, da música, da dança, das artes visuais, só poderão falar do abstrato, pintar o abstrato, cantar o abstrato, dançar o abstrato, filmar o abstrato. Ao artista está vedado o uso de sua criatividade, de sua ousadia, o seu protesto, a sua provocação. O artista passivo é melhor para todas as artes.

Está decretada desde sei lá quando, que os artistas perderam a força, talvez por receio de represálias, ou realmente pela passividade artística adquirida, diante de tantos absurdos, ou ainda pelo simples desânimo de ver que nada parece ter solução. Não parece mais, pelo menos aos olhos do artista, usar a arte como um instrumento de informação à população, nem ser a voz que ecoa e ressoa a angústia por tanta impunidade. O artista já não mais contesta.

A passividade que outrora se restringia apenas à população, descrente por um país melhor, parece ter contaminado de vez todos os artistas, seja lá a forma pela qual esse artista se manifesta. Pois a arte está calada em meio a tantos e tantos e outros tantos escândalos, demonstrações de impunidades, de atos ilegais, de falta de ética e de lisura e honestidade.

Que o artista quebre essa passividade e volte a fazer da arte, a voz da indignação, a voz da discórdia, a voz da provocação. Que o artista escancare, desmascare e demonstre à população, que a passividade é arma dos desonestos e dos aproveitadores. Enfim, que o artista volte a ser o que sempre foi.

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